Uma questão sempre me assola. Até quando vou me manter assim, firme, nadando contra a maré, sem me envolver?
As festas de meu pai são um porre. Tenho participado de todas elas para vê-la. O que me move é o anseio de saber como Natasha está, os relatórios que tenho tido não parecem ser o suficiente. Sempre preciso vê-la com meus próprios olhos. Ver pessoalmente se ela está realmente bem.
Um alerta soa na minha cabeça e me desperta para uma coisa. Preciso dar um tempo sem vê-la. Estou me envolvendo demais. Meus pensamentos não são nada bons para ela. Sou uma cobra criada, muito vivido e muito amargo também.
Ela pode te curar...Uma voz sopra no meu ouvido.
Balanço minha cabeça em negativa.
Não! Depois de tudo que vivi não sei se alguma coisa boa sobrou dentro de mim.
Levei tanto tempo para me casar e me decidir por uma pessoa e quando finalmente achei que encontrei a mulher certa, tomei na cara para não dizer em outro lugar.
Ninguém se casa sem amor e eu amava Rebecca com todas as forças do meu coração. Ela era uma mulher linda, sensual, vibrante.
Entrei de corpo e alma na relação, mas com zero habilidade em lidar com uma mulher drogada. Cocaína era sua praia.
A merda toda que eu não sabia disso. Foi eu deslizar o anel em seu dedo esquerdo que esse seu lado se revelou. E minha vida perfeita se tornou um inferno.
Aprendi cedo que a imagem que vemos em uma pessoa pode não ser a verdadeira, ela pode transparecer tantas coisas boas e tudo pode ser uma grande mentira.
Dio mio, fico imaginando se nosso filho tivesse vingado. Com certeza teria nascido com algum problema pelo tanto que ela se drogava, mesmo sabendo que estava grávida.
Tentei ajudá-la. Fiz de tudo que estava em minhas mãos. Não desisti dela. Fiquei ao seu lado como uma fortaleza, mesmo que o pesadelo que eu vivia me matasse aos poucos por dentro.
Conselhos não faltaram.
Nem a clínica de reabilitação que paguei ajudou.
Quando ela voltava para casa e o inferno recomeçava.
Ela amava mais as drogas que eu.
Um dia o inevitável aconteceu. No nosso quarto, que deveria ser o nosso ninho de amor, foi um palco de horror. Eu a encontrei na cama gelada. Demorou para eu entender que ela estava morta. Que a overdose a levou.
Sofri.
Acredite! Eu sofri!
Fiz de tudo para que isso não acontecesse, usei todos os recursos disponíveis que eu tinha para tirá-la do vício, ainda assim quando ela morreu me senti culpado.
Na verdade ainda me sinto assim. Tenho sempre a sensação que fiz pouco por ela.
Afasto meus pensamentos que ainda me machucam e caminho lentamente até meus pais.
Hoje vou sair. Espero encontrar um mulherão para passar algumas horas sem neuras, quero apenas sexo intenso.
Eu me despeço dele.
—Dì a mamma che me ne sto andando. (Diga a mamãe que estou indo embora.)
—É presto. (É cedo)
—Padre!
—Non mi piace il tipo di vita che conduci a mio figlio. Pensi che non sappia dove stai andando adesso? (Não gosto do tipo de vida que está levando meu filho. Pensa que não sei para onde está inda agora?)
—Padre. Per favore.
Meu pai me segura pelo braço.
—A vida é cheia de infortúnios. Seu casamento foi um deles, mas não quer dizer que não deva confiar novamente em alguém —meu pai me diz em seu inglês precário.
Apenas aceno com a cabeça, sem nada dizer e tomo meu rumo.
E a garota possessiva que me relacionei? Que arrebentou com meu carro quando terminei com ela?
E aquela vagabunda que pegou a camisinha e enfiou meu sêmen na sua vagina? Por sorte eu a peguei no flagra. Eu lavei tudo como se lavasse o joelho sujo de uma criança e lhe dei um chute na bunda e quase fiz isso de um jeito literal.
Dio! Não sei se consigo confiar meus sentimentos à alguém.
Hoje prefiro caçar do que ser caçado.
Horas depois entro na minha cobertura e encaro minha confortável cama, mas não o suficiente para me livrar dos pesadelos. Sou muito assolado por eles. São tão reais que acordo assustado. Às vezes até gritando no meio da noite. A imagem de Rebeca vestida com sua camisola de cetim branca surge morta ao meu lado. Então ela se senta na cama e chora me pedindo ajuda.
Solto o ar.
Dio! Ando tão cansado.
Desde que ela morreu, há dois anos, tenho trabalhado direto. Eu preciso de noites tranquilas de sono para acordar bem e disposto. Mas não é isso que eu tenho tido.
Dois anos já não era para esse tormento de sonhar com ela ter me deixado?
Dio! Já pensei em fazer terapia. Mas nãos sei se ajudaria. Talvez a psiquiatria.
Sim, pois meu caso é psiquiátrico. Sinto que estou doente.
Muito doente.
Fungo.
Espero que essa noite eu não encontre as trevas que habitam dentro de mim.
Tomo um banho demorado, retirando todo cheiro de sexo, perfume, das garotas que comi. Depois de me enxugar vigorosamente, visto minha cueca box e me deito na minha cama confortável.
Do nada a imagem de Natasha surge, sem que eu possa evitar. Ela é um pensamento incessante em minha cabeça e uma ferroada no meu maldito peito.
Não tem jeito. Ela continua sendo a última coisa que vejo antes de cair no sono.
Respiro fundo, e viro meu corpo para o outro lado da cama.
Preciso mudar isso. Meus pensamentos não podem ficar refém de uma mulher.
Preciso evitá-la.
Abro a boca.
Dio! O que menos posso é ficar pensando nessa mulher. Amanhã tenho um dia cheio. Minha agenda está lotada.
Cansado, com a cabeça um pouco pesada pelo uísque, que tomei agora pouco para relaxar, aos poucos vou sentindo meus olhos pesando e finalmente caio num sono profundo.
AndréFaz seis longos meses que não compareço a uma festa de meu pai. Mas hoje eu não pude negar o seu convite. É aniversário de minha mamma. Ela completa sessenta e cinco anos.Tudo isso para evitar de encontrar a mulher que persegue meus pensamentos.Natasha, a linda garotinha de pele de porcelana e nariz arrebitado. Lábios carnudos e sedutores que nasceram para serem beijados.Tão logo entro na sala, caminho até minha mamma e lhe estendo o meu presente. Uma caixa de veludo preta. Dentro dela há um anel com suas iniciais cravejada de brilhantes. DSN, Donatella Sorrentino Nicolo.Seus olhos brilham para a joia. Ela me encara com um sorriso.—Figlio. Ma che bello.—Sabia que ia gostar.Um fotógrafo se aproxima de nós.—Posso tirar uma foto?—Deve —digo e envolvo minha mama com os braços. Com um sorriso no rosto esperamos o flash.Quando ele se afasta minha mãe me olha pensativa.—Faz tempo que não participa mais das nossas festas. O que houve?Fungo. Só eu sei o que me impede.—Estou
—Chega! Acho que já foi o suficiente. A garota entendeu que errou —digo num tom grave, louco para avançar no pescoço desse idio.ta.Quem ele pensa que é para tratá-la assim?Os olhos do homem se chocam com os meus. Ele se encolhe quando me reconhece. O leão raivoso agora parece um gato assustando olhando para mim.—Senhor Nicolo. Não queria chamar a atenção. Mas essa garota me tirou do sério. Veja!Ele se afasta um pouco e mostra o molhado do seu paletó.Desvio meus olhos do baba.ca e encaro Natasha que me olha assustada. Sinto um impacto no estômago quando me deparo com os lindos olhos verdes aflitos para mim.Sim, eles são os mais lindos que já vi. Constato novamente.O choque é tão forte de vê-la tão frágil que sinto dificuldade em desviar meus olhos dos dela e encarar o vovô novamente.—Mande a conta para a Nicolo. E vamos dar esse assunto por encerrado. Como viu, ela não trabalhará mais para os Primazzi, foi despedida.—Sim, senhor Nicolo. E obrigado. Essa garota está realmente n
Natasha BeckerO apartamento de André Sorrentino Nicolo é uma cobertura localizado no melhor lugar de Nova York, em frente ao Central Park.Ele é todo envidraçado.O elevador particular me leva até seu andar. O último.As portas se abrem dentro de um belíssimo hall com uma porta só. Imponente, alta e larga.Respiro fundo antes de tocar a campainha. Não demora muito a porta se abre e o próprio André me recebe.Sinto-me deslocada. Nunca o tinha visto tão casual.Um sorriso se espalha em seu rosto ao me ver.Deus! Como ele é lindo. Penso ao me deparar com seu peitoral revelado pela camiseta branca justa e suas pernas poderosas, pela bermuda azul-marinho curta.Sandálias de couro nos pés o deixam com uma aparência bem italiana.Deus! Só então percebo que o medi dos pés à cabeça. Com o rosto vermelho foco seu rosto. O azulado em suas faces me diz que ele tem uma barba forte e estar por fazer.Os cabelos castanho-escuros, espessos estão molhados pelo banho, as pontas se enrolam em torno de
—Entendo. Espero que ela entenda também. Ela não parece gostar muito de mim —ela diz e vejo uma pequena ruguinha se formando de preocupação.Que anjinho....É uma tortura olhar esses lábios e não poder beijá-los.—É só o começo. Depois você verá, ela será como uma mãe para você como sempre foi para mim.Ela assente mais recomposta.—As panquecas —Lola diz e joga praticamente o prato na mesa. Ele faz um baque seco na madeira maciça.Meu olhar busca o de Lola com uma reprimenda. Ela mantém seu semblante duro. O olhar obstinado implacável, cheio de teimosia firme no meu.—Estarei no meu quarto caso precise de mim.Assinto para ela e a vejo se afastar com o andar duro.—Acho melhor eu...não trabalhar aqui. —Natasha diz se levantando.Eu sinto um calafrio na espinha com suas falas. Seu olhar é emotivo no meu.Dio mio. Ela deve já ter sofrido muito nesta vida e Lola ainda faz isso?Vou acabar com a raça daquela gordinha petulante.—Eu falarei com ela. Não se preocupe. Sente-se por favor.—N
— Eu que o diga! — ela diz, mas então me olha em silêncio por um tempo. Seus olhos carregam algo que não quero decifrar. Depois de soltar o ar devagar, se levanta do sofá e se senta mais perto de mim. Sua expressão está carregada de dor.— Quero que você se interesse por uma moça e se case novamente. Mas sei que aqui não é o caso... — Seus olhos me estudam com cautela. — Você está apenas encantado pela jovialidade dela e, mais para frente, ela pode se tornar desinteressante. Saia com mulheres do seu nível, maduras. Vocês falarão a mesma língua e elas sabem se defender. Essa garota me parece bem inocente.É isso que Lola e ninguém mais entende. Eu me cansei de todas elas. São sempre as mesmas... Superficiais, fúteis, tão obcecadas em se dar bem na vida.Pensando bem, conheço uma garota interessante. O nome dela é Helen. Inteligente, segura, independente. Mas não me atrai nem um pouco. É como se eu visse um homem na minha frente.— Não quero ninguém. A vida que levo está muito boa, obri
NatashaO lindo André sai do meu quarto.Quando ele fecha a porta, solto um longo suspiro e me deixo cair na cama. Meu coração ainda bate acelerado, como se precisasse processar tudo que aconteceu. Fecho os olhos e, por um instante, comparo a minha realidade de agora com a minha vida de antes.Eu morava num lugar horrível. Duvidoso.Vivia ouvindo bêbados brigando ou resmungando na rua. Prostitutas iam e vinham do meu prédio como se fosse um ponto fixo. Homens e mulheres se drogavam pelos cantos, jogados, esquecidos.Agora estou aqui. Em um ambiente limpo, sem precisar me preocupar com contas, sem precisar racionar comida, sem temer a noite. E, acima de tudo, sendo alvo da preocupação de um homem lindo, intenso... perigoso.A vida foi cruel comigo. Uma estrada cheia de espinhos que precisei cruzar sozinha. Meu pai nos abandonou antes mesmo de eu nascer, deixando minha mãe para enfrentar tudo sem apoio. Ela trabalhou incansavelmente como faxineira em dois empregos, mas sua saúde frágil
Fico decepcionada com suas palavras, seus conselhos, embora esperasse que ela me dissesse isso. Lola parece uma pessoa sensata, ela não falaria isso sem ter algum embasamento.—Tudo bem.—Então atentará para o meu conselho?Aceno com a cabeça para ela.—Sim. Mas não entendo o porquê de tudo isso. O senhor Nicolo sempre me respeitou e nunca tentou nada comigo.—Ele está ganhando sua confiança. Ele começará te fazendo se sentir especial, mas não se engane com ele. Se ceder ele ficará com você até enjoar e só. É triste o que vou te dizer, mas André se tornou um homem frio, cínico, duro e egoísta. Nos negócios e na vida sentimental. Ele é implacável, chega a ser cru.el.Eu tento não parecer muito chocada, mas do jeito que ela me contou sobre ele, sinto um espasmo de angústia.—O que exatamente o senhor Nicolo faz?—Ele é um investidor anjo minha cara, mas que de anjo não tem nada. Só se for o caído. Só os desavisados aceitam suas condições. O tubarão dos negócios tem engolido os peixes qu
—É para isso que te trouxe aqui, bambina(criança) —digo com um sorriso torto, jogando todo o meu charme e observo com prazer como ela engole em seco enquanto olha para mim. —Que hora costuma jantar?—Umas seis e meia, sete horas. —ela diz num sussurro, a voz fraca.Sorrio para ela:—Nos encontramos na cozinha sete horas. Vou descansar agora. Sinta-se à vontade. Caso deseje fazer um café à tarde, tem pães e bolacha na dispensa. Frios na geladeira.—Obrigada senhor Nicolo.—André —digo calmamente.—Melhor senhor Nicolo — ela diz, as esferas verdes brilham com desafio para mim.Levo tudo isso com uma leveza que não estou sentindo, assinto sem nada dizer. Eu me afasto em direção ao meu quarto, a raiva explodindo dentro de mim.Lola conseguiu arrebentar com tudo!Maledetta!Depois de retirar minhas roupas. Tomo um banho demorado. Visto roupas confortáveis e deito-me na cama pensativo.Depois de tantas coisas que vivi, construí um muro em torno de mim e me isolei por completo. Achei mais fá