Antes
Egor
O silêncio entre nós é um daqueles confortáveis, o tipo que só se encontra entre irmãos. Estou sentado em uma cadeira, uma cerveja na mão, enquanto ele mexe em algo na cozinha. A TV está ligada, mas nenhum de nós presta atenção no que está passando.
— Você tá estranho, sabia? — Nikolai comenta de repente, sem me olhar.
— Obrigado, sempre bom ouvir isso — resmungo, tomando um gole da cerveja.
— Não, sério. — Ele aparece no batente da cozinha, com uma sobrancelha arqueada. —Desde quando você, o homem que praticamente faz fila de mulheres no telefone, está... quieto? — Essa não parece uma questão vinda de lugar nenhum.
— Estou cansado — digo, levantando os ombros em um gesto despreocupado.
— Cansado? Você? — Ele ri alto, como se a ideia fosse absurda. — Quem é você e o que fez com meu irmão?
— Não começa, Nik.
Ele cruza os braços, apoiando-se na parede. O sorriso brincalhão ainda está lá, mas há algo mais nos olhos dele: curiosidade. Como se ele estivesse tentando juntar as peças de um quebra-cabeça que eu nem sabia ter criado.
— Isso tem a ver com alguém? — ele pergunta finalmente, o tom cuidadoso, mas cheio de intenção.
Não respondo de imediato, minha mente voltando à lembrança dela. Sua risada, que sempre parece um pouco sarcástica. O jeito que ela inclina a cabeça quando me olha, como se estivesse avaliando cada palavra que eu digo. E o modo como ela sempre, sempre, parece escapar antes que eu consiga segurá-la.
— Não é ninguém — minto, mas minha voz não soa convincente nem para mim.
— Ahá! — Nikolai exclama, vindo para o sofá e se jogando ao meu lado. — Eu sabia. Quem é ela?
— Não é nada disso, Nik — insisto, mas ele está se divertindo demais para ouvir.
— Você tá caidinho por alguém — ele me provoca, cutucando meu ombro.
— Não estou.
— Você está!
Respiro fundo, tentando afastar a irritação crescente. Nikolai sempre teve o talento de me tirar do sério, mas ele não está errado. O problema é que admitir isso em voz alta faz parecer... mais real.
— Ela é um pouco diferente — acabo confessando, a contragosto.
— Diferente como?
— Como uma m*****a borboleta.
Nikolai franze a testa, claramente não esperando essa resposta.
— Uma borboleta? — ele repete, como se o conceito fosse completamente alienígena.
Não acredito que estou falando de um caso de uma noite para o meu irmão.
— É isso mesmo — digo, sentindo a frustração crescer enquanto as palavras saem. — Ela aparece, fica por um momento e vai embora antes que eu consiga segurá-la. Não importa o que eu faça, ela sempre escapa.
— Você está falando de uma mulher ou de um inseto?
— De uma mulher, idiota — retruco, mas há um toque de humor na minha voz agora. — Ela... É complicada. Nós... tivemos algumas noites juntos, mas ela sempre encontra uma desculpa para evitar qualquer coisa que vá além disso. É como se ela estivesse determinada a não me deixar chegar perto de verdade.
Nikolai me olha por um longo momento, o sorriso desaparecendo enquanto ele percebe a seriedade na minha voz.
— E por que você ainda está atrás dela?
Essa é a pergunta que eu tenho me feito. Porque, com todo o esforço que estou colocando nisso, seria mais fácil simplesmente desistir. Mas algo dentro de mim se recusa a fazer isso.
— Porque eu preciso dela — admito, a verdade finalmente escapando. — Não sei por quê, mas preciso. É como se algo nela me puxasse, algo que eu não consigo ignorar.
— Você está ferrado — Nikolai comenta, mas há um leve sorriso no canto da boca dele.
— Não precisa me lembrar — resmungo, passando a mão pelo rosto.
— Você tem certeza de que ela vale todo esse esforço?
— Sim.
A resposta sai antes que eu possa sequer pensar nela, e Nikolai balança a cabeça, como se estivesse lidando com alguém completamente sem salvação. Talvez parte dele me entenda.
— Então acho que você vai ter que continuar caçando essa borboleta — ele diz finalmente, dando um tapa no meu ombro. — Boa sorte, irmão. Você vai precisar.
— Obrigado pela confiança — respondo, minha voz carregada de sarcasmo.
Mas, por mais que a frustração ainda esteja ali, há também algo mais: determinação. Porque, por mais difícil que ela seja, eu sei que não vou parar até tê-la em minhas mãos.
AtualmenteEgorO quarto de brinquedos está em um estado controlado de caos. Bonecas espalhadas no chão, carrinhos estacionados de qualquer jeito em uma pista de corrida improvisada, e risadas infantis enchendo o ambiente.Todo mundo quer contribuir com algo, então há muito aqui.Estou encostado no batente da porta, observando-a no meio da confusão.Ela está sentada no tapete felpudo, a pequena irmã dela aninhada em seu colo enquanto um dos meus sobrinhos insiste para que ela veja seu "voador incrível" — um avião de brinquedo que ele lança no ar com toda a força de seus braços minúsculos.— Uau! Esse foi alto! — ela exclama, sua voz cheia de entusiasmo.O garoto sorri, orgulhoso, e corre para pegar o avião.O jeito como ela lida com as crianças me prende. É uma faceta dela que eu não vi antes, no meio de toda bagunça. Ela é tão diferente da mulher que sempre parece pronta para me afastar, me matar... Aqui, Tasya é suave, paciente, quase maternal. É impossível não se impressionar.Ela
Tasya— Você pode parar e me ouvir por um segundo? — Gostaria de o odiar tanto quanto eu quero, mas aqui estou eu, parando para escutar o que tem a dizer, mesmo que não devesse. Não percebe que o que criou entre nós não pode continuar existindo?— Egor, creio que já deixei claro que não, não posso, você também não quer o que tenho — digo e segura em meu braço, me mantém próximo a ele. Não aperta, apenas quer ter alguma segurança quanto a me ter no lugar onde poderei ouvir tudo que diz. — Porque está insistindo tanto nisso, nós transamos algumas vezes e você ficou todo emocionado.— Temos transado por vários meses, Tasya e eu acredito que você não saiu, por aí procurando outra pessoa com quem foder, assim como eu não pude. — Rio, de verdade, pois me parece inocente demais proferindo palavras como essa, mas são as máscaras mais grossas que escondem os piores monstros, sei bem disso.E pode ser que ele não seja um deles, na verdade, as chances são muito baixas, mas não quero me arriscar
AntesTasya— Seu pai continua sendo um babaca? — pergunta minha colega após ver o homem trôpego saindo de perto de mim. Não bastasse o inferno que é estar na mesma casa que ele, não tenho alívio nem mesmo no meu trabalho.— Trabalho como uma cachorra e ele continua criando mais dívidas que no final acabam no meu nome — respondo e ela bate em meu ombro, sentindo pena de mim por ter que viver com um sujeito como ele.Mas, considerando o quanto tenho que gastar durante o mês só para pagar a todos os agiotas a quem deve, não tenho como me mudar para um lugar onde não vá me encontrar nunca mais.— Você vai conseguir sair dessa — fala, mas é apenas uma esperança perdida por bons longos anos.Já estou quase nos vinte e quatro, mas desde os quinze venho vivendo para pagar tudo que criou de rombos com o seu vício alcoólico e em jogos de azar.— Pense que pelo menos a casa vai ser sua quando terminar de pagar e que, se o expulsar, não terá ninguém te criticando.— Duvido que esse seja um ponto
TasyaEmpurro a porta estranhando o fato dela estar entre aberta. Tenho certeza de que a deixei fechada. Além disso, meu pai certamente está em algum bar qualquer enchendo a cara com o dinheiro que conseguiu com o seu trabalho ontem.É tudo que ele pode fazer quando ninguém confiaria em uma pessoa como ele em um serviço melhor. Faz bicos aqui e ali que não pagam muito, mas são os únicos trabalhos que pode fazer, ainda que feda como um gambá bêbado.— Pai, você está em casa? — berro, esperando que, se não for ele, que o indivíduo que arrombou a casa dê o seu jeito de correr antes que eu entre.Olho para os cantos, mas não há literalmente nada. Os poucos móveis de valor, meu pai fez questão de vender na intenção de conseguir algum dinheiro.Se conseguiu, eu não vi a cor do dinheiro. Tudo que como tem que ser comprado no dia e, com o passar dos anos, aprendi que não poderia deixar o dinheiro em casa, pois ele a reviraria até encontrar, depois o gastaria sem pensar em como me mato diariam
Tasya— Uau, sempre fico com medo quando você me diz essas coisas — fala, agarrando o seu avental com mais força.Se diz que está com medo, o que devo sentir quando sou a pessoa devendo dinheiro a eles? É bem claro que é com o que se importam e só, mas e se deixarem de pensar como empreendedores e me foderem?— Enquanto eu estiver pagando-os, eles não podem me ferrar — digo e ela concorda, mas não é simples assim.Não estamos falando de uma dívida em um banco. Estou falando de agiotas que não se importam com a vida alheia, apenas querem dinheiro.Se um dia acordarem com o rabo coçando, podem apenas desistir de receber por parcelas e me obrigar a pagar tudo que devo de uma vez, sendo que não acredito que quitaria o que devo nem mesmo vendendo alguns órgãos, isso é quão fodida eu estou.— Você não falou com alguém dentro da lei ou sei lá? Não deveria ser responsável por todas as merdas que o seu pai faz — profere, mas parece não perceber que eu já tentei correr para todos os lados e de
TasyaCaminho em passos apressados, agarro a minha mochila com força mantendo o spray de pimenta pronto para atingir qualquer um que entre em meu trajeto. O som de passos atrás de mim faz com que eu continue andando apressadamente.Tenho certeza de que está me seguindo. Já fiz diversas mudanças em meu percurso, mesmo assim seus passos continuam a soar em minhas costas.Passei pelas principais ruas e pontos de ônibus, porém, permaneceu me seguindo. Se isto não é uma prova de que sou o seu alvo, devo estar enlouquecendo de vez.O frio adentrando por minha luva gela todo o meu corpo junto ao som de seus passos. É como um ritmo macabro para que eu tenha cada vez mais medo me corroendo.Se eu parar em qualquer lugar agora deve ser ainda pior.Ficará mais tarde e haverá ainda menos transeuntes no caminho que preciso fazer para chegar em casa. Vendo minha respiração congelar no ar, adianto-me o máximo que minhas pernas conseguem sem que comece a correr de verdade. Você consegue Tasya. Só mai
TasyaAbro meus olhos, sentindo que meu corpo está completamente dolorido. Pareço ter levado uma grande surra enquanto dormia. Tudo que me lembro é que estava indo para o trabalho na companhia da minha colega, mas em certo momento alguma coisa aconteceu e eu me vi indo em direção ao chão. Estava bebendo um refrigerante e o que houve?— Oh, está acordando — me diz o sujeito e, com os olhos arregalados, vejo com desprazer que Yaroslyv segura em minha coxa com força pelo modo como os seus dedos entram em minha carne para pressioná-la, mas não sinto o seu toque como deveria.Assusto-me com a possibilidade de não poder mover minhas pernas.Todo meu cérebro começa a entrar em pânico com a probabilidade quando ele é a pessoa estando aqui do meu lado. Forço minha mente, mentalizo os músculos, querendo saber se estou mesmo paralisada ou se é o medo me impedindo.— Sabia que a sua expressão seria incrível, mas não precisa se preocupar, não fiz nada com você. Quando eu entrar em você, quero que
TasyaQuando adentro na sala, me assusto no momento em que vejo um bebê em um cesto enrolado de uma forma estranha com uma fralda que não está mais branca como fora um dia.— Se adiante, vadia — manda Yaroslyv, efetuando um sinal para que o sujeito nos deixe a sós. — Faz alguns dias que não te vejo, mas você continua muito bonita.— O que quer de mim agora? — pergunto, sentindo os meus ossos tremerem quando os seus olhos me encaram, agarrando a minha alma em suas mãos. A possui desde o dia em que me comprou do meu pai. Pode fazer o que bem entender, no momento em que desejar.— Você sabe que eu não costumo ter coração mole, mas o seu pai apareceu aqui de repente e eu… — Sinto o meu lábio tremer de raiva instantaneamente, junto aos punhos se fechando com força. — Ei, não chore, se chorar, é ela quem vai sofrer — diz, apontando para o bebê silencioso. — Como disse, seu pai veio aqui e aparentemente alguém foi burra de engravidar dele.— O quê? — Não consigo conter o questionamento. O qu