— Espero que esteja confortável entre nós, senhor Eduardo Vieira de Sá — a voz de Constança rompeu o breve momento de tensão, com a doçura calculada que usava ao avaliar qualquer possível aliado.
— Mais do que confortável, senhora — Eduardo respondeu com cortesia impecável. — É uma honra partilhar a mesa com uma família de tamanha importância para nossa província. Vicente assentiu em aprovação. O primogênito Monteiro de Alcântara raramente sorria, mas parecia satisfeito com a resposta. — A importância vem do trabalho árduo — disse ele, ajustando a manga do paletó. — Meu pai sempre defendeu que os verdadeiros pilares de uma nação são a ordem e o dever. — Mais um discurso sobre ordem e progresso — murmurou Álvaro, o tom preguiçoso carregado de deboche. — Quem diria que o Império caiu há mais de uma década e ainda estamos discutindo isso. Vicente lançou-lhe um olhar duro. — Apenas aqueles que não se importam com o futuro da nação ignoram os rumos da República, irmão. — E aqueles que se importam demais, irmão, esquecem de viver o presente — retrucou Álvaro, erguendo a taça de vinho e girando o líquido com indolência. — Mas, por favor, prossiga. Estou morrendo aos poucos durante a conversa. Cecília abafou um sorriso, embora tentasse manter o foco em Eduardo, que, ao contrário de seus irmãos, não parecia inclinado a participar da disputa velada. — O futuro da nação não depende apenas de palavras bonitas — Vicente continuou, ignorando a provocação. — As decisões políticas em curso vão moldar as próximas décadas. O país ainda está tentando se ajustar após a abolição e o fim do Império. — E como os Vieira de Sá veem essa nova República? — Constança perguntou, um brilho curioso nos olhos. — Meu pai acreditava que as elites têm o dever de conduzir o Brasil a tempos mais estáveis — Eduardo respondeu, com a calma de quem está acostumado a discussões sérias. — Penso igual. Não há espaço para desordem ou sentimentalismos. Max sorriu de canto, a voz carregada de malícia ao intervir: — Sentimentalismo é perigoso, de fato. Levam a decisões impulsivas, não acha, Cecília? O nome dela em sua boca durante aquela conversa política soou mais íntimo do que deveria. Cecília quase derramou o vinho ao sentir os olhares se voltarem para si. — Eu… não sei o que pensar sobre isso — respondeu, controlando o tom suave. — Mas imagino que um pouco de sentimento seja necessário em qualquer aspecto da vida. — Muito sensato — Eduardo elogiou, lançando-lhe um sorriso gentil, alheio ao jogo subterrâneo que seu irmão parecia tão empenhado em jogar. Max, porém, não recuou. — Sensatez é uma virtude rara — disse ele, os olhos fixos nela. — Mas, às vezes, um toque de imprudência torna a vida… mais interessante. A tensão pairou no ar por um instante, interrompida apenas pelo som da faca de Vicente cortando a carne com precisão. — Se depender de você e meu irmão Álvaro, a República cairá antes de se firmar — ele disse, secamente. Álvaro riu, dando de ombros. — E se depender de você, passaremos a viver em um quartel. — O Brasil não pode ser conduzido com frivolidades — Vicente rebateu, ajustando o nó da gravata. — Mas compreendo que a responsabilidade nunca foi uma preocupação para vocês dois. Max se recostou na cadeira, alisando o punho da camisa com uma calma calculada. — Alguém precisa trazer leveza a este mundo cinzento que você e meu irmão tanto apreciam, senhor Monteiro de Alcântara. — Leveza ou devassidão? — Vicente não se conteve. — Depende de quem pergunta — Max replicou, o sorriso enigmático voltado para Cecília. Ela sentiu o rubor em sua pele aumentar. Não era possível este homem ser tão descarado! Eduardo, para seu alívio, pareceu alheio àquela troca venenosa. — E você, Cecília? — perguntou seu prometido em algum momento, a voz suave, retomando a conversa. — Gosta do estilo de vida agitado ou da calmaria? — Nunca conheci nada além da Fazenda Boa Esperança — respondeu ela, tentando parecer despreocupada. — Mas acredito que há um certo charme no desconhecido. Max arqueou uma sobrancelha, claramente se divertindo com a resposta. — O desconhecido, senhorita, sempre reserva surpresas. Cecília estreitou os lábios em uma linha fina, mas não ousou responder. Constança, percebendo a direção perigosa da conversa, interveio: — Cecília sempre teve o bom senso de saber o que esperar do futuro. Um lar sólido exige disciplina e respeito. Não aventuras passageiras. Max ergueu a taça em um brinde silencioso, mas o brilho zombeteiro em seus olhos dizia que ele não concordava nem um pouco com aquelas palavras. — Naturalmente, mãe — Helena, a caçula da família comentou, em tom amável. — É por isso que Eduardo parece o pretendente perfeito para ela. — Sem dúvida — Vicente reforçou, em tom definitivo e de aprovação. Max não disse nada, mas Cecília podia sentir o olhar dele em sua direção de tempos em tempos até o momento em que a sobremesa foi servida. Enquanto os outros seguiam discutindo política, ela tentava convencer a si mesma de que Eduardo seria a escolha certa. Era seguro. Respeitável. Tudo o que uma jovem em sua posição deveria desejar.Após o longo e cerimonioso almoço, a família Monteiro de Alcântara reuniu-se no pátio coberto para se despedir dos irmãos Vieira de Sá. Era um momento formal, mas os sorrisos cordiais e os murmúrios educados não disfarçavam a tensão que pairava no ar – ao menos para Cecília. — Foi um prazer recebê-los — disse Constança, com sua habitual elegância. Seus olhos escuros pousaram em Eduardo com aprovação. — Esperamos vê-los novamente em breve. — O prazer foi nosso, senhora Monteiro de Alcântara — Eduardo respondeu com um leve sorriso, inclinando-se em um gesto respeitoso. Maximiliano, ao lado do irmão, manteve-se em silêncio, mas seu olhar vagava sutilmente até Cecília, como se aguardasse uma última oportunidade de provocá-la. Cecília tentou ignorar o desconforto que lhe apertava o estômago. Desde o breve encontro no jardim, cada vez que cruzava os olhos com Max, sentia-se inquieta. É Eduardo quem importa, lembrou a si mesma. Vicente, sempre correto, dirigiu-se ao mais velho dos irmão
Por um instante, o som dos cavalos avançando pela estrada de terra foi a única coisa que se ouviu. Eduardo manteve o rosto impassível, mas seus dedos apertaram as rédeas com um pouco mais de força antes de responder: — Eu acho que posso ser esse alguém. Creio que causei uma boa impressão. A convicção em sua voz fez Max erguer uma sobrancelha, surpreso e levemente divertido. — Ah, irmão… Sempre tão confiante. — Sua risada soou baixa e cheia de sarcasmo. — Talvez ela tenha ficado encantada com sua postura impecável e seu discurso sobre investimentos no Vale do Paraíba. — Não subestime minha capacidade de impressionar uma mulher, Max — Eduardo rebateu, a paciência se esgotando. — Nem todas são atraídas por fanfarrões sem rumo. Max inclinou a cabeça em uma falsa reverência. — Touche, meu querido irmão. Mas aqui vai um conselho: se quer conquistar uma mulher como Cecília, precisará de muito mais do que boas maneiras e conversas sobre política e administração. — E você se julg
Os dias que se seguiram à visita dos Vieira de Sá trouxeram consigo uma mistura inquietante de expectativa e reflexão para Cecília Monteiro de Alcântara. Embora tentasse concentrar-se em suas obrigações domésticas e nos preparativos para o futuro, sua mente frequentemente vagava para aquele encontro marcante — e, em especial, para os dois irmãos que, de maneiras tão distintas, haviam atravessado seu caminho. Eduardo era, sem dúvida, o noivo ideal aos olhos da sociedade. Seu comportamento era exemplar, e após seu primeiro encontro o nobre rapaz passara a lhe enviar correspondências. As suas cartas, embora formais, demonstravam um interesse genuíno em conhecê-la melhor. Cecília se esforçava para retribuir com palavras igualmente polidas e cuidadosas, ainda que, em seu íntimo, sentisse que algo lhe escapava — um certo calor, uma centelha que fizesse seu coração disparar. Maximiliano, por outro lado… Pensar nele era um exercício perigoso, e Cecília se censurava toda vez que a memóri
A manhã na Fazenda Boa Esperança dos Monteiro de Alcântara começava antes mesmo do sol alcançar o céu em tons dourados. O aroma do café recém-passado se espalhava pela casa, enquanto os empregados já se movimentavam pelos corredores de madeira escura, preparando o dia para a ilustre família. No salão principal, Cecília e suas irmãs compartilhavam o desjejum sob a supervisão atenta de Constança, que, como sempre, mantinha a postura ereta e o semblante sereno. Mesmo entre paredes cobertas por tapeçarias francesas e porcelanas importadas, a mãe fazia questão de lembrar a todas as filhas da importância de seu comportamento. — As mulheres de nossa posição devem ser exemplos de graça e discrição — dizia ela, mexendo delicadamente o chá com a colher de prata. — Lembrem-se disso. Sempre. — Claro, mamãe — Helena respondeu, com a voz polida, mas com os olhos baixos, escondendo o leve sorriso de quem já tinha seus próprios planos. Amélia, por outro lado, revirou os olhos de forma quase imper
A luz dourada do entardecer tingia as ruas da cidade com um brilho quente e decadente. Para Maximiliano Vieira de Sá, aquilo era apenas o prenúncio de mais uma noite de excessos – e ele pretendia aproveitá-la em todos os sentidos. No salão reservado do Clube do Progresso, um reduto exclusivo para homens ricos e poderosos, o som das risadas roucas se misturava ao tilintar de taças de cristal. O ambiente cheirava a tabaco caro, conhaque envelhecido e promessas ilícitas. Um lugar perfeito para um homem como Max. Recostado em uma poltrona de couro, ele observava a movimentação com aquele seu sorriso ladino e confiante. Era um homem que chamava atenção sem precisar se esforçar para isso. O cabelo castanho levemente desalinhado, o maxilar firme sempre coberto por uma sombra de barba, e os olhos castanhos-escuros que pareciam brilhar com um convite silencioso para o pecado. — Você perdeu, Max. — Antônio, seu primo e cúmplice de muitas aventuras, jogou as cartas sobre a mesa, revelando
Cecília andava pelo terraço da casa grande, observando os campos de café que se estendiam até onde seus olhos podiam alcançar. A brisa morna do fim da tarde fazia balançar os fios soltos de seu penteado, e o aroma adocicado das flores do jardim se misturava ao cheiro terroso da lavoura recém-colhida. A fazenda Monteiro de Alcântara era um verdadeiro império, fruto de gerações de trabalho e de decisões calculadas. Seu pai, Joaquim, orgulhava-se de ser um dos poucos cafeicultores que, desde antes da abolição, optara por abandonar o uso da mão de obra escravizada, o que lhe rendera tanto admiração quanto desconfiança por parte dos outros proprietários. Agora, ele se gabava da organização eficiente de seus trabalhadores assalariados, um sistema que, segundo ele, moldaria o futuro do país. Mas, para Cecília, aquele lugar sempre seria, antes de tudo, seu lar. — Pensativa outra vez, Cecília? — A voz firme e controlada de Vicente interrompeu seu devaneio. Ela se virou para encará-lo, o ir
O relógio da imponente residência dos Vieira de Sá já marcava mais de duas horas da madrugada quando Max atravessou a porta principal, arrastando os passos preguiçosos pelo saguão silencioso. O cheiro amadeirado do charuto ainda pairava em suas roupas, misturado ao aroma doce de perfume feminino. A gravata estava frouxa, o colarinho aberto, e o cabelo negro desgrenhado, como se mãos delicadas tivessem acabado de se perder nele. Ele cambaleou ligeiramente ao subir os primeiros degraus da escadaria, murmurando para si mesmo um palavrão baixinho quando o mundo girou por um instante. Mas não estava tão embriagado assim. Apenas o suficiente para não se importar com o fato de que, mais uma vez, voltava para casa sozinho. — Finalmente — a voz firme de Eduardo o deteve antes que alcançasse seu quarto. Max ergueu os olhos, piscando ao vê-lo sentado em uma poltrona no corredor, os cotovelos apoiados nos joelhos e um olhar severo no rosto sempre impecável. — Ora, ora… Ficou com saudades, irm
A casa grande estava em um alvoroço incomum. Os criados corriam de um lado para o outro, ajustando os últimos detalhes de uma refeição suntuosa, enquanto os salões eram perfumados com flores recém-colhidas. Cecília observava tudo com um nó apertado no estômago. Não entendia por que sua mãe insistira em tanta pompa para um simples jantar. — Parece que vão receber o imperador, e eu não fui avisada — murmurou para si mesma, alisando as saias do vestido azul que Constança escolhera para ela. Helena e Amélia tinham desaparecido em meio aos preparativos, e seu pai, Joaquim, estava ocupado com os negócios da fazenda. Cecília sentia-se inquieta, e aquela sensação a acompanhava desde a manhã. Como se algo estivesse para acontecer. Algo que mudaria tudo. — Menina, com essa cara, vai azedar o leite das vacas! A voz firme e afetuosa de dona Ivone, a cozinheira-chefe da casa, trouxe um breve sorriso ao rosto de Cecília. A mulher de pele retinta, olhar perspicaz e mãos calejadas tinha sido