Alejandro Albeniz
O que estava se passando comigo? Acabei de praticamente jogar praga no casamento da mulher mais linda que eu já vi na minha vida. A sorte é que ela não me levou a sério, eu mesmo não estava me entendendo. Fiquei entorpecido pela eletricidade passando por todo o meu corpo, fazendo o meu coração disparar. Ele batia tão rápido, que parecia que daria um salto do meu peito. Sempre quando ficava louco por uma mulher, era uma outra parte do meu corpo que latejava, nunca o peito. Quando a vi seguir com a mãe, tive vontade de ir atrás dela, de falar novamente para ela não se casar. Como se ela devesse se casar comigo, como tivesse sido feita para mim. Eu com certeza não estava bem e olha que pelo café da manhã foi apenas um suco de laranja, não foi um hi-fi. Pensando no estresse desnecessário que o senhor Albeniz tentou me causar essa manhã, seria até aceitável eu batizar o suco, mas não fiz. Meu corpo estava sóbrio, mas minha mente ficou inebriada de um sentimento estranho que invadiu meus olhos assim que vi aquela mulher. Era melhor eu parar de loucura, entrar no carro e seguir para a empresa. Ainda teria que enfrentar a autoridade e o mau-humor do meu querido pai, mas hoje eu deixaria bem claro, ele tinha que entender que depois de amanhã, eu assumiria a empresa e as coisas seriam do meu jeito, ou ele realmente deixava para o meu irmão, Beto, pois jamais seria seu fantoche, uma espécie de pau mandado. As coisas teriam que ser do meu jeito. Não me referia a loucuras e egocentrismo que me desse vontade, mas, sim, o jeito que me preparei a vida inteira para pôr em prática. (...) Ao chegar na Granafly, fui puxado para dentro de uma sala. Catalina, nossa gerente comercial e minha futura esposa, veio com sua boca pintada de vermelho, querendo manchar a minha. Eu apenas virei o rosto. — Agora, não, Lin, tenho que ir para a sala do presidente, meu pai está atacado hoje, quero evitar estresse. Ela revirou os olhos. Essa mulher tinha um fogo que não se apagava, provavelmente era por isso que eu estava há tanto tempo com ela e aceitei a tramóia de Mercês e do meu pai. — Você tem razão, o tio está uma fera, porque o Cônsul de Mônaco deu bolo novamente. — surpreso, arqueei as sobrancelhas. — Então, ele não veio? — fiz uma pergunta retórica. — Agora, com certeza, o senhor Albeniz deve estar pior. — suspirei fundo, a afastando. — Vou lá, Lin. Beijei a testa dela e tentei sair da sala, mas fui impedido pelo som da sua voz: — Vamos nos ver mais tarde? — Não sei. Tenho muitas coisas para colocar em ordem até minha posse, depois de amanhã. Qualquer coisa, eu te ligo. — pisquei para ela. — Anda tão frio desde que viemos da França para cá. — ela falou em tom de reclamação, mesmo sabendo que esse tipo de cobrança me irritava. — Catalina, estou a dois dias de ficar responsável por essa organização, eu gosto muito de beijar sua boca e foder sua boceta, mas no momento, a Granafly é mais importante. — nunca tive que fazer rodeios com ela ou qualquer outra mulher, não passaria a fazer isso agora. — E nosso noivado na semana que vem? Isso também é importante. — ela fez um biquinho. Sem dar importância aos seus argumentos, saí, a deixando falando sozinha, não queria ser o cara grosseiro. Ao adentrar a sala do meu pai, Beto estava mexendo o açúcar da xícara de café que ele oferecia ao meu pai, paparicando, como sempre. Ou melhor, puxando o saco. — Bom dia. — cumprimentei assim que entrei. — Bom dia. — Beto respondeu e veio até mim, apertar minha mão. — Saia, Roberto! — foi a única coisa que meu pai disse e meu meio-irmão prontamente obedeceu. — Porque o senhor o trata assim? — Assim que ouvi a porta bater, questionei. — Roberto não tem fibra, o trato assim justamente para ele ser como nós dois. — Era um argumento de merda, mas se o Beto aceitava ser tratado daquela forma, quem era eu para reclamar de alguma coisa? — Fechou com o Mônaco? — fingi não saber. — Não, o Cônsul não veio novamente. — Notei que sua carranca de mais cedo, estava ainda pior, como já era de se imaginar. Esperava que ele dissesse: “fez bem, filho, em não ter vindo mais cedo”. Mas se por um acaso, o senhor Albeniz reconhecesse um erro, teríamos que sair daqui, pois haveria um terremoto. — Depois de amanhã, tudo isso estará em seu poder. — seu olhar estava fixo em mim. — Não vejo a hora de poder potencializar ainda mais essa empresa. — Meu pai me olhou como quem dizia: “vai devagar”. — O dia da sua posse também será o dia do início da frota do H175, vou escalar o melhor piloto da empresa para vocês fazerem o voo inaugural. — Não, eu mesmo vou pilotar essa máquina. — falei com firmeza. — Não. Temos gente capacitada para isso. — ele rebateu. — Pai, sou bastante capacitado, fiz todos os cursos necessários, tenho a quantidade de horas exigida pela AESA e, além disso, não pedi sua permissão. — Eu não deixaria que ele me tratasse como um menino. O senhor Albeniz fazia cara de bravo, mas no fundo, ele gostava da minha decisão. (...) DOIS DIAS DEPOIS Não queria ficar batendo de frente com meu velho, aceitei ao menos o co-piloto. O homem, de mais ou menos 40 anos, estava visivelmente desconfortável. Na verdade, eu diria até que puto, por ele não ser o comandante do voo. Meu pai ofereceu um enorme coquetel para o voo inaugural do H175, eu só faria uma rota panorâmica bem rápida, ainda tinha o coquetel para o pessoal de maior escalão na empresa, em prol da minha posse na presidência. Agora era hora de pensar no voo, meu pai fez o discurso de como aquela máquina seria um diferencial dentro da empresa, estava todo pomposo em dizer que o helicóptero tinha uma autonomia de 1.300km e todos aplaudiram. Entrei na aeronave junto ao co-piloto, após colocarmos o cinto e os headsets, tratei de ligar o motor e levantar voo imediatamente. “Que arrancada tinha aquela máquina!” Logo o veículo subiu. De cima, fiquei ainda mais maravilhado com minha cidade. Granada era simplesmente fabulosa. Até tudo ficar nebuloso com apenas dois minutos de voo. O inesperado aconteceu, o manche começou a tremer como se a aeronave estivesse sem combustível, mas no painel acusava tanque cheio. — O que você fez? — o co-piloto me acusou. — Porra nenhuma! Ficou louco? — Você vai matar a gente! A GENTE VAI MORRER! — Ele gritou. Não iria discutir com aquele descontrolado, tinha que sair daquela situação. — A aeronave está em clara dissimetria, temos que evitar o efeito translacional. Vai para trás. — exigi. — Me dá o controle, que vou tirar a gente dessa. — falou, exasperado. — Eu disse para ir para o fundo do helicóptero, agora! — Minha voz se tornou altiva. Furioso, ele obedeceu. Foi no momento certo, não iria conseguir ficar muito tempo pairado e, naquele instante, comecei a planar a aeronave para um pouso. Declarei pan pan à torre de controle e tudo indicava que iria pousar no viaduto central. O helicóptero pairava, e depois sacolejando de uma lado para o outro, a reza exasperada do co-piloto ao fundo da aeronave, me deixava mais nervoso, descer assim, com medo de cair como uma pedra, demorava uma vida. Eu já conseguia ver o viaduto e isso me deu um pouco mais de conforto. O suor frio escorria pelo meu rosto, ainda tinha muito o que viver, não queria perder o bem mais precioso e parecia que eu teria uma segunda chance. Eu não a desperdiçaria. No entanto, uma tesoura de vento acabou empurrando o helicóptero para a esquerda, tirando do meio do viaduto e eu pousei abruptamente, quebrando a mureta de concreto, parte da frente da aeronave ficou para fora da pista em uma altura de 50 metros. Apesar do perigo, estávamos com o peso equilibrado e, se fôssemos sincronizados, sairíamos da aeronave os dois. — ABRE LOGO ESSA PORTA! — o co-piloto designado pelo meu pai, berrou. — Eu vou tirar o cinto, abrir a porta e saímos os dois calmos, sem movimento bruscos. Espere eu ir para o meio da aeronave. — pedi. Assim que a porta foi aberta, ele saltou para o lado de fora abruptamente, fazendo o helicóptero se mexer e ir ainda mais para a frente. Minha vida estava por um fio.Carlos AlcarazEra o dia mais importante da minha vida. Iria me casar com a mulher que sempre amei. A mais linda, decidida, cheirosa, gostosa… Ximena e eu seríamos muito felizes. Terminava de me arrumar, quando ouvi batidas na porta. Permiti que minha mãe entrasse, sabia que era ela.— Nossa, como é lindo meu filho! — ela babou sua cria. — Tem vaga no carro para você.— Estava pensando em ir de moto, mãe.— E sujar essa farda branca? Nem pensar! — Ela bradou.— Está certo. — assenti.Vestir a farda de gala do bombeiro para me casar, foi ideia da minha noiva. Eu já usava tanto farda, que confesso que gostaria de colocar algo diferente, mas os desejos de Ximena para mim eram ordens.Quando saí do quarto, as mulheres da minha vida me abraçaram; minha mãe, avó, irmã e prima.— Chegou a hora que vamos nos livrar de você — minha irmã disse sorrindo, me fazendo rir.E todos pareciam muito felizes, menos Betina, minha prima. Ela criou algumas expectativas da épocas em que éramos pré-adolesce
Alejandro Albeniz Eu levantei tonto, só pensava que o bombeiro tinha que estar ali ainda segurando, mas como, se daqui, eu não conseguia suportar o calor das chamas? E já ouvia os gritos das outras pessoas, dizendo que ele caiu. Vi uma moto parada e só podia ser dele, tinha uma caixa de jóia em cima, coloquei no bolso do que restou da minha calça, subi no veículo, desci o viaduto e fui até o incêndio da aeronave.Não havia nada que eu pudesse fazer, o copo sem vida do cara que salvou a minha vida estava ali ao lado da aeronave destruída e se incendiando. Peguei aquela caixinha do bolso e abri, um par de alianças, numa tinha escrito Ximena e, na outra, Carlos.— Não é possível, o cara ia se casar! — falei comigo mesmo, sentido pesar. Fui até a moto e olhei que o GPS integrado estava direcionado a uma igreja, era meu dever. Eu tinha ao menos que avisar o que aconteceu com aquele homem que salvou minha vida.Estava bem perto, em três minutos cheguei até a basílica, subi a rampa lateral
Alejandro Albeniz Queria mesmo era estar apoiando os familiares de Carlo Alcaraz, o rapaz praticamente deu a vida por mim. O mínimo que eu poderia fazer em agradecimento era trazer um pouco de conforto para sua família. No entanto, meu pai, desesperado, me prendeu nesse maldito hospital. Tomografia, ressonância… todos os exames que a medicina pudesse proporcionar, ele me obrigaria a fazer, para ter certeza de que eu estava bem. Tentei me desvencilhar, dificilmente deixava o senhor Albeniz me pôr um cabresto, no entanto, a pressão dele foi nas alturas quando, por um momento, acreditou que eu era o homem que morreu no acidente. Meu velho ainda estava com a pressão alta e por isso acataria seus pedidos. Mesmo com os protetores de ouvidos, o barulho da ressonância ainda era irritante, dei graças a Deus quando finalmente me tiraram daquele tubo apertado. Do lado de fora da sala radioativa, Mercês me aguardava. Eu vestia um roupão desses que amarrava na parte de trás e deixava nosso tras
Alejandro Albeniz Catalina só falava desse noivado que aconteceria daqui a cinco dias, eu tinha me esquecido desse detalhe da minha vida. Tentei argumentar com ela que não era o momento, que até a minha posse na empresa eu adiei, mas ela não quis saber. Quando saí do hospital, só havia um pensamento dentro da minha cabeça e tinha nome e sobrenome.Ximena Valverde.Entrei em casa e quase saí no mesmo pé. Foi só um tempo para eu tomar um banho e tirar as roupas com cheiro de hospital. Passei pela sala de casa e estavam todos reunidos, menos o Beto e esse era o único Albeniz que gostaria de ver para saber como foi com a família do Carlos. E justamente ele era o único que não estava em casa. Passei apenas dando um até mais tarde, meu pai tentou me impedir, falando algo que nem dei atenção. Catalina andou comigo até a garagem e tentou entrar no carro, mas assim que entrei, travei as portas .Não queria Catalina e sua insensibilidade no meio da conversa que teria com Ximena. Precisava expl
Ximena Valverde Sete dias, já eram sete infinitos dias sem o amor da minha vida. A missa celebrada na basílica onde a gente iria se casar parecia que aumentou ainda mais a minha dor. Eu até entendia motivo pelo qual a minha sogra escolheu justamente essa igreja. O intuito era fazer uma homenagem, saudação, mas para mim foi ainda mais pungente, me lembrou de muitos fatos dolorosos. E trouxe à tona sentimentos que estavam até um pouco controlados, como a minha raiva por Alejandro Albeniz. A imagem dele entrando na igreja, dizendo que Carlos morreu, perdurava na minha mente.Agradeci quando a missa acabou e finalmente pude voltar para casa e me enterrar com a minha dor.Ouvia a todo momento meus pais cochichando pelos cantos, algumas das vezes nem me interessava no assunto. Não devia, não queria ficar o tempo todo me martirizando com essa história. A ausência de Carlos já acabava comigo, me fazia querer morrer e, de certa forma, me matava um pouco a cada dia. Em meio a muitas conversas,
Ximena ValverdeQuando minha mãe insistiu que eu fizesse meu casamento na Basília de San Juan Dios, eu achei um exagero fora do tom. Eu queria uma igreja simples e pequena, não essa exuberante, já na fachada decorada com obras de arte barroca e um monumental de entrada flanqueada por colunas salomônicas. Mas a verdade é que agora me sentia uma princesa, que iria encontrar seu príncipe, que a aguardava ansioso no altar.O motorista trajado como tal, abriu a porta e meu pai e eu descemos da limousine alugada. Meu vestido era o mais simples que consegui convencer a minha mãe a comprar, na verdade, mandamos fazer. Não queria anáguas, ficar parecendo um cupcake, mas da extensa grinalda não consegui fugir. Enquanto puxava metros de pano de dentro do veículo, vi meu irmão e minha mãe descerem as escadas à frente da basílica, eles chamaram meu pai em um canto e cochicharam algo não audível para mim.Já com a grinalda enrolada no braço, me aproximei, querendo saber o que eles falavam. — Volta
ALGUNS DIAS ANTESAlejandro AlbenizAssumir a empresa aérea foi algo que sempre almejei. As exigências do meu pai é que tardaram minha volta à Espanha, mais precisamente à Granada. O senhor Albeniz, como quase todas as pessoas desse país, tinha valores arcaicos, acreditavam fielmente que um homem de sucesso e sério tinha que ter consigo, bem ao seu lado, uma “primeira dama”. Apesar de amar o lugar onde nasci, eu estudei na América e passei boa parte da minha vida por lá, me preparando para assumir o Império Albeniz. Não que aqui eu não conseguiria o preparo necessário para administrar Granafly, o problema é que não queria apenas entender da burocracia, fui atrás das especializações e evolução necessária do nosso produto e serviço, por isso fiz todos os cursos que achei necessário, na Boeing.Na reta final da minha preparação, vim para a Europa, mas não para a Espanha, meu destino foi a França e lá também me dediquei às especializações oferecidas pela poderosa Airbus. E foi na Franç
Ximena Valverde Minha mãe e suas ideias, por mim eu preferia ir em lojas de alugueis de roupa, encontrar o vestido do meu gosto. Ela e suas crenças de que a roupa que eu alugasse poderia ter estigmas ruins de outras pessoas e meu casamento desandar. O bom de fazer com uma costureira, é que tudo saiu como eu queria, até os tecidos pude escolher. Estava na última prova, ao me olhar no espelho, me vi linda. Meu casamento seria um sonho. Daqui a dois dias seria a mulher mais feliz do mundo, ia casar com o homem da minha vida.— Filha, tá parecendo uma princesa! — minha mãe falou com lágrimas nos olhos.— Mãe, para de chorar e pega um pouquinho desse café pra mim. — apontei para a garrafa em cima do bufê na sala de costura.Sem demora, minha mãe pegou o copinho descartável e pôs a dose do líquido fumegante para mim.A costureira, que voltava de outro cômodo, tentou prevenir um acidente, mas o efeito foi o contrário.— Não faça isso, não dê café a ela usando o vestido branco! — Ela gritou.