O relógio da imponente residência dos Vieira de Sá já marcava mais de duas horas da madrugada quando Max atravessou a porta principal, arrastando os passos preguiçosos pelo saguão silencioso. O cheiro amadeirado do charuto ainda pairava em suas roupas, misturado ao aroma doce de perfume feminino. A gravata estava frouxa, o colarinho aberto, e o cabelo negro desgrenhado, como se mãos delicadas tivessem acabado de se perder nele. Ele cambaleou ligeiramente ao subir os primeiros degraus da escadaria, murmurando para si mesmo um palavrão baixinho quando o mundo girou por um instante. Mas não estava tão embriagado assim. Apenas o suficiente para não se importar com o fato de que, mais uma vez, voltava para casa sozinho. — Finalmente — a voz firme de Eduardo o deteve antes que alcançasse seu quarto. Max ergueu os olhos, piscando ao vê-lo sentado em uma poltrona no corredor, os cotovelos apoiados nos joelhos e um olhar severo no rosto sempre impecável. — Ora, ora… Ficou com saudades, irm
A casa grande estava em um alvoroço incomum. Os criados corriam de um lado para o outro, ajustando os últimos detalhes de uma refeição suntuosa, enquanto os salões eram perfumados com flores recém-colhidas. Cecília observava tudo com um nó apertado no estômago. Não entendia por que sua mãe insistira em tanta pompa para um simples jantar. — Parece que vão receber o imperador, e eu não fui avisada — murmurou para si mesma, alisando as saias do vestido azul que Constança escolhera para ela. Helena e Amélia tinham desaparecido em meio aos preparativos, e seu pai, Joaquim, estava ocupado com os negócios da fazenda. Cecília sentia-se inquieta, e aquela sensação a acompanhava desde a manhã. Como se algo estivesse para acontecer. Algo que mudaria tudo. — Menina, com essa cara, vai azedar o leite das vacas! A voz firme e afetuosa de dona Ivone, a cozinheira-chefe da casa, trouxe um breve sorriso ao rosto de Cecília. A mulher de pele retinta, olhar perspicaz e mãos calejadas tinha sido
Do lado de fora, as luzes amareladas das lamparinas tremeluziam, projetando sombras suaves nas paredes de taipa da imponente casa-grande. O perfume das flores de laranjeira pairava no ar, misturado ao aroma tentador que escapava da cozinha, onde Dona Ivone supervisionava cada detalhe do banquete com mãos firmes e experientes. Dentro do salão de jantar, o brilho dos candelabros de prata refletia nas porcelanas finas e nos cristais lapidados, enquanto as vozes se misturavam em um burburinho agradável. Os Monteiro de Alcântara sabiam como receber. A mesa, longa e farta, ostentava faisões assados, tortas delicadas, pães frescos e frutas cristalizadas, um espetáculo digno das mais refinadas casas da Corte. Cecília, no entanto, mal sentia o gosto do caldo fumegante em seu prato. O coração batia descompassado desde o momento em que vira Max Vieira de Sá cruzar a soleira da porta. Não esperava vê-lo tão cedo — e, definitivamente, não naquele jantar. A surpresa deixara seu corpo tenso, e a
A copa estava mais fresca do que o salão principal, com o aroma doce de canela e baunilha pairando no ar. A luz das lamparinas era mais suave ali, lançando sombras quentes nas prateleiras repletas de louças e potes de compotas caseiras. Cecília inspirou fundo, tentando acalmar os nervos enquanto Dona Ivone organizava pratos para a sobremesa. A cozinheira-chefe, uma mulher robusta e de feições gentis, observou-a de soslaio antes de se aproximar. — Menina, você está mais pálida do que um fantasma — murmurou em tom baixo, pegando a sua mão com delicadeza. — O que foi? Cecília hesitou. Não sabia como colocar em palavras aquele tumulto de emoções. A presença de Max a desestabilizava de um jeito que ela não queria — não podia — admitir. — Estou bem — mentiu, desviando o olhar para o avental imaculado de Dona Ivone. — Apenas cansada. — Ah, não me engana, Cecília. Conheço você desde que usava laços no cabelo. Tem algo lhe incomodando, e não é só cansaço. O calor subiu ao seu rosto
A noite avançava, e a música suave de um quarteto de cordas preenchia o ar, enquanto casais deslizavam pela pista de dança improvisada. O vinho continuava a ser servido, afrouxando a rigidez habitual dos Monteiro de Alcântara e a formalidade calculada dos Vieira de Sá. Cecília permanecia ao lado de Eduardo, recebendo cumprimentos e elogios pela união iminente. Sorria, agradecia, mantinha a postura irrepreensível que lhe haviam ensinado desde menina – mas, por dentro, estava em chamas. Cada vez que olhava para Max, a tensão em seu corpo aumentava como um fio prestes a se partir. — Está se divertindo? — Eduardo perguntou, puxando-a para a pista de dança assim que os músicos começaram uma valsa mais lenta. — Sim — ela mentiu, permitindo que ele a guiasse. Eduardo dançava com precisão. Seus passos eram calculados, impecáveis, exatamente como a vida que planejava ao lado dela. Cecília tentou se concentrar no rosto dele – nas linhas simétricas, na segurança tranquila que oferecia –,
A boca de Max continuava explorando a dela com um desespero contido, como se ele estivesse tentando provar um ponto – ou talvez apenas se perder nela. As mãos dele deslizavam por suas costas, pressionando-a ainda mais contra seu corpo quente e sólido, e Cecília sentiu o mundo girar ao redor deles. — Você não deveria… — Ela tentou protestar entre os beijos, mas sua própria voz soava fraca, quase um gemido. — Eu nunca faço o que deveria, bela Cecília — Max respondeu contra seus lábios, o tom rouco e carregado de desejo. Os dedos dele subiram lentamente pelo corpete delicado de seu vestido, traçando um caminho torturante pela curva de sua cintura até a linha de suas costelas. O toque era firme, possessivo – e, ainda assim, parecia que ele estava se segurando para não ir além. Cecília estava em chamas. Cada parte de seu corpo parecia viva sob o toque dele, e a forma como Max a beijava – profunda, intensa, como se não houvesse mais nada no mundo – a fazia esquecer do noivado, das o
E ela ficou ali, imóvel, com os lábios ainda latejando pelo beijo roubado e as pernas fracas como se não suportassem seu próprio peso. O ar ao seu redor parecia denso, carregado da presença de Max, mesmo que ele já tivesse se afastado. Ela tentou respirar fundo, mas seu peito subia e descia de forma irregular, traindo o tumulto que sentia por dentro. “Mentirosa.” A palavra dele ecoava em sua mente como uma maldição. Porque ele tinha razão – e isso a apavorava mais do que qualquer coisa. Com as mãos trêmulas, ela ajeitou as alças do vestido, tentando recuperar a compostura. O que acabara de acontecer… aquilo era inaceitável. Imoral. Um pecado grave demais para ser ignorado. “Você é a mulher do meu irmão.” A lembrança dessas palavras queimou como fogo em sua consciência. Ela precisava se afastar dele. Precisava enterrá-lo em algum canto obscuro da memória e jamais permitir que aquele desejo proibido voltasse a vir à tona. Mas como esquecer? Como apagar o calor do toque dele em
Max encostou-se preguiçosamente ao arco da porta, a taça de vinho pendendo entre os dedos longos. Para qualquer observador desatento, ele parecia relaxado – quase entediado com a comoção ao redor. Mas, por dentro, cada músculo do seu corpo estava tenso, como uma corda prestes a se partir. Seus olhos não deixavam Cecília. Não conseguiam. Ele ainda sentia o gosto dela nos lábios – doce, quente, proibido. Sentia a pressão delicada do corpo dela contra o seu, o tremor leve de seus dedos quando, por um instante, ela correspondeu ao beijo. E, mesmo agora, enquanto Eduardo se ajoelhava diante dela com aquele maldito anel, Max podia jurar que o desejo ainda queimava em sua pele como um pecado que não podia – não queria – esquecer. A plateia suspirava em uníssono, alguns convidados murmuravam entre si sobre como eles formavam um casal perfeito. Um casal perfeito. Max quase riu – um riso amargo que ficou preso em sua garganta. Porque ele sabia a verdade. Sabia que, minutos antes, Cecília e