Maximiliano Vieira de Sá não acreditava em coincidências.
Mas ali estava ele, recostado preguiçosamente contra a parede do salão principal da Fazenda Boa Esperança, observando a jovem que, minutos antes, quase desabara em seus braços — a mesma jovem que, agora, sorria delicadamente para seu irmão mais novo. Cecília. Ah, bela Cecília! O nome combinava perfeitamente com ela: suave, inocente… e irritantemente tentadora. Max deslizou a língua pelo canto da boca, ainda sentindo um vestígio do perfume floral que a envolvera quando seus corpos se tocaram. Jasmim, talvez. Ou algo ainda mais doce. O suficiente para provocar um homem acostumado a prazeres mais carnais — e nada inocentes. O decote do vestido lilás subia e descia sutilmente enquanto ela respirava, e ele não pôde deixar de notar a curva generosa dos seios empinados. Pequena, mas perfeitamente moldada. Feita para ser tocada. E, céus, ele tinha tocado. — O que está pensando, Max? — A voz de Eduardo interrompeu seu devaneio. Max se afastou da parede com um sorriso lento, treinado ao longo de anos de despreocupação. Olhou para o irmão — sempre tão impecável em seu papel de herdeiro ideal — e, em seguida, voltou os olhos para Cecília. — Estava pensando que você, meu caro, tem muita sorte — murmurou, a voz carregada daquele tom rouco que deixava as mulheres inquietas. O olhar de Eduardo era sério, sem um traço de humor. Claro que seria. Desde crianças, Max sabia que eles não poderiam ser mais diferentes. Onde Eduardo via dever e responsabilidade, ele via oportunidade para se divertir. — Cecília é… encantadora, não acha? — O irmão ajeitou os punhos da camisa, sem perceber o olhar predatório que Max ainda mantinha sobre a jovem. — Encantadora — repetiu Max, deixando a palavra pairar no ar. E tentadora, em todos os sentidos errados. Foi então que Cecília, talvez sentindo o peso do olhar dele, ergueu os olhos. Por um instante, o mundo pareceu se aquietar. Ela ficou imóvel, as bochechas ganhando um tom rosado sob sua atenção intensa. Ótimo, pensou Max, satisfeito com a reação. Havia algo fascinante em observar uma mulher como ela ruborizar — ainda mais quando ele sabia exatamente o que tinha causado aquilo. Ela baixou os olhos depressa, como se quisesse apagar o momento. Mas ele já a tinha marcado em sua memória. E aquilo era um problema. — Ela está nervosa — comentou Eduardo, como se precisasse explicar a hesitação dela. — É natural, considerando as circunstâncias. — Claro — respondeu Max, com um sorriso que não tinha nada de inocente. — Afinal, você é um homem formidável. Eduardo não percebeu o sarcasmo, mas Cecília notou. Ele percebeu pela forma como os lábios dela se comprimiram levemente, como se estivesse tentando decidir se o odiava ou se estava apenas intrigada. Talvez os dois. — Não estrague isso, Max — o irmão advertiu, baixinho. — Quando foi que eu já te causei problemas? — provocou, mas Eduardo apenas lançou-lhe um olhar de advertência antes de seguir em direção ao pai de Cecília. Max suspirou. Claro que seria assim. Eduardo sempre tão correto. Sempre fazendo o que se esperava dele. E, por alguma razão, sempre recebendo as melhores coisas. Inclusive, agora, Cecília. Ele devia se afastar. Era o que qualquer homem decente faria. Mas Maximiliano Vieira de Sá não era um homem decente. *** Cecília tentava, em vão, ignorar a presença de Maximiliano. Enquanto o Sr. Monteiro de Alcântara falava animadamente com Eduardo sobre terras e negócios, ela se sentia sufocada. Não pelo noivo em potencial — que era tudo o que qualquer moça de boa família desejaria —, mas pelo olhar constante e queimando em sua pele, vindo do outro lado do salão. Dele. Ela não deveria se lembrar do toque de suas mãos em sua cintura. Não deveria imaginar como seria se aproximar mais. E, certamente, não deveria se perguntar como um homem podia ser tão descaradamente ousado com um simples olhar. — Senhorita Cecília? — A voz de Eduardo a trouxe de volta à realidade. Ela piscou, tentando se concentrar no homem à sua frente. — Sim? — Gostaria de caminhar pelos jardins? — Ele ofereceu o braço com polidez. Antes que ela pudesse responder, uma voz mais grave e muito mais familiar soou atrás dela: — Cuidado, Cecília. O calor lá fora pode ser… perigoso. Aquela voz. Ela se virou devagar, encontrando Maximiliano a poucos passos de distância, os olhos castanho-escuros brilhando de diversão. Ele parecia relaxado, mas havia algo deliberado na forma como seu olhar percorria o corpo dela — como se já tivesse imaginado exatamente o que faria se a tivesse a sós. Eduardo franziu o cenho, incomodado. — Acho que ela pode lidar com um pouco de calor, Max. — É claro que pode — respondeu Max, com um sorriso enviesado. — Mas não custa nada ser cuidadoso. Algumas flores… são delicadas. Cecília sentiu o sangue ferver em suas veias — uma mistura de indignação e algo muito mais perigoso. — Eu não sou uma flor frágil — disse, antes de pensar melhor. O sorriso dele se alargou, como se ela acabasse de lhe oferecer um desafio. — Não? — murmurou, inclinando-se ligeiramente na direção dela. — Que interessante… Eduardo pigarreou, visivelmente tenso. — Talvez devêssemos ir, Cecília. Ela assentiu, pegando o braço do homem ao qual estava prometida, mas, antes de se afastar, ouviu Max murmurar suavemente: — Até logo, florzinha. O coração dela deu um salto traidor no peito. E, pela primeira vez, Cecília teve certeza de uma coisa. Estar prometida a Eduardo era o menor dos seus problemas.O sol quente e intenso espalhava em tons dourados sobre a Fazenda Boa Esperança, iluminando os vastos cafezais que se estendiam até onde a vista alcançava. Cecília caminhava lentamente pelo jardim, com o braço delicadamente entrelaçado ao de Eduardo Vieira de Sá. Era um momento cuidadosamente arquitetado por sua mãe, Constança, que acreditava que a proximidade traria um laço mais firme entre eles. E Cecília, como a boa filha que sempre fora, estava disposta a tentar. — A fazenda de sua família é realmente impressionante — comentou Eduardo, sua voz firme e controlada. — Meu pai sempre falava com admiração do seu patriarca. Cecília sorriu de maneira polida. Eduardo era um homem atraente, com traços bem definidos e modos irrepreensíveis. Havia algo reconfortante em sua presença, uma estabilidade que qualquer jovem em idade de casamento deveria desejar. — Meu pai é um homem de princípios — disse ela, ajustando a saia do vestido azul-claro, cujos detalhes delicados ressaltavam sua fe
— Espero que esteja confortável entre nós, senhor Eduardo Vieira de Sá — a voz de Constança rompeu o breve momento de tensão, com a doçura calculada que usava ao avaliar qualquer possível aliado. — Mais do que confortável, senhora — Eduardo respondeu com cortesia impecável. — É uma honra partilhar a mesa com uma família de tamanha importância para nossa província. Vicente assentiu em aprovação. O primogênito Monteiro de Alcântara raramente sorria, mas parecia satisfeito com a resposta. — A importância vem do trabalho árduo — disse ele, ajustando a manga do paletó. — Meu pai sempre defendeu que os verdadeiros pilares de uma nação são a ordem e o dever. — Mais um discurso sobre ordem e progresso — murmurou Álvaro, o tom preguiçoso carregado de deboche. — Quem diria que o Império caiu há mais de uma década e ainda estamos discutindo isso. Vicente lançou-lhe um olhar duro. — Apenas aqueles que não se importam com o futuro da nação ignoram os rumos da República, irmão. — E aq
Após o longo e cerimonioso almoço, a família Monteiro de Alcântara reuniu-se no pátio coberto para se despedir dos irmãos Vieira de Sá. Era um momento formal, mas os sorrisos cordiais e os murmúrios educados não disfarçavam a tensão que pairava no ar – ao menos para Cecília. — Foi um prazer recebê-los — disse Constança, com sua habitual elegância. Seus olhos escuros pousaram em Eduardo com aprovação. — Esperamos vê-los novamente em breve. — O prazer foi nosso, senhora Monteiro de Alcântara — Eduardo respondeu com um leve sorriso, inclinando-se em um gesto respeitoso. Maximiliano, ao lado do irmão, manteve-se em silêncio, mas seu olhar vagava sutilmente até Cecília, como se aguardasse uma última oportunidade de provocá-la. Cecília tentou ignorar o desconforto que lhe apertava o estômago. Desde o breve encontro no jardim, cada vez que cruzava os olhos com Max, sentia-se inquieta. É Eduardo quem importa, lembrou a si mesma. Vicente, sempre correto, dirigiu-se ao mais velho dos irmão
Por um instante, o som dos cavalos avançando pela estrada de terra foi a única coisa que se ouviu. Eduardo manteve o rosto impassível, mas seus dedos apertaram as rédeas com um pouco mais de força antes de responder: — Eu acho que posso ser esse alguém. Creio que causei uma boa impressão. A convicção em sua voz fez Max erguer uma sobrancelha, surpreso e levemente divertido. — Ah, irmão… Sempre tão confiante. — Sua risada soou baixa e cheia de sarcasmo. — Talvez ela tenha ficado encantada com sua postura impecável e seu discurso sobre investimentos no Vale do Paraíba. — Não subestime minha capacidade de impressionar uma mulher, Max — Eduardo rebateu, a paciência se esgotando. — Nem todas são atraídas por fanfarrões sem rumo. Max inclinou a cabeça em uma falsa reverência. — Touche, meu querido irmão. Mas aqui vai um conselho: se quer conquistar uma mulher como Cecília, precisará de muito mais do que boas maneiras e conversas sobre política e administração. — E você se julg
Os dias que se seguiram à visita dos Vieira de Sá trouxeram consigo uma mistura inquietante de expectativa e reflexão para Cecília Monteiro de Alcântara. Embora tentasse concentrar-se em suas obrigações domésticas e nos preparativos para o futuro, sua mente frequentemente vagava para aquele encontro marcante — e, em especial, para os dois irmãos que, de maneiras tão distintas, haviam atravessado seu caminho. Eduardo era, sem dúvida, o noivo ideal aos olhos da sociedade. Seu comportamento era exemplar, e após seu primeiro encontro o nobre rapaz passara a lhe enviar correspondências. As suas cartas, embora formais, demonstravam um interesse genuíno em conhecê-la melhor. Cecília se esforçava para retribuir com palavras igualmente polidas e cuidadosas, ainda que, em seu íntimo, sentisse que algo lhe escapava — um certo calor, uma centelha que fizesse seu coração disparar. Maximiliano, por outro lado… Pensar nele era um exercício perigoso, e Cecília se censurava toda vez que a memóri
A manhã na Fazenda Boa Esperança dos Monteiro de Alcântara começava antes mesmo do sol alcançar o céu em tons dourados. O aroma do café recém-passado se espalhava pela casa, enquanto os empregados já se movimentavam pelos corredores de madeira escura, preparando o dia para a ilustre família. No salão principal, Cecília e suas irmãs compartilhavam o desjejum sob a supervisão atenta de Constança, que, como sempre, mantinha a postura ereta e o semblante sereno. Mesmo entre paredes cobertas por tapeçarias francesas e porcelanas importadas, a mãe fazia questão de lembrar a todas as filhas da importância de seu comportamento. — As mulheres de nossa posição devem ser exemplos de graça e discrição — dizia ela, mexendo delicadamente o chá com a colher de prata. — Lembrem-se disso. Sempre. — Claro, mamãe — Helena respondeu, com a voz polida, mas com os olhos baixos, escondendo o leve sorriso de quem já tinha seus próprios planos. Amélia, por outro lado, revirou os olhos de forma quase imper
A luz dourada do entardecer tingia as ruas da cidade com um brilho quente e decadente. Para Maximiliano Vieira de Sá, aquilo era apenas o prenúncio de mais uma noite de excessos – e ele pretendia aproveitá-la em todos os sentidos. No salão reservado do Clube do Progresso, um reduto exclusivo para homens ricos e poderosos, o som das risadas roucas se misturava ao tilintar de taças de cristal. O ambiente cheirava a tabaco caro, conhaque envelhecido e promessas ilícitas. Um lugar perfeito para um homem como Max. Recostado em uma poltrona de couro, ele observava a movimentação com aquele seu sorriso ladino e confiante. Era um homem que chamava atenção sem precisar se esforçar para isso. O cabelo castanho levemente desalinhado, o maxilar firme sempre coberto por uma sombra de barba, e os olhos castanhos-escuros que pareciam brilhar com um convite silencioso para o pecado. — Você perdeu, Max. — Antônio, seu primo e cúmplice de muitas aventuras, jogou as cartas sobre a mesa, revelando
Cecília andava pelo terraço da casa grande, observando os campos de café que se estendiam até onde seus olhos podiam alcançar. A brisa morna do fim da tarde fazia balançar os fios soltos de seu penteado, e o aroma adocicado das flores do jardim se misturava ao cheiro terroso da lavoura recém-colhida. A fazenda Monteiro de Alcântara era um verdadeiro império, fruto de gerações de trabalho e de decisões calculadas. Seu pai, Joaquim, orgulhava-se de ser um dos poucos cafeicultores que, desde antes da abolição, optara por abandonar o uso da mão de obra escravizada, o que lhe rendera tanto admiração quanto desconfiança por parte dos outros proprietários. Agora, ele se gabava da organização eficiente de seus trabalhadores assalariados, um sistema que, segundo ele, moldaria o futuro do país. Mas, para Cecília, aquele lugar sempre seria, antes de tudo, seu lar. — Pensativa outra vez, Cecília? — A voz firme e controlada de Vicente interrompeu seu devaneio. Ela se virou para encará-lo, o ir