Capítulo 03

Elena acordou na manhã seguinte com o som insistente do despertador, um barulho que parecia mais um grito de guerra do que um convite gentil para começar o dia. A luz cinzenta de março se infiltrava pelas cortinas finas do seu apartamento, projetando sombras tortas nas paredes descascadas. Ela rolou na cama, esticando a mão para silenciar o aparelho, e ficou deitada por um momento, encarando o teto manchado de infiltração. O primeiro dia na Blackwood Enterprises ainda pesava em sua mente como uma névoa densa – Victor Blackwood com seus olhos de aço, Damien Leclerc com seu sorriso provocador, e aquele murmúrio quase inaudível que ela jurava ter ouvido: "Não outra vez." Era ridículo, claro. Provavelmente só cansaço e imaginação demais. Mas, enquanto se levantava e arrastava os pés até o banheiro minúsculo, não conseguia sacudir a sensação de que algo estava fora de lugar.

O apartamento era um reflexo da vida dela – pequeno, funcional, mas à beira do caos. A pia da cozinha estava cheia de pratos que ela prometera lavar "amanhã" há três dias, o sofá de segunda mão tinha uma mola solta que cutucava quem se sentasse por muito tempo, e a janela que dava para o beco deixava entrar mais barulho de latas de lixo sendo reviradas por gatos do que ar fresco. Elena se olhou no espelho do banheiro – cabelos castanhos desgrenhados, olheiras leves sob os olhos verdes, e uma expressão que dizia "eu sobrevivi ao dia um, vamos ver o dia dois". Escovou os dentes com uma energia que não sentia, jogou água fria no rosto para acordar, e vestiu uma calça preta e uma blusa cinza que pareciam gritar "sou profissional, mas não me leve tão a sério". O blazer do dia anterior voltou ao seu lugar de honra sobre os ombros, e ela pegou a bolsa, pronta para enfrentar o trigésimo andar novamente.

O trajeto até a Blackwood Enterprises foi um borrão de metrô lotado e ruas molhadas pela chuva fina que começara durante a noite. A cidade parecia acordar devagar, os pedestres escondidos sob guarda-chuvas pretos, os carros jogando água das poças nas calçadas. Quando chegou ao prédio, o lobby já estava mais movimentado que no dia anterior – seguranças de rostos impassíveis vigiavam as portas giratórias, funcionários de ternos caros passavam apressados com copos de café nas mãos, e o som da fonte minimalista no centro do espaço criava um murmúrio constante que quase abafava o barulho das conversas. Elena passou pelo crachá no leitor, sentindo o peso do cartão plastificado na mão, e subiu no elevador com um grupo de pessoas que pareciam evitá-la – ou talvez fosse só paranoia de segundo dia.

O trigésimo andar a recebeu com o mesmo silêncio opressivo, o mármore preto refletindo as luzes embutidas como um espelho escuro. Margaret estava na recepção, as unhas escarlates tamborilando no teclado, o olhar fixo na tela como se Elena fosse invisível. Ela passou direto, murmurando um "bom dia" que não esperava ser respondido, e foi para sua sala. A mesa ainda parecia estranha – o computador, a cadeira, o caderno com anotações do dia anterior –, mas ela jogou a bolsa na cadeira e ligou a máquina, preparando-se para a reunião das dez com a NovaTech. O café preto de Victor era a prioridade, então ela desceu até a copa do andar, uma sala pequena com uma máquina de café que parecia cara demais para o gosto amargo que produzia. Preparou uma caneca para ele – preto, sem açúcar, sem complicações – e outra para si, com um toque de leite que ela sabia que ele desaprovaria.

De volta à sala, Elena abriu o e-mail corporativo e encontrou uma mensagem de Victor, enviada às 6h47 da manhã: "Reunião com NovaTech às 10h. Esteja na sala de conferências com antecedência. Traga os relatórios de vendas do último trimestre." Ela franziu a testa, olhando para a pilha de papéis que Margaret jogara em sua mesa no dia anterior. Relatórios de vendas? Não havia nada etiquetado assim, só um amontoado de documentos com títulos genéricos como "Resumo Q4" e "Projeções". Suspirou, pegando a caneca de café e começando a folhear os papéis, o cheiro de tinta e papel velho misturando-se ao aroma do café. Foi então que encontrou algo que não esperava – uma pasta digital anexada a um e-mail antigo, intitulada "Arquivo Histórico – Blackwood Enterprises". Curiosidade, sua velha amiga, tomou conta, e ela clicou.

A pasta abriu uma coleção de fotos em preto e branco, algumas coloridas, todas datadas de décadas passadas. Eventos de gala, cerimônias de inauguração, reuniões de diretoria – a história da empresa em imagens granuladas. Elena passou os olhos pelas fotos, sorrindo com os penteados exagerados dos anos 80 e os ternos largos dos anos 70, até que uma imagem a fez parar. Era uma foto de 1965, segundo a legenda – "Inauguração da filial oeste, 15 de março de 1965". Homens de gravatas finas e mulheres de vestidos longos posavam em frente a um prédio de tijolos, mas no canto direito da imagem estava Victor Blackwood. Ou alguém idêntico a ele. O mesmo cabelo preto penteado para trás, os mesmos olhos cinza penetrantes, a mesma postura rígida que ela vira no escritório no dia anterior. A legenda dizia "Victor Blackwood, fundador", e Elena sentiu um frio na espinha.

— Isso é impossível — murmurou ela para si mesma, inclinando-se mais perto da tela como se pudesse encontrar uma explicação nos pixels.

Passou para a próxima foto – 1972, um jantar de gala. Lá estava ele novamente, idêntico. Depois, 1985, a mesma foto que vira no dia anterior, com Victor no canto, imutável. 1999, uma conferência de tecnologia – o mesmo rosto, a mesma expressão. Elena piscou, o coração acelerando. Não havia rugas, nem fios grisalhos, nem sinais do tempo. Era como se ele tivesse sido congelado, um homem fora do fluxo natural da vida. Ela balançou a cabeça, rindo nervosa. Devia ser um erro, um parente com o mesmo nome, uma brincadeira de mau gosto. Mas a consistência das imagens, a falta de qualquer mudança, plantava uma semente de dúvida que ela não conseguia arrancar.

O relógio na tela marcava 9h45 quando Damien apareceu na porta, o cabelo loiro ainda bagunçado, o sorriso torto iluminando o espaço.

— Oi, sobrevivente. Pronta pra reunião com a NovaTech? — perguntou Damien, encostando-se no batente com uma casualidade que parecia ensaiada.

— Quase. Só tentando encontrar esses relatórios de vendas que o Sr. Blackwood quer — respondeu Elena, levantando a pilha de papéis com um gesto dramático. — E lidando com uma crise existencial sobre fotos antigas. Normal, né?

Damien riu, entrando na sala e sentando-se na borda da mesa, o peso fazendo a madeira ranger.

— Fotos antigas? Deixa eu adivinhar: você achou o arquivo histórico e viu o Victor em todo o seu esplendor eterno — disse ele, o tom brincalhão carregado de uma insinuação que a fez franzir a testa.

— Como você sabe disso? — perguntou Elena, inclinando a cabeça, os olhos estreitando-se em suspeita.

— Todo mundo que fica aqui tempo o suficiente acha essas fotos. Ele nunca muda, Elena. É tipo um superpoder ou uma maldição, dependendo de como você vê — respondeu Damien, dando de ombros como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Que tal um café antes da reunião? Você parece precisar de uma pausa antes de enfrentar o chefe de gelo de novo.

Elena hesitou, olhando para a caneca quase vazia e a pilha de papéis. A reunião era em quinze minutos, mas a ideia de um café – e talvez mais respostas – era tentadora.

— Tá bem, mas só se você prometer não me deixar atrasada — disse ela, levantando-se e pegando a bolsa. — E se tiver mais histórias esquisitas sobre o Victor, eu quero ouvir.

— Combinado — respondeu Damien, abrindo um sorriso largo. — Vamos lá.

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Eles desceram até a cafeteria do prédio, um espaço no térreo com mesas de metal polido e uma máquina de café que parecia saída de uma nave espacial. O cheiro de grãos torrados enchia o ar, misturado ao som de conversas abafadas e do tilintar de xícaras. Damien pediu dois cafés – preto para ele, com leite para ela, ignorando o olhar de julgamento dela – e eles se sentaram numa mesa perto da janela, o vidro embaçado pela chuva fina que continuava caindo lá fora.

— Então, me conta mais sobre esse "chefe eterno" — disse Elena, tomando um gole do café e sentindo o calor descer pela garganta. — Você realmente acha que ele não envelhece?

— Acho? Eu sei — respondeu Damien, inclinando-se para frente com um brilho nos olhos azuis. — Trabalhei aqui cinco anos, e ele nunca mudou. Nem uma ruga, nem um cabelo grisalho. As fotos só confirmam o que todo mundo sussurra: Victor Blackwood é um mistério ambulante.

— Isso é loucura. Deve ter uma explicação lógica. Botox, cirurgia, um DNA de parentes idênticos,sei lá — retrucou Elena, rindo nervosa, mas a dúvida crescendo dentro dela como uma erva daninha.

— Pode ser. Ou pode ser algo mais estranho. Ele é o tipo de cara que parece ter visto tudo, sabe? Tipo, tudo mesmo — disse Damien, o tom baixando como se estivesse compartilhando um segredo. — Mas relaxa, você vai se acostumar. Ou vai pirar tentando entender.

Elena abriu a boca para responder, mas um movimento no canto do olho a fez virar a cabeça. Victor estava lá, do outro lado da cafeteria, entrando com aquele passo calculado que parecia desafiar o caos ao redor. Ele não olhou para eles, mas os olhos cinza varreram o ambiente por um instante, e Elena sentiu um arrepio subir pela espinha. Ele segurava o medalhão dourado nas mãos, os dedos traçando os contornos como na noite anterior, e o peso daquele gesto a fez engolir em seco.

— Fala do diabo... ou do iceberg — murmurou Damien, seguindo o olhar dela e rindo baixo. — Ele sempre aparece onde você menos espera.

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