Casamento por contrato com meu ex
Casamento por contrato com meu ex
Por: Koral Reis
Capítulo 1 - Isabella Mendes

O cheiro de café requentado se mistura ao som do telefone tocando insistentemente no balcão de metal, as vozes falam todas ao mesmo tempo, formam um zunido constante e desconfortável, como se fosse um enxame de insetos.

Meu celular vibra no bolso da calça, mas respiro fundo e ignoro tudo enquanto equilibro uma bandeja cheia de xícaras e pratos sujos.

O café onde trabalho está lotado nesse fim de tarde e meu chefe, Olavo, um homem baixinho e rabugento, já está bufando impaciente atrás do balcão.

— Isabella, se demorar mais um segundo, os clientes vão ter que comer os guardanapos! — resmunga, deslizando outro pedido na minha direção.

Respiro fundo, conto mentalmente até três e forço um sorriso simpático.

— Eles sabem que sua comida vale a pena esperar, chefe.

Ele quase sorri com orgulho, mas deve ter algum código de conduta pessoal que o impeça de ser querido pelos funcionários, o mais perto que consigo de sua simpatia é ser ignorada. O que pode significar que não estou fazendo nada errado, ou estou fazendo um trabalho excepcional. Nunca se sabe.

Com a destreza que ganhei com a prática, entrego os pedidos e volto para a cozinha, sentindo o celular vibrar de novo. Puxo o aparelho para espiar as notificações e o número desconhecido, mas já familiar, faz meu estômago embrulhar. Seria demais esperar por algo bom, para variar.

— Você tá brincando se acha que tem tempo pra olhar o celular agora, né? — Olavo me repreende.

Trinco os dentes e enfio o celular de volta no bolso, contando os minutos para ir embora. Não que eu esteja realmente ansiosa para sair daqui, já que esse é só um dos dois empregos que tenho. Quando meu turno acabar, ainda preciso assumir a assistente administrativa em um pequeno escritório, digitando relatórios e organizando planilhas até tarde.

Nunca imaginei que minha vida se resumiria a correr entre empregos, contando moedas para pagar as contas. Esse é o problema de viver em uma bolha, a gente não sabe o que acontece fora dela, e quando ela estoura, não nos preparamos para encarar a nova realidade.

Mas era isso ou acabar sem ter onde morar.

Entro no ônibus cheio e me equilibro em pé, entre dezenas de outros corpos tão cansados quanto o meu. Sinto falta de ter um motorista particular, um closet cheio de itens de luxo e das viagens internacionais em aviões privativos. Agora, sinônimo de felicidade é pagar a conta de luz antes do vencimento.

Descobri da pior maneira possível que o que a humanidade chama de evolução, na verdade, é uma dependência extrema. Eu nunca mais quero voltar a ficar sem energia elétrica na vida.

Pensar nessas coisas me dá dor de cabeça. As lembranças são exaustivas, frustrantes, e não me levam a lugar nenhum. Meu pai perdeu tudo o que tinha e precisei ser forte, já que minha mãe nos abandonou e agora está casada com outro rico por aí.

Por um tempo, as coisas não pareceram tão ruins. Doeu vender todos os meus artigos de luxo, mas isso nos deu tempo para pensar, avaliar o futuro, recomeçar do zero.

O problema é que meu pai perdeu a vontade de recomeçar também, e de continuar, e de viver no geral. E eu não tenho um cérebro genial como o dele, não poderia fazer tudo sozinha. Mas poderia cuidar daquele que por tanto tempo cuidou de mim. De empresário confiante, Jorge agora é um homem quebrado que passa os dias sentado no mesmo lugar no sofá, encarando a TV sem realmente assistir.

Minha boca adquire um gosto amargo e me torno ciente da pressão que coloco em meus dentes, agravando minha dor de cabeça. Tento relaxar os músculos, massagear as bochechas e principalmente, afastar os pensamentos.

O ônibus faz uma curva brusca e quase caio no chão, preciso me segurar em um senhor que me olha feio. Peço desculpas e me endireito, colocando toda a força que ainda tenho nas pernas para me equilibrar.

Quando finalmente desço no bairro simples onde moro agora, o celular vibra outra vez. O mesmo número desconhecido, que de tão conhecido faz um arreio percorrer minha espinha.

Respiro fundo e atendo, porque uma distração é bem-vinda enquanto ando pelas ruas escuras tarde da noite. E porque acredito que talvez, a única pessoa disposta a salvar minha vida se algo acontecer comigo agora está do outro lado da linha.

— Alô?

O silêncio dura apenas dois segundos, posso sentir que é aquele choque surpreso de quem se acostumou a ser ignorado. A voz é fria e impessoal, como sempre.

— Isabella, Isabella. Tá cada vez mais difícil falar com você.

— Desculpa, ando muito ocupada trabalhando, como você sabe…

— Sei, claro que sei — ele parece sorrir, o que faz um nó se apertar em minha garganta. — Mas sua dívida não vai sumir mesmo que você suma, como você sabe…

Ninguém fala nada por minutos inteiros. Odeio seu tom ameaçador, odeio a situação em que me coloquei, mas não tenho muito o que fazer agora que já estou atolada até o pescoço.

— Sabe, eu atualizei o valor — ele retoma. Ouço o farfalhar de papéis no fundo, e uma sensação ruim se aloja no meu estômago. — Com juros e reajustes, estamos em cento e trinta mil reais.

Meu coração quase rompe o peito e cai no chão, tamanha força com que b**e.

— Isso é impossível, a gente já tinha renegociado.

— Senhorita Mendes… — Ele finge um tom profissional que não me engana. É deboche e desprezo puros. Ele odeia esse sobrenome, ele odeia quem eu sou. — Nossos registros indicam que nenhum pagamento foi realizado nos últimos 12 meses. Caso o valor não seja quitado até o final do mês, tomarei as medidas cabíveis.

Minhas narinas e olhos começam a arder. Me sinto nauseada e preciso parar de andar antes de implorar com a voz embargada.

— Preciso de mais tempo, Roberto.

— Seu tempo acabou, Isabella.

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