Prólogo :
Guilherme narrando : Eu sabia que aquele dia não seria como os outros. Desde o momento em que acordei, uma sensação estranha me acompanhava, como se algo estivesse prestes a acontecer. Algo ruim. O meu instinto gritava, mas eu ignorei. Estava ansioso para ver Camila, para sentir o seu cheiro, para tê-la nos meus braços mais uma vez. Era como um vício, uma obsessão que eu não conseguia controlar. A casa de praia da família dela era o nosso refúgio, o lugar onde podíamos nos esconder do mundo. Onde ela me dizia, entre suspiros e beijos, que nunca sentiu nada igual. E eu sempre acreditei nisso. Eu acreditei que ela era minha, assim como eu era dela. Cheguei lá com o coração disparado. A porta estava entreaberta, como se estivesse me esperando. Algo no silêncio do lugar me incomodou. O som das ondas parecia distante, abafado pela sensação sufocante que tomou conta de mim. Um arrepio percorreu minha espinha. — Camila? — chamei, a minha voz soando estranha até para mim. Nenhuma resposta. O silêncio absoluto. Procurei por todos os cômodos, chamando pelo nome dela, com o peito apertado e uma sensação de inquietação crescente. Eu sabia que ela estava ali, porque tínhamos combinado. Então, sem pensar muito, fui até o quarto, o último lugar onde não a havia procurado. Abri a porta do quarto sem hesitar. O que vi ali me paralisou, minha alma se despedaçou. Camila estava na cama, vestindo apenas uma lingerie preta rendada. Mas não estava sozinha. Havia um homem ao lado dela. Um maldito qualquer, deitado, relaxado, como se pertencesse ali. Como se tivesse direito de tocá-la da maneira que apenas eu deveria. Meu mundo girou. Camila arregalou os olhos ao me ver. A cor fugiu de seu rosto, e ela sentou-se num movimento brusco, puxando o lençol para cobrir o corpo. O outro cara apenas se virou lentamente, a expressão de confusão evidente. O silêncio no quarto foi opressor. A dor rasgou o meu peito como uma lâmina afiada, e em segundos se transformou em uma raiva avassaladora. Minhas mãos tremiam, meu maxilar estava travado. Não conseguia respirar direito. Era como se o chão tivesse sumido sob meus pés. — Guilherme… — Camila sussurrou, mas eu levantei a mão, mandando-a calar a boca antes que conseguisse soltar mais uma palavra. — Não. — Minha voz saiu baixa, mas carregada de fúria. — Não diz nada. Não tenta me explicar coisa nenhuma. Meus olhos ardiam, e meu peito subia e descia descontroladamente. O cara ao lado dela começou a se mexer, claramente desconfortável. Meu sangue ferveu ainda mais. — Quem é esse cara? — minha voz saiu cortante. Camila abriu a boca, mas antes que ela pudesse responder, ele se levantou. — Cara, eu não sei o que tá acontecendo, eu só… Não esperei ele terminar. Cruzei o quarto em dois passos e o agarrei pela gola da camisa, erguendo-o contra a parede com força. O susto estampado no rosto dele me deu um prazer mórbido. — Guilherme, para! — Camila gritou, puxando meu braço, mas eu a ignorei. — Eu juro por Deus, se você falar mais uma palavra, eu quebro sua cara aqui mesmo. — Minha voz era um rosnado baixo e ameaçador. O desgraçado levantou as mãos em rendição, engolindo em seco. — Eu não sabia, cara. Eu não sabia que ela estava com alguém. — Ele se defendeu, a voz falhando. Soltei-o com um empurrão, e ele tropeçou para trás. Meu olhar voltou para Camila, que me olhava desesperada, lágrimas começando a se formar nos olhos. — Me escuta, por favor! — ela implorou, sua voz embargada. — Escutar? — gargalhei sem humor, passando as mãos pelos cabelos em puro desespero. — O que exatamente eu deveria escutar, Camila? Como você me fez de palhaço esse tempo todo? Como você se deitou com esse sujeito enquanto dizia que me amava? Como você conseguiu olhar nos meus olhos e mentir tão bem? Ela soluçou, as lágrimas finalmente escorrendo. Mas naquele momento, eu não me importava. Eu queria que ela sentisse pelo menos um pouco da dor que estava me destruindo por dentro. — Não é isso! Ela se aproximou, tentando tocar meu braço, mas eu me afastei como se seu toque queimasse. — Eu nunca quis te machucar. Eu te amo! — Você não sabe o que é amor. — cuspi as palavras, meus olhos cravados nos dela. — Se soubesse, não teria feito isso. Ela chorava agora, seu corpo tremia, mas eu já não conseguia mais sentir nada além do vazio. O cara, ainda encostado na parede, com uma aparente satisfação estampada no rosto. Dei um passo para trás, cada fibra do meu ser implorando para sair dali antes que perdesse o controle de vez. — Acabou, Camila. Você me destruiu. Espero que tenha valido a pena. Sinto um gosto amargo subir pela garganta Dou um passo à frente, meu olhar cravado no dela, carregado de mágoa e indignação. — Me diz a verdade, Camila. O problema sou eu? É porque sou pobre? Porque sou preto? Foi por isso que preferiu estar na cama com um homem branco e rico? — minha voz sai rouca, carregada de dor e ressentimento. Os olhos dela se arregalam, os lábios tremem. Ela parece desesperada. — Não, Guilherme! Pelo amor de Deus, não é isso! Eu te amo! Ela tenta se aproximar, me tocar, mas dou um passo para trás como se seu toque fosse veneno. Solto uma risada seca, sem qualquer humor, balançando a cabeça. — Você precisa se tratar, Camila. Só alguém muito doente consegue ser tão dissimulada assim. Sem esperar por mais uma desculpa, viro as costas e saio, sentindo a dor me rasgar por dentro. Cruzei a casa como um furacão, saindo porta afora e sentindo o ar frio da noite bater contra meu rosto. Mas nada disso amenizava a dor latejante dentro de mim. Antes de ir embora, olhei para trás uma última vez. Camila estava na porta, os olhos inchados, a expressão devastada. E foi nesse momento que percebi. Havia algo a mais naquela história. Algo que ela não estava me contando. Mas naquele momento, eu já não queria mais saber. Eu não conseguia acredita que Camila tinha me traído dessa forma, ela era tudo pra mim, a minha vida. Tudo que eu fazia era por ela, eu a amava. Como Camila fez isso, ela parecia ser tão diferente, parecia ser outra pessoa. Como ela teve coragem de destruir o que a gente tinha ?Capítulo 2Camila narrando :Eu tinha 16 anos e, naquela época, o meu mundo ainda era a escola. Eu estava acostumada com aquele ambiente, com a rotina de ser a filha da família rica que todo mundo respeitava, ou, se fosse o caso, temia. Eu não me importava muito com isso, na verdade. Tinha meus amigos, as minhas coisas, e um futuro aparentemente já traçado. Mas tudo mudou quando ele apareceu.Ele estava no meu último ano de escola, mas era novo, um novato que parecia ter saído de algum lugar muito distante da minha realidade. Eu lembro bem do primeiro dia em que ele entrou na sala, com aquele olhar desconfiado, como se estivesse analisando cada pessoa, cada detalhe do lugar. Ele era diferente de todos os meninos que eu já conhecia, e não era só pelo jeito de andar, mais solto, mais confiante de uma maneira que eu não sabia explicar.Eu tinha acabado de sentar no meu lugar, perto da janela, quando ele entrou. Seu nome era Guilherme, e logo ele virou o assunto da turma. Gênio dos estudo
Capitulo 3 :Camila narrando :Continuação :Uma tarde, depois da aula de história, ele me abordou novamente. Dessa vez, sem me pedir nada, sem um livro para pegar emprestado. Ele apenas se aproximou da minha mesa e ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse decidindo o que dizer. O olhar dele estava mais intenso do que nunca.— Camila... — ele começou, com uma voz calma, mas que soava mais séria do que de costume. — Eu... eu não sei o que você pensa de mim, mas eu não sou como os outros. E eu sei que nem deveria estar falando com você,.mas eu não aguento mais guardar isso pra mim.Eu não sabia o que responder. Não estava esperando aquilo, mas ele parecia estar falando direto ao meu coração. Como se tudo o que eu temia, todas as barreiras que eu tentava colocar entre nós, estivessem sendo desfeitas com aquelas palavras simples.— Eu sei o que você quer dizer — respondi, com a voz trêmula, sem saber ao certo o que estava sentindo. — Mas não é tão simples assim.Ele me olh
Capítulo 4Guilherme narrando :Acordar cedo sempre fez parte da minha rotina. O despertador toca antes do sol nascer, e eu já sei o que me espera: mais um dia de luta. Minha mãe, Dona Lúcia, já está de pé antes de mim, preparando o café simples, que na maioria das vezes é só café puro mesmo, sem pão, sem leite. Quando tem, é porque algum dinheiro sobrou ou porque ela conseguiu trazer algo da casa onde trabalha como empregada.Moro num bairro humilde, de ruas esburacadas e casas pequenas que se amontoam umas sobre as outras. O tipo de lugar onde, quando chove forte, as vielas alagam e a água entra pelas frestas da porta. Mas esse é o meu lugar. Cresci aqui, aprendi a me virar aqui. Minha mãe fez de tudo pra me manter longe dos problemas, e foi por causa dela que eu sempre levei os estudos a sério.Eu estudo numa escola de elite, mas não porque minha família tem dinheiro. Entrei lá porque ganhei uma bolsa integral, dessas que só oferecem pra alunos que se destacam. Sempre fui bom com n
Capítulo 5Camila narrando :A escola nunca pareceu tão pequena quanto naquele dia. Cada corredor, cada sala, cada canto parecia pulsar com a tensão que existia entre mim e Guilherme. Eu sabia que estava me metendo em algo complicado, mas, ao mesmo tempo, não conseguia evitar. Era como se ele tivesse se tornado um imã e, por mais que eu tentasse, não conseguia ficar longe.Naquele dia, o intervalo parecia arrastado. Eu sentia o olhar dele me procurando no meio dos alunos, e, no fundo, eu sabia que estava esperando por isso. Quando finalmente nos encontramos, foi diferente. Tinha algo nos olhos dele que me fez tremer. Expectativa, talvez. Ou só aquela certeza de que algo estava prestes a acontecer.Ele se aproximou devagar, como sempre fazia, sem pressa, sem medo.— Camila — ele disse, e o jeito como meu nome saiu da boca dele fez meu coração acelerar. — Acho que a gente precisa conversar.Eu respirei fundo.— Sobre o quê?Ele deu um meio sorriso.— Você sabe sobre o quê.E eu sabia.O
Capítulo 6Camila narrando :Cheguei na frente de casa, eu desci do carro do meu motorista, ainda com a cabeça cheia de pensamentos e o coração ainda acelerado. O dia foi mais intenso do que eu imaginava, e quando entrei pela porta, uma sensação de tristeza me tomou conta, eu sabia que provavelmente meu pai já estava em casa e já ia começar com a conversa de sempre.Quando entrei em casa, fechei a porta atrás de mim, tentando deixar a bagunça de sentimentos e os olhares carregados do dia fora. O silêncio da casa parecia mais pesado do que o normal. A casa era enorme, na verdade morávamos em uma mansão de um condomínio de luxo, a casa estava em silêncio, até que eu escutasse a voz dele. Meu pai.Eu nunca soube como lidar com ele. Depois que minha mãe morreu, as coisas pioraram. Ele ficou mais fechado, mais rígido. Eu nunca soube se ele realmente me via ou se apenas me tolerava. Ele já tinha começado com as indiretas antes de eu sair, e agora, quando entrei, ele já estava em modo "preo
Capítulo 7Guilherme narrando :O caminho pra casa nunca pareceu tão leve. Dois ônibus lotados, uma caminhada longa até minha rua de chão batido, mas nada disso importava. Minha cabeça ainda tava no momento em que eu encostei meus lábios nos dela. Camila.Nunca pensei que um beijo pudesse mexer tanto comigo. Foi rápido, tímido, mas foi nosso. E quando ela me olhou com aqueles olhos brilhando de nervoso e confessou que nunca tinha beijado ninguém antes, meu coração quase saiu pela boca. Porque eu também nunca tinha. Mas com ela... com ela parecia que eu já sabia exatamente o que fazer.O segundo ônibus freou bruscamente, me tirando dos meus pensamentos. Desci e caminhei até em casa, desviando dos buracos da rua, só com os postes piscando, como sempre.Quando abri a porta, o cheiro forte de óleo e farinha frita tomou conta do ar. Minha mãe tava na cozinha, mexendo uma panela velha com um olhar concentrado.— Oi, mãe — falei, jogando a mochila num canto e me aproximando.Ela levantou o o
Capítulo 8Camila narrando :A tarde passou arrastada. Tentei focar nos estudos, mas minha cabeça só conseguia voltar pra aquele momento na escola, pro jeito que Guilherme me olhou antes de me beijar. Eu sentia um frio na barriga só de lembrar.Peguei o notebook e abri os materiais pra estudar, mas a cada parágrafo lido, minha mente voltava pra ele. Só então me dei conta de um detalhe importante: eu não tinha pedido o número do celular dele.— Como eu fui esquecer isso? — murmurei, frustrada, me recostando na cadeira.Eu queria tanto falar com ele, saber como tinha sido o dia dele depois da escola, se ele tava pensando em mim também… Mas agora ia ter que esperar até amanhã.Suspirei e tentei voltar a estudar, mas as palavras na tela do notebook pareciam embaralhadas. Meu cérebro se recusava a prestar atenção.Foi quando ouvi batidas suaves na porta.— Minha menina, trouxe um lanchinho pra você — Dona Maria entrou com uma bandeja, um sorriso carinhoso no rosto.Olhei pra bandeja, mas m
Capítulo 9Guilherme narrando :O dia começou cedo, como sempre. Acordei antes do sol, o que já era rotina. O cheiro de café forte, que minha mãe fazia todos os dias, já estava no ar, mas eu ainda sentia aquele cansaço nas costas. Vida de quem mora longe, estuda em escola particular e tenta dar o melhor de si não é fácil, mas era o que eu tinha.Tomei um banho rápido, só pra acordar de vez, e me vesti com a roupa que eu tinha de melhor: uma camiseta que já tava meio velha e um jeans que não era dos melhores, mas servia. Eu não me importava muito com isso. O que eu queria mesmo era sair e conquistar minha vida, o resto… era só detalhe.Saí de casa, tentando não pensar muito no que estava por vir. Peguei o primeiro ônibus, depois o segundo, e como sempre, fiquei olhando pela janela, pensando em tudo e ao mesmo tempo em nada. Pensava na bolsa que me sustentava na escola, nos meus planos pro futuro, e também, por mais que eu tentasse esconder, nela. Na Camila.Cheguei na porta da escola,