Elena caminhou até o escritório de Victor, o corredor parecendo mais longo do que o normal, o clique dos saltos ecoando como um tamborilar de guerra. Bateu na porta, o som firme contra a madeira escura, e a voz grave respondeu de dentro. — Entre — disse Victor, o timbre baixo carregado de um peso que parecia atravessar o espaço. Ela abriu a porta, o escritório austero recebendo-a com o mesmo silêncio opressivo – a mesa de mogno polida, as cadeiras de couro preto, as pinturas abstratas nas paredes brancas. Victor estava de pé perto da janela, olhando para a cidade lá embaixo, o terno cinza-escuro impecável contra o vidro embaçado pela chuva. Na mão direita, ele segurava o medalhão dourado, os dedos longos e pálidos traçando os contornos como se fosse um ritual antigo. A luz fraca refletia no ouro, destacando detalhes que ela não vira antes – gravuras intricadas, talvez símbolos, que pareciam dançar sob o movimento dos dedos dele. — Seu café, Sr. Blackwood — disse Elena, colocando a c
Elena ficou paralisada, o desenho ainda repousando no chão como uma relíquia caída de um altar profano, os traços delicados da mulher de 1789 encarando o teto com uma serenidade que parecia zombar do caos que tomava conta dela. O escritório de Victor Blackwood, mergulhado na penumbra fria da noite, parecia encolher ao redor dela, as paredes brancas e as pinturas abstratas transformando-se em sentinelas silenciosas que testemunhavam o confronto. O coração dela batia descontrolado, um tamborilar frenético contra as costelas que ecoava em seus ouvidos como um tambor de guerra, enquanto os olhos cinza de Victor a perfuravam com uma intensidade que era ao mesmo tempo acusatória e insondável. Ele estava na porta, a figura alta e imponente recortada contra a luz fraca do corredor, o terno cinza-escuro impecável como uma armadura que escondia qualquer vulnerabilidade. Mas havia algo nos olhos dele – uma sombra que não era só raiva, um peso que parecia atravessar o espaço entre eles como uma co
O dia passou numa névoa de tarefas que ela executava no piloto automático, a mente girando em torno de Victor e do mistério que ele representava. Os e-mails chegavam em um fluxo constante – solicitações de reuniões, relatórios para revisar, lembretes de prazos que pareciam se multiplicar como ervas daninhas –, e ela respondia com uma eficiência mecânica que escondia o caos interno. A reunião das 10h com a NovaTech foi cancelada por um e-mail curto de Victor – "Adiada para amanhã. Prepare os dados revisados" –, e ela passou a manhã organizando números e gráficos que mal entendia, os olhos ardendo de tanto encarar a tela. O café preto que levara para ele ficou intocado na mesa do escritório, uma oferenda rejeitada que ela recolheu em silêncio, o calor da caneca contrastando com o frio que sentia nas mãos. Victor a evitava, isso era claro como o dia. Quando precisava de algo, enviava mensagens curtas por e-mail – "Cancele a ligação das 11h", "Envie os relatórios para o financeiro até o m
Ele hesitou, as palavras presas na garganta, mas finalmente falou, a voz baixa e comedida. — Boa noite, Senhorita Carter — disse Victor. Ela assentiu, recuando, os passos rápidos e desajeitados enquanto fugia em direção ao elevador. As portas deslizaram abertas com um leve "ding", e ela entrou, pressionando o botão do térreo com mais força do que o necessário. Enquanto o elevador descia, o zumbido do motor preenchia o silêncio, mas não conseguia abafar a tempestade de pensamentos girando em sua mente. O desenho, o medalhão, o bilhete — tudo se entrelaçava como vinhas, sufocando-a com perguntas que ela não podia responder. A viagem para casa foi um borrão — ruas escorregadias pela chuva refletindo as luzes da cidade, o ronco do metrô vibrando através de seus ossos. Ela mal registrava o mundo ao redor, os pensamentos presos naquele escritório, naqueles olhos cinza que pareciam ver demais. Quando chegou ao apartamento, o cansaço era um peso físico, arrastando-a enquanto ela lutava com
A manhã no trigésimo andar da Blackwood Enterprises amanheceu com um silêncio que parecia mais pesado do que o usual, o ar carregado de uma tensão que Elena Carter sentia nos ossos como um frio que não explicava. O zumbido constante do ar condicionado era o único som que quebrava a quietude, misturando-se ao tamborilar intermitente da chuva contra as janelas do chão ao teto. Ela chegou cedo, como vinha fazendo desde o primeiro dia, o blazer cinza amarrotado jogado sobre os ombros como uma armadura que já não escondia o cansaço que carregava. Os cabelos castanhos estavam presos num coque frouxo, alguns fios teimosos escapando para emoldurar o rosto pálido, e os olhos verdes, normalmente brilhantes com sarcasmo, estavam opacos, marcados por noites mal dormidas e sonhos que a perseguiam como fantasmas. Elena jogou a bolsa na cadeira da pequena sala que agora chamava de sua, o som abafado da lona contra o couro ecoando no espaço vazio. Ligou o computador, a tela piscando à vida com uma le
O Grand Plaza era um mundo à parte, um salão de baile que parecia saído de um conto de fadas distorcido pela ostentação moderna. Lustres de cristal pendiam do teto abobadado, lançando luzes que dançavam sobre o chão de mármore polido, e as paredes eram decoradas com tapeçarias que pareciam custar mais do que o apartamento de Elena inteiro. Mesas redondas cobertas com toalhas brancas impecáveis estavam espalhadas pelo salão, cada uma adornada com arranjos florais que exalavam um perfume doce e enjoativo. Homens de smoking e mulheres em vestidos longos circulavam pelo espaço, taças de champanhe nas mãos, risadas falsas ecoando como música de fundo enquanto uma banda ao vivo tocava um jazz suave no canto. Damien guiou Elena pelo salão com uma facilidade que sugeria que ele pertencia àquele mundo, o braço dela encaixado no dele enquanto ele apontava convidados com comentários sussurrados que a faziam rir. "Aquele ali é o dono da NovaTech, acha que é o rei do universo," disse ele, apontand
### Capítulo 7 – O Peso do Olhar A manhã seguinte ao jantar beneficente trouxe uma ressaca leve que Elena Carter não podia culpar inteiramente pelo champanhe. O zumbido em sua cabeça era mais do que o eco de taças tilintando ou da música suave que preenchera o Grand Plaza na noite anterior – era o peso do sonho, o rosto de Victor Blackwood marcado por séculos de tristeza, os olhos cinza brilhando com um tormento que ela não conseguia apagar da mente. O apartamento estava silencioso, exceto pelo gotejar intermitente da chuva contra a janela do beco, um som que parecia acompanhar o pulsar lento em suas têmporas enquanto ela se arrastava da cama. A luz cinzenta de março infiltrava-se pelas cortinas finas, projetando sombras tortas nas paredes descascadas, e o ar carregava um cheiro de umidade e café velho que ela não tinha energia para renovar. Elena ficou de pé por um momento, encarando o teto manchado de infiltração, os pés descalços contra o chão frio enviando um arrepio que a acordo
— Você foi ao jantar ontem — disse ele, a voz grave cortando o silêncio como uma lâmina, o tom neutro, mas carregado de uma intensidade que a fez engolir em seco. A menção ao jantar a pegou desprevenida, e ela inclinou a cabeça, o sarcasmo voltando como um escudo contra o desconforto que crescia em seu peito. — Fui — respondeu ela, o tom leve, mas com um toque de provocação que não resistiu em adicionar. — Não sabia que você era fã de eventos beneficentes, Sr. Blackwood. Você parecia bem à vontade no canto, segurando aquele medalhão como se fosse seu par da noite. Os olhos dele estreitaram-se por uma fração de segundo, a mandíbula apertando-se numa linha dura, e ela achou que ele responderia – que deixaria escapar algo, qualquer coisa, que explicasse o peso daquele olhar no salão. Ele abriu a boca, os lábios se movendo como se as palavras estivessem na ponta da língua, mas então recuou, fechando-se como uma porta batendo. O tormento nos olhos cinza era claro agora, uma tempestade qu