— Então foi um erro que virou eterno. Meu pai escreveu sobre isso, um ritual que rachou o mundo. Você ficou preso, e o Elias... ele achou outro jeito de ficar. Essas ruínas são onde tudo começou.Os três avançaram pelas ruínas, o som dos passos ecoando nas pedras quebradas, o ar úmido grudando na pele enquanto o crepúsculo dava lugar à escuridão. O medalhão guiava Victor, o brilho dourado ficando mais forte à medida que chegavam ao centro da igreja – um círculo de colunas tombadas, as sombras dançando como se tivessem vida. Elena parou ao lado dele, os olhos verdes fixos nas marcas escuras no chão, um tom que podia ser sujeira antiga ou algo mais profundo, mais vivo. O lugar parecia pulsar, um eco que batia no peito dela como nos sonhos.Um estalo seco quebrou o silêncio, um galho partindo sob um peso que não era deles. Elena virou a cabeça, os olhos verdes arregalando-se enquanto uma sombra se movia entre as colunas, lenta, deliberada. Victor deu um passo à frente, o medalhão brilhan
Elena Carter nunca acreditou em primeiras impressões. Para ela, eram uma mistura de chute preguiçoso e otimismo ingênuo – alguém olhava para um terno amarrotado ou um sorriso forçado e achava que podia decifrar uma pessoa inteira. Na melhor das hipóteses, uma aposta; na pior, uma cilada para quem lia capas de revista como se fossem evangelho. Mas ali, enquanto o elevador subia lentamente rumo ao trigésimo andar da Blackwood Enterprises, ela sentiu que estava formando uma opinião antes mesmo de pisar no carpete caro. O ar dentro do cubículo metálico cheirava a limpeza obsessiva – álcool, desinfetante e um toque de arrogância corporativa. O silêncio era denso, quebrado apenas pelo zumbido do motor e pelo tamborilar dos dedos dela contra a alça da bolsa, um hábito nervoso que ela nunca conseguira largar. O elevador era uma caixa de aço reluzente, com botões alinhados em uma fileira precisa e um painel digital que piscava os números dos andares com uma lentidão quase provocadora. Elena a
O resto da manhã passou num borrão de tarefas básicas que pareciam desenhadas para testar sua paciência. Configurar o e-mail corporativo foi um exercício de frustração – a senha temporária que Margaret lhe dera ("Blackwood123", criativo demais) exigiu três tentativas até funcionar, e o sistema travou duas vezes antes de carregar. Organizar a agenda de Victor significou decifrar uma série de anotações enviadas por e-mail, algumas com instruções tão vagas que pareciam charadas – "Reunião com R&D, confirmar horário" ou "Ligar para J. Klein, urgente". Responder mensagens foi ainda pior; Margaret jogara uma pilha de papéis e um pendrive em sua mesa com um grunhido que dizia "não me pergunte nada", e Elena passou uma hora separando solicitações banais (como "preciso de mais grampeadores no terceiro andar") de e-mails crípticos que mencionavam Victor com uma reverência quase assustadora – "O Sr. Blackwood saberá o que fazer" ou "Ele já viu isso antes".Por volta das onze, ela já estava com os
Elena acordou na manhã seguinte com o som insistente do despertador, um barulho que parecia mais um grito de guerra do que um convite gentil para começar o dia. A luz cinzenta de março se infiltrava pelas cortinas finas do seu apartamento, projetando sombras tortas nas paredes descascadas. Ela rolou na cama, esticando a mão para silenciar o aparelho, e ficou deitada por um momento, encarando o teto manchado de infiltração. O primeiro dia na Blackwood Enterprises ainda pesava em sua mente como uma névoa densa – Victor Blackwood com seus olhos de aço, Damien Leclerc com seu sorriso provocador, e aquele murmúrio quase inaudível que ela jurava ter ouvido: "Não outra vez." Era ridículo, claro. Provavelmente só cansaço e imaginação demais. Mas, enquanto se levantava e arrastava os pés até o banheiro minúsculo, não conseguia sacudir a sensação de que algo estava fora de lugar. O apartamento era um reflexo da vida dela – pequeno, funcional, mas à beira do caos. A pia da cozinha estava cheia d
— Isso é coincidência ou ele tem um radar pra nos encontrar? — perguntou Elena, forçando um tom leve, mas o coração batendo mais rápido. — Com o Victor, nunca é só coincidência — respondeu Damien, terminando o café com um gole rápido. — Vamos, a reunião é em cinco minutos. Não queremos o chefe eterno bravo com a gente. --- A reunião com a NovaTech foi um teste de resistência. A sala de conferências era uma caixa de vidro e aço no vigésimo andar, com uma mesa longa cercada por cadeiras de couro e uma tela que exibia gráficos coloridos que Elena mal entendia. Victor presidia a mesa, os olhos cinza fixos nos representantes da NovaTech – dois homens de ternos caros e uma mulher de tailleur azul que falava rápido demais sobre "sinergias" e "metas de crescimento". Elena entregou o café preto a Victor, sentindo os dedos dele roçarem os dela por um instante – frios, quase gelados –, e sentou-se ao lado dele, o caderno aberto para anotar tudo. Damien estava do outro lado da mesa, liderando
Elena acordou com o eco do sonho ainda reverberando em sua mente, os olhos cinza da figura sombria fixos nela como se pudessem atravessar o véu entre o sono e a vigília. O quarto estava escuro, o relógio marcando 5h43, e a chuva da noite anterior reduzira-se a um gotejar intermitente contra a janela. Ela ficou deitada por alguns minutos, encarando o teto manchado, tentando convencer-se de que era só um pesadelo – o resultado de um dia longo, fotos antigas e a imaginação que sempre fora seu pior inimigo. Mas o peso no peito não cedia, e o sussurro do seu nome naquela voz grave continuava a ecoar, como se tivesse deixado uma marca invisível. Arrastou-se da cama, os pés tocando o chão frio com um estremecimento, e caminhou até o banheiro, o espelho refletindo uma versão dela que parecia mais pálida do que o normal. Os cabelos castanhos estavam emaranhados, os olhos verdes opacos com o cansaço, e as olheiras mais pronunciadas do que no dia anterior. "Você está ótima, campeã," murmurou par
A reunião com o financeiro foi um exercício de paciência. A sala de conferências era a mesma do dia anterior – vidro e aço, gráficos na tela, cadeiras de couro que rangiam a cada movimento. Victor estava lá, sentado à cabeceira como um rei em seu trono, os olhos cinza fixos nos relatórios que Elena entregara a ele com um leve tremor nas mãos. O chefe do financeiro, um homem baixo de óculos grossos chamado Harold, falava em um tom monótono sobre "margens de lucro" e "projeções trimestrais", enquanto Elena anotava tudo no caderno, o café preto de Victor intocado ao lado dele. Ele parecia mais distante hoje, o rosto uma máscara de pedra, mas os olhos a seguiam sempre que ela se movia – ajustando a caneta, virando uma página, cruzando as pernas sob a mesa. Era sutil, quase imperceptível, mas ela sentia o peso daquele olhar como uma corrente invisível. Quando Harold terminou, Victor tomou a palavra, a voz grave cortando o ar como uma lâmina afiada. — As projeções estão abaixo do esperad
Elena acordou com o bilhete anônimo ainda ecoando em sua mente, as palavras "Ele vive demais" gravadas como uma tatuagem invisível. O relógio marcava 5h07, o quarto escuro envolto no silêncio pesado da madrugada, quebrado apenas pelo gotejar intermitente da chuva contra a janela do beco. Ela ficou deitada por um momento, encarando o teto manchado de infiltração, o peso da noite sem sono pressionando os ombros como uma mão fria. O sonho da floresta escura voltara, os olhos cinza brilhando na névoa, mas dessa vez a voz não dissera seu nome – apenas repetira "vive demais" num sussurro que parecia atravessar o tempo. Levantou-se, o chão gelado sob os pés descalços enviando um arrepio que a acordou o suficiente para acender a luz fraca da cozinha. O apartamento era um caos familiar – a pia cheia de pratos que ela ignorava há dias, o sofá de segunda mão com a mola solta cutucando o tecido, o cheiro de café velho pairando no ar. Pegou o bilhete da bolsa, desdobrando-o sobre a mesa bamba, e e