Achei que ia dar com a cara na porta. Parecia que o nome do João ainda tinha peso, especialmente com o Felipe. Respirei fundo antes de entrar. Assim que cruzei a porta, meu olhar foi direto para um senhor de cabelos brancos que estava no meio da sala praticando capoeira. Era Felipe? Eu tinha pesquisado sobre ele. Menos de sessenta anos, mais ou menos da mesma idade do João. Nas fotos, ele parecia jovem e cheio de energia. Mas o homem à minha frente parecia ser de outra geração, como se fosse uma década mais velho que João. Mesmo tendo estudado tudo sobre Felipe, por um momento eu não conseguia associar as informações que tinha ao homem que estava diante de mim, movendo-se com tanta precisão e força. Por um instante, tive a sensação de estar no lugar errado. — Garotinha, diga logo o que quer comigo. — Felipe não parou seus movimentos, continuava fluindo com a capoeira, golpe após golpe, de forma coordenada e precisa. Aquela frase não deixou dúvidas: ele era Felipe. Quanto
Será que, quando ninguém estava olhando, o João também não aproveitava esse tipo de serviço impecável? Minha mente fervilhava. Era só eu ficar quieta por um instante que já começava a imaginar várias coisas. — Venha, sente-se aqui. — Chamou Felipe, apontando para uma das cadeiras. Caminhei até lá, e as jovens que estavam servindo imediatamente vieram me oferecer água, com uma eficiência impressionante. Embora eu não estivesse acostumada a ser tratada com tanta atenção, resolvi seguir o fluxo. Afinal, onde se está, vive-se como se vive ali. — Você não é casada, né? — Perguntou Felipe, enquanto tomava um gole de chá. — Não, não sou. Felipe deu um sorriso, quase malicioso: — E quando é que você vai entrar para a família Martins? Fiquei surpresa. Ele não sabia que eu e Sebastião já havíamos nos separado? Curioso, considerando que o filho dele tanto insistira para que eu fosse parte da família. Pensei, por um breve momento, o que teria acontecido se eu tivesse aceitado o
João e Cátia sempre foram bons para mim, me tratam como se eu fosse da família, como se eu fosse filha deles. Eu sei disso. Mas, desde que encontrei esse contrato, não consigo evitar um desconforto quando estou com eles. É como se algo estivesse preso dentro de mim, algo que eu não consigo ignorar. Eu só queria resolver isso. Queria poder amá-los de coração aberto, sem dúvidas, e aceitar o amor deles da mesma forma. Felipe deu um sorriso leve. — Tal pai, tal filha. Fiquei paralisada. Ele disse isso com tanta naturalidade, mas não foi ele mesmo que, minutos atrás, afirmou não se lembrar do meu pai? Então ele mentiu. Mas por quê? Minha respiração ficou pesada, e apertei as palmas das mãos com os dedos, tentando me concentrar. Felipe soltou um leve riso, como se tivesse percebido minha tensão. — João fala de você e do seu pai o tempo todo. Caso contrário, como eu lembraria de alguém que só vi duas vezes há mais de dez anos? Minha garganta ficou apertada. — O tio João
Porque João e Cátia me deram o amor de uma família, tinha tanto medo de que esse amor acabasse sendo uma piada. Mas será que a palavra de Felipe é confiável? Eu sabia que ser tão desconfiada não era bom, mas a morte dos meus pais tinha custado duas vidas. Só que eu não sabia como continuar perguntando. Então, permaneci em silêncio. — Menina, você provavelmente ainda não sabe, mas o João tem um “cofrinho” pessoal. — Disse Felipe, com um tom casual. Olhei para ele surpresa. Ele deu um leve sorriso. — Não pense bobagem, João e eu somos bem diferentes. Isso me fez rir por dentro. Pelo menos Felipe tinha consciência de quem era. Todos sabiam que ele tinha mais amantes do que dedos em uma mão. Mas, curiosamente, também diziam que, apesar de tantas mulheres, ele só tinha um filho: Anthony. — O tio João e a tia Cátia se dão muito bem. — Comentei, tentando mudar o tom. Felipe riu de novo. Mas dessa vez, seu sorriso parecia carregar algo que eu não consegui decifrar. — O tal
— Mana! — Augusto apareceu na minha frente com aquele sorriso cínico que só ele sabia dar. Era incrível como o azar tinha o dom de me colocar cara a cara com pessoas que eu menos queria ver. Suspirei, puxando um sorriso forçado: — O que foi agora? Fez besteira? Augusto não era do tipo que aparecia em um lugar como aquele sem uma boa razão... Ou melhor, sem uma encrenca. Ele deu de ombros e, sem o menor constrangimento, confirmou: — Pois é, dirigindo sem habilitação. Na hora, lembrei do convite que ele tinha me feito para o aniversário dele. Ele ainda era menor de idade. — Meus parabéns. — Ironizei, sem perder a chance de alfinetar. — Obrigado! — Respondeu ele, com aquele jeito irritante que parecia imune a qualquer provocação. Revirei os olhos. Eu tinha coisas mais importantes para resolver e não ia perder tempo com ele. Voltei minha atenção para o funcionário, que ainda estava procurando os arquivos que eu tinha solicitado. Talvez por ser um caso antigo, ele parecia
Um cara de quase um metro e oitenta, e quase me derrubou. Cambaleei um pouco, mas antes mesmo de conseguir xingá-lo, Lídia já vinha em nossa direção. O rosto dela estava fechado, com uma expressão que beirava o assustador. Por um instante, me dei conta de como Lídia era feia. E me perguntei como, em algum momento, eu já tinha achado que ela era bonita. Talvez fosse isso que chamavam de “a aparência reflete o coração”. A Lídia de hoje era alguém amarga, distorcida por dentro. E agora, parecia que o exterior dela também tinha mudado. — Augusto, vem aqui. — Disparou ela, furiosa, sem nem se preocupar em disfarçar. — Mana, me salva! — Augusto implorou, escondendo-se atrás de mim como uma criança que não sabe o que fazer. Que droga. Xinguei mentalmente, já perdendo a paciência. Soltei um resmungo irritado: — Me solta! — Mana, por favor, me ajuda! — Insistiu ele, grudado em mim como um chiclete, com aquele tom meloso que me dava nos nervos. Respirei fundo, cerrei os dentes
Sebastião e Lídia me tratavam assim porque, no fundo, achavam que eu era fácil de pisar. Achavam que minha falta de reação era fraqueza, mas não percebiam que era desprezo. Se era isso que pensavam, então era melhor deixá-los saber que até as facas mais afiadas tinham dois gumes. Minhas palavras cheias de espinhos fizeram Sebastião endurecer o rosto na hora. — Carolina... — Solta minha mão! — Exigi mais uma vez, fria. Ele, no entanto, continuou segurando o carro e disse, com a voz baixa: — Não tô te culpando por nada. Só quis... Te avisar. — Avisar pra quê? Quer me provocar, é isso? — Retruquei, cada palavra mais cortante que a anterior. — Não precisa. Nem quero ouvir. Vi os músculos de sua mandíbula tensionarem e uma veia saltar na lateral de sua testa. Ele estava se esforçando para manter a calma, mas sabia que eu estava testando seus limites. Se fosse em outro momento, ele já teria dado as costas e saído batendo a porta. Mas hoje, algo nele parecia diferente. Ele m
— Carina, hoje à noite o papai vai contar as estrelas com você. — Carina, seja boazinha, tome o remédio direitinho. — Carina... ... — Papai, mamãe... — Chamei, estendendo os braços na direção deles, tentando alcançá-los. Mas, em vez disso, senti minhas mãos sendo seguradas. Uma voz familiar ecoou perto de mim, me chamando: — Carina, Carina, acorda... Acorda! Enquanto aquela voz me chamava, senti mãos quentes segurarem meu rosto. Quando abri os olhos, vi o rosto preocupado de George. Seus polegares roçavam minhas bochechas num gesto suave. — Carina, sou eu. A voz dele me trouxe de volta à realidade, arrancando-me do pesadelo de onde eu não queria ter saído, porque, no sonho, meus pais ainda estavam comigo. Mas, quanto mais eu acordava, mais doía. Mordi meu lábio inferior com tanta força que quase o rasguei. — Carina, solta! — George segurou meu rosto com firmeza, forçando-me a abrir a boca. — Não faça isso com você mesma! Carina, me escuta! A voz dele, repetind