Capítulo 0004
Ao ouvir as palavras de Kayra, Roberto largou o copo com força, e o som seco do vidro contra a mesa ecoou pela sala:

— Fui eu que mandei. Algum problema? — Respondeu, frio como gelo.

Kayra o encarou, o peito subindo e descendo, sufocada pela raiva:

— E quem te deu o direito de mandar no meu quarto? — A voz dela cortava o ar. — Sem minha permissão? Por que mexer nas minhas coisas?

Roberto a olhou com desdém, como se a resposta fosse óbvia:

— Kayra, essa é a casa da família Santana. — Disse, impassível. — A Patrícia é minha noiva. Ela entra em qualquer quarto que quiser.

Aquelas palavras caíram sobre Kayra como um balde de água gelada, arrepiando até os ossos.

Patrícia, com um sorriso doce, mas carregado de veneno, repreendeu Roberto num tom meloso:

— Beto, amor, não fala assim com a Kayrinha... Ela vai ficar triste.

Depois, se virou para Kayra, fingindo preocupação:

— Kayrinha, me perdoa. É que as empregadas comentaram que o Beto sempre deixava roupas e sapatos no seu quarto... E como mulher tem muita roupa, né? Imagina, ele ocupando metade do seu armário, suas coisas não deviam nem caber direito. — Deu uma risadinha leve e completou, em tom fingidamente carinhoso. — Aí eu mesma me ofereci pra resolver, peguei tudo dele e levei pro nosso quarto. Achei que ia te ajudar.

Roberto sempre foi grudado nela.

Desde pequena, Kayra nunca recebeu uma carta de amor sequer, porque Roberto afastava qualquer pessoa que tentasse se aproximar.

Depois, ele foi além. Acabou levando as próprias roupas pro quarto dela, dizendo que assim, toda manhã, poderia sair de casa vestindo o que Kayra escolhesse, das camisas às gravatas.

E, no fim das contas, ela conhecia o guarda-roupa dele melhor do que ele próprio.

Sabia exatamente em qual prateleira ficava cada peça, cada gravata, cada detalhe.

Sem suportar a pressão, Kayra subiu as escadas rapidamente, o peito ardendo.

Quando abriu a porta do quarto, o choque a atingiu em cheio.

Tudo estava revirado.

Roupas pelo chão, sapatos espalhados, cosméticos derrubados, objetos pessoais jogados sem cuidado.

Ela respirou fundo, lutando contra a vontade de chorar, e então se virou bruscamente, a voz cortante:

— É assim que você tira as roupas dele, Patrícia?!

Patrícia arregalou os olhos, forçando lágrimas:

— Desculpa, Kayrinha... Eu não queria... Juro, foi sem querer...

Kayra soltou uma risada amarga, os olhos marejados:

— "Sem querer" transformar meu quarto num campo de guerra? É esse o seu cuidado?

Roberto, ouvindo de longe, subiu com o rosto fechado e, antes de ver a cena, já a repreendeu:

— Kayra, presta atenção no tom que você usa!

Ela o encarou, amarga, com um sorriso frio:

— Então, mesmo vendo isso, a culpa é minha de novo?

Roberto respirou fundo, irritado:

— A Patrícia é sua futura cunhada. Você tem que respeitá-la.

— Vem ver com seus próprios olhos, Roberto. — Kayra riu, sarcástica.

Roberto subiu lentamente as escadas e, ao ver o quarto completamente revirado, ficou um instante surpreso, sem saber o que dizer.

Mas foi só um momento.

Na sequência, olhou para Patrícia com um sorriso indulgente, quase rindo, como se aquilo fosse só uma travessura sem importância:

— Acho melhor a gente deixar pros empregados arrumarem o nosso quarto, né?

— Mas eu não quero que ninguém mexa nas minhas roupas... — Disse Patrícia, com voz doce, fazendo um biquinho. — Principalmente nas minhas lingeries...

Ela deu uma ênfase especial na palavra, pronunciando devagar, e o rosto logo se coloriu de vermelho, como se estivesse envergonhada, mas, no fundo, satisfeita com a provocação.

Roberto riu baixo, balançando a cabeça, com olhar carinhoso:

— Tá bom. Eu arrumo. Você só descansa, meu amor.

Patrícia fez uma carinha sapeca e colocou a língua pra fora, num gesto manhoso:

— Beto, será que eu estou ficando meio boba? — Disse, com um sorrisinho.

Roberto riu de leve e respondeu, cheio de doçura:

— Não tem problema. Comigo aqui, você pode ser boba o quanto quiser.

Kayra fechou os olhos, sufocada.

Nunca na vida Kayra tinha odiado tanto um maldito período de aviso prévio.

Se não fosse por isso, já teria cruzado o oceano há muito tempo, e não estaria ali, obrigada a assistir a toda aquela cena humilhante e nojenta.

— Kayra, vê direitinho aí o que a Patrícia estragou das suas roupas e dos seus equipamentos. Me passa o valor total que eu te pago. — Disse Roberto, como se estivesse resolvendo um simples problema.

Kayra riu, indignada, sem acreditar no que ouvia.

Então era isso?

Roberto agora também sabia usar dinheiro para calar as pessoas.

E pior: para calar justamente ela.

Patrícia ainda fez questão de encostar de leve no braço de Kayra, e sussurrou, com um sorriso disfarçado:

— Kayrinha, pode pedir um valor mais alto, viu? Comigo aqui, não importa quanto, ele vai ter que te pagar.

Roberto, ouvindo, riu e respondeu num tom de falsa brincadeira, mas cheio de carinho por Patrícia:

— Você agora tá do lado de fora, é? Se juntando com os outros para me deixar sem um tostão?

Patrícia fez uma careta fofa para ele, rindo:

— Ah, mas eu vou ser a cunhada da Kayrinha, né? Eu tenho que ficar do lado dela!

Kayra soltou uma risada fria, amarga.

Do lado de fora.

Outros.

Sim, agora eram eles dois que estavam juntos, como um casal perfeito, unidos contra o mundo.

E ela?

Ela, que cresceu naquela casa, não passava mesmo de uma de fora, uma estranha, apenas a menina órfã que a família Santana acolheu por caridade.

De repente, o telefone tocou, quebrando o silêncio pesado do quarto.

Era Professor Daniel.

Kayra respirou fundo, tentando ajeitar o tom de voz e esconder a dor que ainda queimava no peito.

Atendeu, com delicadeza:

— Professor Daniel?

Do outro lado da linha, Professor Daniel falou com aquele tom sempre gentil:

— Kayra, eu tava me lembrando daquela série de fotos de pássaros que você fez. Ficou incrível! O editor da revista aqui ficou interessado e queria dar uma olhada. Você consegue me enviar os negativos de novo?

Kayra forçou um sorriso:

— Consigo, sim, Professor Daniel. Me dá só um minutinho, por favor.

Kayra voltou para o quarto.

Ela sempre preferiu usar câmeras analógicas, e todos os negativos das fotos ficavam guardados com muito cuidado, numa gaveta pequena, trancada com chave.

Por puro instinto, ela começou a procurar a chave, já imaginando onde tinha deixado.

Mas, ao se aproximar do móvel, parou, surpresa e com o coração acelerado.

A gaveta estava encharcada.

Toda a madeira molhada, como se alguém tivesse derramado água ali de propósito.

— Kayrinha, me desculpa, viu? — Disse Patrícia, com a voz doce, mas cheia de falsidade. — Sem querer, eu derramei café aqui... E, com medo de manchar seu armário, acabei limpando tudo com bastante água... Lavei o armário inteiro!

Quanto mais Kayra ouvia, mais o coração dela gelava.

Ela nem quis discutir. Sem paciência pra ouvir Patrícia, pegou rapidamente a chave e abriu a gaveta.

Mas, no momento em que puxou o móvel, o que viu fez o mundo desabar diante dos seus olhos.

Os rolos de filmes fotográficos, cuidadosamente guardados por anos, estavam todos boiando na água suja.

Alguns já tinham se desenrolado, outros tinham perdido totalmente a cor.

Havia negativos manchados, grudados uns nos outros, num emaranhado impossível de separar.

A água tinha virado um marrom escuro, misturada com as tintas que antes coloriam as imagens.

Eram os negativos de mais de três anos de trabalho.

Três anos da vida dela, de suor, esforço, memórias.

Destruídos. Perdidos para sempre.

Kayra tremia da cabeça aos pés, de tanta raiva, sem conseguir dizer uma palavra.

Foi então que Roberto apareceu na porta, ninguém sabia há quanto tempo ele estava ali.

Ao ver a cena, olhou os negativos destruídos e, com total indiferença, falou:

— Vê aí quanto custa tudo isso. Soma o valor e me fala. Eu e a Patrícia pagamos.

Kayra, sem conseguir mais segurar, finalmente explodiu, com os olhos cheios de lágrimas e a voz embargada de raiva:

— Ela pode pagar o quê, Roberto?! Ela não faz ideia do que esses filmes significam pra mim! E você? Você também não sabe?!

Roberto franziu levemente a testa, impaciente:

— Mas agora já era, Kayra. Você se exaltando não vai mudar o que aconteceu. A Patrícia só quis me ajudar a tirar minhas roupas do seu quarto. Se derramou café, foi sem querer. Foi um acidente.

Kayra riu, incrédula, com os olhos cheios de lágrimas:

— Acidente?! E só por isso tá tudo bem?! Então se um acidente de carro mata alguém, é só dizer "desculpa" e pronto? Tudo resolvido?!

— Kayra! — Roberto elevou o tom, agora visivelmente irritado. — Não exagera! Como você pode comparar? Filme é uma coisa, vida é outra. Se perdeu, tira de novo. É só foto, não é o fim do mundo!

Do outro lado da linha, Professor Daniel percebeu o tom estranho e perguntou, preocupado:

— Kayra, tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa aí?

Kayra soltou um suspiro longo, pesado, como quem carrega o mundo nas costas, e respondeu, tentando manter a voz firme:

— Professor Daniel... Acho que não vou conseguir te enviar os negativos agora... Eles... Se perderam. Mas, se o senhor puder esperar, eu prometo fazer uma nova série de fotos e te mandar, tá bom?

— Claro, Kayra! Não precisa se preocupar, viu? — Respondeu ele, carinhoso. — De qualquer forma, o visto vai demorar umas duas semanas pra sair, então a gente tem tempo.

— Tá bom. Obrigada, professor.

Foi nesse momento que Roberto, que escutava a conversa ao fundo, levantou o olhar de repente, atento, o cenho franzido:

— Visto? — Perguntou, a voz carregada de desconfiança. — Você vai sair do país?
Sigue leyendo en Buenovela
Escanea el código para descargar la APP

Capítulos relacionados

Último capítulo

Escanea el código para leer en la APP