Os dias que se seguiram à visita dos Vieira de Sá trouxeram consigo uma mistura inquietante de expectativa e reflexão para Cecília Monteiro de Alcântara. Embora tentasse concentrar-se em suas obrigações domésticas e nos preparativos para o futuro, sua mente frequentemente vagava para aquele encontro marcante — e, em especial, para os dois irmãos que, de maneiras tão distintas, haviam atravessado seu caminho.
Eduardo era, sem dúvida, o noivo ideal aos olhos da sociedade. Seu comportamento era exemplar, e após seu primeiro encontro o nobre rapaz passara a lhe enviar correspondências. As suas cartas, embora formais, demonstravam um interesse genuíno em conhecê-la melhor. Cecília se esforçava para retribuir com palavras igualmente polidas e cuidadosas, ainda que, em seu íntimo, sentisse que algo lhe escapava — um certo calor, uma centelha que fizesse seu coração disparar. Maximiliano, por outro lado… Pensar nele era um exercício perigoso, e Cecília se censurava toda vez que a memória de seu sorriso arrogante lhe vinha à mente. Havia algo nele que a desestabilizava — uma liberdade em seu olhar, uma ousadia que nada tinha a ver com o homem a quem estava prometida. Entretanto, não havia espaço para devaneios em uma família como a sua. Os Monteiro de Alcântara eram um dos pilares da aristocracia cafeeira do Vale do Paraíba, e cada membro da família carregava consigo o peso de um nome que significava tradição, riqueza e poder. Nos salões dourados de sua imponente propriedade, discutia-se mais do que vestidos ou jantares elegantes. O Brasil, em transformação após a Proclamação da República, em 1889, vivia tempos instáveis. O Império havia caído, e com ele as certezas de uma época. Para famílias como a sua, acostumadas ao prestígio sob o regime monárquico, as mudanças políticas geravam um misto de preocupação e desprezo. O patriarca, Joaquim Monteiro de Alcântara, nunca deixava de expressar seu descontentamento durante as refeições. — Esta República… — resmungava ele, batendo o talher contra o prato. — Um governo nas mãos de militares e políticos oportunistas. A monarquia trazia ordem, respeitava as famílias que construíram este país com trabalho e suor. Agora, qualquer um se acha no direito de ascender! — Ainda somos donos das terras, papai — Helena dizia em seu tom sempre diplomático. — E enquanto o café for nossa maior riqueza, nenhum governo ousará nos desafiar. — Não seja ingênua, minha filha — Joaquim retrucava. — Essas reformas… falam até em abolir os títulos de nobreza. Logo estarão confiscando nossas propriedades em nome do progresso. Cecília ouvia em silêncio, as palavras de seu pai ecoando em sua mente como uma advertência. Havia uma sensação de que algo escapava por entre os dedos da velha aristocracia — um mundo novo, mais ousado e imprevisível, estava surgindo, e mesmo a grandiosidade dos Monteiro de Alcântara não poderia deter os ventos da mudança. Nas tardes mais quentes, Cecília costumava se refugiar na biblioteca da casa. Era o único lugar onde conseguia estar sozinha, livre da vigilância constante de sua mãe ou dos olhares curiosos de Amélia. Ali, entre estantes repletas de livros importados da França e da Inglaterra, ela se permitia questionar o caminho traçado para seu futuro. Casar-se com Eduardo significava estabilidade, segurança e um futuro honrado. Mas e o coração? Teria ela direito a desejar algo mais do que um casamento adequado? De vez em quando, seu olhar vagueava pela janela, imaginando onde estaria Maximiliano naquele momento — e se, por acaso, ele também pensava nela. A cada dia que passava, a dúvida se aprofundava em seu peito. E ela sabia que, mais cedo ou mais tarde, precisaria encarar as consequências desses seus pensamentos.A manhã na Fazenda Boa Esperança dos Monteiro de Alcântara começava antes mesmo do sol alcançar o céu em tons dourados. O aroma do café recém-passado se espalhava pela casa, enquanto os empregados já se movimentavam pelos corredores de madeira escura, preparando o dia para a ilustre família. No salão principal, Cecília e suas irmãs compartilhavam o desjejum sob a supervisão atenta de Constança, que, como sempre, mantinha a postura ereta e o semblante sereno. Mesmo entre paredes cobertas por tapeçarias francesas e porcelanas importadas, a mãe fazia questão de lembrar a todas as filhas da importância de seu comportamento. — As mulheres de nossa posição devem ser exemplos de graça e discrição — dizia ela, mexendo delicadamente o chá com a colher de prata. — Lembrem-se disso. Sempre. — Claro, mamãe — Helena respondeu, com a voz polida, mas com os olhos baixos, escondendo o leve sorriso de quem já tinha seus próprios planos. Amélia, por outro lado, revirou os olhos de forma quase imper
A luz dourada do entardecer tingia as ruas da cidade com um brilho quente e decadente. Para Maximiliano Vieira de Sá, aquilo era apenas o prenúncio de mais uma noite de excessos – e ele pretendia aproveitá-la em todos os sentidos. No salão reservado do Clube do Progresso, um reduto exclusivo para homens ricos e poderosos, o som das risadas roucas se misturava ao tilintar de taças de cristal. O ambiente cheirava a tabaco caro, conhaque envelhecido e promessas ilícitas. Um lugar perfeito para um homem como Max. Recostado em uma poltrona de couro, ele observava a movimentação com aquele seu sorriso ladino e confiante. Era um homem que chamava atenção sem precisar se esforçar para isso. O cabelo castanho levemente desalinhado, o maxilar firme sempre coberto por uma sombra de barba, e os olhos castanhos-escuros que pareciam brilhar com um convite silencioso para o pecado. — Você perdeu, Max. — Antônio, seu primo e cúmplice de muitas aventuras, jogou as cartas sobre a mesa, revelando
Cecília andava pelo terraço da casa grande, observando os campos de café que se estendiam até onde seus olhos podiam alcançar. A brisa morna do fim da tarde fazia balançar os fios soltos de seu penteado, e o aroma adocicado das flores do jardim se misturava ao cheiro terroso da lavoura recém-colhida. A fazenda Monteiro de Alcântara era um verdadeiro império, fruto de gerações de trabalho e de decisões calculadas. Seu pai, Joaquim, orgulhava-se de ser um dos poucos cafeicultores que, desde antes da abolição, optara por abandonar o uso da mão de obra escravizada, o que lhe rendera tanto admiração quanto desconfiança por parte dos outros proprietários. Agora, ele se gabava da organização eficiente de seus trabalhadores assalariados, um sistema que, segundo ele, moldaria o futuro do país. Mas, para Cecília, aquele lugar sempre seria, antes de tudo, seu lar. — Pensativa outra vez, Cecília? — A voz firme e controlada de Vicente interrompeu seu devaneio. Ela se virou para encará-lo, o ir
O relógio da imponente residência dos Vieira de Sá já marcava mais de duas horas da madrugada quando Max atravessou a porta principal, arrastando os passos preguiçosos pelo saguão silencioso. O cheiro amadeirado do charuto ainda pairava em suas roupas, misturado ao aroma doce de perfume feminino. A gravata estava frouxa, o colarinho aberto, e o cabelo negro desgrenhado, como se mãos delicadas tivessem acabado de se perder nele. Ele cambaleou ligeiramente ao subir os primeiros degraus da escadaria, murmurando para si mesmo um palavrão baixinho quando o mundo girou por um instante. Mas não estava tão embriagado assim. Apenas o suficiente para não se importar com o fato de que, mais uma vez, voltava para casa sozinho. — Finalmente — a voz firme de Eduardo o deteve antes que alcançasse seu quarto. Max ergueu os olhos, piscando ao vê-lo sentado em uma poltrona no corredor, os cotovelos apoiados nos joelhos e um olhar severo no rosto sempre impecável. — Ora, ora… Ficou com saudades, irm
A casa grande estava em um alvoroço incomum. Os criados corriam de um lado para o outro, ajustando os últimos detalhes de uma refeição suntuosa, enquanto os salões eram perfumados com flores recém-colhidas. Cecília observava tudo com um nó apertado no estômago. Não entendia por que sua mãe insistira em tanta pompa para um simples jantar. — Parece que vão receber o imperador, e eu não fui avisada — murmurou para si mesma, alisando as saias do vestido azul que Constança escolhera para ela. Helena e Amélia tinham desaparecido em meio aos preparativos, e seu pai, Joaquim, estava ocupado com os negócios da fazenda. Cecília sentia-se inquieta, e aquela sensação a acompanhava desde a manhã. Como se algo estivesse para acontecer. Algo que mudaria tudo. — Menina, com essa cara, vai azedar o leite das vacas! A voz firme e afetuosa de dona Ivone, a cozinheira-chefe da casa, trouxe um breve sorriso ao rosto de Cecília. A mulher de pele retinta, olhar perspicaz e mãos calejadas tinha sido
Do lado de fora, as luzes amareladas das lamparinas tremeluziam, projetando sombras suaves nas paredes de taipa da imponente casa-grande. O perfume das flores de laranjeira pairava no ar, misturado ao aroma tentador que escapava da cozinha, onde Dona Ivone supervisionava cada detalhe do banquete com mãos firmes e experientes. Dentro do salão de jantar, o brilho dos candelabros de prata refletia nas porcelanas finas e nos cristais lapidados, enquanto as vozes se misturavam em um burburinho agradável. Os Monteiro de Alcântara sabiam como receber. A mesa, longa e farta, ostentava faisões assados, tortas delicadas, pães frescos e frutas cristalizadas, um espetáculo digno das mais refinadas casas da Corte. Cecília, no entanto, mal sentia o gosto do caldo fumegante em seu prato. O coração batia descompassado desde o momento em que vira Max Vieira de Sá cruzar a soleira da porta. Não esperava vê-lo tão cedo — e, definitivamente, não naquele jantar. A surpresa deixara seu corpo tenso, e a
A copa estava mais fresca do que o salão principal, com o aroma doce de canela e baunilha pairando no ar. A luz das lamparinas era mais suave ali, lançando sombras quentes nas prateleiras repletas de louças e potes de compotas caseiras. Cecília inspirou fundo, tentando acalmar os nervos enquanto Dona Ivone organizava pratos para a sobremesa. A cozinheira-chefe, uma mulher robusta e de feições gentis, observou-a de soslaio antes de se aproximar. — Menina, você está mais pálida do que um fantasma — murmurou em tom baixo, pegando a sua mão com delicadeza. — O que foi? Cecília hesitou. Não sabia como colocar em palavras aquele tumulto de emoções. A presença de Max a desestabilizava de um jeito que ela não queria — não podia — admitir. — Estou bem — mentiu, desviando o olhar para o avental imaculado de Dona Ivone. — Apenas cansada. — Ah, não me engana, Cecília. Conheço você desde que usava laços no cabelo. Tem algo lhe incomodando, e não é só cansaço. O calor subiu ao seu rosto
A noite avançava, e a música suave de um quarteto de cordas preenchia o ar, enquanto casais deslizavam pela pista de dança improvisada. O vinho continuava a ser servido, afrouxando a rigidez habitual dos Monteiro de Alcântara e a formalidade calculada dos Vieira de Sá. Cecília permanecia ao lado de Eduardo, recebendo cumprimentos e elogios pela união iminente. Sorria, agradecia, mantinha a postura irrepreensível que lhe haviam ensinado desde menina – mas, por dentro, estava em chamas. Cada vez que olhava para Max, a tensão em seu corpo aumentava como um fio prestes a se partir. — Está se divertindo? — Eduardo perguntou, puxando-a para a pista de dança assim que os músicos começaram uma valsa mais lenta. — Sim — ela mentiu, permitindo que ele a guiasse. Eduardo dançava com precisão. Seus passos eram calculados, impecáveis, exatamente como a vida que planejava ao lado dela. Cecília tentou se concentrar no rosto dele – nas linhas simétricas, na segurança tranquila que oferecia –,