Capítulo 0006
Valentina também pareceu surpresa:

— Kayrinha, minha filha, mesmo que você queira fazer caridade, a gente podia doar dinheiro, né? Por que doar todas as suas roupas? Tá esfriando, o que você vai vestir?

Kayra olhou para Roberto, deu um leve sorriso e respondeu, tranquila:

— Você não disse que ia ajudar a Patrícia a me indenizar? Essas roupas já estão velhas, não quero mais. Com o dinheiro, eu compro outras. Não pode?

Roberto a encarou por alguns segundos antes de assentir, com um olhar desconfiado:

— Pode. Quanto você quer? Eu te transfiro agora.

Kayra ergueu apenas um dedo.

Roberto arqueou a sobrancelha, surpreso:

— Um milhão? Tudo bem.

— Não.

— Dez milhões?

Patrícia, na hora, se desesperou:

— O quê? Umas roupas velhas valem dez milhões agora?

Kayra lançou um olhar frio para ela e, em seguida, voltou-se para Roberto, dizendo com firmeza:

— Um real.

Aquelas roupas tinham sido todas compradas por Roberto, à força, mesmo quando ela dizia que não precisava de nada.

Agora que decidira ir embora, não queria levar nada dele. Muito menos o dinheiro.

Como ele mesmo tinha dito, ali era a "família Santana", e ela? Apenas uma estranha.

Um real. Assunto encerrado. Cada um para o seu lado.

Mais de vinte anos de laços... Apagados como se nunca tivessem existido.

Roberto começou a demonstrar certa impaciência:

— Kayra, o que é que você tá querendo, afinal?

— Vai transferir ou não? Se for, manda o dinheiro. Se não, esquece. — Respondeu ela, fria.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos, pensativo, mas acabou fazendo a transferência.

— Pronto. Cumpri o que prometi. Considere isso como a compensação da Patrícia. E, a partir de agora, quero que você pare de tratar a Patrícia com essa cara fechada por causa disso. — Disse ele, sério.

Kayra olhou para a tela do celular, onde aparecia o valor de um real a mais na conta, e deu um sorriso leve, quase irônico:

— Fica tranquilo. Nunca mais.

Roberto respirou fundo e continuou, com tom de aviso:

— E tem mais. No nosso casamento, você vai ser a fotógrafa. Foi um pedido da Patrícia. Você tem que ir.

Kayra pensou por um instante. Seu voo era só à noite.

Justo na noite de núpcias deles.

Por fim, assentiu, com um olhar calmo:

— Tá bom.

Nos dias que se seguiram, Kayra quase não voltou mais à casa da família Santana.

Passou um tempo no interior, onde fez uma nova série de fotos de aves e logo enviou tudo ao Professor Daniel.

Quando ele viu as imagens, ficou empolgado e ligou na hora, por vídeo:

— Kayra! Suas composições, as cores... você evoluiu demais! — Elogiou, visivelmente animado. — Tem várias revistas querendo o seu trabalho! Quando você chegar aqui, vamos visitar todas, escolher com calma, do jeito que você merece!

Kayra sorriu, feliz com o reconhecimento:

— Que bom ouvir isso. Obrigada, Professor Daniel.

— E aí, já conversou com o seu irmão? Ele concordou com a sua ida pra Europa?

Ela deu uma risada leve, meio irônica, mas com alívio:

— Concordou. Na verdade, ele até quer que eu vá.

Professor Daniel arregalou os olhos, surpreso:

— Sério? Nossa, achei que ia ser difícil convencer ele... Ainda bem, né? Assim você vai sem peso na consciência.

Kayra pegou o endereço dele e, antes de viajar, enviou todos os equipamentos para lá.

Professor Daniel prometeu guardar tudo em segurança, até que ela chegasse.

No dia do casamento de Roberto e Patrícia, Kayra foi direto à equipe da empresa de eventos e pegou a câmera que usariam.

Patrícia, radiante por finalmente se casar com um homem rico, mal conseguia esconder o ar de superioridade.

Principalmente quando Kayra tirava as fotos, fazia questão de posar como se fosse a grande vencedora.

Enquanto Roberto cumprimentava os convidados, Patrícia o chamava o tempo inteiro, insistindo que ele parasse o que estivesse fazendo para posar ao lado dela.

Valentina, percebendo o exagero, se aproximou e disse, com carinho:

— Patrícia, minha querida, já tiraram tantas fotos... Deixa a Kayrinha descansar um pouco, tá?

Patrícia respondeu com aquele sorriso doce e falso:

— Ah, imagina, Sra. Valentina! A Kayrinha é tão talentosa... Tirar essas poucas fotos não vai cansar ela, não é, Kayrinha?

Valentina franziu o cenho, incomodada:

—Eu vou chamar o fotógrafo da empresa pra continuar. A Kayrinha precisa descansar.

— Mas Sra. Valentina, como é que o fotógrafo da empresa vai se comparar com a Kayrinha? Hoje é o dia mais importante da minha vida com o Beto, só ela pode registrar nossos momentos mais felizes! — Patrícia fez biquinho, irritada:

Kayra não disse nada.

Terminou de tirar a última foto, foi até a equipe da empresa e devolveu a câmera, em silêncio.

Sem olhar pra trás, virou-se e foi embora.

Valentina correu atrás dela, preocupada:

— Kayrinha, onde é que você vai, minha filha?

Kayra sorriu de leve, com um olhar doce e triste ao mesmo tempo:

— Sra. Valentina, agora o Roberto tem a Patrícia pra cuidar dele. A senhora precisa cuidar mais da sua saúde também.

Valentina segurou a mão dela, emocionada:

— Minha filha, você também é como uma filha pra mim... Eu ainda tenho você, não tenho?

Kayra apertou suavemente a mão dela, os olhos marejados:

— Tem sim. Eu vou ser sempre sua filha.

Valentina respirou fundo, segurando as lágrimas:

— Kayrinha... Você sabe... Eu sempre achei que um dia você seria minha nora, que ia me chamar de "mãe"... Quem diria que o Beto... Que ele ia mudar tanto, assim, de uma hora pra outra...

Kayra balançou a cabeça, interrompendo com delicadeza:

— Dona Valentina, não fala mais nisso, tá bom?

— Tá certo... Não falo mais. — Respondeu ela, enxugando discretamente os olhos.

O telefone de Kayra tocou. Era o Professor Daniel.

— Kayra, você já tá indo pro aeroporto? Que horas o avião chega? Eu e a Mariana vamos te buscar. — A voz dele soava animada.

— Já estou saindo agora. — Respondeu ela, tranquila.

— Ótimo, então a gente se vê daqui a oito horas.

— Tá bom.

Assim que desligou, Kayra olhou o relógio.

Estava na hora.

Sem nem passar pela casa dos Santana, chamou um táxi direto pro aeroporto.

Enquanto aguardava na fila do embarque, o celular vibrou.

Era uma nova mensagem de Patrícia:

[Obrigada pelas fotos que você mesma tirou do meu casamento com o Beto. A gente amou! Ah, e daqui pra frente, lembra de me chamar de cunhada, tá?]

[Minha cunhadinha, irmã do Beto, que a gente se dê muito bem daqui pra frente, viu? (Vitória.jpg)]

Kayra leu, sem pressa, e soltou um sorriso frio.

Fez uma captura de tela.

Dessa vez, enviou direto para Roberto:

[Irmão, felicidades no casamento. Adeus.]

Assim que a mensagem foi entregue, ela bloqueou os dois. Um por um.

A partir daquele momento, estavam oficialmente fora da vida dela.

Ao se aproximar do portão, uma comissária sorriu cordialmente:

— Senhorita, boa viagem!

Kayra retribuiu o sorriso, serena:

— Obrigada. Com certeza será.

E, sem olhar para trás, embarcou no avião.
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