Quando minha irmã ligou, eu já estava em casa, de banho tomado, com uma taça de vinho na mão, pensando sobre o que tinha acontecido. Menti, dizendo que nada de anormal havia ocorrido. Mais um dia igual aos outros. Ainda estava entorpecida pelo reencontro com Diego e pretendia beber a garrafa inteira antes de dormir zonza de tanto vinho.
Fiz uma busca na internet. Eu sabia que não deveria fazer isso, mas não conseguia evitar, era mais forte do que eu. Procurei por casos policiais. Nada. Ampliei a busca, até nos registros de criminosos mais procurados, mas nada batia com a descrição dele. Poderia ser algo pior: gangues? Ele foi atacado por alguém. Um mafioso? Socorro. Enquanto esses pensamentos me consumiam, esvaziava a garrafa de vinho. Dormi bêbada e acordei perdida, com uma ressaca terrível.
No meio do movimento do dia na galeria, na fase final da inauguração da próxima exposição, Diego não saía da minha mente. Sua explicação sobre ter ido embora e como era melhor acabar com o nosso namoro sem futuro me doía de uma forma que não esperava, depois de 7 anos. O fato de ele ter virado as costas sem pensar duas vezes me causava uma mágoa imensa. Será que ele estava bem? Qual era o meu problema?
Fiquei até mais tarde tentando me afundar no trabalho. O pessoal saiu mais cedo para uma comemoração, mas eu recusei educadamente. Já arrumava minhas coisas para ir embora quando ouvi um barulho de porta abrindo e fechando. Alguém tinha entrado pela porta dos fundos da galeria.
Meu avô adorava caçar, e quando eu era pequena, às vezes me levava junto. Alguma coisa eu tinha aprendido, dentre elas, a rastrear a caça. Foi nisso que pensei naquele momento. Como uma mudança sutil no ar, eu podia sentir a presença do perigo e perceber que, naquela situação, eu era a caça dentro da galeria.
Apaguei a luz, tirei a sandália e peguei uma estatueta de ferro que ficava na minha mesa. No silêncio do escritório, podia ouvir os passos de dois homens. A galeria tinha três saídas: a porta da frente e duas atrás, uma para carga e descarga e outra para os funcionários. Devagar, tranquei a porta e me escondi embaixo da mesa, que tinha a frente fechada, de modo que me protegia caso alguém entrasse de repente.
Tremendo, peguei o celular para ligar para a polícia, mas não consegui terminar de digitar. A porta do escritório veio abaixo com um chute. No susto, gritei, entregando minha posição. Ouvi passos apressados e duas sombras surgiram na minha frente. Com a luz apagada e eles vestidos de preto, tudo o que eu conseguia entender era que estava sendo puxada para a escuridão.
Tentei gritar, mas um deles tapou minha boca.
Senti quando fui amarrada, com as mãos para trás, e a outra sombra colocou uma fita adesiva sobre meus lábios. Minhas lágrimas molhavam meu rosto e embaçavam ainda mais minha visão. Eu estava sendo arrastada. Sabia que para a parte de trás da galeria, que àquela hora estava completamente vazia. Era um local apenas para carga e descarga, com um único acesso à rua.
Percebi que morrer talvez fosse o menor dos meus problemas. Rezei por um milagre, uma chance, qualquer coisa. Os homens não falavam entre si. Eu só ouvia suas respirações pesadas enquanto me carregavam sem esforço em direção à porta de carga e descarga. Imaginei que me jogariam dentro de algum veículo e me levariam para um destino desconhecido.
Tentei me soltar do homem que me segurava, mas era inútil. Quando abriram a porta para a rua, entrei em desespero. Me debati com toda a força de anos de academia, mas eles eram mais fortes. Vi quando abriram a porta de um furgão preto.
E o mundo a partir dai se descontrolou muito rápido.
Um barulho seguido de um som ensurdecedor deu início a uma confusão. Alguém, ou várias pessoas, começaram uma briga com os homens que me levavam. O grandão que me segurava tomou um soco na cara de alguém que apareceu na lateral e me soltou. Sem equilíbrio, caí de joelhos no chão e, sem as mãos para me apoiar, tive dificuldade ao tentar me levantar. Minha única ideia era correr pelo beco para chegara até a rua.
Mas a confusão ao meu redor era generalizada. Resolvi permanecer no chão e abaixar a cabeça, com medo de ser atingida. Não sei quanto tempo durou. Podem ter sido segundos, mas naquele momento eu já não conseguia pensar direito.
Foi quando senti alguém me envolver em um abraço firme e protetor. O cheiro de Diego me invadiu, e eu soube que estava salva.
Ele tirou a fita adesiva da minha boca e desamarrou minhas mãos.
Eu ainda chorava compulsivamente. Quando me vi livre, abracei Diego com todas as minhas forças. Com o rosto encostado em seu pescoço, pude sentir seu cheiro. Um conforto que eu buscava para me acalmar.
Eu vivi minha vida. Fiz terapia, estudei, noivei e quase casei. Mas ali, mesmo com a sensação de perigo iminente, sem saber no que Diego estava envolvido, eu só conseguia pensar que o amava, nunca tinha deixado de amar.
E nunca mais queria deixar seus braços.
Diego me ajudou a levantar e me ajeitar. Seu carro estava estacionado na rua. Os homens estavam desmaiados ou mortos, mas tive medo de perguntar naquele momento e apenas deixei que ele me levasse até o carro.— Não podemos ir para sua casa ou para a polícia. Vamos para a casa de um amigo, fora da cidade. Depois do que aconteceu com você, nunca vou me perdoar. Vamos dar um jeito. A melhor opção é você voltar para Nova York de forma segura.Sem condições de debater qual era a melhor opção, apenas me recostei no banco do carro, enquanto Diego dirigia em alta velocidade, tentando se afastar o máximo possível da cidade. A viagem levou mais de uma hora e, quando a paisagem deu lugar apenas ao mato, senti a adrenalina baixar e dar lugar a um cansaço físico e mental. Em algum momento do trajeto, acabei dormindo. Acordei apenas quando já havíamos chegado e senti a mão de Diego em meu ombro.Era uma cabana no meio do mato.— É a cabana de um amigo. Vamos ficar aqui essa noite. Estamos no Parque
Ela me olhava com um brilho no olhar que conhecia bem, tinha esquecido que podia ser teimosa. Nosso namoro tinha durado um ano, no período em que tinha vindo com a família morar em Miami. Éramos dois garotos, com um círculo de amizades bem diferente, mas mesmo assim nosso caminho se cruzou. Teimosa e decidida, escapava dos olhos da mãe e da vizinhança rica para me encontrar na praia, sabia que a família jamais permitiria esse tipo de envolvimento, mas éramos jovens e apaixonados. Até eu ir embora. Por um instante acho que ela acreditou e até mesmo eu acreditei que podíamos levar o namoro adiante. - Ainda preciso falar com a minha irmã, ela vai acionar a polícia e, se já não sabem tudo sobre mim, vão acabar descobrindo. Não me olhe assim, é sério, eu preciso avisar que estou bem, não sei como vou explicar que estou em fuga, mas eu preciso, entende?Sem muita escolha, fui procurar nas coisas do Will um telefone irrastreável. O que Elle não sabia ainda era que o chalé era um ponto de
Eu tinha perdido o bom senso, e o vinho não estava ajudando, mas ter Diego na minha frente de banho tomado, usando uma camiseta simples e uma bermuda era demais para o meu autocontrole. Quando éramos jovens, nosso namoro foi explosivo, eu era loucamente apaixonada, experimentava o primeiro amor, muitos sentimentos e emoções novas. Eu adorava o risco de fugir da vigilância da minha mãe e ir encontrá-lo na praia ou no bairro onde morava, mesmo sendo claramente uma patricinha protegida, eu só enxergava Diego, e não via o abismo que existia entre nossas realidades. Agora eu queria que Diego jogasse tudo para o alto e deitasse nessa comigo, me abraçasse e dissesse que todos os problemas vão se resolver e que esse reencontro era uma oportunidade de ficarmos juntos para sempre. - Só me abraça e não me deixa sozinha. Ele me encarou. Eu podia ver o conflito em seu íntimo, até o momento que desistiu de lutar contra si mesmo e se aproximou da cama. Diego se deitou ao
Na manhã seguinte, o tempo amanheceu estranho. Nuvens carregadas anunciavam uma chuva forte. Na entrada Diego perguntou para o mesmo atendente entediado da noite anterior se havia alguma oficina ou lugar para conseguir um carro, ele mandou perguntar no café, que nada mais era uma loja de conveniência ao lado posto de gasolina, que no fim não estava abandonado, apesar do aspecto deprimente. Dentro do local cheirava a fritura, uma moça sorridente veio nos atender, ela era feliz demais para o local e sabia disso, o que era engraçado, porque uma mulher mais velha atrás do balcão encarava a coitada com fúria nos olhos. A moça serviu o café e foi buscar nosso pedido, avisando um tal de Dan sobre onde conseguir um carro. Algumas pessoas entraram no café, a maioria homens com cara de desânimo que estavam por ali apenas de passagem. O tal de Dan colocou a cabeça para fora da cozinha e avisou que dava para conseguir um carro, seguindo por uns cinco quilômetro
O mato estava molhado e o chão escorregadio, Diego me segurava com força pelo braço. Ele parecia ter experiência em andar naquele tipo de terreno, pois parecia saber para onde ir. A mata foi dando lugar uma floresta que foi se adensando conforme avançávamos, as árvores mais altas e grossas ofereciam proteção, podia ouvir eles gritando e nos perseguindo, podia jurar que tinha ouvido tiros. O terreno era reto, de modo que fomos seguindo sem parar, Diego sempre me guiando e segurando. Depois de um tempo não ouvimos mais nada, tive a impressão que o casal não se aprofundou floresta adentro nos perseguindo. - Diego, espera. - Precisava parar, estava sem fôlego, com as mãos arranhadas do mato, molhada, e sentindo mato grudado no meu rosto, precisava me acalmar. - Desculpa, vamos parar um pouco, acho que não estão nos perseguindo.Me sentei em tronco, meu estado era lamentável. - Precisamos parar com isso, não vai dar certo, não vamos conseguir fugir, precisamos sair daqui e na p
A conversa entre Elle e sua irmã se desenrolava de forma tensa. Pelo que pude entender, a avó das duas já sabia que ela estava comigo e tinha acionado a família. Não me surpreendia nem um pouco que Margaret Walker soubesse do que vinha acontecendo. Elle estava triste com o que eu tinha falado, mas era verdade, eu não podia deixar meus sentimentos definirem minhas decisões, eu era um fugitivo e ela já tinha corrido riscos demais até aqui. Decidi que iria aguardar que estivesse em segurança para seguir o meu caminho. Doía mais do que gostaria de admitir, pois sabia que talvez nunca mais a veria de novo. No hotel, consegui mandar mensagem para Ada que vinha tentando me ajudar a fazer contato com um advogado que fazia muitos negócios fora da lei. No entanto, nunca com a polícia ou com cartéis. Gabriel Collins era um nome conhecido em alguns meios, não tinha um escritório e quase nunca podia ser encontrado. Mesmo quando se envolvia em algum processo, mandava repres
Me senti do mesmo jeito quando, 7 anos atrás, descobri que Diego tinha ido embora. Dessa vez, houve uma despedida, mas não esperava me sentir sem chão e com um buraco no peito. Meu celular pipocava mensagens, imagino que minha irmã tenha passado o número para a família inteira. Não tinha ânimo para responder ninguém, mesmo porque não tinha uma resposta coerente para o que vinha acontecendo. O segurança chegou junto com alguns policiais, revistaram o quarto e questionaram se estava sendo mantida contra a vontade, avisei que não, foi apenas um mal-entendido. Um cara que parecia ser o chefe dos seguranças, não fez maiores questionamentos, falou com os policiais, provavelmente dizendo que eu não tinha nada a ver com o fugitivo e que ele iria me levar de volta. Fui orientada a entrar no carro junto com outros três seguranças, o chefe avisou que iríamos para o aeroporto onde um jatinho particular estava esperando. Durante o trajeto, não falei nada, fiquei pensando na m
O que eu realmente queria? Era a pergunta de Castillo. Eu queria voltar no tempo, antes que minha vida virasse esse pesadelo, mas essa opção não estava disponível. E esse homem que nunca vi na vida achava que a melhor solução era sumir, deixar tudo para lá e recomeçar. Se nem ele, que também era da polícia, acreditava que meu caso tinha solução, por que eu acreditaria? - Olha, eu entendo o que você queira, fazer justiça, ter justiça, mas o cartel El Lobo tem todo aquele pessoal na palma da mão, ninguém vai querer ser denunciado ou abrir a boca para depois terminar morto em um buraco em algum lugar qualquer que nunca ninguém vai encontrar. Castillo estava certo, eu não tinha muita escolha e até aqui como ele bem pontuou eu tinha tido sorte e ainda estava vivo. Elle estava em segurança, em breve juntos aos familiares, resolvi aceitar por hora a proposta de fuga. - E como funcionaria? - Perguntei enquanto bebia um pouco da cerveja, Castillo falava com a ca