A reunião com o financeiro foi um exercício de paciência. A sala de conferências era a mesma do dia anterior – vidro e aço, gráficos na tela, cadeiras de couro que rangiam a cada movimento. Victor estava lá, sentado à cabeceira como um rei em seu trono, os olhos cinza fixos nos relatórios que Elena entregara a ele com um leve tremor nas mãos. O chefe do financeiro, um homem baixo de óculos grossos chamado Harold, falava em um tom monótono sobre "margens de lucro" e "projeções trimestrais", enquanto Elena anotava tudo no caderno, o café preto de Victor intocado ao lado dele. Ele parecia mais distante hoje, o rosto uma máscara de pedra, mas os olhos a seguiam sempre que ela se movia – ajustando a caneta, virando uma página, cruzando as pernas sob a mesa. Era sutil, quase imperceptível, mas ela sentia o peso daquele olhar como uma corrente invisível. Quando Harold terminou, Victor tomou a palavra, a voz grave cortando o ar como uma lâmina afiada. — As projeções estão abaixo do esperad
Elena acordou com o bilhete anônimo ainda ecoando em sua mente, as palavras "Ele vive demais" gravadas como uma tatuagem invisível. O relógio marcava 5h07, o quarto escuro envolto no silêncio pesado da madrugada, quebrado apenas pelo gotejar intermitente da chuva contra a janela do beco. Ela ficou deitada por um momento, encarando o teto manchado de infiltração, o peso da noite sem sono pressionando os ombros como uma mão fria. O sonho da floresta escura voltara, os olhos cinza brilhando na névoa, mas dessa vez a voz não dissera seu nome – apenas repetira "vive demais" num sussurro que parecia atravessar o tempo. Levantou-se, o chão gelado sob os pés descalços enviando um arrepio que a acordou o suficiente para acender a luz fraca da cozinha. O apartamento era um caos familiar – a pia cheia de pratos que ela ignorava há dias, o sofá de segunda mão com a mola solta cutucando o tecido, o cheiro de café velho pairando no ar. Pegou o bilhete da bolsa, desdobrando-o sobre a mesa bamba, e e
Elena caminhou até o escritório de Victor, o corredor parecendo mais longo do que o normal, o clique dos saltos ecoando como um tamborilar de guerra. Bateu na porta, o som firme contra a madeira escura, e a voz grave respondeu de dentro. — Entre — disse Victor, o timbre baixo carregado de um peso que parecia atravessar o espaço. Ela abriu a porta, o escritório austero recebendo-a com o mesmo silêncio opressivo – a mesa de mogno polida, as cadeiras de couro preto, as pinturas abstratas nas paredes brancas. Victor estava de pé perto da janela, olhando para a cidade lá embaixo, o terno cinza-escuro impecável contra o vidro embaçado pela chuva. Na mão direita, ele segurava o medalhão dourado, os dedos longos e pálidos traçando os contornos como se fosse um ritual antigo. A luz fraca refletia no ouro, destacando detalhes que ela não vira antes – gravuras intricadas, talvez símbolos, que pareciam dançar sob o movimento dos dedos dele. — Seu café, Sr. Blackwood — disse Elena, colocando a c
Elena ficou paralisada, o desenho ainda repousando no chão como uma relíquia caída de um altar profano, os traços delicados da mulher de 1789 encarando o teto com uma serenidade que parecia zombar do caos que tomava conta dela. O escritório de Victor Blackwood, mergulhado na penumbra fria da noite, parecia encolher ao redor dela, as paredes brancas e as pinturas abstratas transformando-se em sentinelas silenciosas que testemunhavam o confronto. O coração dela batia descontrolado, um tamborilar frenético contra as costelas que ecoava em seus ouvidos como um tambor de guerra, enquanto os olhos cinza de Victor a perfuravam com uma intensidade que era ao mesmo tempo acusatória e insondável. Ele estava na porta, a figura alta e imponente recortada contra a luz fraca do corredor, o terno cinza-escuro impecável como uma armadura que escondia qualquer vulnerabilidade. Mas havia algo nos olhos dele – uma sombra que não era só raiva, um peso que parecia atravessar o espaço entre eles como uma co
O dia passou numa névoa de tarefas que ela executava no piloto automático, a mente girando em torno de Victor e do mistério que ele representava. Os e-mails chegavam em um fluxo constante – solicitações de reuniões, relatórios para revisar, lembretes de prazos que pareciam se multiplicar como ervas daninhas –, e ela respondia com uma eficiência mecânica que escondia o caos interno. A reunião das 10h com a NovaTech foi cancelada por um e-mail curto de Victor – "Adiada para amanhã. Prepare os dados revisados" –, e ela passou a manhã organizando números e gráficos que mal entendia, os olhos ardendo de tanto encarar a tela. O café preto que levara para ele ficou intocado na mesa do escritório, uma oferenda rejeitada que ela recolheu em silêncio, o calor da caneca contrastando com o frio que sentia nas mãos. Victor a evitava, isso era claro como o dia. Quando precisava de algo, enviava mensagens curtas por e-mail – "Cancele a ligação das 11h", "Envie os relatórios para o financeiro até o m
Ele hesitou, as palavras presas na garganta, mas finalmente falou, a voz baixa e comedida. — Boa noite, Senhorita Carter — disse Victor. Ela assentiu, recuando, os passos rápidos e desajeitados enquanto fugia em direção ao elevador. As portas deslizaram abertas com um leve "ding", e ela entrou, pressionando o botão do térreo com mais força do que o necessário. Enquanto o elevador descia, o zumbido do motor preenchia o silêncio, mas não conseguia abafar a tempestade de pensamentos girando em sua mente. O desenho, o medalhão, o bilhete — tudo se entrelaçava como vinhas, sufocando-a com perguntas que ela não podia responder. A viagem para casa foi um borrão — ruas escorregadias pela chuva refletindo as luzes da cidade, o ronco do metrô vibrando através de seus ossos. Ela mal registrava o mundo ao redor, os pensamentos presos naquele escritório, naqueles olhos cinza que pareciam ver demais. Quando chegou ao apartamento, o cansaço era um peso físico, arrastando-a enquanto ela lutava com
A manhã no trigésimo andar da Blackwood Enterprises amanheceu com um silêncio que parecia mais pesado do que o usual, o ar carregado de uma tensão que Elena Carter sentia nos ossos como um frio que não explicava. O zumbido constante do ar condicionado era o único som que quebrava a quietude, misturando-se ao tamborilar intermitente da chuva contra as janelas do chão ao teto. Ela chegou cedo, como vinha fazendo desde o primeiro dia, o blazer cinza amarrotado jogado sobre os ombros como uma armadura que já não escondia o cansaço que carregava. Os cabelos castanhos estavam presos num coque frouxo, alguns fios teimosos escapando para emoldurar o rosto pálido, e os olhos verdes, normalmente brilhantes com sarcasmo, estavam opacos, marcados por noites mal dormidas e sonhos que a perseguiam como fantasmas. Elena jogou a bolsa na cadeira da pequena sala que agora chamava de sua, o som abafado da lona contra o couro ecoando no espaço vazio. Ligou o computador, a tela piscando à vida com uma le
O Grand Plaza era um mundo à parte, um salão de baile que parecia saído de um conto de fadas distorcido pela ostentação moderna. Lustres de cristal pendiam do teto abobadado, lançando luzes que dançavam sobre o chão de mármore polido, e as paredes eram decoradas com tapeçarias que pareciam custar mais do que o apartamento de Elena inteiro. Mesas redondas cobertas com toalhas brancas impecáveis estavam espalhadas pelo salão, cada uma adornada com arranjos florais que exalavam um perfume doce e enjoativo. Homens de smoking e mulheres em vestidos longos circulavam pelo espaço, taças de champanhe nas mãos, risadas falsas ecoando como música de fundo enquanto uma banda ao vivo tocava um jazz suave no canto. Damien guiou Elena pelo salão com uma facilidade que sugeria que ele pertencia àquele mundo, o braço dela encaixado no dele enquanto ele apontava convidados com comentários sussurrados que a faziam rir. "Aquele ali é o dono da NovaTech, acha que é o rei do universo," disse ele, apontand