Capítulo 0002
Kayra ficou vagando pelas ruas até de madrugada antes de voltar para casa.

Decidir ir embora havia sido um impulso, mas não era fácil apagar sentimentos cultivados por mais de vinte anos.

Ela não era tão forte quanto gostaria. Não conseguia simplesmente virar a página e esquecer tudo.

Por isso, para não correr o risco de voltar atrás em sua decisão, preferia manter distância de Roberto nos quinze dias que ainda restavam.

Quando finalmente voltou à mansão dos Santana, a casa estava mergulhada em silêncio e escuridão.

Kayra não acendeu as luzes. Caminhou devagar, arrastando o corpo cansado em direção ao próprio quarto.

Mas, ao passar pela sala, uma voz na penumbra interrompeu seus passos:

— Kayra.

Ela se virou devagar e viu uma figura reclinada no sofá.

— Algum problema, Srta. Patrícia? — Perguntou com frieza.

Patrícia estava deitada de lado, apoiada de maneira casual no braço do sofá, vestindo uma camisola curta de renda preta, que revelava mais do que escondia.

Sorrindo de canto, com aquele ar provocador, respondeu:

— Esse pijama foi o Beto que me deu. Bonito, né?

Quando se ajeitou melhor no sofá, as marcas avermelhadas no colo e na cintura ficaram ainda mais visíveis, destacando-se sob o tecido preto e transparente.

Com ar de falsa inocência, Patrícia passou os dedos por uma das marcas no pescoço e sussurrou, como quem geme de dor:

— Ai...

Depois, com um sorriso malicioso, continuou:

— Seu irmão pode até não saber escolher vestido de noiva, mas sabe muito bem escolher pijama. Me disse que, quando me viu com essa, não conseguiu se controlar.

Kayra, parada no alto da escada, olhava a cena com frieza. Nos lábios, surgiu um leve sorriso de desdém:

— Patrícia, guarda esse show para você.

— Show? Que show? — Fingiu-se de ofendida.

Kayra arqueou uma sobrancelha, o tom afiado:

— O show do seu cheiro.

— Que cheiro? — Patrícia insistiu, com falso espanto.

— Cheiro de vulgaridade. — Kayra sorriu, gelada.

Patrícia deu uma risadinha, ainda provocadora:

— Mas é desse cheiro que o seu irmão gosta, né? Mal chegou em casa e já quis me ver com esse pijama... E depois...

— Chega. Não quero ouvir. — Kayra a cortou, virando o rosto com nojo.

Patrícia deu de ombros, mas manteve o tom ácido:

— Querendo ou não, essa é a verdade. Ele é louco pelo meu corpo. O que são vinte anos de convivência? Homem escolhe quem sabe agradar na cama.

— Fica aí com o seu teatrinho. Eu não tenho tempo para isso. — Kayra revirou os olhos, exausta daquele jogo.

Mas Patrícia não desistia. Levantou-se, ajeitando a pijama, e foi atrás de Kayra, os passos apressados soando pelo piso:

— De longe você não vê direito, né? Quer chegar mais perto? Ver as marcas que o Beto deixou em mim? Kayra, olha aqui...

Ela segurou o braço de Kayra com força.

Kayra sentiu o estômago revirar, como se fosse vomitar. Com um movimento brusco, se soltou:

— Não encosta em mim!

Foi nesse instante que Roberto apareceu no fim do corredor, segurando um copo de leite.

— O que vocês estão falando tão tarde? — Perguntou, sem perceber o clima carregado.

Kayra abriu a boca, pronta pra responder, mas congelou ao ver o sorriso venenoso de Patrícia.

Em segundos, aquele sorriso se desfez numa expressão de pavor fingido, e ela soltou um grito agudo:

— Aaaaaah!

Patrícia caiu escada abaixo, rolando degrau por degrau, o corpo frágil se chocando contra o chão.

— Patrícia!! — Roberto largou o copo de leite na mesma hora e correu até Patrícia, segurando-a firme nos braços. — Amor, você tá bem? Fala comigo!

Patrícia se aninhou no peito dele, a voz fraca e chorosa:

— Estou bem... Só não briga com a Kayrinha, tá? Foi sem querer...

Roberto ergueu o olhar para Kayra, os olhos carregados de decepção:

— Kayra, por mais que esteja com raiva da Patrícia, como é que você empurra ela da escada? Tem noção do perigo?!

Quando voltou a olhar para Patrícia, a voz dele já tinha mudado, agora cheia de um carinho quase exagerado, como se ela fosse feita de vidro.

Roberto se abaixou e a pegou nos braços com delicadeza:

— Quero ver direitinho se você se machucou.

Patrícia, com as bochechas coradas, baixou o olhar num gesto delicado e fingido de preocupação:

— Amor, acho melhor a gente não ficar tão grudados assim na frente da Kayrinha... — Disse em tom meigo, suspirando. — É normal uma irmã ter ciúmes, né? Antes, você só dava atenção pra ela. Agora, do nada, apareceu eu. Deve ser difícil pra Kayrinha aceitar... A gente precisa pensar nela, dar um tempo pra ela se acostumar.

— Mais cedo ou mais tarde, ela vai ter que aceitar. — Respondeu Roberto, com frieza.

Roberto a carregou firme nos braços, levando Patrícia de volta ao quarto.

No caminho, Patrícia virou o rosto, ainda aninhada no peito dele, e, por cima do ombro, lançou para Kayra um discreto gesto de vitória, com um sorriso debochado que queimava mais do que qualquer palavra.

Naquele instante, Kayra sentiu como se o mundo ao seu redor não fosse mais o mesmo.

Como se tudo aquilo que ela conhecia e amava tivesse sido destruído de uma vez só.

A chegada de Patrícia havia despedaçado o pequeno universo que, por tanto tempo, ela acreditou ser só dela e de Roberto.

Ela simplesmente não conseguia entender.

Por que Roberto, aquele homem que sempre a protegeu, podia se apaixonar por alguém como Patrícia?

Será que era mesmo como Patrícia dizia?

Que, entre amor e desejo, os homens sempre escolhiam o prazer mais fácil, o caminho mais superficial?

Kayra não sabia.

E, no fundo, já não queria mais saber.

Na manhã seguinte, Kayra foi até a redação da revista onde trabalhava.

Três anos como fotógrafa fixa, bem-querida por todos.

Ao entregar a carta de demissão, o editor-chefe a olhou surpreso:

— É por causa do salário? Se for, eu levo direto pro presidente.

— Obrigada, chefe, mas não é o salário. — Kayra sorriu, negando.

— Então, o que foi? — Insistiu ele.

Ela hesitou um instante, depois respondeu, serena:

— Outras prioridades.

Ele a fitou com atenção, depois sorriu, como se entendesse:

— Ah... Já entendi. Tá se preparando pra casar-se com o Roberto, né? Virar a Sra. Santana! — Disse em tom bem-humorado. — Olha, faz sentido. Esses anos todos ele te buscando, te levando pra casa, te esperando na porta da revista, faça chuva ou sol... Sempre ficou claro que ele te colocava em primeiro lugar.

Ele deu uma pequena risada, e completou, gentil:

— Se é isso mesmo, Kayra, eu não vou te segurar. Você merece ser feliz.

Kayra, ao ouvir a primeira parte da frase, até pensou em corrigir.

Quis dizer que sim, Roberto ia se casar, mas que a noiva não era ela.

Mas, quando o editor-chefe continuou falando, com aquele sorriso tranquilo, ela simplesmente perdeu a vontade de explicar.

Como poderia contar?

Ela, Roberto e Patrícia... aquilo tudo era um nó tão grande, tão confuso, que não dava pra explicar em poucas palavras.

No fundo, ela só queria resolver logo a transição do trabalho, deixar tudo organizado, e sumir dali o mais rápido possível.

Em duas semanas, estaria longe.

Longe daquela casa, daquela cidade, e principalmente, longe deles.

— Depois me avisa o dia do casamento, hein? Faço questão de ir brindar com vocês! — O editor sorriu.

Kayra forçou um sorriso, sem saber o que responder.

Nesse momento, Bruna, a recepcionista, apareceu à porta, batendo de leve e espiando com ar divertido:

— Kayra, seu namorado tá te esperando de novo! — Disse, rindo, marota. — E olha, parece que hoje tem surpresa, viu?
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