Patrícia estava apavorada, mas não ousava fugir. Com tantas dívidas acumuladas, sabia que, se não conseguisse arrancar dinheiro de Roberto, quando aqueles homens a encontrassem, seu destino seria muito pior, talvez a morte.Foi nesse momento que Roberto, ainda ao telefone, ouviu a confirmação de todas as suas suspeitas. Do outro lado da linha, o empregado falou com firmeza:— Foi a senhorita Patrícia, senhor. Ela mesma passou batom no próprio corpo, de propósito, para fazer a senhorita Kayrinha pensar outra coisa.Ao ouvir aquilo, Roberto fechou os olhos por um instante, como se a última esperança tivesse acabado de vez.Agora tudo fazia sentido. Entre adultos, um batom borrado no corpo só podia significar uma coisa: marcas que pareciam beijos.Patrícia observou Roberto encerrar a ligação e, em seguida, virar-se de costas para ela. Sem sequer olhar, ele fez um sinal discreto para o assistente, dizendo em voz fria:— Dê um jeito nisso. Eu não quero nunca mais ver essa mulher. O assiste
Kayra levantou o olhar e contemplou as montanhas à distância, tingidas pelas cores vibrantes do outono. Após alguns segundos, com um sorriso leve, sugeriu:— Gabriel, estou pensando em dar uma subida nas montanhas pra tirar umas fotos desse outono lindo. Quer ir comigo?Gabriel, sem nem pensar, respondeu com suavidade:— Claro. Para onde você quiser ir, eu vou com você.O sorriso de Kayra se abriu um pouco mais:— Estava pensando em passar um tempo perto dos Alpes. O que acha?— Então, vou arrumar nossas malas. — Respondeu Gabriel, prático e decidido. — Pode continuar descansando. Assim que eu terminar, te aviso.Enquanto os dois planejavam o novo destino, Roberto permanecia sozinho, sentado em um cômodo escuro, revirando os papéis que segurava nas mãos.A única luz vinha de um abajur de canto, mal iluminando o ambiente, deixando o rosto dele entre luz e sombra, como um prisioneiro de si mesmo.Do lado de fora, o assistente bateu na porta com cuidado:— Sr. Roberto, conforme o senhor p
O tempo é, de fato, o melhor remédio.No Natal, um ano depois, Roberto finalmente criou coragem para voltar à casa onde Kayra havia vivido, a primeira vez desde o desaparecimento dela.Apesar do tempo que passou, o interior da casa estava impecavelmente limpo, graças às ordens expressas dele: ninguém podia tocar em nada, ninguém podia mover sequer um objeto de lugar. Cada canto permanecia do jeito que Kayra deixou, como se ela tivesse saído dali apenas por alguns minutos.Naquele dia, Roberto dispensou os funcionários que costumavam cuidar da limpeza. Ele mesmo queria arrumar o espaço, como se, de alguma maneira, isso o aproximasse dela. Pegou os materiais e, em silêncio, começou a limpar o quarto, tocando cada objeto com um cuidado quase reverente.Foi nesse momento que o carteiro apareceu, entregando uma correspondência. Quando Roberto percebeu, o homem já havia ido embora, e tudo o que restava era o envelope, com uma caligrafia que ele reconheceria em qualquer lugar.Assustado, cor
— Mano, minha fotografia ganhou o prêmio de ouro internacional! Kayra Lima entrou correndo no quarto de Roberto Santana, eufórica, e sem conseguir se conter, se jogou nos braços dele, como fazia tantas vezes quando era criança, toda manhosa e carinhosa.Mas, no instante seguinte, um estalo seco ecoou no quarto. Um tapa forte acertou em cheio o rosto dela.Patrícia Amaral, recém-saída do banho, com uma toalha enrolada no corpo, bateu nela com violência e, tomada de fúria, ainda a empurrou sem dó.— Kayrinha, eu sou a namorada oficial dele, tá? Tô bem aqui! — Disparou Patrícia, os olhos cheios de raiva. — Se jogando pra cima dele desse jeito, o que você tá querendo, hein? Não tem vergonha? Vai continuar tentando seduzir o próprio irmão?O rosto de Kayra ardia. A dor latejava em sua pele, e os olhos se encheram de lágrimas, que ela se forçou a não derramar.Pois é... Como ela pôde esquecer?Roberto tinha namorada. E em breve se casaria.Kayra sempre fora órfã, e a família Santana a acolh
Kayra ficou vagando pelas ruas até de madrugada antes de voltar para casa.Decidir ir embora havia sido um impulso, mas não era fácil apagar sentimentos cultivados por mais de vinte anos.Ela não era tão forte quanto gostaria. Não conseguia simplesmente virar a página e esquecer tudo.Por isso, para não correr o risco de voltar atrás em sua decisão, preferia manter distância de Roberto nos quinze dias que ainda restavam.Quando finalmente voltou à mansão dos Santana, a casa estava mergulhada em silêncio e escuridão.Kayra não acendeu as luzes. Caminhou devagar, arrastando o corpo cansado em direção ao próprio quarto.Mas, ao passar pela sala, uma voz na penumbra interrompeu seus passos:— Kayra.Ela se virou devagar e viu uma figura reclinada no sofá.— Algum problema, Srta. Patrícia? — Perguntou com frieza.Patrícia estava deitada de lado, apoiada de maneira casual no braço do sofá, vestindo uma camisola curta de renda preta, que revelava mais do que escondia.Sorrindo de canto, com a
Assim que Kayra saiu pela porta da revista, avistou Roberto encostado no carro preto luxuoso, o olhar perdido em algum ponto distante.Ela se aproximou devagar, e só então entendeu qual era a "surpresa" que Bruna havia mencionado.O carro inteiro estava lotado de rosas vermelhas.Rosas vivas, exuberantes, espalhadas por todo o banco traseiro, o porta-malas... Parecia até que transbordavam.Somente o banco do passageiro, ao lado de Roberto, permanecia vazio, como se esperasse por alguém.Atrás dela, Kayra ainda ouvia as risadinhas e os cochichos das colegas, escondidas atrás do letreiro da empresa, espiando e se empurrando, cúmplices daquela cena.Na verdade, Roberto sempre fazia esse tipo de coisa.Quantas vezes aparecera com os doces preferidos dela, sucos, ou pequenas surpresas?As colegas já estavam acostumadas, mas, mesmo assim, sempre diziam:“Quando o namorado da Kayrinha aparece, a gente faz a festa! Todo mundo ganha!”E Kayra... Nunca desmentia. Só sorria e dividia os mimos com
Ao ouvir as palavras de Kayra, Roberto largou o copo com força, e o som seco do vidro contra a mesa ecoou pela sala:— Fui eu que mandei. Algum problema? — Respondeu, frio como gelo.Kayra o encarou, o peito subindo e descendo, sufocada pela raiva:— E quem te deu o direito de mandar no meu quarto? — A voz dela cortava o ar. — Sem minha permissão? Por que mexer nas minhas coisas?Roberto a olhou com desdém, como se a resposta fosse óbvia:— Kayra, essa é a casa da família Santana. — Disse, impassível. — A Patrícia é minha noiva. Ela entra em qualquer quarto que quiser.Aquelas palavras caíram sobre Kayra como um balde de água gelada, arrepiando até os ossos.Patrícia, com um sorriso doce, mas carregado de veneno, repreendeu Roberto num tom meloso:— Beto, amor, não fala assim com a Kayrinha... Ela vai ficar triste.Depois, se virou para Kayra, fingindo preocupação:— Kayrinha, me perdoa. É que as empregadas comentaram que o Beto sempre deixava roupas e sapatos no seu quarto... E como m
Kayra encerrou a ligação devagar, respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado, e começou a juntar a bagunça espalhada pelo chão.— O visto do Professor Daniel venceu. — Disse, mantendo a voz controlada. — Ele já tá velho, não pode ficar viajando para lá e para cá. Me pediu para ajudá-lo com a renovação.Roberto, de braços cruzados, a olhava com desconfiança:— Mas a filha dele não mora aqui? Por que ele não pede pra ela cuidar disso?Kayra levantou o rosto, o olhar frio e sem paciência:— Quer saber? Liga para ela e pergunta você mesmo.— Não tenho tempo pra essas coisas. — Então para de perguntar.Naquela noite, Kayra ficou acordada até de madrugada, tentando reorganizar o quarto, recolhendo cada pedaço daquele caos que Patrícia tinha deixado para trás.As roupas e sapatos que Patrícia tinha bagunçado e sujado, Kayra também não pretendia levar mais.Decidiu empilhar tudo num canto do armário, de qualquer jeito, como quem já não se importa.Kayra ainda conseguiu salvar alguns