Isadora

Eu percebi que já tinha acabado com uma garrafa de vinho, mas não estava bêbada. Nem mesmo o torpor que eu buscava para aliviar a dor nos finais de semana aparecia. Sempre me obriguei a ser a menina responsável, estudiosa e, agora, trabalhadora como meus pais queriam. De segunda a sexta-feira, não bebia nada, não saía, só fazia o que era esperado de mim. Sorri, um sorriso amargo, enquanto me levantava para buscar outra garrafa de vinho. Talvez fosse esse meu comportamento discreto que aquele homem, que se aproveitou da minha fragilidade, procurava quando me fez assinar a certidão de casamento.

Nos finais de semana, eu me desligava do mundo. Bebia, mal saía de casa. Às vezes, só ia ao mercado comprar algo. Fora isso, ficava trancada. Às vezes, pensando em como me vingaria do tio Thomas. Não, do nojento do Thomas. De tudo o que ele fez comigo e com a memória dos meus pais. Outras vezes, me dedicava ao salvamento das informações dos notebooks do meu pai e da minha mãe, destruídos no acidente. Eu sabia que era tudo o que me restava deles. Se conseguisse, poderia recuperar o projeto, limpar a memória deles e, de quebra, ganhar um bom dinheiro. Por isso, trabalhar na Psy também era muito importante. Usaria tudo o que aprendesse ali para recuperar os dados dos computadores. Já procurei em todas as nuvens, mas não encontrei nada sobre o projeto. Isso me fazia pensar que talvez meus pais tivessem consciência de que Thomas poderia traí-los e apagou tudo.

Outras vezes, só ficava ali, sentada, bebendo e me lembrando de tudo o que aconteceu desde o momento em que soube do acidente até o meu casamento...

Lembro como Laila dirigiu feito uma louca, nem se preocupando em causar outro acidente, enquanto fazia em 35 minutos um percurso que levaria, no mínimo, 1 hora e 20. Eu só pensava no final de semana que tinha perdido de receber o carinho da minha mãe. Quando chegamos ao hospital, nos disseram que um motorista furou o farol vermelho e que os meus pais atingiram o carro dele em cheio. Ambos os carros estavam em alta velocidade. O carro dos meus pais virou uma bola de ferro retorcido, e eles morreram no local.

Laila ligou para o Thomas para cuidar do enterro, enquanto eu ainda lidava com o choque. Ele providenciou tudo, fez o translado dos corpos para Mairiporã. Depois de uma semana, foi até a casa deles. Laila já tinha ido embora naquela manhã, e eu estava dormindo na cama dos meus pais, abraçada à camisola preferida da minha mãe e ao pijama do meu pai. Não tinha nem lágrimas para chorar mais.

Achei que a visita do Thomas deveria ser reconfortante. Afinal, ele era o melhor amigo do meu pai há mais de 30 anos, mas não…

“— Minha pequena Isadora, como você está? — tio Thomas perguntou.

— Destroçada, mas vida que segue, não é? Você precisa da minha assinatura em alguma coisa da empresa?

— Não. Vim aqui para a difícil missão de lhe comunicar as besteiras que seus pais fizeram no final da vida.

— Como assim?

— Desculpe, Isadora. Mas seu pai se envolveu em alguma coisa muito errada e, como consequência, perdeu muito dinheiro. Sua mãe e eu fizemos o possível para livrá-los da miséria, mas não teve jeito.

— Meus pais, na miséria? Não sei do que você está falando, tio Thomas. Papai e mamãe estavam felizes, bem. Tinham essa casa no condomínio Beverly Hills, eu tenho um apartamento de cobertura na capital, a empresa sempre foi muito bem, e eles estavam com um projeto milionário em mãos.

— Entenda, minha querida. Seu pai vendeu a empresa e colocou essa casa à venda. Eles foram para São Paulo para morar com você lá. E ainda bem que, quando ele comprou, colocou diretamente em seu nome. Caso contrário, já teria vendido também.

Senti como se o chão tivesse desaparecido sob os meus pés.

— Vendeu a empresa? A casa deles?

Eu desabei no sofá, sem entender nada. Meus pais pareciam tão calmos, serenos. Estavam felizes. Minha mãe até falava sobre biquínis para o verão. Nunca deixaram de mandar dinheiro, as despesas da cobertura estavam em dia. Como assim estavam falidos e desesperados?

— Se essa casa está à venda, quer dizer que eu tenho que sair?

— Sim, você tem até semana que vem para desocupar a casa. Ela está vendida com tudo o que tem dentro. Você pode tirar seus pertences pessoais e os de seus pais, mas só. Não pode nem tirar a louça e os utensílios.

— Como você deixou chegar nessa situação?

— Eu não fiz nada, Isadora. Foi seu pai quem fez.

Uma raiva dentro de mim começou a crescer.

— Não entendo como meu pai pode ter se envolvido em algo que colocaria as finanças deles em risco. Menos ainda como minha mãe permitiu chegar a essa situação ou como eles não me contaram nada. Passei a pandemia aqui com eles, estava tudo normal. Papai não deixou de pagar um único mês de salário dos colaboradores. Eu mesma fiz transferências e conferi o serviço deles no home office. A pandemia cobrou preços altos de qualquer empresário no país, mas meu pai tinha margem para não quebrar. Como a maioria dos funcionários trabalhavam de casa mesmo antes da pandemia, não foi um grande problema.

— Não sei no que ele estava envolvido, mas perdeu tudo.

— E você, tio Thomas? Ele te ajudou a se reerguer quando você se envolveu com coisa errada...

— Ele me deixou ir preso por seis anos naquele lugar imundo.

— Ele te deixou? Como assim?

Notei uma sutil mudança no tom de voz dele. Ouvi raiva, ódio. De repente, meu luto deu lugar a um instinto de autopreservação.

— Estou muito cansada. Você pode voltar amanhã?

— Claro, meu bem. Amanhã cedo eu volto para conversarmos.

Assim que ele saiu, liguei o computador do escritório do meu pai. Era o equipamento que ele usava para resolver muitas questões da empresa. Mas percebi que não tinha mais acesso a nada: nem folha de pagamento, nem projetos, nem fichas de funcionários. Absolutamente nada.

Tentei hackear os acessos, como meu pai me ensinou em caso de emergência, mas estava tudo altamente protegido. Foi quando algo fez sentido. Aquele computador era pessoal. Não tinha nada da empresa ali. Se meus pais estavam realmente nessa situação, talvez tivesse algo importante nos notebooks que a polícia me entregou junto aos pertences deles.

Esses notebooks estavam no meu apartamento, na capital. Eu viajaria no dia seguinte e começaria a trabalhar neles. Mas, antes disso, ainda tinha duas coisas para resolver: encontrar Alícia, a secretária dos meus pais, e, só depois, conversar com o tio Thomas novamente.”

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