Capítulo 0003
Assim que Kayra saiu pela porta da revista, avistou Roberto encostado no carro preto luxuoso, o olhar perdido em algum ponto distante.

Ela se aproximou devagar, e só então entendeu qual era a "surpresa" que Bruna havia mencionado.

O carro inteiro estava lotado de rosas vermelhas.

Rosas vivas, exuberantes, espalhadas por todo o banco traseiro, o porta-malas... Parecia até que transbordavam.

Somente o banco do passageiro, ao lado de Roberto, permanecia vazio, como se esperasse por alguém.

Atrás dela, Kayra ainda ouvia as risadinhas e os cochichos das colegas, escondidas atrás do letreiro da empresa, espiando e se empurrando, cúmplices daquela cena.

Na verdade, Roberto sempre fazia esse tipo de coisa.

Quantas vezes aparecera com os doces preferidos dela, sucos, ou pequenas surpresas?

As colegas já estavam acostumadas, mas, mesmo assim, sempre diziam:

“Quando o namorado da Kayrinha aparece, a gente faz a festa! Todo mundo ganha!”

E Kayra... Nunca desmentia. Só sorria e dividia os mimos com todos.

Hoje, ela sabia, elas deviam estar esperando para ver quem ficaria com aquelas flores.

Respirou fundo, tentando manter a postura, e o chamou:

— Roberto.

Ele ergueu a cabeça, o olhar frio, a voz ainda mais:

— Não me chama assim. Me chama de "irmão", melhor.

Kayra sentiu o golpe, mas disfarçou. Apenas assentiu, engolindo a dor:

— Tá bom... Irmão.

Roberto respirou fundo, como quem tentava controlar algo dentro de si:

— Sobre ontem à noite... — Começou, com tom mais calmo. — Fui duro demais. Não leva pro lado pessoal.

— Tá. — Kayra apenas acenou, um sorriso fraco nos lábios.

Mas ele continuou, a frieza voltando à voz:

— Só que... O que você fez foi grave. Mas você já não é mais uma criança, empurrar alguém da escada? Não faça mais isso.

Kayra arregalou os olhos, incrédula, e soltou uma risada amarga:

— Então é por isso que veio? Para me acusar?

— Você ainda não percebeu o erro? — Ele manteve o olhar firme, sério.

O peito dela se apertou, a mágoa subindo como um nó na garganta:

— Roberto, você me conhece há mais de vinte anos! Acha mesmo que, se eu quisesse machucar alguém, eu faria isso dentro da sua casa?!

As palavras saíram carregadas de dor, quase um grito.

Mas, no mesmo instante, Kayra se arrependeu.

Não adiantava mais tentar explicar.

No fim das contas, ela já estava de partida mesmo.

Ele já tinha escolhido em quem acreditar.

Com a voz fria, sem encará-lo, ela cortou:

— Deixa para lá. Vai embora. Não atrapalha meu trabalho.

Quando voltou à porta da empresa, percebeu que as colegas, que antes riam e cochichavam, agora olhavam com preocupação.

— Kayra, vocês brigaram? — Perguntou uma delas, cautelosa.

— Ah, não fica assim! — Disse outra, tentando animá-la. — Ele trouxe um mar de rosas, deve estar arrependido. Dá uma chance pra ele, vai!

— Kayra, você não sabe a sorte que tem! Um homem assim, carinhoso, não se acha por aí! — Completou outra, suspirando.

Kayra manteve o rosto impassível, sem emoção:

— Gente, parem de fofoca e vão trabalhar.

Com o talento que tinha na fotografia, Kayra era muito respeitada na redação.

As meninas mais novas, que sempre olhavam pra ela como referência, não tiveram escolha a não ser abaixar a cabeça e voltar pro trabalho, uma a uma.

Só Bruna, sempre mais próxima, ficou ao lado de Kayra, puxando-a pelo braço:

— Kayra... Posso pegar uma rosa? — Perguntou, num tom quase infantil. — Eu vi que ele encheu o carro inteiro de flores... Até trouxe vaso pra colocar!

Kayra suspirou, levando a mão à cabeça, cansada:

— Eu compro outras para você, Bruna. Prometo que o vaso não vai ficar vazio.

De volta à sua mesa, Kayra ainda se sentia inquieta, com a cabeça a mil.

Tentou editar algumas fotos que havia feito dias atrás, mas mal conseguiu focar.

Foi então que o celular vibrou em cima da mesa, quebrando o silêncio.

[Imagem] [Imagem] [Imagem]

[Qual dessas você acha mais bonita?]

Patrícia tinha enviado algumas fotos, eram vários modelos de lingeries provocantes.

Mas, para falar a verdade, aquilo passava longe de ser só uma roupa de dormir.

Eram peças ousadas, cheias de transparência, decotes fundos, com recortes que revelavam tudo o que podiam, e o que não podiam também.

Logo depois, as mensagens foram apagadas.

E em seguida, outra mensagem:

[Desculpa, Kayrinha! Mandei para pessoa errada.]

Kayra desligou o celular e jogou dentro da gaveta, sem querer mais olhar pra aquilo.

No fundo, as duas sabiam muito bem: Patrícia não tinha mandado aquelas fotos por engano.

Ela queria, sim, que Kayra visse. Fez de propósito.

Só no final do expediente, Kayra pegou o celular de volta e ligou o aparelho, respirando fundo, como se se preparasse para o que viria.

Nenhuma ligação perdida.

Nenhuma mensagem.

Nenhum WhatsApp.

Nada.

Antes, se ela demorasse a responder, Roberto ligava, mandava mensagem, até aparecia na revista.

Agora? Silêncio.

Uma notificação surgiu:

[Status atualizado]

Curiosa, clicou.

Era uma foto do banco traseiro do Rolls-Royce preto, o mesmo de sempre, cheio de rosas vermelhas.

Patrícia, sorrindo com um buquê enorme no colo, os olhos brilhando.

Legenda:

[Obrigada, amor. O melhor presente de aniversário que já ganhei na vida.]

Ah...

Então era o aniversário da Patrícia.

Tudo o que ele trazia no carro agora era pra Patrícia.

Sempre foi pra ela.

Quando saiu da revista, Kayra não queria voltar para casa.

Mas o telefone tocou.

Quem ligou pra ela foi Sra. Valentina, mãe de Roberto, com a voz cheia de preocupação:

— Kayrinha, minha filha, por que você tá ficando até tão tarde na rua? — A voz preocupada. — Você é uma moça, não é seguro. Quer que o Beto vá te buscar?

Kayra não queria mais andar no carro dele.

Nem o banco do passageiro, nem as rosas, nada daquilo era mais dela.

— Não precisa, Dona Valentina. Eu peço um carro, volto sozinha. — Respondeu, com delicadeza, mas firme.

— Tá bom, minha querida... Mas se cuida, viu? — Completou Valentina, preocupada.

— Pode deixar.

Kayra pediu um carro por aplicativo e voltou para casa.

Quando chegou em casa, o que viu foi um soco no estômago.

Patrícia arrastava uma mala grande, saindo do quarto dela.

— Kayrinha! Você voltou! — Disse Patrícia, sorrindo falsamente, como se fossem amigas íntimas.

Na mesma hora, Kayra sentiu o sangue ferver.

— Quem te deu permissão pra entrar no meu quarto?! — Disparou, com os olhos cheios de raiva.
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