Contudo, aquela estranha conversa foi interrompida quando um homem surgiu carregando dois cavalos pelas rédeas, parando ao lado da mulher, a encarou por longos minutos, mas nada disse, nem mesmo a cumprimentou.
Ele era enorme. Chegava a ser maior do que Eslen.
Seu corpo era coberto de músculos, porém, o que mais chamava a atenção era a estranha coloração acastanhada que estendia dos seus cabelos curtos até sua pele, como se tivesse sido esculpido do barro. Isso, sem contar os profundos olhos negros.
Rosely só conseguiu tirar os olhos dele quando Eslen montou num dos cavalos, chamando sua atenção enquanto lhe estendia um cartão.
– Se precisar dos meus serviços – disse, lhe lançando uma piscadela antes de ir embora.
Piscou algumas vezes, ainda um tanto confusa com toda aquela estranheza, e então, encarou o cartão em sua mão, se perguntando se deveria contratar aquele homem para se livrar do lobo – ou o que tentava se convencer de que fosse um –, porém, foi tirada de seus devaneios ao ver Millan se aproximando.
– Conseguiu comprar tudo o que precisava? – ele perguntou, já ajudando-a com os sacos pesados de pólvora.
E vendo a concordância dela, continuou:
– Precisamos ir agora ou chegaremos na fazenda à noite – explicou sério, encarando o céu. – Os dias estão ficando mais curtos.
Subiram na carroça e como ele havia previsto, chegaram à fazenda junto aos últimos raios de sol sumindo no horizonte. Enquanto Millan colocava as mercadorias pesadas no galpão, a mulher seguiu para a casa, enveredando por uma pequena trilha rente ao murinho de pedras que separava o casarão da mata fechada.
Para a sua surpresa, acabou se deparando com Eleonore colocando o que parecia ser um pratinho com carne por um portãozinho de madeira, escondeu-se, evitando ser vista e permaneceu observando-a, tentando entender o que ela estava fazendo.
Parecia uma espécie de ritual.
Quando ela terminou, Rosely estava prestes a confrontá-la, mas resolveu dar uma chance para que a outra pudesse contar suas intenções, e por isso, fingiu não ter visto nada.
– Vai fazer chá? – perguntou enquanto se aproximava.
– O- o que? – Eleonore indagou confusa com o susto.
– Pensei que fossem ervas para chá – Rosely disse, olhando para o molho de folhas em sua mão.
– Oh, sim… é isso mesmo – Eleonore concordou com um riso desconfiado, tão inquieta que acabou apertando as folhas. – Vamos entrar, sim?
Rosely apenas balançou a cabeça, concordando. Seguiu a outra em silêncio de volta para a casa e sentou-se à mesa enquanto olhava-a preparar o chá e o jantar que seriam servidos para todos logo em seguida.
Sentaram-se os três ao redor da mesa e jantaram em completo silêncio. Do lado de fora, tudo já estava escuro, então, o casal decidiu seguir para sua própria casa. Millan parou, apoiado no umbral e encarou a patroa uma última vez, como se pedisse novamente que ela não deixasse a casa.
– Boa noite! – Rosely desejou e trancou a porta.
Contudo, o sono não veio, fazendo com que ela andasse pelos cômodos escuros com sua lamparina, em meio ao silêncio. Foi quando se deu conta de que não ouvia barulhos naquela noite, pois, de alguma forma, as “coisinhas” que tanto a atormentavam haviam se aquietado. Entrou no escritório do irmão e sentou-se na poltrona, notando que havia papéis de carta sobre a mesa.
De repente, um deles chamou sua atenção: era uma carta inacabada.
Nela, o irmão falava sobre uma briga feia com um dos vizinhos, não havia destinatário, mas suspeitou que fosse para ela. Lembrou-se das outras cartas dele, que nunca havia aberto, e pela primeira vez, se arrependeu.
A verdade era que a única carta que abrira naqueles meses foi a de Millan, informando a morte do patrão à destinatária das cartas que ele sempre enviava, mesmo que nunca recebesse uma resposta.
Enquanto lia suas palavras, lentamente foi entendendo o quebra-cabeças que era a situação de seu irmão: a fuga com a amante, a criação da fazenda nas terras antigas da família e quase abandonadas, isso além das malditas “coisinhas” que tanto faziam barulho à noite, havia até mesmo desenhos.
Foi a primeira vez que ela conseguiu se colocar no lugar dele.
O crepitar lento da lamparina e o calor do casaco pesado a fez adormecer ali mesmo sentada na poltrona, mas acordou poucos minutos depois, assustada com as ovelhas berrando. Correu para a janela, tentando ver o que estava acontecendo e seus olhos vislumbraram uma delas caída no chão com um animal parecendo se alimentar de seu pescoço.
Não conseguiu identificar do que se tratava, mas sabia que de jeito nenhum, aquilo era um lobo, pelo contrário, era quase humanoide.
Lembrou-se das palavras de Millan, pegou o novo revolv*r que havia comprado e permaneceu segurando-o enquanto olhava para a cena lá fora. Não demorou muito para dois homens, carregando tochas e cachorros, surgirem perto da cancela, olharam ao redor, como se procurassem por algo.
– Millan! – um deles gritou.
Silêncio.
As ovelhas se inquietaram, e a estranha criatura sumiu de vista, adentrando a escuridão enquanto os cachorros ladravam agoniados. Até que, finalmente, o vaqueiro saiu de sua casa, vestido apenas de calças e com uma espingarda em punho.
– Estamos vindo das terras de Johan – o homem explicou enquanto passava a cancela, e rapidamente, seus olhos se voltaram à ovelha caída no chão. – Esse maldit* já chegou aqui!
– Porr*! – resmungou Millan, mais para si do que para os outros. – O gado já está pouco e ainda aparece um chupa-cabra.
A essa altura, o dia já estava amanhecendo e as outras pessoas começavam a aparecer, seus rostos expressando um misto de curiosidade e medo, cochichando sobre a coisa que estava atacando os animais.
Quando se deram conta da presença de Rosely, calaram-se.
– O que está acontecendo? – ela perguntou diretamente a Millan.
– Não precisa se preocupar, nós… – ele tentou explicar.
Mas foi interrompido por um dos homens:
– A senhorita precisa arranjar um caçador! – exclamou sério, apontando a ovelha machucada, mas ainda viva. – Já chegou nas suas terras, e vai voltar para terminar o serviço.
– Contratarei um amanhã quando for buscar as empregadas – Millan disse com um semblante sério.
Ao ouvir isso, veio à mente da mulher o rosto de Eslen.
Longe dali, uma jovem empregada, esforçava-se em carregar pesados baldes de água do poço. Era pequena, praticamente uma adolescente ainda, mas mesmo assim, não reclamava de seu destino, afinal, era melhor do que morrer de fome. Ergueu os olhos para o céu e viu que os raios de sol ainda nem haviam surgido no horizonte.Era assustador trabalhar naquele horário, como se a qualquer momento, alguma criatura da noite pudesse aproveitar aqueles resquícios de escuridão para pegá-la.Tentou conter seu medo, e continuou seu caminho em direção ao poço. Na verdade, aquele era o trabalho que mais desejava não fazer, por medo, estar naquela parte da fazenda a aterrorizava.E todos sabiam disso, mas a tarefa continuava sendo sua.“Rápido. Termine isso, Charlotte”, pensou consigo mesma. Amarrou a corda na alça do balde, e desceu até a água, quase no fundo do poço.Para a sua felicidade, inicialmente nada aconteceu. Carregando os baldes na cabeça, encheu os dois primeiros potes da carroça, suspirou,
Os últimos raios de sol sumiam no horizonte quando o caçador finalmente chegou, estava acompanhado de seu fiel escudeiro, ambos carregando malas e equipamentos pesados para a confecção das armadilhas. Eslen parou diante da casa da fazenda e observou o ambiente ao redor, estudando onde poderia fazer seu trabalho.Foi quando se deu conta dos fazendeiros que o encaravam.– Podem ir para suas casas, resolvemos daqui – ele praticamente mandou, não deixando espaço para questionamentos.E então, prontamente, começou a preparar o alicerce do que parecia ser um andaime de metal, revestido com madeira resistente. De dentro da casa, Rosely conseguia ver o quão grande a estrutura se tornava ao passo que escurecia, se assemelhando a uma fortaleza. Havia um espaço deixado no meio, onde a ovelha machucada foi presa enquanto os dois homens trabalhavam sem trocar uma única palavra. No fim, ambos sentaram-se na parte de cima, montando uma tocaia, porém, estranhamente, Eslen era o único arm*do.Ao pass
Eslen não lhe deu uma resposta mais satisfatória, permanecendo com seu sorriso de canto enigmático e no fim, todos recolheram-se para dormir depois de dar um fim adequado àquela coisa. Porém, por mais cansada que estivesse, Rosely não conseguiu adormecer, encarando o teto com seus olhos arregalados por causa de um estranho pássaro que insistia em destelhar o telhado de seu quarto. Quando conseguiu enfim dormir, já era dia. Levantou-se por volta do meio-dia e encontrou as empregadas apressadas enquanto preparavam a refeição para a patroa e os convidados. Parou na sala, com o ombro apoiado no umbral da porta e encarou Charlotte, a jovem empregada da noite anterior, gentilmente preparando a mesa. – Bom dia, senhora – ela murmurou tímida.Seguiu com os olhos a mulher que sentava-se à mesa e se apressou para lhe servir uma xícara de chá. – Bom dia! – Rosely respondeu enquanto encarava seu reflexo no líquido. – Onde estão os convidados?– Sairam cedo, mas acredito que voltarão – explic
Depois disso, uma espécie de calmaria se instalou no vilarejo. Os caçadores seguiram seu caminho, com os bolsos cheios de moedas de ouro, e os moradores tentaram retomar suas vidas também, afinal, havia muito trabalho a ser feito para reparar a destruição deixada por aquela criatura.E no fim, tirando o pássaro que insistia em destruir o telhado do casarão, Rosely conseguiu enfim, ter uma boa noite de sono.Naquela manhã, enquanto descia a escadaria de pedra, observou os trabalhadores ocupados na produção dos queijos e retirada da lã. Não era segredo para ninguém que precisava fazer uma boa venda para recuperar todo o dinheiro gasto para contratar os caçadores. Contudo, foi tirada de seus devaneios quando viu Millan se aproximando.– Estive em Dublin e aproveitei para checar o correio – ele explicou, entregando um bolo de cartas à mulher.Ela as aceitou e começou a ler o conteúdo enquanto caminhavam pela fazenda, parando a poucos metros do penhasco que dava para o oceano, sentindo o
Depois daquela conversa, alguns dias se passaram e a tão temida visita dos pais de Rosely realmente aconteceu. Na verdade, sua mãe foi a única a aparecer, acompanhada de suas damas de companhia, e a cada passo dado, desde que passou pela porta, seus olhos fitavam tudo, cheia de julgamento.Ela nunca havia gostado de interiores, logo sua reprovação era evidente.Sentou-se diante da filha, esboçando em seu rosto uma expressão irritada ao vê-la usando calças, mas tentou manter sua postura enquanto provava o chá servido pela empregada.– Pensei que a essa altura você já teria desistido da ideia estúpida de deixar seu noivo – ela disse depois de um tempo, erguendo seus olhos em direção à filha. E ao ouvir isso, o espanto no rosto de Rosely foi claro. – Eu jamais voltarei para ele! – ela exclamou firme, o rancor claro em seus olhos.– Mas, Rosely… – a mãe tentou argumentar, mas foi interrompida pela filha.– Já chega. Não vamos mais falar sobre isso – Rosely pediu num tom mais ameno, mes
Enquanto via o arroz cozinhando, com a poção que agora parecia temperos, Eleonore pensava no dia em que havia se confessado para o marido. Naquela época, havia feito uma simpatia boba para ficar com ele, submergindo um papel com seu nome no leite adocicado. E agora, estava fazendo isso novamente. Voltou sua atenção à carne de frango que estava quase pronta e lembrando das palavras da xamã, pegou algumas vagens, retirou-as da casca e levou cada uma delas à boca, deixando sua saliva antes de colocá-las dentro da panela, desligando o fogo depois de um tempo.Com o jantar pronto, se banhou e colocou o vestido que havia ganhado, soltou seus cabelos, que escorreram por seus ombros em forma de cascatas ruivas e sorriu satisfeita com o reflexo que via de si mesma.Ouviu um barulho na porta e sentiu seu coração acelerar ao olhar naquela direção e se deparar com o marido irrompendo por ela, estava um tanto inquieto e parecia ter bebido bastante. Ao vê-la, esboçou uma expressão apaixonada, ra
Rosely conseguiu respirar aliviada quando percebeu que seu “casal favorito” estava bem novamente e, inclusive, pareciam ainda mais unidos. Tendo uma remeça de queijo e lã para ser entregue em Dublin, iniciaram a viagem cedo, chegando à cidade ainda com o sol nascendo, e enquanto Millan fazia o serviço, Rosely aproveitou para caminhar um pouco pela cidade. Foi quando seus olhos se focaram numa livraria e, instintivamente, entrou no local, procurando por um livro sobre folclore nas prateleiras. Saiu de lá satisfeita e sentou num café para ler seu novo livro.“Isso, sim, combina com a senhorita!”, uma voz masculina e familiar disse, soando a alguns centímetros de distância. E ao ouvir isso, ela ergueu a cabeça, se deparand
Depois daqueles estranhos acontecimentos, Rosely viu-se sofrendo com uma constante frieza que, não importava o quão quentes fossem suas roupas, nunca passava, deixando sua pele constantemente fria como a de um cadáv*r. E para piorar, o inverno estava se aproximando e os dias ficavam cada vez mais frios e sombrios.Naquela manhã, alguns poucos raios solares irrompiam por entre as nuvens, iluminando a sala através da janela. Vendo isso, Rosely recostou seu corpo contra o vidro aquecido, fechando os olhos enquanto tentava absorver um pouco daquele calor.– Senhora, seu seafood chowder está pronto.A voz de Charlotte soou às suas costas e a mulher virou o pescoço para olhá-la por sobre o ombro, encontrando a moça diante da mesa de jantar, arruma