Ele hesitou, as palavras presas na garganta, mas finalmente falou, a voz baixa e comedida. — Boa noite, Senhorita Carter — disse Victor. Ela assentiu, recuando, os passos rápidos e desajeitados enquanto fugia em direção ao elevador. As portas deslizaram abertas com um leve "ding", e ela entrou, pressionando o botão do térreo com mais força do que o necessário. Enquanto o elevador descia, o zumbido do motor preenchia o silêncio, mas não conseguia abafar a tempestade de pensamentos girando em sua mente. O desenho, o medalhão, o bilhete — tudo se entrelaçava como vinhas, sufocando-a com perguntas que ela não podia responder. A viagem para casa foi um borrão — ruas escorregadias pela chuva refletindo as luzes da cidade, o ronco do metrô vibrando através de seus ossos. Ela mal registrava o mundo ao redor, os pensamentos presos naquele escritório, naqueles olhos cinza que pareciam ver demais. Quando chegou ao apartamento, o cansaço era um peso físico, arrastando-a enquanto ela lutava com
A manhã no trigésimo andar da Blackwood Enterprises amanheceu com um silêncio que parecia mais pesado do que o usual, o ar carregado de uma tensão que Elena Carter sentia nos ossos como um frio que não explicava. O zumbido constante do ar condicionado era o único som que quebrava a quietude, misturando-se ao tamborilar intermitente da chuva contra as janelas do chão ao teto. Ela chegou cedo, como vinha fazendo desde o primeiro dia, o blazer cinza amarrotado jogado sobre os ombros como uma armadura que já não escondia o cansaço que carregava. Os cabelos castanhos estavam presos num coque frouxo, alguns fios teimosos escapando para emoldurar o rosto pálido, e os olhos verdes, normalmente brilhantes com sarcasmo, estavam opacos, marcados por noites mal dormidas e sonhos que a perseguiam como fantasmas. Elena jogou a bolsa na cadeira da pequena sala que agora chamava de sua, o som abafado da lona contra o couro ecoando no espaço vazio. Ligou o computador, a tela piscando à vida com uma le
O Grand Plaza era um mundo à parte, um salão de baile que parecia saído de um conto de fadas distorcido pela ostentação moderna. Lustres de cristal pendiam do teto abobadado, lançando luzes que dançavam sobre o chão de mármore polido, e as paredes eram decoradas com tapeçarias que pareciam custar mais do que o apartamento de Elena inteiro. Mesas redondas cobertas com toalhas brancas impecáveis estavam espalhadas pelo salão, cada uma adornada com arranjos florais que exalavam um perfume doce e enjoativo. Homens de smoking e mulheres em vestidos longos circulavam pelo espaço, taças de champanhe nas mãos, risadas falsas ecoando como música de fundo enquanto uma banda ao vivo tocava um jazz suave no canto. Damien guiou Elena pelo salão com uma facilidade que sugeria que ele pertencia àquele mundo, o braço dela encaixado no dele enquanto ele apontava convidados com comentários sussurrados que a faziam rir. "Aquele ali é o dono da NovaTech, acha que é o rei do universo," disse ele, apontand
### Capítulo 7 – O Peso do Olhar A manhã seguinte ao jantar beneficente trouxe uma ressaca leve que Elena Carter não podia culpar inteiramente pelo champanhe. O zumbido em sua cabeça era mais do que o eco de taças tilintando ou da música suave que preenchera o Grand Plaza na noite anterior – era o peso do sonho, o rosto de Victor Blackwood marcado por séculos de tristeza, os olhos cinza brilhando com um tormento que ela não conseguia apagar da mente. O apartamento estava silencioso, exceto pelo gotejar intermitente da chuva contra a janela do beco, um som que parecia acompanhar o pulsar lento em suas têmporas enquanto ela se arrastava da cama. A luz cinzenta de março infiltrava-se pelas cortinas finas, projetando sombras tortas nas paredes descascadas, e o ar carregava um cheiro de umidade e café velho que ela não tinha energia para renovar. Elena ficou de pé por um momento, encarando o teto manchado de infiltração, os pés descalços contra o chão frio enviando um arrepio que a acordo
— Você foi ao jantar ontem — disse ele, a voz grave cortando o silêncio como uma lâmina, o tom neutro, mas carregado de uma intensidade que a fez engolir em seco. A menção ao jantar a pegou desprevenida, e ela inclinou a cabeça, o sarcasmo voltando como um escudo contra o desconforto que crescia em seu peito. — Fui — respondeu ela, o tom leve, mas com um toque de provocação que não resistiu em adicionar. — Não sabia que você era fã de eventos beneficentes, Sr. Blackwood. Você parecia bem à vontade no canto, segurando aquele medalhão como se fosse seu par da noite. Os olhos dele estreitaram-se por uma fração de segundo, a mandíbula apertando-se numa linha dura, e ela achou que ele responderia – que deixaria escapar algo, qualquer coisa, que explicasse o peso daquele olhar no salão. Ele abriu a boca, os lábios se movendo como se as palavras estivessem na ponta da língua, mas então recuou, fechando-se como uma porta batendo. O tormento nos olhos cinza era claro agora, uma tempestade qu
A noite caiu sobre o apartamento de Elena Carter como uma cortina pesada, o som da chuva contra a janela do beco um tamborilar constante que parecia acompanhar o pulsar inquieto em seu peito. Depois do confronto com Victor no escritório e da conversa com Damien, ela voltara para casa exausta, o peso das palavras dele – "um fardo eterno" – agarrado a ela como uma sombra que não conseguia sacudir. O apartamento estava silencioso, exceto pelo ranger ocasional das tábuas do chão sob seus pés e pelo zumbido fraco da geladeira que lutava para manter o pouco que havia dentro dela fresco. As paredes descascadas pareciam fechar-se ao redor, o teto manchado de infiltração encarando-a como um olho acusador enquanto ela jogava a bolsa na mesa bamba, o som metálico das chaves ecoando no vazio. Elena não se deu ao trabalho de comer – o cereal na pia ainda exalava um cheiro azedo que revirava seu estômago, e a ideia de cozinhar parecia um esforço monumental demais para o estado em que estava. Vestiu
— Livia, hein? Parece que ela tá virando sua colega de quarto imaginária — disse ele, inclinando-se mais perto, o tom conspiratório. — Olha, você tá trabalhando demais, lidando com o Victor e seus olhares de gelo. Esses sonhos são só o estresse falando. Que tal um café decente pra te tirar dessa névoa? Tem uma cafeteria no térreo que não te envenena como a máquina da copa. Elena hesitou, o convite pairando no ar como uma corda jogada para alguém se afogando. A ideia de sair do trigésimo andar, mesmo que por meia hora, era tentadora – um respiro da tensão que a sufocava, dos olhos de Victor que ela sabia que estavam em algum lugar, observando-a mesmo estando tão distante. O cansaço venceu, e ela assentiu, um movimento pequeno que parecia mais pesado do que deveria. — Tá bem, você venceu — disse ela, o tom leve, mas com uma sombra de alívio que não conseguia esconder. — Mas se o café for ruim, eu te culpo. — Fechado — respondeu Damien, o sorriso alargando-se em triunfo enquanto se lev
O fim da semana chegou como um alívio hesitante para Elena Carter, mas o peso dos últimos dias – os sonhos persistentes, os bilhetes enigmáticos, os olhares gélidos de Victor Blackwood – agarrava-se a ela como uma sombra que não conseguia dissipar. Era sexta-feira, o trigésimo andar da Blackwood Enterprises esvaziando-se lentamente enquanto os funcionários corriam para aproveitar o fim de semana, o zumbido do ar condicionado misturando-se ao som abafado de conversas e passos apressados no corredor. Elena terminou o último relatório por volta das 17h, as mãos dormentes de tanto digitar, os olhos ardendo de encarar a tela, e salvou o arquivo com um clique que parecia alto demais no silêncio que tomava conta do espaço. O bilhete de Victor – "Fique longe do que não entende" – estava dobrado na gaveta da mesa, um aviso que ela não podia ignorar, mas que só alimentava o fogo da curiosidade que queimava dentro dela. Ela pegou a bolsa, o blazer cinza amarrotado jogado sobre os ombros como uma