Capítulo 2

Olavo Castellani, médico de 40 anos, terminou mais um dia de trabalho exaustivo, em que mal teve tempo para começar. Depois de um banho rápido, foi à cozinha e pegou uma de suas muitas marmitas congeladas, que enchiam o congelador. Era assim quase todas as noites: uma refeição solitária, rápida, antes de encontrar algum momento de paz. Com um copo de uísque na mão, caminhou até a varanda do apartamento, sentou-se e permitiu-se, mais uma vez, relembrar sua vida.

Ele nasceu em uma família rica e tradicional, onde todos eram médicos. Desde pequeno, sempre soubemos que o mesmo destino o aguardava. Como único filho, carregava a expectativa dos pais de seguir os passos deles e dar continuidade ao legado familiar. Seus pais, rígidos e muito religiosos, vinham de um casamento arranjado. Não havia amor entre eles; sua união era um negócio de família, algo que Olavo cresceu observando em silêncio.

Na faculdade de medicina, o peso dessas expectativas tornou-se ainda maior quando seu pai foi informado com uma doença grave. O desejo do pai era claro: queria que Olavo se casasse e formasse sua própria família antes de partir. Sem forças para questionar, Olavo cedeu, acreditando que, talvez, o pai desistiu da ideia ou que fosse apenas uma fase. Mas, durante as férias, descubra que a vontade do pai era irredutível.

Um dia, seu pai o apresentou a Luzia, filha do melhor amigo da família, que ele conhecia desde criança. Não havia outro caminho, e Olavo e Luzia estavam noivos. Para ambas as famílias, não existia a opção de recusa; o destino dos dois já estava traçado. Ao longo do tempo, aprenderam a conviver e a se respeitarem. Olavo e Luzia tornaram-se amigos íntimos, companheiros que dividiram o peso de uma vida planejada para outras pessoas. Mas o amor verdadeiro, aquele que um dia imaginaram encontrar, jamais surgiu. Era uma amizade forte, porém sem paixão.

Então, numa noite após uma festa de família e um pouco de uísque misturado com outras bebidas, tudo mudou. Luzia ficou grávida, trazendo uma alegria inesperada para as duas famílias. Para Olavo, o filho representava uma nova chance de propósito. Pouco tempo depois, o pai de Olavo faleceu, sem conhecer o neto, mas com a certeza de que a linhagem da família estava segura.

Quando Eduardo nasceu, foi batizado em homenagem ao avô. A chegada do filho trouxe um pouco de luz à vida de Olavo e Luzia. Mas, naquele mesmo dia, um erro médico durante o parto levou Luzia embora. A felicidade de ser pai foi ofuscada pela dor da perda, e ele se viu sozinho, com um recém-nascido nos braços e a responsabilidade de cuidar de uma criança.

Agora, sentado na varanda, Olavo observava as luzes da cidade e pensava em tudo o que vivera. Eduardo, seu filho, agora com 20 anos, era um homem feito. Olavo dedicou sua vida a criá-lo da melhor forma possível, mas, ao fazer isso, deixou de lado qualquer chance de buscar sua própria felicidade.

Enquanto tomava mais um gole de uísque, ele refletia sobre tudo o que ainda não havia vivido. A vida o havia ensinado a renunciar, mas agora, ao encarar o silêncio da noite, ele se questionava se ainda havia tempo para descobrir um novo caminho, talvez uma nova forma de amor ou uma felicidade que até então nunca experimentou.

O apartamento de Olavo era silencioso, preenchido apenas com leve som do vento na varanda e o gelo derretendo lentamente em seu copo de uísque. Desde que seu filho, Eduardo, se mudou para outra cidade para estudar Direito, o silêncio se tornará uma presença constante. Olavo sentiu uma saudade intensa, mas, ao mesmo tempo, um orgulho imenso ao ver o filho traçar seu próprio caminho, longe das pressões que ele mesmo sofrerá. Nunca quis repetir os erros de seu pai, e sempre incentivou Eduardo a escolher o próprio destino.

Olavo nunca acreditou que o amor verdadeiro fosse feito para ele. Com o tempo, até desistiu da ideia. Ele até saiu com algumas mulheres, mas eram encontros passageiros, superficiais. Nunca passei de uma noite — sem trocas de nomes, sem promessas ou vínculos. Esses encontros não traziam satisfação, mas preenchiam momentaneamente o vazio que ele carregava.

Depois da partida de Eduardo, esse vazio se ampliou. As paredes do apartamento parecem mais frias, e Olavo, mais isolado. Às vezes, ainda sentia o eco da voz do filho, lembranças de conversas, risadas e até dos conselhos que ele lhe dava. Eduardo sempre disse que Olavo deveria se permitir amar novamente, que ele merecia encontrar alguém e ser feliz. Para Eduardo, seu pai ainda tinha muito a viver, ainda tinha tempo para experimentar o amor que nunca realmente conheceu. Mas, para Olavo, essa parecia uma fantasia distante.

Olavo lembrou da última conversa que teve com sua mãe antes de ela falecer. Ela também foi uma mulher prisioneira das escolhas dos outros. Um casamento sem amor, uma vida cheia de expectativas não realizadas. Naquela conversa, a mãe o havia confiante, com um olhar triste, que sua maior dor era não ter conhecido a alegria de um amor verdadeiro, de uma vida escolhida por ela mesma. Olavo pensou nisso agora, sem querer repetir a mesma história. Ele não queria deste mundo amargurado, como sua mãe. Ele queria — precisava — descobrir o que era a felicidade, mesmo que não soubesse onde ou como encontrar.

Olavo deu mais um gole no uísque e suspirou profundamente. Será que ainda havia tempo para ele? Será que, depois de tantos anos, ainda poderia encontrar o amor? Ele não sabia a resposta, mas ali, naquele silêncio, uma semente de esperança começava a germinar. A vida lhe parecia dar uma nova chance, e Olavo, talvez pela primeira vez, estava disposto a tentar.

Olavo se deparava com um novo desafio: sua secretária, que trabalhava na clínica há décadas e cuidava de todos os detalhes para ele, resolvera se aposentar. Ela havia sido uma verdadeira pilastra, alguém que não apenas auxiliava nas tarefas diárias, mas que também conhecia cada paciente e a história da clínica como ninguém. Trabalhava ali desde os tempos em que o pai de Olavo ainda dirigia o consultório, e com o tempo se tornará parte quase permanente do lugar.

Apesar da notícia ter sido dada com antecedência, ele não pôde evitar o impacto de sua partida. Sabia que não seria fácil encontrar um substituto que estivesse à altura. A clínica, para ele, era mais que um local de trabalho: era o legado de sua família, algo que ele mantinha por tradição e orgulho. A escolha de uma nova secretária precisava ser cuidadosa, alguém que não apenas possuísse as habilidades possíveis, mas também que estivesse disposta a entender o ritmo e a cultura que a clínica representava.

Com apenas alguns meses para encontrar alguém, Olavo sentiu a pressão. Sem a experiência de sua antiga secretária, pequenas tarefas poderiam se transformar em grandes transtornos. Ele precisaria de alguém capaz de gerenciar não apenas uma agenda, mas sim de todo o consultório médico, onde muitas vezes os pacientes antigos ainda o chamavam pelo sobrenome de seu pai.

Olavo: Será que ainda existem pessoas que se dedicam dessa forma?, pensou Olavo. Por onde começar? A seleção de novos profissionais era algo distante para ele, uma responsabilidade que sua secretária sempre assumia. Agora, com ela prestes a partir, ele precisaria tomar decisões que nunca imaginou fazer por conta própria.

Ele planejou publicar o anúncio da vaga nos jornais locais. Precisava de alguém com habilidade, experiência, mas principalmente disposição para abraçar aquela clínica como um novo lar profissional. E, secretamente, Olavo também desejava que essa nova fase pudesse trazer algo mais, uma renovação que ele deveria ter procurado antes.

Leia este capítulo gratuitamente no aplicativo >

Capítulos relacionados

Último capítulo