2 Imposição

– Não te ensinei nada? – uma voz feminina questionou e seu tom, apesar de acusatório, era divertido. – O que eu sempre digo? Nada acontece por acaso. E deixe de ser tão grosseiro.

Entretanto, Rosely não conseguiu ouvir a resposta, pois, mesmo que fizesse um esforço, tentando se manter acordada, estava exausta demais e acabou desmaiando. 

Quando acordou, tempos depois, percebeu que estava num lugar desconhecido. Ouviu passos dentro do quarto e então, a viu.

– Você dormiu bastante – disse uma mulher enorme, não só em altura, mas também em músculos, como um general.

Foi quando Rosely a reconheceu como uma das pessoas que haviam a ajudado anteriormente, e pelo canto do olho, notou que o homem também estava ali, recostado à porta aberta, apenas observando-as com uma expressão fechada.

Ele nada disse, apenas se se aproximou, trazendo consigo uma caixa que parecia daquelas usadas em ateliês para armazenar roupas, a colocou sobre a cama e passou a encarar a moça enferma. 

– Vista-se, a levarei para sua casa – disse, enfim, com sua voz de barítono.

Ele a assustava tanto, com aquele jeito mal humorado e dominante, que a moça acabou fazendo o que era mandado sem questionar, assim que se viu sozinha novamente. Tirou um conjunto cor de chumbo de dentro da caixa, e enquanto o vestia, notou os curativos em suas costelas, braço e pescoço.

Assim que estava pronta, saiu do quarto, encontrando-os na sala.

– Sou muito grata pela sua ajuda – disse, fazendo um gesto respeitoso para a outra mulher. – Irei recompensá-la assim que retornar aos meus pais.

– Nenhum dinheiro da sua família me será útil – a mais velha respondeu com seriedade e então, esboçou  um sorriso que só podia ser descrito como perigoso para a outra. – Quem sabe, um dia, eu não cobre seu débito.

Rosely balançando a cabeça em concordância, respirou fundo  e então, seguiu o homem que já deixava a casa. O caminho foi feito em completo silêncio, ele com os olhos fixos na estrada enquanto ela mantinham-se de cabeça baixa, fitando as mãos trêmulas.

Quando foi deixada em frente aos portões da mansão onde os pais moravam, virou-se, tentando agradecer ao homem, porém, para a sua surpresa, ele simplesmente havia ido embora, guiando a charrete para longe. 

“Não sei sequer seu nome”, Rosely pensou consigo mesma.

Mas não pode pensar muito nisso, pois os grandes portões se abriram revelando sua mãe que a encarava com o rosto pálido de preocupação.

– Rosely – disse a mulher, apressando-se em abraçar a filha.

A puxou para dentro e rapidamente começou a verificar o corpo da filha, ficando mais tensa a cada curativo ou atadura que via. Atravessaram o belo jardim e, enfim, entraram na aconchegante sala de estar da mansão.

– O que aconteceu? – perguntou aflita enquanto ambas sentavam-se e então, arregalou os olhos, parecendo lembrar de algo. – Temos que ligar para Isaiah, não sabe o quanto ele ficou preocupado desde que você sumiu.

– Ele contou? – Rosely perguntou surpresa, seu estômago se revirando em apenas ouvir o nome daquele homem. – Disse que foi ele quem fez isso?

Esse final, perguntou enquanto arrancava o curativo em seu pescoço, revelando um grande corte ainda não cicatrizado. O que deixou a mãe horrorizada, sem conseguir falar, podendo apenas cobrir a boca com as mãos.

Contudo, a conversa foi interrompida quando o pai apareceu, surgindo no alto da escadaria que dava para o primeiro andar.

– O que é todo esse alvoroço? – perguntou com uma expressão de severidade no rosto.

– Querido – a mãe tentou intervir.

– Porque não consegue fazer nada direito? – ele questionou irritado, ficando a poucos metros da filha, encarando-a de cima. – Eu sabia que essa sua insistência em estudar iria nos render problemas!

– A culpa é minha? – Rosely, pela primeira vez, retrucou o pai, mesmo que seu coração parecesse estar se partindo por isso. – Aquele desgraçado me desrespeitou.

– Você quer respeito? – o pai perguntou, agora apertando o rosto da filha.  – Ouça com atenção o que estou dizendo: você vai abaixar essa crista, pedir perdão e ser uma boa esposa.

– Não. Não vou! – Rosely quase gritou. – Não posso me casar com um homem que se acha no direito de me agredir.

O homem franziu a testa, apertando as têmporas doloridas.

– Rosely – disse, um pouco mais calmo. – Seu irmão acaba de falecer, não acha que já tive desgosto o suficiente?

Quanto a isso, ela não podia retrucar. Abaixou a cabeça, culpada pela vergonha e a tristeza, ainda mais pois o pai deixava tão claro o quanto sempre preferiu o filho em detrimento dela. Sentiu seus joelhos fraquejando e o ar faltando, e teria caído se a mãe não tivesse a segurado nos braços, carregando-a para o quarto.

A moça suspirou, apoiando as costelas doloridas nas almofadas e fechou os olhos, desejando dormir pois imaginava que, assim, conseguiria descansar. Contudo, seu sono foi conturbado. Primeiro, Isaiah a golpeando, depois, viu-se correndo em meio ao matagal, apavorada por algo que a perseguia e então, seu misterioso salvador. O qual, por algum motivo, não conseguia lembrar do rosto.

Ele estava tocando seu rosto, sendo gentil, algo que nem conseguia imaginar vindo dele.

“Será que Carolle está certa?”, Perguntava, mais para ele do que para ela. “ Ela acredita nessa coisa de destino…”

Ele então, se inclinou para beijá-la. Contudo, foi nesse momento que Rosely acordou com o coração batendo acelerado. Sentou-se na cama e se deparou com a mãe velando seu sono.

– Como está? perguntou, ainda com seu rosto pálido de preocupação. – Por favor, não seja tão dura com seu pai. Ele está sofrendo.

– Sofrendo? – Rosely repetiu, incrédula. – Que tipo de pai casa a filha com seu agressor?

A mãe apenas abaixou os olhos com resignação. Mas mesmo assim, segurou a mão da filha, e teria tentado convencê-la se não tivesse sido interrompida por batidas na porta.

O patriarca irrompeu por esta e as encarou com um semblante sério.

– Eu perdi um filho, e sobreviverei à perda de outro. – afirmou, sem apresentar remorso algum. – Decida, ou se casa com Isaiah ou irei exilá-la na fazenda!

A mãe arregalou os olhos, sem acreditar no que ouvia, e ficou ainda mais horrorizada com a resposta da filha.

– Pois bem – ela respondeu. – Prefiro o exílio!

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