No dia do meu casamento, Rafaela Nunes, a melhor amiga de infância de Orfeu Garcia, ameaçou se jogar do alto do prédio. Ele ignorou. Seguiu com a cerimônia. Até que ela caiu. E então, o desespero o consumiu por completo. A partir daquele dia, Orfeu renunciou ao mundo. Tornou-se um homem de fé, um devoto enclausurado no Mosteiro Santa Augusta. Mas para ele, sua penitência não era suficiente. Para pagar pelo que aconteceu com Rafaela, eu também precisava sofrer. Durante meses, ajoelhei-me diante dos degraus da catedral, rezei até perder a voz, copiei as Escrituras Sagradas até minhas mãos sangrarem. Perdi meu filho. Perdi minha liberdade. Quando finalmente pedi o divórcio, ele me olhou nos olhos e disse: "A dívida com Rafaela ainda não foi paga. Devemos carregar essa cruz juntos." Ele me prendeu, me torturou, usou minha família para me manter ao seu lado. Assim foi até o dia em que minha vida se esgotou. Mas quando abri os olhos novamente… Voltei para o dia do casamento. Desta vez, eu mesma o empurrarei para Rafaela. E eu… serei o amor intocável que o fará renunciar ao mundo.
Ler mais— Porque eu também me sinto culpado pela sua morte. — Benício respirou fundo antes de continuar.— Se eu tivesse sido mais corajoso… se tivesse te contado que foi Orfeu quem subornou sua colega de quarto para te acusar de plágio…— Se eu tivesse te mostrado as provas que encontrei, que provavam sua inocência…— Talvez… talvez sua vida tivesse tomado outro rumo.Minha respiração falhou.— Mas Orfeu disse que você gostava dele. — A voz de Benício vacilou. — Ele me perguntou se eu teria coragem de te fazer sofrer.— Eu tive medo… medo de que você não acreditasse em mim.— Então eu calei a boca.As palavras saíram entre soluços.Minha visão ficou embaçada pelas lágrimas.Toda a minha vida…Toda a minha dor…Baseada em uma mentira.Sem pensar, cerrei os punhos e o acertei no braço.Ele chorava como uma criança.— Me bate mais forte… — Soluçou. — A culpa é minha…Revirei os olhos, afrouxando o cinto de segurança.E então, o abracei.Enquanto o socava de leve nas costas, resmunguei:— Como vo
Subi as escadas sem hesitar.Atrás de mim, passos apressados.Orfeu tentou me seguir. Mas foi puxado por Rafaela.Virou-se para olhar Rafaela…E, então, ele se deu conta.Se deu conta de quem ela realmente era.Do veneno escondido atrás daquela máscara de ingenuidade.Do jogo sujo que ela jogava.E, acima de tudo…Das palavras que ela acabara de dizer.A raiva subiu como um incêndio.Sem pensar, ele ergueu a mão e a esbofeteou com força.Rafaela arregalou os olhos, chocada.Nunca, em toda a sua vida, alguém ousou levantar a mão contra ela.E foi justamente Orfeu…Seu Orfeu.Ela levou a mão ao rosto, lágrimas brotando instantaneamente.— Orfeu, seu desgraçado!A voz tremia.— Eu sou sua esposa agora!— Mirabel é só uma amante imunda!O ódio em seu olhar era puro e bruto.— Eu já fui muito paciente por não tê-la matado!Orfeu a encarou.Seu rosto perdeu toda a expressão.Frieza absoluta.— Já chega.A voz baixa e cortante.— Por causa do bebê, não vou fazer nada contra você.— Mas saia d
Segui Orfeu até a gaiola dourada que ele construiu para mim.A partir desse dia, tornei-me a mulher "perfeita".Submissa. Silenciosa. Sem vontades próprias.Um pássaro enjaulado.No início, ele vinha com frequência.Mas, aos poucos, suas visitas rarearam.Agora, aparecia uma vez por semana, no máximo.E, toda vez que vinha, havia mais culpa em seu olhar.Ele sabia.Sabia que Rafaela vinha aqui pelas minhas costas.Sabia que ela causava cenas, me insultava, destruía minhas coisas.Mas fingia que não via.Afinal, a família Garcia e a família Nunes estavam entrelaçadas agora.Ele não podia desrespeitar sua querida esposa.Como compensação, me cobria de presentes caros.Bolsas. Joias. Sapatos de grife.Antes, eu recusava.Agora, aceitava tudo.Afinal, era um pagamento justo.Afinal, atuar nesse teatro também era um trabalho.E, como todo trabalho…Vinha com seus danos.Hoje, senti que já estava forte o suficiente.Pedi permissão para sair, dizendo que visitaria Eurico.Sabia que Orfeu tinh
Não consegui encarar os olhos de Benício.Aqueles olhos transbordando sentimentos profundos…Os mesmos olhos que choraram por dias quando morri.Lembro-me claramente.Depois do meu enterro, ele saiu dirigindo sozinho e sofreu um acidente terrível.Ficou entre a vida e a morte.— Tá bom. — Murmurei, olhando para ele com suavidade.Benício continuava a falar, nervoso, tentando se explicar.— Não quero me aproveitar da situação… Não quero nada em troca…Mas, no instante em que meu "tá bom" cortou o ar, ele travou.Os olhos arregalados.O choque estampado no rosto.Por um segundo, não soube o que fazer.E, ao ver sua expressão boba, meu humor melhorou instantaneamente.Soltei uma risada baixa.— Eu nunca planejei ficar ao lado do Orfeu.Ele piscou, atônito.— Tudo isso é só uma estratégia.Inclinei levemente a cabeça, um sorriso frio nos lábios.— Ele é um lunático. Preciso evitar que surte.— Se eu enfrentá-lo diretamente, perco.Benício segurou minha mão entre as suas.— Agora não precis
Orfeu achou que tinha vencido.Com a confiança de um rei coroando sua rainha, deslizou um anel de diamante rosa em meu dedo.— Mirabel, eu vou cuidar de você para sempre.O celular tocou.Ele olhou a tela e seu rosto mudou na hora.Eu já sabia quem era.— Pode atender. — Minha voz saiu calma.Orfeu hesitou, mas atendeu.Do outro lado da linha, a voz açucarada de Rafaela ecoou pelo quarto:— Orfeu! Vem logo! O médico acabou de me dizer…Ela riu, eufórica.— Estou grávida!— Nós vamos ter um bebê!O mundo parou.O celular quase escorregou dos dedos de Orfeu.Ele me olhou.Eu também o olhei.E a dor me atingiu como uma lâmina afiada.Eu sempre achei que Orfeu amava Rafaela sem perceber.Mas agora…Agora eu via que eles já estavam juntos esse tempo todo.Enquanto eu chorava a perda do meu filho, ele ganhava um novo.O filho da mulher que sempre amou.Que piada cruel.Meus olhos ficaram vermelhos, a raiva subindo como um incêndio incontrolável.Com um movimento brusco, me levantei da cama e
— Já pensei em tudo. — Orfeu murmurou, e em seus olhos sombrios brilhou uma luz repentina, como se vislumbrasse esperança.— As famílias Garcia e Nunes já oficializaram a aliança. Se eu declarar publicamente que tudo não passou de uma farsa, a reputação das duas casas, especialmente a minha, será prejudicada. — Ele fez uma pausa e suspirou. — Por isso, durante o próximo ano, não posso me afastar da Rafa.Meu sangue gelou.— Mas já providenciei uma residência sigilosa. — Sua voz soava quase gentil. — Você ficará lá. Eu irei sempre que puder.Orfeu manteve o olhar fixo em mim, como se aquilo fosse um gesto nobre.— Assim que essa tempestade passar e eu assumir o controle total da empresa, anunciarei meu divórcio com Rafaela. E então, Mirabel, vou te trazer de volta… Do jeito certo.Antes que eu pudesse responder, Benício explodiu.Com um movimento brutal, agarrou Orfeu pela gola e o ergueu como se fosse um mero boneco de pano.— Seu desgraçado… — Sua voz era um grunhido de pura fúria. —
Eu acordei no hospital, mas não fui trazida por uma ambulância.Fui resgatada por Benício Bueno.O maior rival de Orfeu.Isso me surpreendeu.Na outra vida, nesse exato momento, ele deveria estar a caminho da Austrália.A família Bueno transferiu seus negócios para lá aos poucos e, eventualmente, se estabeleceu de vez no país.Na verdade…Benício só apareceu depois que eu morri.Lembro do dia do meu enterro.Ele estava lá.Um antigo colega de faculdade, chorando sobre minha lápide, me xingando de cega.E agora…Por que ele estava aqui?Será que minha segunda chance também mudou o curso da vida dele?Não tive tempo de perguntar.A dor e o cansaço me puxaram de volta para a escuridão....Quando voltei a mim, o barulho no corredor era ensurdecedor.Alguém estava gritando.Pisquei, sentindo o corpo fraco e pesado.Forcei-me a abrir os olhos.E, ao olhar na direção do som…Vi Orfeu.Ele estava no corredor do hospital, furioso.Eurico e Benício bloqueavam a entrada, como duas muralhas intra
Enquanto eu ainda processava tudo, a mãe de Rafaela veio marchando até mim, seu rosto contorcido de raiva.— Mirabel! Seu sobrinho jogou suco na minha filha! Se não fosse Orfeu colocando ele no lugar, a família Nunes não deixaria isso barato!Orfeu rapidamente tentou se justificar:— Mirabel, eu só queria acalmar a situação. Se não disciplinasse Eurico, a família dela faria algo pior.— Eu peguei leve, eu juro. Ele não se machucou de verdade.Engoli a fúria.Meus olhos ardiam de raiva ao encará-lo.Eurico tinha o rosto inchado, os lábios cortados, o sangue ainda escorrendo pelo queixo.Isso era pegar leve?Orfeu percebeu minha revolta e desviou o olhar, ciente da própria culpa.Voltei-me para Sra. Nunes, meu tom carregado de ironia.— Que engraçado, Sra. Nunes.— Há meia hora, sua filha estava prestes a se jogar do alto do prédio.— Foi por minha causa que ela está viva.Dei um passo à frente, ignorando a dor na barriga.— Se formos colocar na balança, sou a salvadora da sua filha.— M
As palavras de Orfeu caíram como uma bomba no salão de casamento.O murmúrio dos convidados explodiu em caos.Ninguém conseguia acreditar no que havia acabado de acontecer.Eu interrompi minha própria cerimônia para deixá-lo salvar outra mulher…E agora, ele queria me substituir?Até mesmo Vera Garcia, sua mãe, que nunca aprovou nosso casamento, franziu o cenho em desgosto.— Isso é um absurdo! — Sua voz ecoou firme.— Orfeu, casamento não é brincadeira! Como pode simplesmente trocar a noiva no último minuto?Damarco Garcia, seu pai, também não parecia satisfeito.Mas ele não disse nada.O olhar calculista denunciava que já fazia seus próprios planos.Orfeu parecia incomodado. Sabia que estava me envergonhando publicamente.Olhou para mim, culpado.— Eu sei que isso é injusto com você, Mirabel… Mas eu juro que vou te compensar.O salão ferveu ainda mais.Muitos me lançavam olhares de pena.Outros, de escárnio.Para alguns, eu era a tola que fingiu ser compreensiva e agora sofria as con