Kayra encerrou a ligação devagar, respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado, e começou a juntar a bagunça espalhada pelo chão.— O visto do Professor Daniel venceu. — Disse, mantendo a voz controlada. — Ele já tá velho, não pode ficar viajando para lá e para cá. Me pediu para ajudá-lo com a renovação.Roberto, de braços cruzados, a olhava com desconfiança:— Mas a filha dele não mora aqui? Por que ele não pede pra ela cuidar disso?Kayra levantou o rosto, o olhar frio e sem paciência:— Quer saber? Liga para ela e pergunta você mesmo.— Não tenho tempo pra essas coisas. — Então para de perguntar.Naquela noite, Kayra ficou acordada até de madrugada, tentando reorganizar o quarto, recolhendo cada pedaço daquele caos que Patrícia tinha deixado para trás.As roupas e sapatos que Patrícia tinha bagunçado e sujado, Kayra também não pretendia levar mais.Decidiu empilhar tudo num canto do armário, de qualquer jeito, como quem já não se importa.Kayra ainda conseguiu salvar alguns
Valentina também pareceu surpresa:— Kayrinha, minha filha, mesmo que você queira fazer caridade, a gente podia doar dinheiro, né? Por que doar todas as suas roupas? Tá esfriando, o que você vai vestir?Kayra olhou para Roberto, deu um leve sorriso e respondeu, tranquila:— Você não disse que ia ajudar a Patrícia a me indenizar? Essas roupas já estão velhas, não quero mais. Com o dinheiro, eu compro outras. Não pode?Roberto a encarou por alguns segundos antes de assentir, com um olhar desconfiado:— Pode. Quanto você quer? Eu te transfiro agora.Kayra ergueu apenas um dedo.Roberto arqueou a sobrancelha, surpreso:— Um milhão? Tudo bem.— Não.— Dez milhões?Patrícia, na hora, se desesperou:— O quê? Umas roupas velhas valem dez milhões agora?Kayra lançou um olhar frio para ela e, em seguida, voltou-se para Roberto, dizendo com firmeza:— Um real.Aquelas roupas tinham sido todas compradas por Roberto, à força, mesmo quando ela dizia que não precisava de nada. Agora que decidira ir
Assim que o avião pousou no aeroporto de Milão, Kayra sentiu um alívio profundo, como se tivesse finalmente deixado para trás o peso de anos de mágoas. Pela primeira vez em muito tempo, respirou fundo e sentiu que poderia recomeçar.Professor Daniel já tinha avisado que viria buscá-la com Mariana, a esposa dele, mas, ao olhar ao redor, Kayra percebeu que eles não estavam sozinhos.— Kayra, aqui! — Alguém acenava, animado.Ela sorriu, seguindo em direção a eles.Abraçou Mariana com carinho:— Mariana, você continua linda e jovem como sempre!Depois, olhou para o Professor Daniel com um sorriso maroto:— Professor Daniel, se o senhor não começar a se cuidar, daqui a pouco não vai mais merecer a Mariana, tão jovem e bonita desse jeito!Professor Daniel deu uma gargalhada gostosa:— Sua pestinha! Quanto tempo a gente não se vê e você já chega me zoando desse jeito?Kayra fingiu indignação, rindo:— Que nada, Professor! Eu estou te elogiando! Essa barba aí, gigante, só pode ser de fotógrafo
Aquela pergunta de Kayra caiu como uma bomba. Por um instante, o silêncio reinou absoluto dentro do carro, enquanto os três a olhavam, boquiabertos.Mariana tentou segurar o riso, mas não aguentou e tapou a boca, olhando de canto para o Professor Daniel, piscando com cumplicidade, como quem diz:"Olha só, hein... Tem alguma coisa aí!"Professor Daniel entendeu o recado na hora e deixou escapar um sorriso divertido, cheio de segundas intenções.Até Gabriel pareceu paralisado, sem saber como reagir àquela pergunta tão direta.Percebendo o clima estranho, Kayra resolveu explicar, com um tom leve, mas sério:— Sabe, Gabriel, o banco da frente, pra qualquer mulher, é um lugar especial. Se você tiver namorada, eu posso ir atrás com o Professor Daniel e a Mariana, sem problema nenhum.Gabriel rapidamente fez um gesto com a mão e respondeu:— Não, não... Eu não tenho namorada. Pode sentar-se aqui, sim. Fica tranquila.Kayra só então entrou no carro.Assim que Gabriel ligou o motor, Mariana olh
O celular caiu no chão com um baque seco.Roberto ficou ali, parado, como se tivessem arrancado a própria alma dele. Os olhos fixos no vazio, o rosto pálido. Não conseguia nem se mover.Por sorte, o telefone era resistente. Com a queda, o viva-voz foi ativado sozinho, e a voz do inspetor Davi encheu o quarto, carregada de tensão:— De fato, encontramos o corpo de uma mulher no reservatório da zona leste. Pela idade e pelas roupas, há uma grande chance de ser a Srta. Kayra...O silêncio se tornou sufocante.Patrícia arregalou os olhos, pálida como um papel.Kayra... Morreu?Por um segundo, o coração dela congelou. Ela tinha se suicidado?Ela amava tanto assim o Roberto? Tirou a própria vida justo no dia do casamento dele?Uma parte de Patrícia até se sentiu vitoriosa. Mas logo em seguida, um pensamento sombrio a invadiu como uma facada no peito:“Se ela morreu por causa do Roberto, ele nunca vai me perdoar. Nunca vai esquecer. Vai transformar ela na mulher perfeita, intocável. Como com
Roberto dirigia como um louco, acelerando o carro como nunca fizera na vida.Assim que parou na entrada do condomínio, saltou do carro ainda em movimento e deu de cara com o entregador.Mas o homem estava de mãos vazias.— Cadê a minha encomenda?! — Roberto agarrou o braço do rapaz, os olhos arregalados, a respiração ofegante. — Você disse que era da Kayra! Cadê?!O entregador, assustado, gaguejou:— S-Sr. Roberto? Eu... Eu entreguei pra sua esposa! Ela disse que assinava por você. Acabei de deixar com ela!— Esposa?! — Roberto rosnou, a raiva transbordando. — Eu não tenho esposa!— Mas... ela se apresentou como Sra. Santana... — O rapaz tremia.Roberto não escutou mais nada.Virou as costas e correu em disparada para a mansão, o sangue fervendo.— PATRÍCIA! — O grito dele ecoou pela casa, como um trovão. — CADÊ VOCÊ?!No banheiro, Patrícia tremia, pálida como um cadáver.Segurava a caixa nas mãos, o rosto banhado em suor frio. Em pânico, tentou jogar o conteúdo no vaso sanitário, luta
O segurança havia vindo e colocado Patrícia para fora, junto com todas as suas coisas.Só então Roberto sentiu que, finalmente, aquela casa estava um pouco mais tranquila.Ele segurava a caixa com a fotografia, passando os dedos delicadamente sobre a caligrafia que havia nela.Kayra estava com a família Santana desde pequena, e até mesmo aquelas letras haviam sido escritas por ela, letra por letra, com ele segurando sua mãozinha enquanto aprendia a escrever.— Kayrinha, onde será que você está agora? — Murmurou.Roberto abraçava a caixa com a foto como se segurasse o maior tesouro do mundo.— Kayrinha, onde você está?Kayra despertou assustada do sonho.Mariana olhou para ela e perguntou:— Por que essa cara? Teve um pesadelo?Kayra ainda parecia perdida, demorando a entender onde estava.Na verdade, naquela noite, o Professor Daniel e Mariana tinham saído com ela para jantar, aproveitando a ocasião para apresentá-la ao editor-chefe de uma revista internacional.Mas, como o editor teve
Roberto não fazia ideia de como conseguiu suportar aquelas oito horas de voo.Desde o momento em que Erik lhe deu a notícia, o primeiro sentimento que o invadiu foi a incredulidade.Ela foi embora?E para Milão?Mas como? Logo após o desaparecimento de Kayra, ele havia mandado investigar todas as listas de embarque dos aeroportos, e não existia nenhum registro de que ela tivesse saído do país.Ainda assim, mais forte que a dúvida, veio o alívio, ela estava viva. Só isso já parecia suficiente.Porém, logo depois, uma onda de raiva tomou conta dele.Por que ela tinha ido embora sem dizer uma palavra?Mesmo que quisesse ir para o exterior, por que nunca falou nada com ele?Kayra, por sua vez, havia conseguido alugar um novo apartamento e deixado a casa do Professor Daniel.Apesar de Daniel e Mariana serem sempre muito gentis e carinhosos, Kayra não queria abusar da hospitalidade deles por muito tempo.Quando Gabriel soube que ela se mudaria, fez questão de aparecer para ajudar.Chegando a