— Ayla! Sai desse quarto agora! — A voz atravessou a porta, impaciente, insistente.Afundei mais no travesseiro, meu corpo afogando na exaustão da noite anterior. Meu cérebro ainda estava preso em um sonho do qual eu já não me lembrava. A luz do dia já vazava pela janela, irritante, invasiva.— Ayla!Grunhi, puxando o cobertor sobre a cabeça. Que inferno.Por que todo mundo tinha essa obsessão de me arrancar da única coisa que me dava paz?Minha paciência se esgotou.— Se for pra falar merda, dá meia-volta! — Minha voz abafada pelo travesseiro.Ouvi um suspiro do outro lado da porta.— Você não pode passar o dia inteiro trancada aí!Posso sim. E eu vou.Mas, claro, ninguém nunca me deixava em paz.— Ângela… — resmunguei — Se você não me deixar dormir, eu juro que vou te assombrar quando morrer.Ela bufou, impaciente, e eu quase pude visualizar seus olhos revirando no maior deboche. Não demorou um segundo sequer para que a porta fosse escancarada.O colchão afundou quando e
— Você é um inútil, German! Nunca presta atenção nas coisas! Sempre foi assim!A voz da minha mãe. Ácida. Cega de raiva.Meu peito se apertou.— Pai… — minha voz saiu mais baixa. — O que tá acontecendo?— Sua mãe só tá um pouco alterada — ele tentou minimizar, mas o jeito como sua respiração pesou me dizia outra coisa. — Tá tudo bem.Minha mandíbula enrijeceu.— Quando vocês voltam?Outro silêncio. Esse demorou mais.— Filha… eu ainda não sei. Mas quando eu terminar de resolver as coisas aqui, eu vou.E então minha mãe voltou a gritar. Acusações, palavras duras, uma enxurrada de ódio direcionada a ele. O inferno que atravessava a linha como um veneno, que eu conhecia bem demais.Ouvi meu pai soltar o ar, cansado.— Eu… depois a gente se fala, tá bom, querida?E antes que eu pudesse responder, a chamada foi encerrada.Fiquei ali, imóvel, o celular ainda colado ao meu ouvido. O silêncio do quarto pareceu ensurdecedor depois daquela tempestade.Eu já deveria estar acostumada. Mas não es
— É bom você não ficar dando desculpas depois. Vai ser divertido, prometo. — Ela levantou as sobrancelhas, com um sorriso que, apesar de provocador, tinha algo de sincero.Eu ri baixinho, tentando disfarçar a insegurança. Divertido, é? — Eu só preciso pegar algo nada de mais. — Respondi, me levantando lentamente, forçando minha cabeça a relaxar, já decidida a seguir em frente.Ela se virou rapidamente para Cecília e fez um gesto dramático com a mão.— Viu? — ela disse, rindo — Eu sabia que ela vinha. Não pode resistir à nossa companhia.Cecília riu.Fui até o meu quarto. Abri a gaveta e puxei o colar de ouro com o “R”. Passei os dedos pelo pingente antes de prendê-lo no pescoço, deixando que o frio do metal se acomodasse contra minha pele.Agora sim…As duas estavam rindo da piada que Angela acabou de contar, e a gargalhada da Cecília ressoando pela rua. Meio irônico, né? Elas acabaram de se conhecer, e já eram quase como velhas amigas. Enquanto caminhávamos em
— Heitor, você lembra da Ayla, né? — Cecília perguntou, com um sorriso curioso. — Vocês eram inseparáveis na infância.Eu levantei a cabeça, finalmente encarando-o.Agora, olhando mais de perto, ele parecia... maior. Ou seria só impressão minha?E eu, bem, eu não mudei. Ainda era a mesma Ayla de sempre, com a mesma altura que me fazia parecer pequena diante dele. Eu mal passava da altura do peito dele.Então, seus olhos se fixaram em mim. Direto. Sem desviar, sem nenhum vestígio de hesitação.— Claro que lembro — ele disse, a voz profunda e serena — Como poderia esquecer?Aquela resposta foi estranha, mais forte do que qualquer outra coisa. Como se, de repente, o passado inteiro tivesse voltado, mas agora, era diferente. Eu não era mais aquela garota que se sentia segura ao lado dele.Agora, eu era só uma estranha para ele. E ele, para mim. Uma distância imensa, como se o tempo tivesse apagado tudo o que um dia fomos.— Como você está? — Ele perguntou, e aquilo foi tenebroso eu não e
Parte 1 Começo um tropeço, e não há perdão✿ Nunca me importei com ninguém, até o ver escorrer pelos meus dedos, quente e pesado, uma sensação que nunca esquecerei. É estranho, quase irônico, como tudo começou. Talvez nunca tenha sido sobre amor. Mais , olhando para trás, não consigo evitar a sensação de que fui eu quem puxou o gatilho, e a partir daquele momento minha a vida mudou drasticamente. (❛❛❛) Já passava das seis da tarde, mas o céu ainda exibia aquele tom alaranjado famoso clichê do interior, como se quisesse fingir que aquele lugar era bonito. Foi quando decidi dar uma volta pela fazenda Torres… Estava a poucos passos de deixar para trás essa cidade, minha casa. Odiava esse lugar. Tudo nele. monotonia tranquila. Desde o dia em que meu pai decidiu que comprar uma fazenda no interior seria "boa ideia. Era a terra natal dele, um lugar pequeno e abafado chamado San Ignacio, a umas 1 horas de carro da capital do México. Eu tinha sete anos quando nos mudamos. A
Por anos, nossas famílias viveram em constante conflito. Era como se a rivalidade fosse gravada em nossos DNAs. Os pais de Davi sempre estiveram na linha de frente, enfrentando eleição após eleição, determinados a tirar do poder aquela maldita família. Porém, tudo mudou quando a família Galisteu perdeu o cargo. Descobriu-se que ele estava envolvido em um caso amoroso com o padre da cidade. Esse foi o maior escândalo da década—todo mundo comentava ao mesmo tempo, e, embora a internet tentasse evitar que fosse o assunto mais falado, não teve sucesso.Foi então que a eles começou a agir, tentando desesperadamente reverter a situação e limpar a imagem de "boas pessoas" que tanto se esforçaram para manter. Como eram próximos de várias figuras influentes, qualquer escândalo poderia manchar a reputação que construíram ao longo dos anos.A estratégia deles se estendeu por um longo tempo, incluindo até mesmo a indicação de outras pessoas para disputar o cargo de prefeito. Mas, no final, não d
Ele avançou, e foi como se a própria sala encolhesse à sua volta. Era impossível ignorar sua presença; com quase dois metros de altura, ele parecia dominar todo o espaço. Eu, com meu mísero metro e cinquenta e nove, me sentia ainda menor diante dele, uma presa encurralada.— Qual é o seu maldito problema?! — gritei, meus punhos cerrados, meu corpo tremendo entre o medo e a raiva. — Se o objetivo era me matar de susto, parabéns, você conseguiu, idiota!Ele parou, ficando tão perto que eu quase podia sentir o calor que emanava de seu corpo. olhos castanhos tão profundos e escuros que parecia impossível encontrar o fundo. As mãos grandes, envoltas em luvas de couro preto, estavam tensas ao lado do corpo, como se ele lutasse para se controlar. O contraste com o roupa de cowboy impecável que usava só tornava sua aparência mais intimidante.— Isso não foi minha primeira opção, Ayla — ele disse, a voz baixa e arrastada, quase hipnotizante, como um veneno que se espalhava lentamente. Seus ol
Agora, olhando para ele, hipnotizada. Seus traços são perfeitos de um jeito quase bruto, como algo que só a terra poderia moldar. A pele morena dele reluzia de forma sutil sob o sol que se infiltrava pelas frestas da janela. Havia algo quase mágico no jeito que a luz o tocava, destacando seus músculos firmes, bem definidos, mas sem exagero, esculpidos pelo trabalho árduo no campo. Ele não era feito de academias ou aparências. Ele era feito de terra, suor, sol, e isso o tornava ainda mais bonito. "Por que você não é rico, seu bobo? pensei — Você poderia ser o homem ideal... Se não fosse tão insignificante." Um sorriso amargo se espalhou em meu rosto. Ele jamais saberia que, por mais que eu desejasse estar com ele, a realidade das nossas classes nos separava, (A dor de desejar o impossível era mais cruel do que qualquer outra coisa.) Eu não estava disposta a me afundar por alguém que não entendia as regras . No final das contas, eu sempre colocaria minha felicidade em primeiro lug