5 Inquietante

Contudo, aquela estranha conversa foi interrompida quando um homem surgiu carregando dois cavalos pelas rédeas, parando ao lado da mulher, a encarou por longos minutos, mas nada disse, nem mesmo a cumprimentou.

Ele era enorme. Chegava a ser maior do que Eslen.

Seu corpo era coberto de músculos, porém, o que mais chamava a atenção era a estranha coloração acastanhada que estendia dos seus cabelos curtos até sua pele, como se tivesse sido esculpido do barro. Isso, sem contar os profundos olhos negros.

Rosely só conseguiu tirar os olhos dele quando Eslen montou num dos cavalos, chamando sua atenção enquanto lhe estendia um cartão.

– Se precisar dos meus serviços – disse, lhe lançando uma piscadela antes de ir embora.

Piscou algumas vezes, ainda um tanto confusa com toda aquela estranheza, e então, encarou o cartão em sua mão, se perguntando se deveria contratar aquele homem para se livrar do lobo – ou o que tentava se convencer de que fosse um –, porém, foi tirada de seus devaneios ao ver Millan se aproximando.

– Conseguiu comprar tudo o que precisava? – ele perguntou, já ajudando-a com os sacos pesados de pólvora.

E vendo a concordância dela, continuou:

– Precisamos ir agora ou chegaremos na fazenda à noite – explicou sério, encarando o céu. – Os dias estão ficando mais curtos.

Subiram na carroça e como ele havia previsto, chegaram à fazenda junto aos últimos raios de sol sumindo no horizonte. Enquanto Millan colocava as mercadorias pesadas no galpão, a mulher seguiu para a casa, enveredando por uma pequena trilha rente ao murinho de pedras que separava o casarão da mata fechada.

Para a sua surpresa, acabou se deparando com Eleonore colocando o que parecia ser um pratinho com carne por um portãozinho de madeira, escondeu-se, evitando ser vista e permaneceu observando-a, tentando entender o que ela estava fazendo.

Parecia uma espécie de ritual.

Quando ela terminou, Rosely estava prestes a confrontá-la, mas resolveu dar uma chance para que a outra pudesse contar suas intenções, e por isso, fingiu não ter visto nada. 

– Vai fazer chá? – perguntou enquanto se aproximava.

– O- o que? – Eleonore indagou confusa com o susto.

– Pensei que fossem ervas para chá – Rosely disse, olhando para o molho de folhas em sua mão.

– Oh, sim… é isso mesmo – Eleonore concordou com um riso desconfiado, tão inquieta que acabou apertando as folhas. – Vamos entrar, sim?

Rosely apenas balançou a cabeça, concordando. Seguiu a outra em silêncio de volta para a casa e sentou-se à mesa enquanto olhava-a preparar o chá e o jantar que seriam servidos para todos logo em seguida.

Sentaram-se os três ao redor da mesa e jantaram em completo silêncio. Do lado de fora, tudo já estava escuro, então, o casal decidiu seguir para sua própria casa. Millan parou, apoiado no umbral e encarou a patroa uma última vez, como se pedisse novamente que ela não deixasse a casa.

– Boa noite! – Rosely desejou e trancou a porta.

Contudo, o sono não veio, fazendo com que ela andasse pelos cômodos escuros com sua lamparina, em meio ao silêncio. Foi quando se deu conta de que não ouvia barulhos naquela noite, pois, de alguma forma, as “coisinhas” que tanto a atormentavam haviam se aquietado. Entrou no escritório do irmão e sentou-se na poltrona, notando que havia papéis de carta sobre a mesa.

De repente, um deles chamou sua atenção: era uma carta inacabada.

Nela, o irmão falava sobre uma briga feia com um dos vizinhos, não havia destinatário, mas suspeitou que fosse para ela. Lembrou-se das outras cartas dele, que nunca havia aberto, e pela primeira vez, se arrependeu.

A verdade era que a única carta que abrira naqueles meses foi a de Millan, informando a morte do patrão à destinatária das cartas que ele sempre enviava, mesmo que nunca recebesse uma resposta. 

Enquanto lia suas palavras, lentamente foi entendendo o quebra-cabeças que era a situação de seu irmão: a fuga com a amante, a criação da fazenda nas terras antigas da família e quase abandonadas, isso além das malditas “coisinhas” que tanto faziam barulho à noite, havia até mesmo desenhos.

Foi a primeira vez que ela conseguiu se colocar no lugar dele.

O crepitar lento da lamparina e o calor do casaco pesado a fez adormecer ali mesmo sentada na poltrona, mas acordou poucos minutos depois, assustada com as ovelhas berrando. Correu para a janela, tentando ver o que estava acontecendo e seus olhos vislumbraram uma delas caída no chão com um animal parecendo se alimentar de seu pescoço.

Não conseguiu identificar do que se tratava, mas sabia que de jeito nenhum, aquilo era um lobo, pelo contrário, era quase humanoide.

Lembrou-se das palavras de Millan, pegou o novo revolv*r que havia comprado e permaneceu segurando-o enquanto olhava para a cena lá fora. Não demorou muito para dois homens, carregando tochas e cachorros, surgirem perto da cancela, olharam ao redor, como se procurassem por algo.

– Millan! – um deles gritou.

Silêncio.

As ovelhas se inquietaram, e a estranha criatura sumiu de vista, adentrando a escuridão enquanto os cachorros ladravam agoniados. Até que, finalmente, o vaqueiro saiu de sua casa, vestido apenas de calças e com uma espingarda em punho.

– Estamos vindo das terras de Johan – o homem explicou enquanto passava a cancela, e rapidamente, seus olhos se voltaram à ovelha caída no chão. – Esse maldit* já chegou aqui!

– Porr*! – resmungou Millan, mais para si do que para os outros. – O gado já está pouco e ainda aparece um chupa-cabra.

A essa altura, o dia já estava amanhecendo e as outras pessoas começavam a aparecer, seus rostos expressando um misto de curiosidade e medo, cochichando sobre a coisa que estava atacando os animais. 

Quando se deram conta da presença de Rosely, calaram-se.

– O que está acontecendo? – ela perguntou diretamente a Millan.

– Não precisa se preocupar, nós… – ele tentou explicar.

Mas foi interrompido por um dos homens:

– A senhorita precisa arranjar um caçador! – exclamou sério, apontando a ovelha machucada, mas ainda viva. – Já chegou nas suas terras, e vai voltar para terminar o serviço.

– Contratarei um amanhã quando for buscar as empregadas – Millan disse com um semblante sério.

Ao ouvir isso, veio à mente da mulher o rosto de Eslen.

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