A garrafa de uísque já passava da metade, o líquido âmbar queimando sua garganta enquanto Max afundava no sofá de couro escuro do apartamento que alugara na capital. A penumbra da sala parecia sufocante, mas não mais do que os pensamentos que giravam em sua cabeça, em um turbilhão que não o deixava em paz. Os bilhetes anônimos continuavam a chegar – sempre curtos, sempre enigmáticos. O último, encontrado sob a porta naquela manhã, parecia um aviso sombrio: "Os pecados cobram seu preço. Cuidado com o que deseja." Ele bufou, levando a garrafa à boca mais uma vez. Que preço maior poderia pagar do que a culpa que já corroía cada centímetro de seu ser? Por Deus, ele transara com Cecília. A doce, inocente e proibida Cecília. Fechou os olhos, mas em vez de escuridão, tudo o que viu foi o brilho dourado dos cabelos dela espalhados sobre seus lençóis amarrotados. Sentiu de novo o gosto de sua pele, o calor apertado de seu corpo envolvendo o dele. Ela ainda estava em sua pele, em sua bo
O sol da manhã brilhava forte sobre a vasta propriedade dos Monteiro de Alcântara, lançando um dourado suave sobre os campos bem-cuidados e os vinhedos que se estendiam até onde a vista alcançava. A mansão imponente, de fachada clara e janelas elegantes, preparava-se para o esperado almoço em celebração ao retorno de Eduardo. Nas últimas semanas, Cecília vivera em um estado constante de tensão. Desde aquela noite impensável na taberna, não vira Max novamente. Nenhuma carta, nenhum bilhete, nenhum sinal dele. Era como se ele tivesse evaporado no ar, deixando apenas as lembranças pecaminosas de tudo o que haviam feito. E agora, ali estava ela, em seu quarto, tentando reunir coragem para descer e encarar o homem com quem deveria se casar — e, pior ainda, aquele que roubara sua inocência. Sentada diante do espelho, Cecília ajeitava os cabelos em um penteado elaborado com as mãos trêmulas. O vestido azul-pálido, de tecido delicado e mangas de renda, moldava-se à sua silhueta esguia c
Max encostou-se a uma das colunas do terraço, os braços cruzados sobre o peito enquanto observava os jardins da fazenda. O dia se arrastava em um ritmo exasperante desde que chegara ali. Não deveria ter vindo. Talvez se tivesse permanecido em seu apartamento na capital, afundando-se em mais uma garrafa de uísque, não teria que encarar a realidade incômoda que se desenrolava diante de seus olhos. Ele os viu assim que saíram da estufa. Eduardo, sempre impecável, tinha os cabelos ligeiramente desalinhados – algo que jamais passaria despercebido a Max, conhecendo a mania de perfeição do irmão. Cecília, por sua vez, trazia as faces coradas e os lábios inchados de um jeito que fez seu sangue ferver nas veias. O que diabos tinham feito ali dentro? A imagem de suas mãos em Cecília o atingiu em cheio, como um soco no estômago. Max cerrou os punhos, lutando contra a onda de ciúme que o invadia sem piedade. Ele não tinha o direito de sentir aquilo – e sabia disso. Cecília era a mulher de E
A manhã na fazenda Monteiro de Alcântara seguia em seu ritmo calmo, com o aroma de café fresco se espalhando pelo salão de refeições. O sol iluminava suavemente o ambiente, mas, para Cecília, tudo parecia fora de lugar. Desde a rejeição de Eduardo na estufa, um peso insuportável a acompanhava. Ela se oferecera — algo impensável para uma dama — e ele, com todo seu ar de correção, a afastara como se fosse indigna. Mas não era o noivo que a assombrava. Era Max. O toque dele ainda queimava em sua pele, a lembrança de seu corpo sobre o dela fazia seu coração acelerar de um jeito que a envergonhava. E desde aquela noite, ele sumira. Nenhuma palavra, nenhum olhar. Como se ela não fosse nada. Cecília ajustou o colar de pérolas, tentando conter as emoções enquanto tomava seu lugar à mesa. Ao seu lado, Helena estava sempre composta, enquanto Amélia exalava um brilho de malícia. — Você está estranha. — A voz de Amélia soou, carregada de curiosidade. — Não estou. — Cecília rebateu, em
Os Monteiro de Alcântara não eram apenas uma família — eram uma instituição. Dos salões elegantes do Rio de Janeiro aos campos dourados das fazendas de café no Vale do Paraíba, o nome Monteiro de Alcântara inspirava respeito, temor e, em muitos casos, inveja. Donos de vastas terras, aliados a políticos influentes e com raízes profundas no ciclo do café, a fortuna da família não era apenas antiga — era quase indestrutível. Joaquim Monteiro de Alcântara, o patriarca, fizera questão de reforçar isso em cada aspecto de sua vida. Rígido, inabalável e com uma visão clara do dever, ele carregava nas costas o peso do nome que herdara e que, um dia, passaria para seu primogênito. Não havia espaço para fraquezas, e certamente não havia espaço para escândalos. Era por isso que, naquela tarde abafada de janeiro, a Fazenda Boa Esperança estava em alvoroço. O salão principal, com suas paredes adornadas por tapeçarias europeias, ecoava com o som abafado de criados em movimento, preparando-se p
O calor da tarde pairava sobre a Fazenda Boa Esperança, denso e preguiçoso. Mesmo com as amplas janelas abertas, o ar morno se espalhava pelos corredores de mármore polido. Do lado de fora, os campos de café ondulavam sob o sol dourado, estendendo-se até onde os olhos alcançavam — um lembrete constante da riqueza dos Monteiro de Alcântara. No entanto, dentro da casa grande, nem mesmo a grandiosidade das tapeçarias importava para Cecília naquele momento. Sentada à penteadeira do quarto, ela encarava seu próprio reflexo, o coração batendo mais rápido do que deveria. As criadas trabalhavam a seu redor, ajeitando os últimos detalhes do penteado e do vestido de linho em um delicado tom de lavanda. Por fora, tudo parecia perfeito — mas dentro dela, uma inquietação crescia. Hoje, ela conheceria o homem que, segundo a vontade do pai, seria seu marido. "Eduardo Vieira de Sá." O nome ecoava em sua mente como um destino já traçado. — Está linda, senhorita Cecília — elogiou uma das cria
Maximiliano Vieira de Sá não acreditava em coincidências. Mas ali estava ele, recostado preguiçosamente contra a parede do salão principal da Fazenda Boa Esperança, observando a jovem que, minutos antes, quase desabara em seus braços — a mesma jovem que, agora, sorria delicadamente para seu irmão mais novo. Cecília. Ah, bela Cecília! O nome combinava perfeitamente com ela: suave, inocente… e irritantemente tentadora. Max deslizou a língua pelo canto da boca, ainda sentindo um vestígio do perfume floral que a envolvera quando seus corpos se tocaram. Jasmim, talvez. Ou algo ainda mais doce. O suficiente para provocar um homem acostumado a prazeres mais carnais — e nada inocentes. O decote do vestido lilás subia e descia sutilmente enquanto ela respirava, e ele não pôde deixar de notar a curva generosa dos seios empinados. Pequena, mas perfeitamente moldada. Feita para ser tocada. E, céus, ele tinha tocado. — O que está pensando, Max? — A voz de Eduardo interrompeu seu deva
O sol quente e intenso espalhava em tons dourados sobre a Fazenda Boa Esperança, iluminando os vastos cafezais que se estendiam até onde a vista alcançava. Cecília caminhava lentamente pelo jardim, com o braço delicadamente entrelaçado ao de Eduardo Vieira de Sá. Era um momento cuidadosamente arquitetado por sua mãe, Constança, que acreditava que a proximidade traria um laço mais firme entre eles. E Cecília, como a boa filha que sempre fora, estava disposta a tentar. — A fazenda de sua família é realmente impressionante — comentou Eduardo, sua voz firme e controlada. — Meu pai sempre falava com admiração do seu patriarca. Cecília sorriu de maneira polida. Eduardo era um homem atraente, com traços bem definidos e modos irrepreensíveis. Havia algo reconfortante em sua presença, uma estabilidade que qualquer jovem em idade de casamento deveria desejar. — Meu pai é um homem de princípios — disse ela, ajustando a saia do vestido azul-claro, cujos detalhes delicados ressaltavam sua fe