O SOL JÁ ESTAVA começando a se esconder atrás das colinas, tingindo o céu de tons dourados e alaranjados. O vento, suave e fresco, soprava de vez em quando, fazendo as folhas da Acácia Mimosa balançar lentamente. Estava sentada na grama, recostada no tronco da árvore, sentindo o cheiro da terra misturado com o aroma doce das flores amarelas que caíam ao meu redor. O ambiente estava perfeito, tranquilo, como se o tempo tivesse desacelerado para nos deixar aproveitar aquele momento. Ao meu lado, Eve parecia perdida em seus próprios pensamentos, os olhos fixos no horizonte. Seus cabelos escuros estavam soltos, e o vento brincava com eles, o que me fez sorrir. Liam, como sempre, estava tentando animar todo mundo com suas piadas sobre o fim de semana, mas até mesmo ele parecia mais calmo hoje, como se o clima do lugar tivesse tocado a todos nós de alguma forma. Nate, sempre despreocupado, estava esticado na grama, com os braços para trás, apoiado nas mãos, observando as flores amarelas fl
― Angeline... ― uma voz ecoou no fundo da minha mente, arranhando minha consciência. Não! Não! Não! Não! ― ANGELINE! ― chamou-me novamente, mais alto desta vez. Meu corpo balançou como se o chão estivesse se movendo sob meus pés. ― ACORDA! O grito foi como um rompante, e despertei ofegante, como se tivesse sido sugada para fora de outra dimensão. Já era dia. ― Até que enfim. ― Eve exclamou em um sopro de voz, sua expressão um misto de alívio e exasperação. ― Que horas são? ― perguntei, me sentando na cama. Meu coração martelava no peito, enquanto um peso sufocante parecia apertar meus pulmões. ― Com quem você estava sonhando? Freddy Krueger? ― Eve ignorou minha pergunta, sentando-se de frente para mim na cama. Mas meus pensamentos permaneciam enevoados demais para responder. ― Você estava chorando e parecia apavorada. ― ela acrescentou, o tom cauteloso ao notar meu desconforto. ― Foi um pesadelo. ― sussurrei, tentando processar o que acabara de acontecer. Minha voz parecia dist
HAVIA UMA DORMÊNCIA no fundo dos meus olhos. Minhas pálpebras pesavam, teimando em não se abrir, como se fossem as portas de um cofre trancadas por dentro. O som das vozes ao meu redor era abafado, como se viesse de outro cômodo, mas, aos poucos, a nitidez surgia, trazendo palavras entrecortadas à tona. — Eu já disse que passei aqui antes de ir pra sala de aula. — insistia uma voz feminina, impregnada de impaciência. — E mandei ela me esperar no quarto. Não fazia ideia de que ela iria decidir vagar pelo colégio. A segunda voz era mais grave, cortante, como uma lâmina de aço. — Só estou dizendo que era mais fácil tê-la trazido logo, já que ela não estava se sentindo bem. Eu reconhecia os tons familiares, mas a dor surda na cabeça mantinha meu raciocínio arrastado, como uma marcha lenta sobre areia. Meus dedos se mexeram involuntariamente, um sinal do retorno à superfície. — Me compre algumas algemas e eu prometo amarrá-la ao pé da cama. Devolveu a voz feminina, desta vez car
18 de Maio de 2012Estamos, mais uma vez, começando de novo. As caixas estão empilhadas, os rostos de sempre carregando um cansaço familiar, mas também uma determinação silenciosa. O peso de cada mudança tem sido imenso, como se estivéssemos carregando o passado conosco a cada passo. Samuel, meu querido Samuel, tem se esforçado mais do que nunca para proteger a nossa família. Eu vejo isso em cada um dos seus gestos, nas noites sem dormir, tentando encontrar um jeito de nos manter seguros. Eu sei que ele está cansado. Cansado de continuar vivendo uma vida sem raízes. Ele abriu mão de sua vida antiga para estar aqui, para ficar comigo e com as meninas. Ele tem se sacrificado de uma forma que às vezes me parece demais, e me sinto culpada por não poder aliviar esse peso. Mas ele nunca reclama. Ele nunca nos deixa ver a fragilidade que carrega. Em vez disso, ele tem sido nossa rocha, nosso protetor. E eu o amo por isso, amo o olhar que ele me dirige quando estamos sozinhos, como se ele me
O COLÉGIO FICAVA praticamente vazio aos domingos, como se tivesse sido deixado às pressas. A maioria dos alunos estavam em casa, aproveitando o último dia do fim de semana antes de retornarem ao confinamento e os corredores frios. Eve tinha mencionado algo sobre jantar com o pai, enquanto Nate e Liam estavam nos últimos detalhes para os preparativos da nossa viagem à casa de veraneio. Eu, no entanto, não tive escolha senão retornar. Karyn, com sua disciplina impecável, começaria mais cedo no trabalho e, como sempre, planejava sair tarde. Seu cuidado exagerado não permitia que eu ficasse sozinha em casa até o dia seguinte. Desta vez, não discuti nem tentei me opor à sua decisão, era como se os muros do colégio fossem os únicos capazes de me abrigar do caos que minha vida tinha se tornado depois da noite passada, quando ouvi... fale..i com aquele... fantasma? Espírito? Eu não sabia o que chamar. Desde então, era como se tudo à minha volta tivesse mudado, como se o mundo fosse um véu fino
O CORREDOR ESTAVA parcialmente vazio, mas ainda assim parecia opressor. Eu seguia na direção oposta aos grupos de alunos que chegavam, rindo e conversando com uma despreocupação que parecia tão distante de mim naquele momento. Eles passavam apressados, indo direto para o refeitório, suas vozes ecoando pelo espaço, misturadas ao som de risadas arrastadas e vozes que vinham dos celulares de tempos em tempos. Eu mantinha os olhos baixos, ajustando a alça da minha mochila no ombro, tentando passar despercebida. Não queria encarar ninguém. Cada rosto sorridente parecia aumentar o peso que eu sentia no peito. Era como se eu estivesse nadando contra uma correnteza invisível, lutando para me manter firme enquanto tudo ao meu redor fluía em outra direção, com uma leveza que me escapava. Minhas mãos ainda tremiam um pouco, e meu estômago parecia dar voltas. Eu precisava sair dali, chegar ao alojamento, onde poderia respirar e tentar entender o que estava acontecendo comigo. Mas, a cada passo,
— O Nate ainda não está falando com você? — Eve perguntou, enquanto segurava uma camiseta cinza grafite contra o corpo e avaliava no espelho.Soltei um suspiro, sentando na beirada da minha cama enquanto dobrava meu uniforme.— Ah, ele fala... naquelas... — respondi, torcendo o canto dos lábios com um suspiro. — Ainda está irritado por causa da briga com a Maureen, e todo mundo espalhando que foi por causa do Daniel.Eve soltou um risinho, virando-se para mim com um olhar cheio de provocação.— Dona Angeline e seus dois maridos. — brincou, balançando a cabeça com um sorriso de canto.Eu joguei uma almofada nela, sem muita força, mas o suficiente para fazê-la recuar rindo.— Não teve a menor graça. — rebati, cruzando os braços, mas com um pequeno sorriso escapando.— Ei, não sou só eu quem está dizendo. — Eve ergueu as mãos em uma falsa defesa, ainda com aquele sorriso divertido que ela adorava usar para provocar. — É o assunto da semana, goste você ou não, minha amiga. A atenção está
O MACAÇÃO AZUL parecia enorme em mim, quase cômico. Precisei dobrar as barras duas vezes para que não arrastassem pelo chão, e as mangas curtas deixavam um espaço excessivo, fazendo meus braços parecerem ainda mais magros. As botas pretas eram tão grandes que meus pés praticamente nadavam dentro delas, e as luvas emborrachadas, embora fosse o único item que servia, soltavam um resíduo incômodo que deixava meus dedos escorregadios.Meus cabelos estavam presos em um coque apertado, firme o suficiente para me causar uma dor de cabeça crescente, mas eu sabia que não poderia soltá-lo até terminar o serviço. Do outro lado da sala, Maureen usava as mesmas roupas e limpava as janelas com movimentos cuidadosos, borrifando um líquido espumante e depois passando uma flanela seca. O trabalho, já demorado por natureza, parecia ainda mais lento devido à limitação de sua única mão disponível.Limpar a sala de informática não parecia uma punição tão severa à primeira vista, mas essa impressão mudou r