05. O almoço

— Espero que esteja confortável entre nós, senhor Eduardo Vieira de Sá — a voz de Constança rompeu o breve momento de tensão, com a doçura calculada que usava ao avaliar qualquer possível aliado.

— Mais do que confortável, senhora — Eduardo respondeu com cortesia impecável. — É uma honra partilhar a mesa com uma família de tamanha importância para nossa província.

Vicente assentiu em aprovação. O primogênito Monteiro de Alcântara raramente sorria, mas parecia satisfeito com a resposta.

— A importância vem do trabalho árduo — disse ele, ajustando a manga do paletó. — Meu pai sempre defendeu que os verdadeiros pilares de uma nação são a ordem e o dever.

— Mais um discurso sobre ordem e progresso — murmurou Álvaro, o tom preguiçoso carregado de deboche. — Quem diria que o Império caiu há mais de uma década e ainda estamos discutindo isso.

Vicente lançou-lhe um olhar duro.

— Apenas aqueles que não se importam com o futuro da nação ignoram os rumos da República, irmão.

— E aqueles que se importam demais, irmão, esquecem de viver o presente — retrucou Álvaro, erguendo a taça de vinho e girando o líquido com indolência. — Mas, por favor, prossiga. Estou morrendo aos poucos durante a conversa.

Cecília abafou um sorriso, embora tentasse manter o foco em Eduardo, que, ao contrário de seus irmãos, não parecia inclinado a participar da disputa velada.

— O futuro da nação não depende apenas de palavras bonitas — Vicente continuou, ignorando a provocação. — As decisões políticas em curso vão moldar as próximas décadas. O país ainda está tentando se ajustar após a abolição e o fim do Império.

— E como os Vieira de Sá veem essa nova República? — Constança perguntou, um brilho curioso nos olhos.

— Meu pai acreditava que as elites têm o dever de conduzir o Brasil a tempos mais estáveis — Eduardo respondeu, com a calma de quem está acostumado a discussões sérias. — Penso igual. Não há espaço para desordem ou sentimentalismos.

Max sorriu de canto, a voz carregada de malícia ao intervir:

— Sentimentalismo é perigoso, de fato. Levam a decisões impulsivas, não acha, Cecília?

O nome dela em sua boca durante aquela conversa política soou mais íntimo do que deveria. Cecília quase derramou o vinho ao sentir os olhares se voltarem para si.

— Eu… não sei o que pensar sobre isso — respondeu, controlando o tom suave. — Mas imagino que um pouco de sentimento seja necessário em qualquer aspecto da vida.

— Muito sensato — Eduardo elogiou, lançando-lhe um sorriso gentil, alheio ao jogo subterrâneo que seu irmão parecia tão empenhado em jogar.

Max, porém, não recuou.

— Sensatez é uma virtude rara — disse ele, os olhos fixos nela. — Mas, às vezes, um toque de imprudência torna a vida… mais interessante.

A tensão pairou no ar por um instante, interrompida apenas pelo som da faca de Vicente cortando a carne com precisão.

— Se depender de você e meu irmão Álvaro, a República cairá antes de se firmar — ele disse, secamente.

Álvaro riu, dando de ombros.

— E se depender de você, passaremos a viver em um quartel.

— O Brasil não pode ser conduzido com frivolidades — Vicente rebateu, ajustando o nó da gravata. — Mas compreendo que a responsabilidade nunca foi uma preocupação para vocês dois.

Max se recostou na cadeira, alisando o punho da camisa com uma calma calculada.

— Alguém precisa trazer leveza a este mundo cinzento que você e meu irmão tanto apreciam, senhor Monteiro de Alcântara.

— Leveza ou devassidão? — Vicente não se conteve.

— Depende de quem pergunta — Max replicou, o sorriso enigmático voltado para Cecília.

Ela sentiu o rubor em sua pele aumentar. Não era possível este homem ser tão descarado! Eduardo, para seu alívio, pareceu alheio àquela troca venenosa.

— E você, Cecília? — perguntou seu prometido em algum momento, a voz suave, retomando a conversa. — Gosta do estilo de vida agitado ou da calmaria?

— Nunca conheci nada além da Fazenda Boa Esperança — respondeu ela, tentando parecer despreocupada. — Mas acredito que há um certo charme no desconhecido.

Max arqueou uma sobrancelha, claramente se divertindo com a resposta.

— O desconhecido, senhorita, sempre reserva surpresas.

Cecília estreitou os lábios em uma linha fina, mas não ousou responder.

Constança, percebendo a direção perigosa da conversa, interveio:

— Cecília sempre teve o bom senso de saber o que esperar do futuro. Um lar sólido exige disciplina e respeito. Não aventuras passageiras.

Max ergueu a taça em um brinde silencioso, mas o brilho zombeteiro em seus olhos dizia que ele não concordava nem um pouco com aquelas palavras.

— Naturalmente, mãe — Helena, a caçula da família comentou, em tom amável. — É por isso que Eduardo parece o pretendente perfeito para ela.

— Sem dúvida — Vicente reforçou, em tom definitivo e de aprovação.

Max não disse nada, mas Cecília podia sentir o olhar dele em sua direção de tempos em tempos até o momento em que a sobremesa foi servida.

Enquanto os outros seguiam discutindo política, ela tentava convencer a si mesma de que Eduardo seria a escolha certa. Era seguro. Respeitável. Tudo o que uma jovem em sua posição deveria desejar.

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