Capítulo 02. Elle

       Saí da galeria mais tarde do que o planejado, já era quase seis e meia da tarde e estava escuro. Miami se preparava para o Natal, que, diferente de Nova York, acontecia em um clima quente e leve. Precisava ir até o shopping Bal Harbour comprar o presente de aniversário de Annie, minha sobrinha.

     Já não pensava em James ou na família. Só trabalhava na galeria e ia para casa, um apartamento pequeno que teria deixado minha avó de cabelo em pé. Minha irmã insistia que eu deveria sair e me convidava para todos os eventos sociais, mas eu sempre ficava uma hora e ia embora sem conversar muito com as pessoas. Já a peguei falando com meu pai que estava preocupada com a minha aparente apatia.

   Sem ânimo para procurar um presente, comprei o primeiro da lista que Annie tinha enviado para a família. Meia hora depois, já estava no estacionamento. Coloquei a caixa no banco de trás, entrei no carro e o liguei. De repente, a porta de trás abriu bruscamente e alguém entrou, se jogando no banco traseiro.

Gritei, assustada, mas ele segurou meu braço e pediu, por favor, que eu ficasse quieta, pois eles iam nos ver. As luzes do carro estavam apagadas. Ouvi pessoas gritando, homens, e um segurança passou pedindo para alguém chamar a polícia.

— Diego? — Mesmo com a pouca luz que entrava pela janela, eu o reconheci. Depois de muitos anos e com uma barba grossa e cheia, descobri que reconheceria Diego em qualquer circunstância.

     Nossos olhares se encontraram, e vi nele o reconhecimento. Perdida em seus olhos, esqueci que do lado de fora homens gritavam e corriam, alheios ao que acontecia dentro do carro. Não sei quanto tempo durou — um minuto, cinco, meia hora. Uma vida inteira passou pela minha mente. Toda a minha adolescência foi revisitada ali, naquele instante.

   Diego foi meu primeiro amor, minha primeira paixão, o primeiro homem da minha vida. E agora, depois de sete anos, estava ali, na minha frente, quando eu imaginava que nunca mais o veria novamente. Mas ele me tirou do transe ao avisar que precisávamos ir embora.

    Não pensei duas vezes ao ligar o carro e sair do estacionamento. Ele gemia cada vez que eu passava por uma lombada. Tinha me passado um endereço, e demoraríamos meia hora para chegar. Precisei de toda a minha concentração para não perder o controle do carro.

— Precisamos ir para o hospital.

— Não, sem hospital, por favor.

— Meu Deus! Olha como você está sangrando. Você vai morrer… Meu Deus, você vai morrer aí, não vai?

Comecei a chorar, desesperada com a possibilidade de que ele morresse no meu carro, justo agora, que o tinha reencontrado.

— Ei, ei, tudo bem, calma. Olha, eu não vou morrer. Juro que não fiz nada de errado, mas não posso ir a um hospital. Se algo ruim acontecer, Ada vai te ajudar. Eu juro, não vou morrer.

Ele suspirou mais forte, e eu continuei dirigindo para o endereço que ele tinha me dado. Nos últimos dez minutos, ele ficou em silêncio, de olhos fechados. Por um instante, pensei que tivesse morrido, mas parecia apenas muito cansado e fraco. Poderia estar morrendo.

    Quando chegamos, saí correndo para bater na porta da mulher que ele tinha mencionado. Desesperada, quase esmurrei a porta. Uma senhora veio atender, assustada com meu desespero. Eu disse que Diego precisava de ajuda.

Ela pareceu entender imediatamente e correu para o carro. Abriu a porta e xingou, pedindo minha ajuda para levá-lo para dentro. Diego era um homem forte, e ele mal tinha forças para ficar em pé. Arrastá-lo para dentro exigiu todas as minhas energias.

Havia um quarto no andar de baixo, onde o colocamos. Ela foi pegar materiais de primeiros socorros em outro cômodo.

— O que aconteceu? — Me perguntou enquanto pegava uma mala grande. 

— Ele entrou assim no meu carro. Eu não vi o que aconteceu.

Diego sangrava e sua roupa estava empapada de sangue. Comecei a chorar novamente.

— Meu Deus, ele não pode morrer.

Ela me olhou de um jeito esquisito, mas não disse nada. Rasgou a camisa dele com uma tesoura. Eram duas feridas profundas. Me assustei ainda mais. Diego tinha se transformado em um homem forte. Era um corpo bonito. Sim, ele estava ensanguentado, provavelmente morrendo, e eu estava reparando no quanto ele tinha ficado forte e musculoso com o passar dos anos. Eu iria para o inferno.

Ela me pediu ajuda. Entendi que, provavelmente, era enfermeira ou médica. Sabia o que estava fazendo e tratou dele pacientemente pelo que pareceu uma vida, até que o sangramento tivesse parado e ele estivesse com um soro no braço.

— Ele desmaiou. Precisa descansar.

— Não é melhor levá-lo a um hospital?

— Não é uma opção. Ele vai viver. O ferimento não foi tão profundo e não atingiu nenhum órgão, mas ele perdeu muito sangue. Precisamos limpar seu carro. Você conhece Diego de onde?

— Nos conhecemos na adolescência. Eu nunca mais o tinha visto até hoje.

Ada pegou materiais de limpeza e fomos até meu carro, que tinha bancos cor de caramelo e uma mancha de sangue que escorria até o carpete. Mais uma vez, aquela mulher tinha as ferramentas certas para limpar o carro e sumir com qualquer vestígio. Mas eu não queria pensar sobre isso. Eu deveria estar com medo, mas só conseguia pensar que tinha encontrado Diego e que queria muito conversar com ele.

— Pronto. Acho que ninguém te seguiu, ou já saberíamos. Preciso que vá para casa. Você não pode ficar aqui, é perigoso. Não sei qual é a história de vocês dois, mas precisa ir e esquecer que esteve aqui.

Eu queria argumentar que não iria para lugar nenhum, mas percebi que a mulher falou de forma a não dar margem para qualquer discussão.

— Desculpa por tudo. Pelo susto, pelo carro…

Diego apareceu na porta da casa, carregando o suporte do soro. Estava palido e com cara de cansado. Ele era um rapaz quando o conheci, um moleque de tudo, com um sorriso encantador e inocente para o mundo, cheio de sonhos, assim como eu. Agora, era um homem forte, grande, com uma barba cheia e um sofrimento no olhar que, apesar de seus 25 anos, o fazia parecer mais velho.

Eu não queria ir embora. Eu precisava saber por que ele tinha sumido da minha vida sete anos atrás.

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