Diego me ajudou a levantar e me ajeitar. Seu carro estava estacionado na rua. Os homens estavam desmaiados ou mortos, mas tive medo de perguntar naquele momento e apenas deixei que ele me levasse até o carro.
— Não podemos ir para sua casa ou para a polícia. Vamos para a casa de um amigo, fora da cidade. Depois do que aconteceu com você, nunca vou me perdoar. Vamos dar um jeito. A melhor opção é você voltar para Nova York de forma segura.
Sem condições de debater qual era a melhor opção, apenas me recostei no banco do carro, enquanto Diego dirigia em alta velocidade, tentando se afastar o máximo possível da cidade. A viagem levou mais de uma hora e, quando a paisagem deu lugar apenas ao mato, senti a adrenalina baixar e dar lugar a um cansaço físico e mental. Em algum momento do trajeto, acabei dormindo. Acordei apenas quando já havíamos chegado e senti a mão de Diego em meu ombro.
Era uma cabana no meio do mato.
— É a cabana de um amigo. Vamos ficar aqui essa noite. Estamos no Parque de Everglades. Tenho certeza de que ninguém nos seguiu.
— Eu preciso mandar uma mensagem para minha irmã. Minha bolsa e meu celular ficaram largados na minha sala. Se alguém chegar e ver aquela bagunça, vão achar que fui sequestrada.
— Você não pode mandar mensagem para sua irmã. Ela vai querer saber em que você se meteu, e sua avó tem capacidade de mandar uma cavalaria atrás de você, piorando ainda mais a situação. Além disso, você pode colocar sua irmã em perigo se mandar alguma mensagem.
— Mas eu não posso deixar minha família achar que fui sequestrada! Minha irmã vai ficar doida, meu pai é capaz de morrer! — Aquela sugestão era absurda. Eu não poderia deixar minha família no escuro.
— Elle, o risco é ainda maior se você mandar mensagem. E você vai explicar o quê? Que está fugindo com o ex-namorado da adolescência?
— Posso apenas dizer que estou bem, para não se preocuparem.
— Sua irmã vai ligar na mesma hora para seus pais, que vão ligar para sua avó, e, se essa história se tornar pública, aqueles que te atacaram ficarão ainda mais desesperados para te matar. Eles acham que você sabe quem sou e que também sabe quem eles são.
— E quem são eles?! Me explica, Diego! Você se jogou no meu carro sangrando, quase morrendo, me deu uma explicação meia-boca e, depois de eu quase ter sido sequestrada, ainda assim você não me diz quem está atrás de você… e agora de mim?!
Ele passou a mão nos cabelos, desesperado, e começou a andar de um lado para o outro, nervoso. Lá fora, a chuva, que estava apenas ameaçando cair, desabou de forma estrondosa. O chalé parecia velho e abandonado. Não sei se aguentaria uma chuva forte e, com certeza, haveria goteiras.
— Como eu disse, quando voltei, queria ser policial. Com 19 anos, entrei para a corporação. Era um idiota iludido, achava que poderia fazer a diferença na sociedade, na vida das pessoas. Quando eu era pequeno, tínhamos medo da polícia lá no bairro. Eles não tratavam bem os latinos, os negros… ninguém que morava lá. Então pensei que poderia ser diferente. Eu era meio mexicano, meio americano, tinha os pés nos dois mundos. Mas, como eu disse, era apenas uma ilusão. Depois de dois anos de muito trabalho que não levaram a lugar nenhum, começamos a ter problemas maiores. Uma droga nova começou a assombrar as ruas, então foi montada uma força-tarefa. Trabalhei um tempo à paisana, tentando descobrir como a droga era vendida e por quem. Mas era difícil. Nunca chegávamos perto o suficiente. Então, um dia, consegui monitorar uma compra de carregamento que estava chegando. Me escondi, fotografei… e o que vi foi o sargento da delegacia negociando a chegada do produto com o chefe de um dos cartéis de droga mexicanos. Eu não deveria estar ali. Foi por acaso. Mas eu estava… e com provas. Te juro que achei que realmente poderia desmantelar aquilo. Mas tudo que consegui, ao apresentar as provas direto para o delegado, foi ser acusado de um crime que não cometi, perseguido e ameaçado… pela polícia e pelo cartel.
— Quem está nos perseguindo agora?
— Sinceramente? Não sei. Podem ser os dois. Eu sou uma ponta solta e venho tentando me manter vivo. Ainda tenho provas e, se eu puder provar minha inocência e expor aquela delegacia corrupta, posso ter minha carreira de volta. Minha vida de volta.
A situação era pior do que eu imaginava. O desamparo de Diego era palpável. Ele não era o criminoso que dizia ser quando pediu que eu fosse embora. O menino que conheci ainda estava dentro dele. Apesar de tudo, ele ainda era alguém com esperança. Talvez eu pudesse ajudar. Minha família tinha conexões, meios. Eu tinha um primo advogado.
— E se eu ajudar? Posso tentar conversar com alguém. Meu primo é advogado, ele deve conhecer alguém na polícia…
— Não posso te envolver nisso mais do que você já está envolvida. É loucura. Meu objetivo é te levar para Nova York em segurança. Meus problemas eu resolvo.
— Mas eu já estou envolvida! A essa altura, minha irmã já sabe o que aconteceu. Até mesmo minha avó já deve saber. Então, é tarde demais para eu não me envolver. Não quero resolver o seu problema, quero ajudar. E sei que posso.
Ela me olhava com um brilho no olhar que conhecia bem, tinha esquecido que podia ser teimosa. Nosso namoro tinha durado um ano, no período em que tinha vindo com a família morar em Miami. Éramos dois garotos, com um círculo de amizades bem diferente, mas mesmo assim nosso caminho se cruzou. Teimosa e decidida, escapava dos olhos da mãe e da vizinhança rica para me encontrar na praia, sabia que a família jamais permitiria esse tipo de envolvimento, mas éramos jovens e apaixonados. Até eu ir embora. Por um instante acho que ela acreditou e até mesmo eu acreditei que podíamos levar o namoro adiante. - Ainda preciso falar com a minha irmã, ela vai acionar a polícia e, se já não sabem tudo sobre mim, vão acabar descobrindo. Não me olhe assim, é sério, eu preciso avisar que estou bem, não sei como vou explicar que estou em fuga, mas eu preciso, entende?Sem muita escolha, fui procurar nas coisas do Will um telefone irrastreável. O que Elle não sabia ainda era que o chalé era um ponto de
Eu tinha perdido o bom senso, e o vinho não estava ajudando, mas ter Diego na minha frente de banho tomado, usando uma camiseta simples e uma bermuda era demais para o meu autocontrole. Quando éramos jovens, nosso namoro foi explosivo, eu era loucamente apaixonada, experimentava o primeiro amor, muitos sentimentos e emoções novas. Eu adorava o risco de fugir da vigilância da minha mãe e ir encontrá-lo na praia ou no bairro onde morava, mesmo sendo claramente uma patricinha protegida, eu só enxergava Diego, e não via o abismo que existia entre nossas realidades. Agora eu queria que Diego jogasse tudo para o alto e deitasse nessa comigo, me abraçasse e dissesse que todos os problemas vão se resolver e que esse reencontro era uma oportunidade de ficarmos juntos para sempre. - Só me abraça e não me deixa sozinha. Ele me encarou. Eu podia ver o conflito em seu íntimo, até o momento que desistiu de lutar contra si mesmo e se aproximou da cama. Diego se deitou ao
Na manhã seguinte, o tempo amanheceu estranho. Nuvens carregadas anunciavam uma chuva forte. Na entrada Diego perguntou para o mesmo atendente entediado da noite anterior se havia alguma oficina ou lugar para conseguir um carro, ele mandou perguntar no café, que nada mais era uma loja de conveniência ao lado posto de gasolina, que no fim não estava abandonado, apesar do aspecto deprimente. Dentro do local cheirava a fritura, uma moça sorridente veio nos atender, ela era feliz demais para o local e sabia disso, o que era engraçado, porque uma mulher mais velha atrás do balcão encarava a coitada com fúria nos olhos. A moça serviu o café e foi buscar nosso pedido, avisando um tal de Dan sobre onde conseguir um carro. Algumas pessoas entraram no café, a maioria homens com cara de desânimo que estavam por ali apenas de passagem. O tal de Dan colocou a cabeça para fora da cozinha e avisou que dava para conseguir um carro, seguindo por uns cinco quilômetro
O mato estava molhado e o chão escorregadio, Diego me segurava com força pelo braço. Ele parecia ter experiência em andar naquele tipo de terreno, pois parecia saber para onde ir. A mata foi dando lugar uma floresta que foi se adensando conforme avançávamos, as árvores mais altas e grossas ofereciam proteção, podia ouvir eles gritando e nos perseguindo, podia jurar que tinha ouvido tiros. O terreno era reto, de modo que fomos seguindo sem parar, Diego sempre me guiando e segurando. Depois de um tempo não ouvimos mais nada, tive a impressão que o casal não se aprofundou floresta adentro nos perseguindo. - Diego, espera. - Precisava parar, estava sem fôlego, com as mãos arranhadas do mato, molhada, e sentindo mato grudado no meu rosto, precisava me acalmar. - Desculpa, vamos parar um pouco, acho que não estão nos perseguindo.Me sentei em tronco, meu estado era lamentável. - Precisamos parar com isso, não vai dar certo, não vamos conseguir fugir, precisamos sair daqu
Peguei uma tesoura e comecei a cortar suas roupas enquanto as jogava pela janela em pedaços. Era um belíssimo espetáculo para a vizinhança. Vi quando um carro de polícia chegou.James ainda teve a audácia de me chamar de amor enquanto, escondido no banheiro, pedia perdão e dizia que tudo era um engano. Meu telefone começou a tocar, meu pai, provavelmente já sabendo, minha mãe e a droga do meu irmão, que ligava do Japão.Não atendi ninguém. Depois de jogar as roupas caras pela janela, minha missão era destruir aquele apartamento, pedaço por pedaço. Aquele lugar que eu chamava de lar, montado com extremo bom gosto.Tesourei as almofadas, o estofado milionário do sofá, as cadeiras. Quebrei todos os enfeites dados no dia do noivado, o vaso de 20.000 de uma tia distante que era feio de doer. Rasguei livros de colecionador e o quadro doado por algum artista da família de James.Alguém batia na porta. Iam arrombá-la. Não importava. Nada mais me importava. A fúria começou a doer. Perdi a von
Um ano depoisSaí da galeria mais tarde do que o planejado, já era quase seis e meia da tarde e estava escuro. Miami se preparava para o Natal, que, diferente de Nova York, acontecia em um clima quente e leve. Precisava ir até o shopping Bal Harbour comprar o presente de aniversário de Annie, minha sobrinha.Já fazia um ano que estava em Miami. Já não pensava em James, na família; só trabalhava na galeria e ia para casa, um apartamento pequeno que teria deixado minha avó de cabelo em pé. Minha irmã insistia que eu deveria sair e me convidava para todos os eventos sociais, mas eu sempre ficava uma hora e ia embora. Já a peguei falando com meu pai que estava preocupada com a minha aparente apatia. Minha estadia vinha se estendendo mais do que o planejado, e minha vontade de me reerguer nem tinha começado.Minha avó, nos primeiros meses, até tinha insistido, com muitas ameaças, mas James pegou todo mundo de surpresa ao se casar em Las Vegas dois meses depois com Amelie, que nada mais era
Olhar para ela era desconcertante. Eu podia ver em seus olhos a pergunta que queria fazer, e eu não sabia se estava pronto para responder. A menina por quem eu tinha me apaixonado havia se transformado em uma bela mulher, com os cabelos loiros na altura dos ombros, olhos azuis e aquele ar de realeza que ela sempre teve. Mas ela nunca foi arrogante; achava graça em tudo, adorava uma aventura e tinha muitos sonhos.Com o passar dos anos, tive outras namoradas, mas ainda assim doeu quando soube do noivado, e doeu mais ainda quando as notícias do rompimento saíram em todos os jornais. O desgraçado a tinha feito passar por uma humilhação pública, e Elle havia reagido de uma forma que eu tinha certeza de que sua avó deve ter condenado.Agora, ela estava na minha frente. Minha vida era uma bagunça, cheia de confusão, e eu temia ter colocado a dela em risco. Mas eu lhe devia uma explicação. Ou, pelo menos, uma meia explicação.— Não vou embora. Eu preciso saber o que está acontecendo.— Vamos
Quando minha irmã ligou, eu já estava em casa, de banho tomado, com uma taça de vinho na mão, pensando sobre o que tinha acontecido. Menti, dizendo que nada de anormal havia ocorrido. Mais um dia igual aos outros. Ainda estava entorpecida pelo reencontro com Diego e pretendia beber a garrafa inteira antes de dormir zonza de tanto vinho.Fiz uma busca na internet. Eu sabia que não deveria fazer isso, mas não conseguia evitar, era mais forte do que eu. Procurei por casos policiais. Nada. Ampliei a busca, até nos registros de criminosos mais procurados, mas nada batia com a descrição dele. Poderia ser algo pior: gangues? Ele foi atacado por alguém. Um mafioso? Socorro. Enquanto esses pensamentos me consumiam, esvaziava a garrafa de vinho. Dormi bêbada e acordei perdida, com uma ressaca terrível.No meio do movimento do dia na galeria, na fase final da inauguração da próxima exposição, Diego não saía da minha mente. Sua explicação sobre ter ido embora e como era melhor acabar com o nosso