Doze dias se passaram até que Kael finalmente abriu os olhos. Seu corpo estava pesado, e sua visão demorava a se acostumar com a luz fraca que atravessava a janela estreita. O cheiro de ervas amargas pairava no ar, misturado ao aroma de cera queimada.
— Sente-se melhor? — A voz feminina soou suave, mas carregada de intenção. Kael virou a cabeça com dificuldade e encontrou uma mulher ao lado da cama, depositando uma bandeja com frascos e unguentos sobre o criado-mudo. Ele se sobressaltou, mas conteve a reação. — Quem é você? Ela sorriu, inclinando-se levemente na direção dele. Seus dedos pairaram sobre a faixa que cobria o ferimento em seu ventre. — Tenho muitas respostas, mas nenhuma convincente o suficiente para não parecer uma ameaça. — Seu tom era divertido, mas os olhos mantinham um brilho calculista. — Mas não se preocupe. Quando o encontrei, você já estava morto, capitão. Se quisesse que morresse, bastava deixá-lo onde estava. Kael se recostou contra os travesseiros, permitindo que ela tocasse na bandagem. Seus dedos eram frios, precisos. — Seu nome? — Me chamam de Ágata. Ele permaneceu em silêncio por um instante, avaliando-a. — Por que fez isso? — Isso o quê? — Por que me salvou? — perguntou, apertando de leve o curativo. A dor era suportável, mas real. Ágata segurou um dos frascos contra a luz, observando o líquido espesso em seu interior. Não o olhou ao responder: — Porque mortos não cumprem profecias. Kael franziu o cenho. Ela não mencionou promessas, nem sangue derramado, nem o destino que pesava sobre ambos. Algumas verdades eram facas viradas para dentro. — Uma longa história, mas... — Andrômeda... — Kael interrompeu, segurando o pulso dela com firmeza, os olhos sombrios. — Antes que me conte seja lá o quê, vamos diminuir a conversa. Eu enterrei o corpo dela na margem do rio. Quando eu me recuperar, posso levá-la até lá. O cenho de Ágata se franziu levemente, mas sua expressão logo relaxou em algo quase divertido. — Agora, cale a boca e me deixe em paz. Eu sou maga, não médica. Kael hesitou, então murmurou: — Obrigado. — Por salvar sua vida? Ele balançou a cabeça. — Por cuidar dela. Ágata soltou um suspiro exagerado. — Ela era bonita. O que passou pela cabeça dela para se apaixonar por alguém feio como você? — O tom zombeteiro aplacava o peso na sala, mas Kael apenas sorriu, sombrio. Ele sabia exatamente por que se apaixonara por Andrômeda. O que não sabia era por que ela havia se apaixonado por ele. — Devia ter perguntado isso a ela — murmurou, olhando para o nada. Ágata terminou de ajeitar as bandagens e se levantou. — Mais alguns dias e partimos. — Partimos? — Sim. — Para onde? — No jantar conversamos melhor. Agora, descanse. Antes que ele pudesse protestar, ela já caminhava até a porta. Seus passos eram lentos, medidos, carregando uma calma enervante. Kael a observou em silêncio, tentando decifrar sua intenção. Não confiava nela, mas também não encontrava um motivo convincente para que o tivesse salvo. A porta se fechou, e ele soltou um longo suspiro. Sentia-se exausto, como se algo dentro dele tivesse sido arrancado. Seus olhos vagaram pelo quarto. As paredes de pedra escura, a lareira acesa num canto, os frascos de poções deixados por Ágata. Tudo parecia estranho e familiar ao mesmo tempo. Mas o desconforto não vinha do ambiente. Vinha de dentro. Ele fechou os olhos, tentando se lembrar da última coisa antes de apagar. Sangue. Dor. Azrael caindo morto a seus pés. A fúria, queimando como uma tempestade sem fim. E então... o toque frio de Ágata puxando algo dele. *A alma.* Os olhos de Kael se abriram de repente. *Metade de sua alma.* Era isso que faltava. Um rugido silencioso cresceu dentro dele, mas seu corpo fraco o traiu. Ele cerrou os punhos, frustrado. Precisava se recuperar. Precisava entender o que Ágata havia feito. Deitou-se novamente, forçando os olhos a se fecharem. O sono veio devagar, mas quando finalmente chegou, não trouxe sonhos. Apenas o vazio.Horas depois, o cheiro de carne assada e especiarias o despertou. O quarto estava escuro, exceto pela lareira ainda acesa. Kael se levantou devagar, sentindo as dores no corpo protestarem. Vestiu uma camisa negra dobrada ao lado da cama e seguiu pelo corredor estreito de pedra, guiado pelo aroma da comida. A sala de jantar era menor do que esperava. Uma mesa de madeira robusta ocupava o centro, iluminada por velas suspensas por correntes no teto. Ágata estava sentada, servindo-se de um prato generoso. — Você demorou, Capitão. Pensei que ia desmaiar de novo — ela sorriu, tomando um gole de vinho. Kael puxou a cadeira e sentou-se sem responder de imediato. Pegou um pedaço de pão e levou à boca, mastigando lentamente. — Agora me diga. O que realmente quer de mim? Ágata ergueu uma sobrancelha. — Direto ao ponto. Gosto disso — ela girou a taça de vinho entre os dedos. — Eu quero que você viva, Kael. Ele riu, seco. — Você roubou metade da minha alma — Kael rosnou, esmagando o
Cambaleando pelo corredor estreito, Kael sentia o mundo girar a cada passo. O vinho pesava em seu sangue mais do que deveria, e algo lhe dizia que Agatha, apesar de ter bebido ainda mais, permanecia sóbria por um motivo que ele ainda não conseguia decifrar. Mas seus pensamentos estavam turvos demais para isso agora. Tudo o que queria era dormir. Fechar os olhos. Esquecer. Quem sabe, se tivesse sorte, sonharia com Andrômeda. Mas nem mesmo a embriaguez foi capaz de enganá-lo. A realidade era implacável. Andrômeda estava morta. A dor veio como uma lâmina afiada, cravando-se fundo em seu peito. O ar fugiu de seus pulmões, os músculos travaram, e ele desabou contra a porta do quarto. O chão frio sob seu rosto não trouxe alívio algum. Com esforço, arrastou-se até a fechadura, forçando a porta a se abrir. Assim que o fez, um perfume familiar o envolveu. Kael parou. O cheiro delicado pairava no ar, preenchendo cada canto do cômodo. Lírios. Andrômeda amava lírios. Dizia que eram flo
Kael desceu do sótão, ainda perdido em pensamentos sobre o encontro inesperado com Boldar. Caminhava pelo corredor rumo ao quarto quando algo do lado de fora chamou sua atenção. Ao passar por uma das janelas, parou abruptamente. Lá fora, uma das árvores se moveu. Não foi um simples balançar de vento ou o farfalhar rotineiro das folhas. Ela deslizou pelo solo, como se estivesse viva. Franziu o cenho, inclinando-se para enxergar melhor. Outra árvore repetiu o movimento, depois outra, e mais outra, como se a floresta inteira estivesse… caminhando. Foi então que as palavras de Agatha ecoaram em sua mente: "A casa anda em reforma." Ele piscou. Aquilo não era uma metáfora. A casa realmente andava. Kael recuou um passo, observando melhor a estrutura ao redor. Por fora, parecia pequena, quase insignificante, mas lá dentro… era imensa, confortável, aconchegante de um jeito estranho. Aquilo exigia um nível altíssimo de magia. Ele soltou um riso curto. — Uma maga de primeiro nível
Nos três dias seguintes, Kael e Ágata permaneceram na vila. Kael reforçou as cercas, cavou um novo poço e inspecionou os estábulos. Ágata, por sua vez, canalizou sua magia para restaurar parte das plantações ressecadas. Apesar dos esforços, os ataques às carroças dos viajantes continuavam sem sentido, e Kael precisava descobrir a verdade. À noite, na taverna da aldeia, ele espalhou um boato: um novo carregamento de cerveja estava a caminho, escoltado por um mercador rico, dono da fabricação. Como esperado, o "lobo" atacou novamente. Mas não havia mercador, apenas uma armadilha cuidadosamente montada para revelar a verdade. Durante o confronto, Kael percebeu que não era um lobo atacando as carroças — eram homens. Os bandidos usaram a lã das ovelhas desaparecidas para criar disfarces e encobrir seus rastros. Após um combate breve, Kael os capturou e os levou ao ancião da vila. Exausto, retornou à casa onde estavam hospedados. Quando o terceiro dia amanheceu, a vila respirava com ma
Bazzard era uma cidade de pedra e ferro, com ruas fervilhantes de mercadores, guardas e viajantes. Kael e Ágata passaram pelos portões sem dificuldades, exibindo o selo do rei. — Vamos direto à prisão — disse Ágata. O prédio era sombrio e úmido, impregnado pelo cheiro metálico de ferrugem e algo mais… algo que Kael reconheceu no instante em que cruzou a entrada. Ódio. Quando a cela de Yoran foi aberta, a reação dele foi imediata. Um soco certeiro atingiu Kael no queixo, jogando-o para trás. — Acha que eu sou idiota?! — rosnou Yoran. — Acha que eu não ia sentir esse cheiro podre em você?! Kael se ergueu, limpando o canto da boca, o olhar endurecido. — Filho da— Antes que terminasse, revidou o golpe, arremessando Yoran contra a parede. Ágata segurou seu braço antes que ele avançasse de novo. — Chega. Yoran cuspiu no chão e estreitou os olhos para ela. — O que vocês querem? — Falar com você — respondeu Ágata, soltando Kael. — Mas, se preferir continuar bancando o
Kael estava quase sem fôlego com a história. A tensão aumentava a cada palavra, mas Yoram continuou, impassível: — A voz me ofereceu algo... algo que eu nem sabia que queria. Falou de riquezas, conforto, e até me mostrou uma visão do que poderia ser meu futuro, caso aceitasse. Sei o que você está pensando: que tipo de idiota cai num poço, encontra uma vela falante e ainda escuta o que ela tem a dizer? — Ele riu, sem humor, balançando a cabeça. — Eu concordo. Mas eu estava desnorteado, sem saber o que fazer. E quando a vela me prometeu que eu poderia trazer Yure de volta, eu não hesitei. Aceitei na hora. O silêncio pairou por um instante antes de Yoram continuar, sua voz levemente rouca. — Assim que aceitei... a vela se apagou. E eu caí. Caí sem parar. O mundo ao meu redor desmoronava, e a cada vez que meu corpo colidia contra algo, eu amaldiçoava aquela maldita vela. Mais uma pancada, e eu teria morrido. Kael respirou fundo, processando as informações, tentando encaixar as peça
O aroma forte e envolvente do café recém-passado preenchia o ambiente, despertando lentamente os sentidos de quem ainda repousava. O sol da manhã filtrava-se pelas janelas da cozinha, projetando sombras suaves sobre a madeira envelhecida da casa. As paredes de pedra e a mesa rústica de carvalho compunham o cenário onde Boldar estava, encostado no batente da porta, a xícara de barro entre os dedos longos. Seus olhos vermelhos eram uma lâmina na penumbra—um brilho inquietante, quase melancólico. O cabelo negro escorria sobre os ombros, com uma única mecha branca destoando no topo da cabeça. Ele parecia uma obra-prima inacabada—força crua e beleza trágica em uma só figura. "" Kael inclinou-se para trás na cadeira, despreocupado. O brilho cortante dos olhos âmbar denunciava que sua letargia era enganosa—ele estava sempre pronto para agir. As cicatrizes sob sua pele contavam histórias que ele jamais se daria ao trabalho de narrar." O cabelo castanho, desgrenhado, caía preguiçosamente so
A Taverna do Falcão Negro era um buraco decadente. O chão de madeira rangia sob os pés dos clientes embriagados, e o ar cheirava a cerveja fermentada, suor e carne assada. Homens riam alto, engrossando suas histórias de batalha, enquanto outros apostavam em jogos de dados e cartas. O grupo se sentou em um canto discreto, observando. Não demorou para que notassem Lake, o comandante dos Fúria da Noite e um dos chefes da guarda real. Ele estava no centro do salão—grande, robusto, com uma barriga ligeiramente protuberante, mas ombros largos e braços fortes. Sua armadura, embora gasta, ainda parecia imponente, e sua espada repousava sobre a mesa ao lado de uma caneca cheia. Falava alto, gabando-se de feitos passados, enquanto os homens ao redor riam e brindavam. Bêbado e descuidado, em um gesto brusco, ele atirou uma garrafa na direção da porta. Kael, que passava naquele momento, desviou com facilidade, mas a garrafa estourou contra a parede. — Ei, cuidado aí. Lake se viro