Capítulo 04

— Isso é coincidência ou ele tem um radar pra nos encontrar? — perguntou Elena, forçando um tom leve, mas o coração batendo mais rápido.

— Com o Victor, nunca é só coincidência — respondeu Damien, terminando o café com um gole rápido. — Vamos, a reunião é em cinco minutos. Não queremos o chefe eterno bravo com a gente.

---

A reunião com a NovaTech foi um teste de resistência. A sala de conferências era uma caixa de vidro e aço no vigésimo andar, com uma mesa longa cercada por cadeiras de couro e uma tela que exibia gráficos coloridos que Elena mal entendia. Victor presidia a mesa, os olhos cinza fixos nos representantes da NovaTech – dois homens de ternos caros e uma mulher de tailleur azul que falava rápido demais sobre "sinergias" e "metas de crescimento". Elena entregou o café preto a Victor, sentindo os dedos dele roçarem os dela por um instante – frios, quase gelados –, e sentou-se ao lado dele, o caderno aberto para anotar tudo.

Damien estava do outro lado da mesa, liderando a apresentação da campanha de marketing com uma confiança que beirava a arrogância. Ele falava sobre o vídeo futurista que custara uma fortuna – "um mergulho no amanhã", ele chamou –, e os representantes assentiam, impressionados. Victor, no entanto, permanecia impassível, os dedos tamborilando levemente na caneca enquanto ouvia. Elena tentava se concentrar, mas sua mente voltava para as fotos, para o rosto imutável de Victor, para o comentário de Damien sobre ele ser "mais velho do que parece". Quando Damien terminou, Victor tomou a palavra, a voz grave cortando o ar como uma lâmina.

— A campanha é aceitável. Mas quero os números revisados até sexta-feira. Não tolero projeções otimistas sem base — disse Victor, os olhos fixos nos representantes, que assentiram rapidamente.

— Claro, Sr. Blackwood. Vamos ajustar tudo — respondeu o homem mais velho, um sujeito de cabelo grisalho que parecia nervoso sob aquele olhar.

Elena anotou a ordem, sentindo a tensão no ar. Victor virou-se para ela, o rosto tão perto que ela podia ver os detalhes dos olhos – pupilas escuras cercadas por um cinza que parecia quase metálico.

— Certifique-se de que os relatórios estejam na minha mesa amanhã cedo — disse ele, a voz baixa, mas com um peso que a fez engolir em seco.

— Sem problema — respondeu Elena, forçando um sorriso que não sentia. — Está na minha lista.

A reunião terminou com apertos de mão e promessas de e-mails, e Elena saiu da sala com Damien, o corredor parecendo mais frio depois da presença de Victor.

— Viu? Ele é um charme, né? — disse Damien, rindo enquanto caminhavam de volta ao trigésimo andar.

— Um charme que congela o ambiente — retrucou Elena, esfregando os braços como se pudesse afastar o frio que sentia. — Como você aguenta isso há cinco anos?

— Costume. E um pouco de teimosia — respondeu Damien, parando na porta da sala dela. — Quer um conselho? Não tente entender o Victor. Só sobreviva a ele.

Ela riu, mas o peso das palavras ficou com ela pelo resto do dia.

---

O expediente terminou às seis, e Elena voltou para casa exausta, o metrô balançando enquanto ela segurava a bolsa contra o peito. O apartamento estava silencioso, exceto pelo barulho da chuva batendo na janela, e ela jogou-se no sofá, a mola solta cutucando suas costas como um lembrete da realidade. Comeu uma tigela de cereal – jantar de campeã – e tentou assistir TV, mas os pensamentos sobre Victor e as fotos antigas não a deixavam em paz. Quando finalmente foi para a cama, o cansaço a puxou para o sono quase imediatamente.

O sonho veio como uma onda. Ela estava numa floresta densa, as árvores altas e escuras, o chão coberto de folhas úmidas que estalavam sob seus pés. O ar era frio, carregado de um cheiro de terra e musgo, e uma névoa fina pairava entre os troncos. À frente, uma figura sombria se movia – alta, indistinta, envolta em sombras que pareciam engolir a luz. Elena tentou correr, mas suas pernas pareciam presas, o chão agarrando seus pés como lama. A figura virou-se, e ela viu os olhos – cinza, brilhantes, como os de Victor. Uma voz ecoou, grave e distante, atravessando a névoa como um sussurro que não precisava de ar para existir.

— Elena — disse a voz, e o som do nome dela a fez estremecer.

Ela acordou com um grito preso na garganta, o coração disparado, o quarto escuro ao seu redor. O relógio marcava 3h17, e a chuva ainda batia na janela, um tamborilar constante que não a acalmava. Sentou-se na cama, respirando fundo, tentando afastar a imagem daqueles olhos. Era só um sonho, disse a si mesma. Só um sonho. Mas, enquanto tentava voltar a dormir, a sensação de ser observada não a abandonava.

Continue lendo no Buenovela
Digitalize o código para baixar o App

Capítulos relacionados

Último capítulo

Digitalize o código para ler no App