Se eu soubesse que Enzo traria isso à tona, não teria dado o play naquele áudio. Penso em mil mentiras capazes de contornar a situação. Mas, por outro lado, talvez seja isso que nós precisemos: alinhar nossas histórias.Sinto que Bella e eu continuamos nos desencontrando, ora tentando continuar de onde paramos, ora agindo como se nunca tivéssemos vivido uma história, mas vivemos. Tínhamos sonhos e planos juntos.Pelo menos eu tinha.Ela olha pela janela tentando se localizar.Pela maneira que endireita a coluna, percebo que ela já sabe onde estamos, mas espero que ela diga alguma coisa.Ela pega a caixa com a chave no colo, com dificuldade para respi
Tenho medo do que tudo isso significa. Medo de ser real. Medo de não ser real. Medo de como meu coração pula no peito e de como nada na minha vida pareceu tão certo quanto esse momento.Todas às vezes que passamos por essa rua, namorando essa casa. Todas as brincadeiras com fundo de verdade que fizemos a respeito do futuro, e todas as coisas que eu nem tive coragem de dizer, mas sonhei e desejei com todo o meu coração.Essa casa. Esse homem. Esse anel no meu dedo. Um filho.Um arrepio me percorre me tirando o ar.Não era assim que eu imaginava chegar aqui, meu cérebro não parece capaz de entender que a realização desse sonho não é verdadeira. O cheiro de café requentado se mistura ao som do telefone tocando insistentemente no balcão de metal, as vozes falam todas ao mesmo tempo, formam um zunido constante e desconfortável, como se fosse um enxame de insetos.Meu celular vibra no bolso da calça, mas respiro fundo e ignoro tudo enquanto equilibro uma bandeja cheia de xícaras e pratos sujos.O café onde trabalho está lotado nesse fim de tarde e meu chefe, Olavo, um homem baixinho e rabugento, já está bufando impaciente atrás do balcão.— Isabella, se demorar mais um segundo, os clientes vão ter que comer os guardanapos! — resmunga, deslizando outro pedido na minha direção.Respiro fundo, conto mentalmente até três e forço um sorriso simpático.— Eles sabem que sua comida vale a pena esperar, chefe.Ele quase sorri com orgulho, mas deve ter algum código de conduta pessoal que o impeça de ser querido pelos funcionários, o mais perto que consigo de sua simpatia é ser ignorada. O que pode significar que não estou fazendo nada errCapítulo 1 - Isabella Mendes
Odeio pensar que talvez Enzo esteja certo: estou ficando velho. Minhas ressacas estão se tornando cada vez mais insuportáveis.Aperto os olhos puxando as memórias da noite passada, mas tudo se embaralha. O despertador toca, mas o que me desperta é a mão quente e macia no meu peito.Espio para confirmar que trouxe duas mulheres para casa, e elas sorriem entre si, depois para mim, rastejando pela cama, cada uma cobrindo uma lateral do meu corpo. Tento alcançar o celular para desativar o toque irritante do alarme. Só quando meu dedo tateia a tela onde deveria estar o botão é que percebo que, na verdade, estou recebendo uma chamada.Alberto Vasconcellos só me liga para duas coisas: desejar parabéns e arrancar meu couro. Digamos que hoje não é meu aniversário…Dispenso as meninas, contornando a situação para não ter que citar o nome de nenhuma das duas, já que não lembro quais são. Bebo um litro inteiro de água e lavo o rosto na água fria da pia do banheiro.Abro as redes sociais e mergulh
Entro no apartamento sem me dar o trabalho de acender as luzes. A luz da TV na pequena sala de estar ilumina o rosto pálido e ossudo de meu pai. Seu olhar está fixo na tela, mas não de um jeito concentrado, só de um jeito… vazio.— Oi, pai. — Tento forçar uma simpatia na voz, uma falsa felicidade por estar de volta nesse muquifo apertado e mofado.Como se fosse uma recompensa chegar em casa e encontrar meu pai, que nem levantou do sofá o dia inteiro, porque é como se já fossem uma coisa só, fundidas num ranço de depressão e descaso.Sinto a culpa me consumir quando penso nisso e me repreendo mentalmente.— Você comeu alguma coisa? — pergunto, tirando os sapatos perto da porta e largando as sacolas do mercado em cima do pequeno balcão da cozinha.Nada.Solto um suspiro cansado, aprendi a me acostumar com seu silêncio. Quase não me lembro mais do homem forte que ele costumava ser, um líder nato. O que me sobrou foi um homem pálido, apático, uma versão desgastada do homem que eu admirava
— Como requisito indispensável à manutenção da condição de herdeiro legítimo blablablá o beneficiário deverá contrair matrimônio com e manter o vínculo conjugal pelo período mínimo de doze meses a contar da data da celebração da união civil.— Eu sei, eu já li — murmurei, afundando no sofá de couro.— Não terminei — meu melhor amigo, Enzo, ralha. — Durante a vigência do matrimônio, o beneficiário deverá preservar a integridade e a reputação pública do nome Vasconcellos, abstendo-se de condutas que possam comprometer a imagem da família ou da empresa, direta ou indiretamente.— Traduzindo: um marido não vai pra balada, não traí, não bebe, não trepa…— Trepa com a esposa pelo menos.— Que esposa? Você acha mesmo que eu vou conseguir seguir qualquer coisa que esteja aí? — Minha voz sai mais aguda do que eu gostaria.Passei o dia inteiro pensando nisso. Ou mais especificamente, pensando em como me livrar disso.— Seria mesmo tão ruim eu recusar? Eu ainda teria as coisas que estão no meu n
“A Imperial Catering Services, empresa referência em eventos de alto padrão, está em busca de garçonetes profissionais para atuar em um coquetel exclusivo no prestigiado Lee Palace Hotel.”As palavras ainda se embaralhavam na minha memória.Isso era ruim. Péssimo. Catastrófico. Eu conhecia a Imperial Catering Services e conhecia o Lee Palace Hotel. Já havia contratado um e participado de coquetéis no outro, mas parece que foi em outra vida.Porque foi. Eu era outra Isabella naquele tempo, é isso que alguns zeros do lado certo da vírgula fazem por você. O Lee Palace Hotel brilha como um castelo moderno sob a iluminação dourada da fachada. Suas enormes portas de vidro refletem a sofisticação dos convidados que entram, vestindo roupas que custam bem mais do que eu consigo ganhar em um ano inteiro.Respiro fundo antes de cruzar a entrada lateral destinada aos funcionários, o estômago dando piruetas de ansiedade. Eu já me sinto humilhada antes mesmo de começar o serviço.A sala de funcio
Nunca fui surpreendido facilmente e olha que já estive em situações constrangedoras ou particularmente preocupantes. Já lidei com acionistas furiosos, modelos chorando por atenção, brigas, escoltas, reviravoltas inusitadas.Mas nenhuma dessas experiências me preparou para o que eu poderia sentir quando reencontrasse Isabella Mendes. Talvez porque eu nunca considerei reencontrá-la. Mas aqui estamos.Os olhos dela ainda têm o mesmo brilho feroz de que eu me lembrava, os cílios longos lhe conferindo um aspecto delicado e feminino, contrastando com o misto de choque e algo mais, algo muito parecido com ódio.Bella se desvencilha do meu toque e finalmente presto atenção no que ela veste. Um uniforme preto com uma bandeja a tiracolo,