Capítulo 3

Alejandro Albeniz

O que estava se passando comigo? Acabei de praticamente jogar praga no casamento da mulher mais linda que eu já vi na minha vida. A sorte é que ela não me levou a sério, eu mesmo não estava me entendendo. Fiquei entorpecido pela eletricidade passando por todo o meu corpo, fazendo o meu coração disparar. Ele batia tão rápido, que parecia que daria um salto do meu peito.

Sempre quando ficava louco por uma mulher, era uma outra parte do meu corpo que latejava, nunca o peito.

Quando a vi seguir com a mãe, tive vontade de ir atrás dela, de falar novamente para ela não se casar. Como se ela devesse se casar comigo, como tivesse sido feita para mim. Eu com certeza não estava bem e olha que pelo café da manhã foi apenas um suco de laranja, não foi um hi-fi.

Pensando no estresse desnecessário que o senhor Albeniz tentou me causar essa manhã, seria até aceitável eu batizar o suco, mas não fiz. Meu corpo estava sóbrio, mas minha mente ficou inebriada de um sentimento estranho que invadiu meus olhos assim que vi aquela mulher.

Era melhor eu parar de loucura, entrar no carro e seguir para a empresa. Ainda teria que enfrentar a autoridade e o mau-humor do meu querido pai, mas hoje eu deixaria bem claro, ele tinha que entender que depois de amanhã, eu assumiria a empresa e as coisas seriam do meu jeito, ou ele realmente deixava para o meu irmão, Beto, pois jamais seria seu fantoche, uma espécie de pau mandado. As coisas teriam que ser do meu jeito. Não me referia a loucuras e egocentrismo que me desse vontade, mas, sim, o jeito que me preparei a vida inteira para pôr em prática.

(...)

Ao chegar na Granafly, fui puxado para dentro de uma sala. Catalina, nossa gerente comercial e minha futura esposa, veio com sua boca pintada de vermelho, querendo manchar a minha. Eu apenas virei o rosto.

— Agora, não, Lin, tenho que ir para a sala do presidente, meu pai está atacado hoje, quero evitar estresse.

Ela revirou os olhos. Essa mulher tinha um fogo que não se apagava, provavelmente era por isso que eu estava há tanto tempo com ela e aceitei a tramóia de Mercês e do meu pai.

— Você tem razão, o tio está uma fera, porque o Cônsul de Mônaco deu bolo novamente. — surpreso, arqueei as sobrancelhas.

— Então, ele não veio? — fiz uma pergunta retórica. — Agora, com certeza, o senhor Albeniz deve estar pior. — suspirei fundo, a afastando. — Vou lá, Lin.

Beijei a testa dela e tentei sair da sala, mas fui impedido pelo som da sua voz:

— Vamos nos ver mais tarde?

— Não sei. Tenho muitas coisas para colocar em ordem até minha posse, depois de amanhã. Qualquer coisa, eu te ligo. — pisquei para ela.

— Anda tão frio desde que viemos da França para cá. — ela falou em tom de reclamação, mesmo sabendo que esse tipo de cobrança me irritava.

— Catalina, estou a dois dias de ficar responsável por essa organização, eu gosto muito de beijar sua boca e foder sua boceta, mas no momento, a Granafly é mais importante. — nunca tive que fazer rodeios com ela ou qualquer outra mulher, não passaria a fazer isso agora.

— E nosso noivado na semana que vem? Isso também é importante. — ela fez um biquinho.

Sem dar importância aos seus argumentos, saí, a deixando falando sozinha, não queria ser o cara grosseiro. Ao adentrar a sala do meu pai, Beto estava mexendo o açúcar da xícara de café que ele oferecia ao meu pai, paparicando, como sempre. Ou melhor, puxando o saco.

— Bom dia. — cumprimentei assim que entrei.

— Bom dia. — Beto respondeu e veio até mim, apertar minha mão.

— Saia, Roberto! — foi a única coisa que meu pai disse e meu meio-irmão prontamente obedeceu.

— Porque o senhor o trata assim? — Assim que ouvi a porta bater, questionei.

— Roberto não tem fibra, o trato assim justamente para ele ser como nós dois. — Era um argumento de merda, mas se o Beto aceitava ser tratado daquela forma, quem era eu para reclamar de alguma coisa?

— Fechou com o Mônaco? — fingi não saber.

— Não, o Cônsul não veio novamente. — Notei que sua carranca de mais cedo, estava ainda pior, como já era de se imaginar.

Esperava que ele dissesse: “fez bem, filho, em não ter vindo mais cedo”. Mas se por um acaso, o senhor Albeniz reconhecesse um erro, teríamos que sair daqui, pois haveria um terremoto.

— Depois de amanhã, tudo isso estará em seu poder. — seu olhar estava fixo em mim.

— Não vejo a hora de poder potencializar ainda mais essa empresa. — Meu pai me olhou como quem dizia: “vai devagar”.

— O dia da sua posse também será o dia do início da frota do H175, vou escalar o melhor piloto da empresa para vocês fazerem o voo inaugural.

— Não, eu mesmo vou pilotar essa máquina. — falei com firmeza.

— Não. Temos gente capacitada para isso. — ele rebateu.

— Pai, sou bastante capacitado, fiz todos os cursos necessários, tenho a quantidade de horas exigida pela AESA e, além disso, não pedi sua permissão. — Eu não deixaria que ele me tratasse como um menino.

O senhor Albeniz fazia cara de bravo, mas no fundo, ele gostava da minha decisão.

(...)

DOIS DIAS DEPOIS

Não queria ficar batendo de frente com meu velho, aceitei ao menos o co-piloto. O homem, de mais ou menos 40 anos, estava visivelmente desconfortável. Na verdade, eu diria até que puto, por ele não ser o comandante do voo.

Meu pai ofereceu um enorme coquetel para o voo inaugural do H175, eu só faria uma rota panorâmica bem rápida, ainda tinha o coquetel para o pessoal de maior escalão na empresa, em prol da minha posse na presidência.

Agora era hora de pensar no voo, meu pai fez o discurso de como aquela máquina seria um diferencial dentro da empresa, estava todo pomposo em dizer que o helicóptero tinha uma autonomia de 1.300km e todos aplaudiram.

Entrei na aeronave junto ao co-piloto, após colocarmos o cinto e os headsets, tratei de ligar o motor e levantar voo imediatamente.

“Que arrancada tinha aquela máquina!”

Logo o veículo subiu. De cima, fiquei ainda mais maravilhado com minha cidade. Granada era simplesmente fabulosa. Até tudo ficar nebuloso com apenas dois minutos de voo.

O inesperado aconteceu, o manche começou a tremer como se a aeronave estivesse sem combustível, mas no painel acusava tanque cheio.

— O que você fez? — o co-piloto me acusou.

— Porra nenhuma! Ficou louco?

— Você vai matar a gente! A GENTE VAI MORRER! — Ele gritou.

Não iria discutir com aquele descontrolado, tinha que sair daquela situação.

— A aeronave está em clara dissimetria, temos que evitar o efeito translacional. Vai para trás. — exigi.

— Me dá o controle, que vou tirar a gente dessa. — falou, exasperado.

— Eu disse para ir para o fundo do helicóptero, agora! — Minha voz se tornou altiva.

Furioso, ele obedeceu. Foi no momento certo, não iria conseguir ficar muito tempo pairado e, naquele instante, comecei a planar a aeronave para um pouso. Declarei pan pan à torre de controle e tudo indicava que iria pousar no viaduto central.

O helicóptero pairava, e depois sacolejando de uma lado para o outro, a reza exasperada do co-piloto ao fundo da aeronave, me deixava mais nervoso, descer assim, com medo de cair como uma pedra, demorava uma vida.

Eu já conseguia ver o viaduto e isso me deu um pouco mais de conforto. O suor frio escorria pelo meu rosto, ainda tinha muito o que viver, não queria perder o bem mais precioso e parecia que eu teria uma segunda chance. Eu não a desperdiçaria. No entanto, uma tesoura de vento acabou empurrando o helicóptero para a esquerda, tirando do meio do viaduto e eu pousei abruptamente, quebrando a mureta de concreto, parte da frente da aeronave ficou para fora da pista em uma altura de 50 metros.

Apesar do perigo, estávamos com o peso equilibrado e, se fôssemos sincronizados, sairíamos da aeronave os dois.

— ABRE LOGO ESSA PORTA! — o co-piloto designado pelo meu pai, berrou.

— Eu vou tirar o cinto, abrir a porta e saímos os dois calmos, sem movimento bruscos. Espere eu ir para o meio da aeronave. — pedi.

Assim que a porta foi aberta, ele saltou para o lado de fora abruptamente, fazendo o helicóptero se mexer e ir ainda mais para a frente.

Minha vida estava por um fio.

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