Capítulo 2

Ximena Valverde 

Minha mãe e suas ideias, por mim eu preferia ir em lojas de alugueis de roupa, encontrar o vestido do meu gosto. Ela e suas crenças de que a roupa que eu alugasse poderia ter estigmas ruins de outras pessoas e meu casamento desandar. O bom de fazer com uma costureira, é que tudo saiu como eu queria, até os tecidos pude escolher. Estava na última prova, ao me olhar no espelho, me vi linda. Meu casamento seria um sonho. Daqui a dois dias seria a mulher mais feliz do mundo, ia casar com o homem da minha vida.

— Filha, tá parecendo uma princesa! — minha mãe falou com lágrimas nos olhos.

— Mãe, para de chorar e pega um pouquinho desse café pra mim. — apontei para a garrafa em cima do bufê na sala de costura.

Sem demora, minha mãe pegou o copinho descartável e pôs a dose do líquido fumegante para mim.

A costureira, que voltava de outro cômodo, tentou prevenir um acidente, mas o efeito foi o contrário.

— Não faça isso, não dê café a ela usando o vestido branco! — Ela gritou.

Naquele momento, tudo ficou em câmera lenta, a minha mãe tentou pegar o copo de volta e, ao mesmo tempo, eu tentei devolver, assim, nossas mãos se esbarraram. Eu vi o líquido explodir para fora do recipiente e respingar na lateral do meu vestido.

Minha mãe e eu nos olhamos apreensivas e, claramente, não sabíamos o que fazer.

A costureira e a minha mãe começaram a pirar, ao invés de solução, elas rodavam e não saíam do lugar, mas ouvi que eu precisava de uma lavanderia urgente, pois se a mancha secasse, até na lavanderia ficaria amarelado.

Sabia que estava próximo a tinturaria duquesa, deixaria elas discutindo o que fazer e iria atrás de resolver o meu problema. Sem pensar duas vezes, passei a mão na minha bolsa e desci o vestida de noiva, não utilizei o elevador, pois ele demoraria, desci quatro lances de escadas em disparada.

Cheguei na rua e corri acelerada rumo à lavanderia, todos olhavam uma doida correndo na rua usando um vestido de noiva e segurando as saias dele. Quando cheguei, não pude acreditar, as portas da loja ainda estavam fechadas. Soltei as barras do vestido e, em um ato de desespero, usei minhas mãos para bater na porta de metal. Me virei para trás, tentando encontrar alguma ajuda, foi quando avistei por trás de mim um homem do outro lado da calçada, vestido de traje formal como um executivo, parado à frente de um enorme veículo.

— Senhor, bom dia! Sabe que horas vai abrir a lavanderia? — isso era tudo o que eu queria saber.

Ao invés de me responder, ele ficou parado, olhando para mim. Ok, eu estava vestida de noiva, correndo pelo meio da rua, mas a maneira que ele me olhava parecia que eu estava nua.

— Oi, está tudo bem? O senhor me ouviu? — fiz uma careta estranha para ele.

Finalmente, parecia que ele saiu do transe.

— Oi, desculpa. O comércio só abre às nove, faltam cinco minutos. — finalmente me respondeu.

— Verdade. — Foi naquele momento que me dei conta de que todo o comércio à minha volta ainda estava começando a abrir. — Estou desesperada, meu vestido de noiva está manchado de café e me caso depois de amanhã.

O homem de terno ainda me olhava estranho, me assustei quando ele pegou minha mão e saiu andando, sem dizer uma palavra sequer.

— Ei, o que é isso? — reclamei.

— A loja abriu. — se limitou a responder.

— Ah, certo. — pensei comigo mesma que era melhor ele ter falado, do que pegar na minha mão, e tratei de soltar da mão dele, indo direto para a tinturaria.

Nós estávamos no estabelecimento quase juntos, mas ele estava aguardando primeiro.

— Bom dia, senhor Albeniz! 

A atendente falou toda derretida, ignorando minha presença.

— Bom dia, atenda a moça primeiro. O caso dela é mais urgente.

— Obrigada. — agradeci.

Mostrei a mancha para a atendente, e ela me falou o óbvio, que eu, em meu desespero, não tinha me tocado. Eu deveria ter tirado o vestido.

 — Tem algo para me emprestar, um roupão? 

— Infelizmente, não, senhora… — seus lábios formaram uma linha fina.

O que mais me importava era salvar meu vestido. Se iria ficar de roupa íntima, dane-se! Foi quando o homem de olhar intenso tirou seu paletó e me estendeu, me livrando de ficar em uma situação constrangedora.

— Obrigada. — lhe sorri.

Vesti o paletó e, como se estivesse trocando de roupa em um reality show de gosto duvidoso, tirei o vestido e entreguei à mulher com urgência, que entrou com a peça em uma porta nos fundos da loja. Provavelmente para pedir urgência ao funcionário responsável pela lavagem. Ela voltou toda derretida novamente e se dirigiu ao homem ao meu lado:

— Vou pegar seu terno, senhor.

Liguei para minha mãe, informando onde eu estava, pedi que ela trouxesse a minha roupa. Como estava perto, logo chegou. Ao me ver vestida com imenso paletó, não precisou muito, deduziu de onde veio.

— Que par de olhos lindos… — minha mãe sussurrou no meu ouvido.

— Que isso, dona Clara… — a repreendi, tentando manter o tom baixo para o homem não perceber.

— Não venha me dizer que não reparou nos olhos e em todo o resto.

— Não, mãe, não reparei, só tenho olhos para o Carlos e você só deveria ter para o meu pai. — a todo momento, eu olhava de soslaio para conferir se o homem ouvia nossa conversa.

— Sou casada, filha, não cega. E vai, troca logo de roupa para devolver o paletó do moço.

Enquanto eu trocava de roupa novamente, ele foi para o carro colocar o terno que acabou de retirar da tinturaria. Já trajada com meu vestido azul de alcinhas, peguei o paletó, pus no braço e fui ao encontro dele, no outro lado da rua.

— Aqui. — estendi a peça para ele. — Obrigada, você foi muito bacana em me ceder a vez e o blazer, mais alguns minutos e eu poderia perder o meu vestido e desandar meu casamento.

Eu falei, falei e ele apenas pegou o blazer e ficou me olhando daquele mesmo jeito, até que uma frase saiu de sua boca:

— Tanto esforço para nada! — Suspirou.

— O quê? O que você disse? — perguntei de cenho franzido.

Com a expressão séria, como se fosse um tipo de vidente bonachão, ele discorreu:

— Não casa, você não vai ser feliz. — fiquei boquiaberta com suas palavras.

— É mesmo? Viu aí na sua bolsa de cristal portátil? 

— Não. É porque você acabou de encontrar o verdadeiro amor da sua vida.

— Que cantada mais barata!

— Não é cantada, é um fato. — retrucou, convicto.

— Então, o “amor da minha vida” chegou muito atrasado, pois eu me caso muito feliz e realizada, depois de amanhã.

Me virei para sair e ele segurou no meu braço.

— Me fala seu nome e me dá seu número?

— Solta o meu braço, por favor — ele imediatamente atendeu meu pedido. — Não vou te dar meu número. E meu nome é… “Não Te Interessa” Garcia.

Dessa maneira, me virei e saí em disparada dali, irritada por tamanho desaforo de um homem que nunca vi na vida.

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