Cada palavra que Jeff dizia era como uma faca cravada no peito de Roberto.Sem perceber exatamente quando, a expressão dele foi escurecendo, até se tornar algo quase palpável, uma tempestade prestes a desabar.E antes que Jeff conseguisse terminar aquele elogio ao casal perfeito, Roberto o cortou com frieza:— Eu também tenho um compromisso urgente. Vamos deixar esse almoço para outro dia.Jeff, meio atônito com a mudança brusca de tom, apenas assentiu:— Claro, Sr. Roberto, fique à vontade. — E ainda tentou manter o tom profissional. — Quando tiver um tempinho, não esquece de me mandar as especificações das fotos, tá? Aí eu repasso pra Srta. Kayra.Jeff achava mesmo que eles tinham se conhecido naquele dia.Não fazia ideia do que se escondia por trás daquela formalidade tensa.Roberto, no entanto, não respondeu.Ou não ouviu, ou fingiu que não ouviu.Saiu apressado, sem olhar para trás, os passos firmes e rápidos.Jeff, que até pouco tempo antes estava conversando com ele como velhos
— Mesmo que você já seja maior de idade, ainda assim cresceu ao meu lado. Seus pais não estão mais aqui, então, claro que eu tenho que cuidar de você! Não vou deixar qualquer um te enganar! — Disse Roberto, a voz carregada de firmeza, o olhar frio e cortante ao encarar Gabriel.Roberto estava realmente irritado agora, e Kayra não conseguiu mais se conter. Pela primeira vez, decidiu falar o que sentia, sem rodeios:— Eu não estou com o Gabriel só para te provocar, Roberto! Eu realmente acho que ele é uma boa pessoa. Nesses dias que passamos juntos, eu me senti feliz, em paz... — Disse ela, com sinceridade transbordando em cada palavra.— Eu já disse que não, e ponto final! — Roberto explodiu, interrompendo-a com brutalidade. Bateu a faca com força na mesa, fazendo um barulho seco e estridente. — Kayra, você vai voltar pra casa comigo.Dessa vez, Kayra também se recusou a continuar suportando aquilo só por consideração ao Professor Daniel. Levantou-se de súbito, o olhar firme e a voz car
Roberto olhou para Kayra, incrédulo, como se não conseguisse acreditar no que acabara de ouvir. Seus lábios chegaram a se mover, tentando dizer algo, mas os policiais não deram a ele nenhuma chance.Kayra permaneceu ali, imóvel, impassível, até ter certeza de que Roberto seria levado para prestar depoimento e não teria mais como insistir ou persegui-la. Só então, respirando fundo, pegou o celular e ligou para Gabriel:— Você pode vir me buscar agora? — Onde você está? Eu vou agora mesmo. — Respondeu Gabriel sem hesitar, sem sequer questionar o motivo, partindo imediatamente para encontrá-la.Kayra ficou sozinha na calçada, o corpo frágil e encolhido, como se o menor vento pudesse levá-la embora.Assim que Gabriel chegou, ela o olhou com um leve alívio, mas a preocupação ainda marcava seu rosto quando perguntou:— O Professor Daniel está bem?— Está sim, só um pouco confuso. — Respondeu Gabriel com suavidade, tentando tranquilizá-la. — Mas não se preocupe, eu expliquei tudo pra ele.—
Patrícia estava apavorada, mas não ousava fugir. Com tantas dívidas acumuladas, sabia que, se não conseguisse arrancar dinheiro de Roberto, quando aqueles homens a encontrassem, seu destino seria muito pior, talvez a morte.Foi nesse momento que Roberto, ainda ao telefone, ouviu a confirmação de todas as suas suspeitas. Do outro lado da linha, o empregado falou com firmeza:— Foi a senhorita Patrícia, senhor. Ela mesma passou batom no próprio corpo, de propósito, para fazer a senhorita Kayrinha pensar outra coisa.Ao ouvir aquilo, Roberto fechou os olhos por um instante, como se a última esperança tivesse acabado de vez.Agora tudo fazia sentido. Entre adultos, um batom borrado no corpo só podia significar uma coisa: marcas que pareciam beijos.Patrícia observou Roberto encerrar a ligação e, em seguida, virar-se de costas para ela. Sem sequer olhar, ele fez um sinal discreto para o assistente, dizendo em voz fria:— Dê um jeito nisso. Eu não quero nunca mais ver essa mulher. O assiste
Kayra levantou o olhar e contemplou as montanhas à distância, tingidas pelas cores vibrantes do outono. Após alguns segundos, com um sorriso leve, sugeriu:— Gabriel, estou pensando em dar uma subida nas montanhas pra tirar umas fotos desse outono lindo. Quer ir comigo?Gabriel, sem nem pensar, respondeu com suavidade:— Claro. Para onde você quiser ir, eu vou com você.O sorriso de Kayra se abriu um pouco mais:— Estava pensando em passar um tempo perto dos Alpes. O que acha?— Então, vou arrumar nossas malas. — Respondeu Gabriel, prático e decidido. — Pode continuar descansando. Assim que eu terminar, te aviso.Enquanto os dois planejavam o novo destino, Roberto permanecia sozinho, sentado em um cômodo escuro, revirando os papéis que segurava nas mãos.A única luz vinha de um abajur de canto, mal iluminando o ambiente, deixando o rosto dele entre luz e sombra, como um prisioneiro de si mesmo.Do lado de fora, o assistente bateu na porta com cuidado:— Sr. Roberto, conforme o senhor p
O tempo é, de fato, o melhor remédio.No Natal, um ano depois, Roberto finalmente criou coragem para voltar à casa onde Kayra havia vivido, a primeira vez desde o desaparecimento dela.Apesar do tempo que passou, o interior da casa estava impecavelmente limpo, graças às ordens expressas dele: ninguém podia tocar em nada, ninguém podia mover sequer um objeto de lugar. Cada canto permanecia do jeito que Kayra deixou, como se ela tivesse saído dali apenas por alguns minutos.Naquele dia, Roberto dispensou os funcionários que costumavam cuidar da limpeza. Ele mesmo queria arrumar o espaço, como se, de alguma maneira, isso o aproximasse dela. Pegou os materiais e, em silêncio, começou a limpar o quarto, tocando cada objeto com um cuidado quase reverente.Foi nesse momento que o carteiro apareceu, entregando uma correspondência. Quando Roberto percebeu, o homem já havia ido embora, e tudo o que restava era o envelope, com uma caligrafia que ele reconheceria em qualquer lugar.Assustado, cor
— Mano, minha fotografia ganhou o prêmio de ouro internacional! Kayra Lima entrou correndo no quarto de Roberto Santana, eufórica, e sem conseguir se conter, se jogou nos braços dele, como fazia tantas vezes quando era criança, toda manhosa e carinhosa.Mas, no instante seguinte, um estalo seco ecoou no quarto. Um tapa forte acertou em cheio o rosto dela.Patrícia Amaral, recém-saída do banho, com uma toalha enrolada no corpo, bateu nela com violência e, tomada de fúria, ainda a empurrou sem dó.— Kayrinha, eu sou a namorada oficial dele, tá? Tô bem aqui! — Disparou Patrícia, os olhos cheios de raiva. — Se jogando pra cima dele desse jeito, o que você tá querendo, hein? Não tem vergonha? Vai continuar tentando seduzir o próprio irmão?O rosto de Kayra ardia. A dor latejava em sua pele, e os olhos se encheram de lágrimas, que ela se forçou a não derramar.Pois é... Como ela pôde esquecer?Roberto tinha namorada. E em breve se casaria.Kayra sempre fora órfã, e a família Santana a acolh
Kayra ficou vagando pelas ruas até de madrugada antes de voltar para casa.Decidir ir embora havia sido um impulso, mas não era fácil apagar sentimentos cultivados por mais de vinte anos.Ela não era tão forte quanto gostaria. Não conseguia simplesmente virar a página e esquecer tudo.Por isso, para não correr o risco de voltar atrás em sua decisão, preferia manter distância de Roberto nos quinze dias que ainda restavam.Quando finalmente voltou à mansão dos Santana, a casa estava mergulhada em silêncio e escuridão.Kayra não acendeu as luzes. Caminhou devagar, arrastando o corpo cansado em direção ao próprio quarto.Mas, ao passar pela sala, uma voz na penumbra interrompeu seus passos:— Kayra.Ela se virou devagar e viu uma figura reclinada no sofá.— Algum problema, Srta. Patrícia? — Perguntou com frieza.Patrícia estava deitada de lado, apoiada de maneira casual no braço do sofá, vestindo uma camisola curta de renda preta, que revelava mais do que escondia.Sorrindo de canto, com a