Roberto Santana mimava Kayra Lima havia mais de vinte anos. Ela sempre acreditou que, no fim, os dois ficariam juntos, que se casariam, teriam filhos e viveriam aquela história de amor eterno que só ela parecia enxergar. Por isso, nada poderia tê-la preparado para o golpe que veio numa tarde qualquer, quando Roberto apareceu ao seu lado com outra mulher e, com um sorriso que ela jamais esqueceria, disse: — Kayrinha... Essa aqui é sua cunhada.
Ler maisO tempo é, de fato, o melhor remédio.No Natal, um ano depois, Roberto finalmente criou coragem para voltar à casa onde Kayra havia vivido, a primeira vez desde o desaparecimento dela.Apesar do tempo que passou, o interior da casa estava impecavelmente limpo, graças às ordens expressas dele: ninguém podia tocar em nada, ninguém podia mover sequer um objeto de lugar. Cada canto permanecia do jeito que Kayra deixou, como se ela tivesse saído dali apenas por alguns minutos.Naquele dia, Roberto dispensou os funcionários que costumavam cuidar da limpeza. Ele mesmo queria arrumar o espaço, como se, de alguma maneira, isso o aproximasse dela. Pegou os materiais e, em silêncio, começou a limpar o quarto, tocando cada objeto com um cuidado quase reverente.Foi nesse momento que o carteiro apareceu, entregando uma correspondência. Quando Roberto percebeu, o homem já havia ido embora, e tudo o que restava era o envelope, com uma caligrafia que ele reconheceria em qualquer lugar.Assustado, cor
Kayra levantou o olhar e contemplou as montanhas à distância, tingidas pelas cores vibrantes do outono. Após alguns segundos, com um sorriso leve, sugeriu:— Gabriel, estou pensando em dar uma subida nas montanhas pra tirar umas fotos desse outono lindo. Quer ir comigo?Gabriel, sem nem pensar, respondeu com suavidade:— Claro. Para onde você quiser ir, eu vou com você.O sorriso de Kayra se abriu um pouco mais:— Estava pensando em passar um tempo perto dos Alpes. O que acha?— Então, vou arrumar nossas malas. — Respondeu Gabriel, prático e decidido. — Pode continuar descansando. Assim que eu terminar, te aviso.Enquanto os dois planejavam o novo destino, Roberto permanecia sozinho, sentado em um cômodo escuro, revirando os papéis que segurava nas mãos.A única luz vinha de um abajur de canto, mal iluminando o ambiente, deixando o rosto dele entre luz e sombra, como um prisioneiro de si mesmo.Do lado de fora, o assistente bateu na porta com cuidado:— Sr. Roberto, conforme o senhor p
Patrícia estava apavorada, mas não ousava fugir. Com tantas dívidas acumuladas, sabia que, se não conseguisse arrancar dinheiro de Roberto, quando aqueles homens a encontrassem, seu destino seria muito pior, talvez a morte.Foi nesse momento que Roberto, ainda ao telefone, ouviu a confirmação de todas as suas suspeitas. Do outro lado da linha, o empregado falou com firmeza:— Foi a senhorita Patrícia, senhor. Ela mesma passou batom no próprio corpo, de propósito, para fazer a senhorita Kayrinha pensar outra coisa.Ao ouvir aquilo, Roberto fechou os olhos por um instante, como se a última esperança tivesse acabado de vez.Agora tudo fazia sentido. Entre adultos, um batom borrado no corpo só podia significar uma coisa: marcas que pareciam beijos.Patrícia observou Roberto encerrar a ligação e, em seguida, virar-se de costas para ela. Sem sequer olhar, ele fez um sinal discreto para o assistente, dizendo em voz fria:— Dê um jeito nisso. Eu não quero nunca mais ver essa mulher. O assiste
Roberto olhou para Kayra, incrédulo, como se não conseguisse acreditar no que acabara de ouvir. Seus lábios chegaram a se mover, tentando dizer algo, mas os policiais não deram a ele nenhuma chance.Kayra permaneceu ali, imóvel, impassível, até ter certeza de que Roberto seria levado para prestar depoimento e não teria mais como insistir ou persegui-la. Só então, respirando fundo, pegou o celular e ligou para Gabriel:— Você pode vir me buscar agora? — Onde você está? Eu vou agora mesmo. — Respondeu Gabriel sem hesitar, sem sequer questionar o motivo, partindo imediatamente para encontrá-la.Kayra ficou sozinha na calçada, o corpo frágil e encolhido, como se o menor vento pudesse levá-la embora.Assim que Gabriel chegou, ela o olhou com um leve alívio, mas a preocupação ainda marcava seu rosto quando perguntou:— O Professor Daniel está bem?— Está sim, só um pouco confuso. — Respondeu Gabriel com suavidade, tentando tranquilizá-la. — Mas não se preocupe, eu expliquei tudo pra ele.—
— Mesmo que você já seja maior de idade, ainda assim cresceu ao meu lado. Seus pais não estão mais aqui, então, claro que eu tenho que cuidar de você! Não vou deixar qualquer um te enganar! — Disse Roberto, a voz carregada de firmeza, o olhar frio e cortante ao encarar Gabriel.Roberto estava realmente irritado agora, e Kayra não conseguiu mais se conter. Pela primeira vez, decidiu falar o que sentia, sem rodeios:— Eu não estou com o Gabriel só para te provocar, Roberto! Eu realmente acho que ele é uma boa pessoa. Nesses dias que passamos juntos, eu me senti feliz, em paz... — Disse ela, com sinceridade transbordando em cada palavra.— Eu já disse que não, e ponto final! — Roberto explodiu, interrompendo-a com brutalidade. Bateu a faca com força na mesa, fazendo um barulho seco e estridente. — Kayra, você vai voltar pra casa comigo.Dessa vez, Kayra também se recusou a continuar suportando aquilo só por consideração ao Professor Daniel. Levantou-se de súbito, o olhar firme e a voz car
Cada palavra que Jeff dizia era como uma faca cravada no peito de Roberto.Sem perceber exatamente quando, a expressão dele foi escurecendo, até se tornar algo quase palpável, uma tempestade prestes a desabar.E antes que Jeff conseguisse terminar aquele elogio ao casal perfeito, Roberto o cortou com frieza:— Eu também tenho um compromisso urgente. Vamos deixar esse almoço para outro dia.Jeff, meio atônito com a mudança brusca de tom, apenas assentiu:— Claro, Sr. Roberto, fique à vontade. — E ainda tentou manter o tom profissional. — Quando tiver um tempinho, não esquece de me mandar as especificações das fotos, tá? Aí eu repasso pra Srta. Kayra.Jeff achava mesmo que eles tinham se conhecido naquele dia.Não fazia ideia do que se escondia por trás daquela formalidade tensa.Roberto, no entanto, não respondeu.Ou não ouviu, ou fingiu que não ouviu.Saiu apressado, sem olhar para trás, os passos firmes e rápidos.Jeff, que até pouco tempo antes estava conversando com ele como velhos
O tempo passava como água que escorre silenciosa.Desde o dia em que reencontrara Roberto, ele nunca mais apareceu.Na verdade, Kayra já não pensava tanto nele como antes.Gabriel estava sempre ao lado dela, não de maneira forçada ou ansiosa, tentando forçar um relacionamento, mas com aquela gentileza discreta, que cuida sem alarde, que permanece sem invadir.Kayra se sentia em paz com aquela rotina tranquila e segura.Depois de tanto tempo vivendo sob tensão, ter alguém ao lado que simplesmente a deixava ser ela mesma era como respirar de novo.Naquela manhã, o telefone tocou cedo, enquanto a cidade ainda despertava.Do outro lado da linha, a voz animada do editor-chefe da revista:— Srta. Kayra, bom dia! Olha, tenho um amigo, o Jeff, ele é apresentador. Hoje ele vai fazer uma entrevista com uma pessoa muito importante, aquele grande nome que eu comentei com você. Você tem disponibilidade pra fazer as fotos?— Sim, posso ir. Qual o horário e o local? — Kayra respondeu sem hesitar.— S
Roberto franziu levemente a testa, encarando-a com um olhar profundo:— Irmão? — ele repetiu, como se questionasse o que acabara de ouvir.— Não é? — Kayra respondeu, com um sorriso frio.— Kayrinha, — A voz dele suavizou um pouco, como se tentasse alcançá-la além daquela muralha invisível — Eu vi todas aquelas fotos que você me deixou.Kayra permaneceu impassível, apenas murmurando um leve:— Ah.— Mas algumas foram destruídas pela Patrícia.— Normal. — Kayra deu de ombros, com um tom indiferente. — Ela é sua esposa, tem o direito de mexer nas suas coisas, não é?— Ela não é! — Roberto explodiu, segurando com força os ombros de Kayra, como se temesse que ela desaparecesse outra vez.— Kayrinha, eu não me casei com ela. Quando vi que você tinha sumido, eu cancelei o casamento. — A voz dele tremia, o desespero evidente. — Eu te procurei por todos os cantos e, ainda por cima... Uma garota, usando roupas que você doou, tentou tirar a própria vida. Eu... Eu achei que tinha te perdido pra s
Roberto não fazia ideia de como conseguiu suportar aquelas oito horas de voo.Desde o momento em que Erik lhe deu a notícia, o primeiro sentimento que o invadiu foi a incredulidade.Ela foi embora?E para Milão?Mas como? Logo após o desaparecimento de Kayra, ele havia mandado investigar todas as listas de embarque dos aeroportos, e não existia nenhum registro de que ela tivesse saído do país.Ainda assim, mais forte que a dúvida, veio o alívio, ela estava viva. Só isso já parecia suficiente.Porém, logo depois, uma onda de raiva tomou conta dele.Por que ela tinha ido embora sem dizer uma palavra?Mesmo que quisesse ir para o exterior, por que nunca falou nada com ele?Kayra, por sua vez, havia conseguido alugar um novo apartamento e deixado a casa do Professor Daniel.Apesar de Daniel e Mariana serem sempre muito gentis e carinhosos, Kayra não queria abusar da hospitalidade deles por muito tempo.Quando Gabriel soube que ela se mudaria, fez questão de aparecer para ajudar.Chegando a