A manhã na Fazenda Boa Esperança dos Monteiro de Alcântara começava antes mesmo do sol alcançar o céu em tons dourados. O aroma do café recém-passado se espalhava pela casa, enquanto os empregados já se movimentavam pelos corredores de madeira escura, preparando o dia para a ilustre família.
No salão principal, Cecília e suas irmãs compartilhavam o desjejum sob a supervisão atenta de Constança, que, como sempre, mantinha a postura ereta e o semblante sereno. Mesmo entre paredes cobertas por tapeçarias francesas e porcelanas importadas, a mãe fazia questão de lembrar a todas as filhas da importância de seu comportamento. — As mulheres de nossa posição devem ser exemplos de graça e discrição — dizia ela, mexendo delicadamente o chá com a colher de prata. — Lembrem-se disso. Sempre. — Claro, mamãe — Helena respondeu, com a voz polida, mas com os olhos baixos, escondendo o leve sorriso de quem já tinha seus próprios planos. Amélia, por outro lado, revirou os olhos de forma quase imperceptível, mas Cecília notou e mordeu o lábio para conter o riso. — Não entendo por que precisamos sempre parecer perfeitas — resmungou Amélia em um sussurro, enquanto passava manteiga fresca no pão. — É tão cansativo... — Porque a perfeição nos protege — Cecília respondeu baixinho. — E você sabe como papai se preocupa com a imagem da família, especialmente depois da proclamação. — Ah, a República… — Amélia bufou, batendo os dedos contra a mesa. — Parece que desde que o Imperador foi deposto, todo mundo anda em pânico por aqui. Helena ergueu o olhar, sempre mais ponderada. — E com razão — disse, mantendo o tom baixo para que a mãe não ouvisse. — Muitas famílias perderam influência desde a queda do Império. Papai teme que o governo avance sobre nossas terras, ou que a abolição da escravatura ainda traga mais prejuízos. Cecília sabia que a irmã mais velha tinha razão. Desde o fim da monarquia e a abolição, os tempos estavam mudando rápido demais para o gosto do patriarca. O Brasil republicano, ainda em seus primeiros anos, era um território incerto. Os cafeicultores, que por décadas sustentaram o país, agora enfrentavam novos desafios — a mão de obra assalariada, a chegada dos imigrantes europeus e a constante ameaça de reformas políticas. — Não sei por que falam tanto de política — Amélia suspirou, voltando a se servir. — Eu preferia que falassem de algo mais interessante. Por exemplo… o que achou do seu noivo, Cecília? A pergunta foi direta, e Cecília se engasgou levemente com o chá. — Ele é… gentil — respondeu, escolhendo suas palavras com cuidado. — Parece um bom homem. Amélia ergueu uma sobrancelha, cética. — Gentil? Isso soa entediante. — Nem todos os homens precisam ser cheios de charme e imprudência como você gosta — Helena pontuou, com um sorrisinho malicioso. — Por favor, não estou dizendo que desejo um aventureiro — retrucou Amélia, inclinando-se mais perto das irmãs. — Mas… você não sentiu nada quando ele lhe deu a mão? Nenhum arrepio? Cecília hesitou. Não, com Eduardo ela não sentira nada além de um conforto morno — seguro, mas sem faíscas. O único momento em que seu coração acelerou foi durante aquele breve e ousado encontro com Maximiliano. Mas ela não se atreveria a confessar isso. — O casamento não precisa ser uma história de paixão avassaladora, Amélia — respondeu com firmeza. — Às vezes, a estabilidade é mais importante. Helena assentiu em concordância, mas Amélia soltou uma risada curta. — Fale isso daqui a cinco anos, quando estiver cansada de um marido que só sabe conversar sobre lavouras. Antes que Cecília pudesse responder, Constança ergueu o olhar da correspondência que analisava, cortando o murmúrio animado. — Meninas, silêncio. Não estamos em um mercado. O tom suave de Constança escondia um comando irrefutável, e as três irmãs voltaram ao silêncio disciplinado, embora Amélia tenha lançado uma última piscadela divertida para Cecília. *** Mais tarde, ao caminhar pelo extenso pomar da propriedade, Cecília observava a movimentação constante dos trabalhadores. Desde a abolição, seu pai investira na contratação de imigrantes italianos, mas ainda havia antigos escravizados libertos que continuavam ali por não terem para onde ir. Ela sabia que, apesar do discurso abolicionista, muitos dos cafeicultores ainda impunham condições desumanas para os trabalhadores. O campo, que de longe parecia apenas verde e tranquilo, escondia histórias de suor, dor e sacrifício. Por sorte, seu pai apesar de rígido e controlador grande parte do tempo, pareceria disposto a promover um ambiente e condições mais dignas aos trabalhadores. Cecília gostava de passear até a área das estufas de secagem de café. Era ali que, de vez em quando, trocava palavras discretas com Dona Ivone, uma das antigas escravizadas de uma das fazendas vizinhas, que agora trabalhava como cozinheira-chefe da fazenda. — O café está forte hoje, menina Cecília — disse Ivone, entregando-lhe um pequeno copo de barro. — É assim que eu gosto — respondeu Cecília com um sorriso, aquecendo as mãos com o líquido quente. — As lavouras estão indo bem? Ivone assentiu, mas seu olhar estava longe. — Por enquanto. Mas muita coisa mudou desde a Lei Áurea. Muita gente saiu, mas quem ficou… ainda sente o peso. Tive sorte de vir para essa fazenda, o patrão tem nos tratado como gente! Mas nao é a realidade de meus irmãos. Cecília ficou em silêncio, refletindo sobre a verdade silenciosa das palavras de Ivone. Os Monteiro de Alcântara viviam em um mundo de privilégios dourados, mas a vida ao redor deles era muito mais dura. — Eu queria… — começou Cecília, hesitando. — Queria que as coisas fossem diferentes. Ivone soltou uma risada leve, cheia de uma sabedoria antiga. — Pode querer, menina, mas o mundo muda devagar para quem tá em cima. Essas palavras ficaram com Cecília enquanto ela retornava à casa. Por mais que tentasse focar em seu noivado, em suas responsabilidades, em cumprir o papel de filha exemplar, algo em seu coração começava a se inquietar. Era a sensação de que sua vida, assim como o Brasil ao seu redor, estava prestes a mudar de formas que ela ainda não conseguia compreender.A luz dourada do entardecer tingia as ruas da cidade com um brilho quente e decadente. Para Maximiliano Vieira de Sá, aquilo era apenas o prenúncio de mais uma noite de excessos – e ele pretendia aproveitá-la em todos os sentidos. No salão reservado do Clube do Progresso, um reduto exclusivo para homens ricos e poderosos, o som das risadas roucas se misturava ao tilintar de taças de cristal. O ambiente cheirava a tabaco caro, conhaque envelhecido e promessas ilícitas. Um lugar perfeito para um homem como Max. Recostado em uma poltrona de couro, ele observava a movimentação com aquele seu sorriso ladino e confiante. Era um homem que chamava atenção sem precisar se esforçar para isso. O cabelo castanho levemente desalinhado, o maxilar firme sempre coberto por uma sombra de barba, e os olhos castanhos-escuros que pareciam brilhar com um convite silencioso para o pecado. — Você perdeu, Max. — Antônio, seu primo e cúmplice de muitas aventuras, jogou as cartas sobre a mesa, revelando
Cecília andava pelo terraço da casa grande, observando os campos de café que se estendiam até onde seus olhos podiam alcançar. A brisa morna do fim da tarde fazia balançar os fios soltos de seu penteado, e o aroma adocicado das flores do jardim se misturava ao cheiro terroso da lavoura recém-colhida. A fazenda Monteiro de Alcântara era um verdadeiro império, fruto de gerações de trabalho e de decisões calculadas. Seu pai, Joaquim, orgulhava-se de ser um dos poucos cafeicultores que, desde antes da abolição, optara por abandonar o uso da mão de obra escravizada, o que lhe rendera tanto admiração quanto desconfiança por parte dos outros proprietários. Agora, ele se gabava da organização eficiente de seus trabalhadores assalariados, um sistema que, segundo ele, moldaria o futuro do país. Mas, para Cecília, aquele lugar sempre seria, antes de tudo, seu lar. — Pensativa outra vez, Cecília? — A voz firme e controlada de Vicente interrompeu seu devaneio. Ela se virou para encará-lo, o ir
O relógio da imponente residência dos Vieira de Sá já marcava mais de duas horas da madrugada quando Max atravessou a porta principal, arrastando os passos preguiçosos pelo saguão silencioso. O cheiro amadeirado do charuto ainda pairava em suas roupas, misturado ao aroma doce de perfume feminino. A gravata estava frouxa, o colarinho aberto, e o cabelo negro desgrenhado, como se mãos delicadas tivessem acabado de se perder nele. Ele cambaleou ligeiramente ao subir os primeiros degraus da escadaria, murmurando para si mesmo um palavrão baixinho quando o mundo girou por um instante. Mas não estava tão embriagado assim. Apenas o suficiente para não se importar com o fato de que, mais uma vez, voltava para casa sozinho. — Finalmente — a voz firme de Eduardo o deteve antes que alcançasse seu quarto. Max ergueu os olhos, piscando ao vê-lo sentado em uma poltrona no corredor, os cotovelos apoiados nos joelhos e um olhar severo no rosto sempre impecável. — Ora, ora… Ficou com saudades, irm
A casa grande estava em um alvoroço incomum. Os criados corriam de um lado para o outro, ajustando os últimos detalhes de uma refeição suntuosa, enquanto os salões eram perfumados com flores recém-colhidas. Cecília observava tudo com um nó apertado no estômago. Não entendia por que sua mãe insistira em tanta pompa para um simples jantar. — Parece que vão receber o imperador, e eu não fui avisada — murmurou para si mesma, alisando as saias do vestido azul que Constança escolhera para ela. Helena e Amélia tinham desaparecido em meio aos preparativos, e seu pai, Joaquim, estava ocupado com os negócios da fazenda. Cecília sentia-se inquieta, e aquela sensação a acompanhava desde a manhã. Como se algo estivesse para acontecer. Algo que mudaria tudo. — Menina, com essa cara, vai azedar o leite das vacas! A voz firme e afetuosa de dona Ivone, a cozinheira-chefe da casa, trouxe um breve sorriso ao rosto de Cecília. A mulher de pele retinta, olhar perspicaz e mãos calejadas tinha sido
Do lado de fora, as luzes amareladas das lamparinas tremeluziam, projetando sombras suaves nas paredes de taipa da imponente casa-grande. O perfume das flores de laranjeira pairava no ar, misturado ao aroma tentador que escapava da cozinha, onde Dona Ivone supervisionava cada detalhe do banquete com mãos firmes e experientes. Dentro do salão de jantar, o brilho dos candelabros de prata refletia nas porcelanas finas e nos cristais lapidados, enquanto as vozes se misturavam em um burburinho agradável. Os Monteiro de Alcântara sabiam como receber. A mesa, longa e farta, ostentava faisões assados, tortas delicadas, pães frescos e frutas cristalizadas, um espetáculo digno das mais refinadas casas da Corte. Cecília, no entanto, mal sentia o gosto do caldo fumegante em seu prato. O coração batia descompassado desde o momento em que vira Max Vieira de Sá cruzar a soleira da porta. Não esperava vê-lo tão cedo — e, definitivamente, não naquele jantar. A surpresa deixara seu corpo tenso, e a
A copa estava mais fresca do que o salão principal, com o aroma doce de canela e baunilha pairando no ar. A luz das lamparinas era mais suave ali, lançando sombras quentes nas prateleiras repletas de louças e potes de compotas caseiras. Cecília inspirou fundo, tentando acalmar os nervos enquanto Dona Ivone organizava pratos para a sobremesa. A cozinheira-chefe, uma mulher robusta e de feições gentis, observou-a de soslaio antes de se aproximar. — Menina, você está mais pálida do que um fantasma — murmurou em tom baixo, pegando a sua mão com delicadeza. — O que foi? Cecília hesitou. Não sabia como colocar em palavras aquele tumulto de emoções. A presença de Max a desestabilizava de um jeito que ela não queria — não podia — admitir. — Estou bem — mentiu, desviando o olhar para o avental imaculado de Dona Ivone. — Apenas cansada. — Ah, não me engana, Cecília. Conheço você desde que usava laços no cabelo. Tem algo lhe incomodando, e não é só cansaço. O calor subiu ao seu rosto
A noite avançava, e a música suave de um quarteto de cordas preenchia o ar, enquanto casais deslizavam pela pista de dança improvisada. O vinho continuava a ser servido, afrouxando a rigidez habitual dos Monteiro de Alcântara e a formalidade calculada dos Vieira de Sá. Cecília permanecia ao lado de Eduardo, recebendo cumprimentos e elogios pela união iminente. Sorria, agradecia, mantinha a postura irrepreensível que lhe haviam ensinado desde menina – mas, por dentro, estava em chamas. Cada vez que olhava para Max, a tensão em seu corpo aumentava como um fio prestes a se partir. — Está se divertindo? — Eduardo perguntou, puxando-a para a pista de dança assim que os músicos começaram uma valsa mais lenta. — Sim — ela mentiu, permitindo que ele a guiasse. Eduardo dançava com precisão. Seus passos eram calculados, impecáveis, exatamente como a vida que planejava ao lado dela. Cecília tentou se concentrar no rosto dele – nas linhas simétricas, na segurança tranquila que oferecia –,
A boca de Max continuava explorando a dela com um desespero contido, como se ele estivesse tentando provar um ponto – ou talvez apenas se perder nela. As mãos dele deslizavam por suas costas, pressionando-a ainda mais contra seu corpo quente e sólido, e Cecília sentiu o mundo girar ao redor deles. — Você não deveria… — Ela tentou protestar entre os beijos, mas sua própria voz soava fraca, quase um gemido. — Eu nunca faço o que deveria, bela Cecília — Max respondeu contra seus lábios, o tom rouco e carregado de desejo. Os dedos dele subiram lentamente pelo corpete delicado de seu vestido, traçando um caminho torturante pela curva de sua cintura até a linha de suas costelas. O toque era firme, possessivo – e, ainda assim, parecia que ele estava se segurando para não ir além. Cecília estava em chamas. Cada parte de seu corpo parecia viva sob o toque dele, e a forma como Max a beijava – profunda, intensa, como se não houvesse mais nada no mundo – a fazia esquecer do noivado, das o