O celular caiu no chão com um baque seco.Roberto ficou ali, parado, como se tivessem arrancado a própria alma dele. Os olhos fixos no vazio, o rosto pálido. Não conseguia nem se mover.Por sorte, o telefone era resistente. Com a queda, o viva-voz foi ativado sozinho, e a voz do inspetor Davi encheu o quarto, carregada de tensão:— De fato, encontramos o corpo de uma mulher no reservatório da zona leste. Pela idade e pelas roupas, há uma grande chance de ser a Srta. Kayra...O silêncio se tornou sufocante.Patrícia arregalou os olhos, pálida como um papel.Kayra... Morreu?Por um segundo, o coração dela congelou. Ela tinha se suicidado?Ela amava tanto assim o Roberto? Tirou a própria vida justo no dia do casamento dele?Uma parte de Patrícia até se sentiu vitoriosa. Mas logo em seguida, um pensamento sombrio a invadiu como uma facada no peito:“Se ela morreu por causa do Roberto, ele nunca vai me perdoar. Nunca vai esquecer. Vai transformar ela na mulher perfeita, intocável. Como com
Roberto dirigia como um louco, acelerando o carro como nunca fizera na vida.Assim que parou na entrada do condomínio, saltou do carro ainda em movimento e deu de cara com o entregador.Mas o homem estava de mãos vazias.— Cadê a minha encomenda?! — Roberto agarrou o braço do rapaz, os olhos arregalados, a respiração ofegante. — Você disse que era da Kayra! Cadê?!O entregador, assustado, gaguejou:— S-Sr. Roberto? Eu... Eu entreguei pra sua esposa! Ela disse que assinava por você. Acabei de deixar com ela!— Esposa?! — Roberto rosnou, a raiva transbordando. — Eu não tenho esposa!— Mas... ela se apresentou como Sra. Santana... — O rapaz tremia.Roberto não escutou mais nada.Virou as costas e correu em disparada para a mansão, o sangue fervendo.— PATRÍCIA! — O grito dele ecoou pela casa, como um trovão. — CADÊ VOCÊ?!No banheiro, Patrícia tremia, pálida como um cadáver.Segurava a caixa nas mãos, o rosto banhado em suor frio. Em pânico, tentou jogar o conteúdo no vaso sanitário, luta
O segurança havia vindo e colocado Patrícia para fora, junto com todas as suas coisas.Só então Roberto sentiu que, finalmente, aquela casa estava um pouco mais tranquila.Ele segurava a caixa com a fotografia, passando os dedos delicadamente sobre a caligrafia que havia nela.Kayra estava com a família Santana desde pequena, e até mesmo aquelas letras haviam sido escritas por ela, letra por letra, com ele segurando sua mãozinha enquanto aprendia a escrever.— Kayrinha, onde será que você está agora? — Murmurou.Roberto abraçava a caixa com a foto como se segurasse o maior tesouro do mundo.— Kayrinha, onde você está?Kayra despertou assustada do sonho.Mariana olhou para ela e perguntou:— Por que essa cara? Teve um pesadelo?Kayra ainda parecia perdida, demorando a entender onde estava.Na verdade, naquela noite, o Professor Daniel e Mariana tinham saído com ela para jantar, aproveitando a ocasião para apresentá-la ao editor-chefe de uma revista internacional.Mas, como o editor teve
Roberto não fazia ideia de como conseguiu suportar aquelas oito horas de voo.Desde o momento em que Erik lhe deu a notícia, o primeiro sentimento que o invadiu foi a incredulidade.Ela foi embora?E para Milão?Mas como? Logo após o desaparecimento de Kayra, ele havia mandado investigar todas as listas de embarque dos aeroportos, e não existia nenhum registro de que ela tivesse saído do país.Ainda assim, mais forte que a dúvida, veio o alívio, ela estava viva. Só isso já parecia suficiente.Porém, logo depois, uma onda de raiva tomou conta dele.Por que ela tinha ido embora sem dizer uma palavra?Mesmo que quisesse ir para o exterior, por que nunca falou nada com ele?Kayra, por sua vez, havia conseguido alugar um novo apartamento e deixado a casa do Professor Daniel.Apesar de Daniel e Mariana serem sempre muito gentis e carinhosos, Kayra não queria abusar da hospitalidade deles por muito tempo.Quando Gabriel soube que ela se mudaria, fez questão de aparecer para ajudar.Chegando a
Roberto franziu levemente a testa, encarando-a com um olhar profundo:— Irmão? — ele repetiu, como se questionasse o que acabara de ouvir.— Não é? — Kayra respondeu, com um sorriso frio.— Kayrinha, — A voz dele suavizou um pouco, como se tentasse alcançá-la além daquela muralha invisível — Eu vi todas aquelas fotos que você me deixou.Kayra permaneceu impassível, apenas murmurando um leve:— Ah.— Mas algumas foram destruídas pela Patrícia.— Normal. — Kayra deu de ombros, com um tom indiferente. — Ela é sua esposa, tem o direito de mexer nas suas coisas, não é?— Ela não é! — Roberto explodiu, segurando com força os ombros de Kayra, como se temesse que ela desaparecesse outra vez.— Kayrinha, eu não me casei com ela. Quando vi que você tinha sumido, eu cancelei o casamento. — A voz dele tremia, o desespero evidente. — Eu te procurei por todos os cantos e, ainda por cima... Uma garota, usando roupas que você doou, tentou tirar a própria vida. Eu... Eu achei que tinha te perdido pra s
O tempo passava como água que escorre silenciosa.Desde o dia em que reencontrara Roberto, ele nunca mais apareceu.Na verdade, Kayra já não pensava tanto nele como antes.Gabriel estava sempre ao lado dela, não de maneira forçada ou ansiosa, tentando forçar um relacionamento, mas com aquela gentileza discreta, que cuida sem alarde, que permanece sem invadir.Kayra se sentia em paz com aquela rotina tranquila e segura.Depois de tanto tempo vivendo sob tensão, ter alguém ao lado que simplesmente a deixava ser ela mesma era como respirar de novo.Naquela manhã, o telefone tocou cedo, enquanto a cidade ainda despertava.Do outro lado da linha, a voz animada do editor-chefe da revista:— Srta. Kayra, bom dia! Olha, tenho um amigo, o Jeff, ele é apresentador. Hoje ele vai fazer uma entrevista com uma pessoa muito importante, aquele grande nome que eu comentei com você. Você tem disponibilidade pra fazer as fotos?— Sim, posso ir. Qual o horário e o local? — Kayra respondeu sem hesitar.— S
Cada palavra que Jeff dizia era como uma faca cravada no peito de Roberto.Sem perceber exatamente quando, a expressão dele foi escurecendo, até se tornar algo quase palpável, uma tempestade prestes a desabar.E antes que Jeff conseguisse terminar aquele elogio ao casal perfeito, Roberto o cortou com frieza:— Eu também tenho um compromisso urgente. Vamos deixar esse almoço para outro dia.Jeff, meio atônito com a mudança brusca de tom, apenas assentiu:— Claro, Sr. Roberto, fique à vontade. — E ainda tentou manter o tom profissional. — Quando tiver um tempinho, não esquece de me mandar as especificações das fotos, tá? Aí eu repasso pra Srta. Kayra.Jeff achava mesmo que eles tinham se conhecido naquele dia.Não fazia ideia do que se escondia por trás daquela formalidade tensa.Roberto, no entanto, não respondeu.Ou não ouviu, ou fingiu que não ouviu.Saiu apressado, sem olhar para trás, os passos firmes e rápidos.Jeff, que até pouco tempo antes estava conversando com ele como velhos
— Mesmo que você já seja maior de idade, ainda assim cresceu ao meu lado. Seus pais não estão mais aqui, então, claro que eu tenho que cuidar de você! Não vou deixar qualquer um te enganar! — Disse Roberto, a voz carregada de firmeza, o olhar frio e cortante ao encarar Gabriel.Roberto estava realmente irritado agora, e Kayra não conseguiu mais se conter. Pela primeira vez, decidiu falar o que sentia, sem rodeios:— Eu não estou com o Gabriel só para te provocar, Roberto! Eu realmente acho que ele é uma boa pessoa. Nesses dias que passamos juntos, eu me senti feliz, em paz... — Disse ela, com sinceridade transbordando em cada palavra.— Eu já disse que não, e ponto final! — Roberto explodiu, interrompendo-a com brutalidade. Bateu a faca com força na mesa, fazendo um barulho seco e estridente. — Kayra, você vai voltar pra casa comigo.Dessa vez, Kayra também se recusou a continuar suportando aquilo só por consideração ao Professor Daniel. Levantou-se de súbito, o olhar firme e a voz car