Era o ápice do ano para todos ali, a cerimônia de um reconhecimento merecido pelas lutas diárias e os desafios superados pelos profissionais do hospital.
A fisioterapeuta Carly estava deslumbrante e a noite apenas começando. Todos reunidos no salão de eventos do El Dourado, as luzes do local refletiam a sofisticação da festa de gala. A música suave preenchia o ar enquanto os convidados conversavam animadamente na celebração, compartilhando risos, trocando elogios e abraços. O seu nome foi chamado durante a premiação. Ela sorriu de forma forçada ao subir no palco para receber o prêmio e, por um momento, o olhar da plateia parecia mais um peso. O que ela estava comemorando, afinal? Enquanto descia do palco, as palavras dos colegas ecoavam em sua mente. "Parabéns, Carly. Você merece!" Mas, no fundo, ela sabia que esse reconhecimento não preenchia o que estava sentindo. Ela estava em pé, à margem da festa, com um belo vestido clássico, compartilhando um sorriso gentil enquanto seus colegas e amigos passavam. Ela olhava ao redor, sentindo a euforia, mas não conseguia desfrutar do momento. Como havia alcançado o sucesso, ou ao menos, um dos picos mais memoráveis de sua carreira, no centro metropolitano de Portin. Mas, à medida que a cerimônia seguia, uma sensação de inquietude começou a crescer dentro dela. Os amigos e colegas estavam acompanhados de seus entes queridos. Eles riam e conversavam, com brilho nos olhos, celebrando suas conquistas. Mas ela não tinha convidado ninguém. Não tinha nenhum familiar presente na festa para se orgulhar de suas conquistas. O que se via, ao invés de alegria, era uma sensação de tristeza, que se tornava mais persistente, à medida que o tempo passava. Apesar de estar cercada por pessoas incríveis, se sentia distante, até mesmo como uma estranha naquele meio. A cadeira vazia ao seu lado na mesa demonstrava a sua insatisfação. Do que adiantava ser a melhor em algo se, ao final do dia, a solidão se fazia mais presente do que qualquer aplauso? Logo, ela pegou sua bolsa clutch e seguiu ao banheiro. Ela olhou para o espelho e ajustou a maquiagem com mãos firmes, mas sua mente estava longe. Aquele evento era a oportunidade que ela tanto esperava para provar o seu valor. Mas havia algo dentro dela, algo sutil, que a fazia questionar: Será que é isso mesmo que eu quero? Naquele momento, ela aproveitou para escapar para casa, sem se despedir de ninguém. Apenas se isolar do mundo. Nos dias que sucederam, ao cruzar os corredores do hospital, Carly ouviu risos contagiantes. Curiosa, seguiu o som e se deparou com um homem de jaleco colorido. Ele estava com as crianças internadas na traumatologia, era descontraído e tinha um sorriso sincero que transmitia uma energia contagiante. O semblante leve e o jeito espontâneo faziam os pequenos rirem sem reservas. Carly pensou: ele é atraente de um jeito difícil de explicar. Depois comentou isso com sua amiga Deise. Outras vezes se via ali, observando de longe, sentindo uma estranha familiaridade naquela cena. Mas, queria afastar os pensamentos e seguir para sua rotina, tentando esquecer o que lhe chamou atenção. Mas, por alguma razão, ele havia ficado marcado em seu coração. No outro dia, Carly recebe uma mensagem para se dirigir na ala da pediatria. Assim que entrou na sala cheia, seu olhar foi direto para ele. O mesmo homem da noite anterior estava na sua frente. Seu coração disparou. — Carly, você escutou o que eu disse? — a voz firme da Dra. Deise trouxe-a de volta à realidade. Deise, era a ortopedista com anos de experiência e subdiretora do setor de traumatologia. Ela tinha uma habilidade e empatia destacável. Seus traços refletiam a mulher empoderada e determinada que era, uma morena cativante. Ela já trabalhava há uns doze anos na área e acabou se tornando amiga de Carly. — Sim, me desculpe, fiquei um pouco distraída. Poderia repetir? Ela cruzou os braços, analisando-a com um olhar clínico e sarcástico. — O que foi que você viu de interessante? Ah, Esquece. Quero que você acompanhe aquele Dr. Gato, ele vai te orientar com as crianças. Aliás, aqui entre nós, entendi a sua surpresa, não é todo dia que temos um cara bonitão e cativante desses na nossa equipe. Elas seguiram tentando conter as risadas. — Para! Você tá fazendo a gente passar vergonha, Deise. — Relaxa. Vamos lá, vou te apresentar para ele, o nosso novo pediatra, se tudo correr bem, será parte oficial do time. O nervosismo de Carly misturava-se à empolgação. Agora, mais do que nunca, precisava se concentrar para não parecer deslumbrada. — Prazer, sou Pedro Castello. Mas dispense as formalidades. — ele disse, estendendo a mão com um sorriso amigável. — O prazer é meu, sou Carly Ramires. Mas, também sem formalidades. Ela deu um sorriso sutil, tentando disfarçar o olhar para a mão dele. Ela queria certificar-se que ele não era comprometido. O aperto de mão foi rápido, mas causou um efeito eletrizante nela. Ela reparou o brilho daqueles olhos castanhos, sentindo a conexão fluir naturalmente. Não contendo o seu sorriso largo. Após, seguiram quietos as instruções repassadas pela Dra. Deise. Ao longo dos dias, Carly o observava discretamente, enquanto trabalhavam juntos. Pedro era diferente, parecia saber equilibrar o profissionalismo do pessoal. As crianças o amavam. Os pais confiavam nele. E, como se não bastasse, ele possuía um currículo impecável. Ao final do expediente, a curiosidade falou mais alto. Carly queria ter certeza se ele era solteiro e resolveu pesquisar suas redes sociais, mas eram privadas. Com as informações repassadas por Deise, descobriu que Pedro havia estudado em outros países, era fluente em três idiomas, tinha diversas publicações científicas e envolvimento em missões e projetos sociais. Ele era academicamente brilhante! Parecia inalcançável, "como conquistar um homem desses?" Retrucou ela. Mas, o que mais a intrigava era a postura reservada dele. Diferente dos outros, Pedro parecia imune aos olhares e insinuações alheias. Mesmo quando ela tentava puxar assunto para conversarem, ele a tratava com a mesma educação que qualquer outro colega. Ela queria ser mais que uma simples colega, queria poder se aproximar mais dele, quebrar as barreiras. Ela questionava, "Ele realmente não percebeu ou simplesmente se faz de desentendido?" A dúvida a consumia. Ele era divertido e carismático, expressava uma paz que refletia seu caráter. E, quando percebeu que seus sentimentos estavam tomando um rumo perigoso, tomou uma decisão: afastar-se. Ela não queria correr o risco de se machucar outra vez, muito menos deixar que seus sentimentos interferissem nas suas escolhas. Então, resolveu fugir como sempre. Poucos dias depois, conseguiu uma troca de turnos. Evitaria Pedro a todo custo. Alguns meses se passaram, ela permanecia distante. Evitava cruzar ou falar com Pedro pelos corredores. Até que uma substituição inesperada a colocou novamente no caminho dele. Carly precisou cobrir o turno de uma colega na traumatologia que estava grávida, no entanto, para chegar ao local precisava atravessar o corredor da pediatria. Quando ela menos esperava, ouviu aquela voz familiar interrompendo sua fala. — Carly, quanto tempo! Estava se escondendo de mim? - Pedro perguntou em tom de brincadeira e deu um sorriso de descontração, enquanto voltava-se para as suas anotações no tablet. - Será que você poderia me ajudar por um instante aqui? As crianças vibraram ao ver o médico. — Ebá, Dr. Pe! — gritavam, animadas. Ela revirou os olhos. "Dr. Pe, só se for P de pedra, Fala sério!" Ela se incomodou, devolvendo o tablet e resmungando, tentando se acalmar. Minutos depois, Pedro surge no corredor risonho com a situação, se aproximando dela. — Senhorita, já pode voltar. Bela companheira você, hein? Disse Pedro, sussurrando ao seu ouvido. Carly se arrepiou, cruzando os braços, mordendo o lábio, irritada. — O que deu em você? Quem você pensa que é? Eu também tenho sentimentos, quer dizer, horários a cumprir! Pedro arqueou uma sobrancelha, sem se abalar. — Infelizmente, não tenho tempo para discutir, mas você está em dívida comigo, dá licença. - Ele retrucou, - Mulheres são complicadas! E saiu sem dar explicações. — Você é grosso, como não percebi isso antes?! — murmurou, sentindo o sangue ferver. Mas, depois que a raiva passou, Carly se pegou refletindo ao caminho de sua casa. "Por qual motivo ele me incomoda tanto? Será que ele se chateou comigo, por isso resolveu implicar agora? Ele é muito ousado. O príncipe virou sapo, realmente imperfeito!" Ela se jogou na cama, olhando para o teto. Deduzindo que a verdade era que Pedro nunca demonstrou interesse, talvez tudo estivesse apenas em sua cabeça. Ela voltou com uma única certeza: Pedro continuava ocupando um espaço grande demais em seus pensamentos e talvez já fosse tarde demais para impedir isso. Para ela, o "homem da sua vida" parecia impossível. Mas, não iria desistir facilmente. Ela estava disposta a conquistar ele a qualquer custo.Pedro saiu da igreja sentindo-se leve. A comunhão de estar naquele lugar lhe trazia paz, mas, seus dias não tinham sido fáceis, algo o inquietava. Enquanto caminhava até o estacionamento, seu olhar foi atraído para a lanchonete da esquina. Lá estava Carly, sozinha, distraída ao celular, tomando um milkshake. A lembrança de seu primeiro encontro com ela surgiu à mente. Aqueles olhos claros e expressivos, que no primeiro momento lhe pareceram assustados, os seus lábios delicados, uma postura que exalava confiança. Ele chegou a pensar que uma mulher daquelas fosse comprometida. Principalmente depois, que sem aviso, ela simplesmente se afastou. Pedro hesitou. Será que eu deveria ir até ela ou seria melhor ignorar? A dúvida pairou os seus pensamentos, enquanto ficava de um lado para o outro de frente ao seu carro. Ele não entendia por que Carly recusou continuar trabalhando com ele meses atrás. Para ele, estavam se dando bem, a parceria de trabalho era boa. Mas, de repente, ela pediu para
Para Pedro, o funeral do seu pai foi um dos momentos mais difíceis que ele enfrentou na vida. O homem que lhe ensinou tudo sobre fé, caráter e determinação, agora partia, deixando um vazio impossível de preencher. Durante a cerimônia, sua mãe estava inconsolável, e Pedro tentava ser forte por ela. Mas, no fundo, ele também estava destruído.Entre os rostos conhecidos que vieram prestar condolências, um, em especial, chamou sua atenção. Ele avistou de longe um homem alto, de terno impecável, óculos escuros e expressão séria que desceu de um carro preto e vinha caminhando na direção deles. Pedro não precisava de apresentações. Ele reconheceria seu irmão mais velho em qualquer lugar.— Gutto… — murmurou Pedro, engolindo a seco, surpreso.Gusttavo Filho, ou Gutto, como era chamado pelos mais íntimos e a família, ele morava em Nova York há anos. Advogado criminal, levava uma vida intensa e quase nunca vinha ao Brasil. Pedro mal se lembrava da última vez que o viu pessoalmente. O irmão reti
Pedro estava exausto. O luto pesava sobre seus ombros como uma corrente invisível que o arrastava para um vazio difícil de escapar. Desde o enterro do pai, sua mente não encontrava descanso. As lembranças vinham e iam, cada uma delas carregada de culpa e saudade. Carly percebeu isso. Então, assim que ela o viu entrar pelo elevador para ir embora de mais um expediente, ela correu para o acompanhar. Ele mal a cumprimentou. Seu olhar estava perdido, os olhos avermelhados denunciavam as noites sem sono. Sem pensar muito, ela o envolveu em um abraço firme, como se quisesse segurá-lo no presente, impedindo que ele se perdesse em sua própria dor.Erguendo o olhar para o teto, ela murmurou suavemente:— Vamos sair daqui? Ir para algum lugar? O que acha?Pedro hesitou, sem entender, piscando algumas vezes antes de responder.— Como assim? Você não está com pressa para ir para casa?Ela sorriu de leve.— Agora, meu compromisso é com você! Serei sua terapeuta hoje. Acredito que você precisa de a
O vento frio soprava pela fresta da porta entreaberta, carregando consigo um som inquietante e dramático, "Moonlight Sonata - Beethoven." Carly, ainda criança, espiava o quarto dos pais, segurando a respiração, sentindo seu coração bater acelerado no peito. Na sacada, sua mãe estava parada, com os cabelos bagunçados pelo vento noturno, segurando Serina, ainda bebê nos braços. Seu olhar parecia distante, perdido em um ponto além da escuridão. Algo na cena fazia Carly estremecer. De repente, a porta do quarto se abriu com força, e seu pai surgiu apressado.— O que você pensa que está fazendo?! — a voz dele soou como um trovão na noite.Ele avançou rapidamente, segurando o braço da esposa com firmeza e arrancando Serina de seus braços. Carly viu quando sua mãe desabou na cama, chorando de forma desesperada, como se sua alma estivesse em pedaços.— Você enlouqueceu? — o pai gritou, a voz carregada de medo e desespero.A mãe apenas soluçava, escondendo o rosto entre as mãos, incapaz de re
Pedro não conseguia raciocinar muito bem naquela noite. Depois do pedido e do beijo que deu em Carly, sua mente estava um verdadeiro caos. Se antes já se preocupava com seus sentimentos, agora precisava lidar com as consequências de suas atitudes. Ao chegar em casa, percebeu que sua mãe ainda estava acordada. A luz do quarto dela permanecia acesa, e, assim que ele passou pelo corredor, Helena chamou seu nome.— Pedro, aconteceu alguma coisa? Você parece assustado.Ele hesitou por um momento, evitando encará-la diretamente.— Não, está tudo bem, mãe. Só estou meio cansado.Helena o observou por alguns instantes da porta, como se tentasse decifrá-lo.— Tem certeza? Você está com uma cara de culpado… Sei quando algo está te incomodando.Pedro respirou fundo, mantendo a postura firme.— Só um dia longo, mãe! Vou tomar um banho e descansar. Sem dar espaço para mais perguntas, seguiu para o quarto dele. Helena não insistiu, mas também não parecia convencida. Ela tinha até "nome" para quem
O hospital estava em seu ritmo acelerado quando Carly recebeu um chamado para a ala de reabilitação. Como fisioterapeuta especializada em traumatologia, era comum que fosse requisitada para casos de recuperação de traumas mais complexos. Mas, a maneira como tudo foi informado a deixou intrigada.— Dra. Carly, você foi requisitada para um caso de reabilitação na área VIP. — avisou a secretária do setor.Ela parou de revisar os prontuários e franziu o cenho.— O que aconteceu?— Ainda não temos detalhes. A informação que circula é que o paciente sofreu uma queda de cavalo. Teve múltiplas fraturas nas costelas e uma contusão severa na perna direita. Parece um caso sério.Carly assentiu, processando a informação.— Quem solicitou minha presença para o caso? A secretária hesitou.— O pedido veio diretamente do Dr. Alberto.A menção ao nome dele a fez se retesar, com um nó no estômago. Carly não gostava dele. E tinha as suas razões.Dr. Alberto Farias não era apenas o diretor do setor de
O corredor da Ala VIP parecia ainda mais silencioso do que o normal. O ambiente requintado, com suas luzes suaves e móveis sofisticados, contrastava com a atmosfera impessoal das outras alas do hospital. A tranquilidade e a sofisticação artificial daquele espaço não conseguia aliviar a tensão que Carly sentia. Parada diante da porta, ela segurava o cartão de acesso com dedos trêmulos. Respirou fundo antes de deslizá-lo na fechadura eletrônica. A luz verde piscou e a porta se abriu com um leve clique. Ela entrou vagarosamente. O ambiente era mais luxuoso do que um quarto de hotel, espaçoso, bem iluminado pelo entardecer que filtrava pelas cortinas semiabertas. O cheiro sutil de desinfetante misturava-se ao perfume do ambiente climatizado. Mas nada disso importava. Seus olhos foram direto para a cama. Ali, ele estava deitado. O homem que um dia lhe deu a vida. Ele dormia profundamente, o peito subindo e descendo de forma ritmada. Mas, o curativo em sua lateral denunciava a fratura nas
O silêncio no quarto foi quebrado apenas pelo som baixo da televisão. A tela exibia uma reportagem, e a voz do jornalista preenchia o ambiente com um tom formal e sério:"Joseph Padro, governador e empresário, sofreu um acidente enquanto cavalgava em sua fazenda particular, em Monte Frontal. O incidente resultou em múltiplas fraturas nas costelas e uma contusão severa na perna direita. O empresário, que é sócio de diversas empresas no país, foi transferido para um hospital de alto padrão, em Porto, onde segue em recuperação. Nossa equipe segue acompanhando as atualizações sobre o estado de saúde do governador."Serina, sentada na cama, ao lado do pai, observava a notícia com os braços cruzados, a expressão indecifrável.Joseph, mesmo debilitado, mantinha um olhar fixo na tela, sua postura carregada de um peso invisível. Foi nesse momento que a porta do quarto se abriu lentamente.Carly entrou vagarosamente.Joseph desviou o olhar da TV imediatamente para ela. Um silêncio tenso se inst