O balde de água suja derramou mais uma vez sobre o piso que ela havia acabado de limpar. O líquido imundo escorreu pelas ranhuras das tábuas de madeira, formando pequenas poças que refletiam a pouca luz do fim de tarde. Melody apertou os olhos, cerrando os dentes com força para não praguejar. Não adiantava. Não importava quantas vezes ela esfregasse aquele chão, ele sempre pareceria sujo. Como tudo ali. Como ela mesma.
Num suspiro profundo, ela ergueu o balde mais uma vez. O vestido molhado na barra estava pesado, grudento. Seus cabelos platinados, presos em um coque apertado, grudavam na nuca suada. A faixa enrolada ao redor do peito lhe estrangulava a respiração, castigando os seios em um aperto torturante. Mas era necessário. Tudo isso era necessário.
A dor nos rins pulsava, irradiando pela coluna, e Melody soube que suas regras estavam para chegar. Talvez fosse melhor assim. Qualquer coisa era melhor do que ter que encarar o que poderia acontecer se deixasse de ser invisível. Melhor carregar baldes pesados, esfregar aquele chão maldito e se enfiar na cozinha fumegante. Melhor isso do que o outro tipo de trabalho que as mulheres da Casa do Sol Nascente exerciam noite após noite.
Quando se abaixou novamente para enxugar as velhas tábuas de madeira, um gosto ácido subiu por sua garganta. Clide. A lembrança dele era amarga como fel. Melody sentiu a boca se encher de saliva, um reflexo instintivo de repulsa.
Desgosto.
Desgosto por lembrar da conversa mole de um apostador, de sua voz baixa e sorridente, prometendo coisas que ela queria acreditar, desgosto pelo homem que a vendeu ao bordel de beira de estrada para pagar uma apsota perdida.
Desgosto por ter acreditado no desgraçado.
E agora ali estava ela, adulta, marcada, trabalhando como uma mula num bordel. Limpando, passando, lavando e cozinhando.
Ela torceu o pano com força, espremeu a água suja sobre o balde e soltou um suspiro longo. Quando finalmente terminou de secar o chão, arrastou-se até o espelho do corredor. Precisava verificar se a maquiagem ainda estava no lugar. As mulheres se maquiavam para parecerem belas, mas Melody fazia o oposto. Aplicava lama no rosto para fingir sardas, franzia os olhos para se fingir vesga. Os cabelos? Lavados apenas uma vez por mês. A cada dia que passava, mais se misturava à paisagem.
Ninguém olhava duas vezes para uma garota comum. Uma garota sem atributos.
Quando Clide a abandonou, ela não passava de uma adolescente magrela. E sabia que, para continuar segura, precisava continuar assim. Precisava evitar os olhos de Madame. Se houvesse qualquer beleza nela que pudesse ser explorada, Melody jamais conseguiria fugir.
Mas agora... agora, faltava pouco.
O coração acelerou com a esperança. Anos de trabalho duro, de misérias engolidas em silêncio. E, finalmente, ela tinha quase o suficiente. Logo poderia pegar uma diligência e partir... quse tinha todo dinheiro que precisava para ir pra casa, sentia falta de sua mãe, sentia falta de sua irma menor... e sentia falta de si mesma.
Com essa ideia em mente, ergueu-se com nova determinação. Pegou o balde cheio de água suja e foi até os fundos do bordel para despejá-lo. O cheiro da manhã começava a mudar, o céu se tingia de um alaranjado profundo. Mas algo no ar a fez parar por um segundo.
Um arrepio desceu por sua espinha.
Os olhos sobre ela estavam mais insistentes ultimamente, algo em seu disfarce parecia não fazer mais efeito, talvez fossem as pernas longas e a cintura fina que tentava disfarçar usando vestidos folgados, os homens começavam a olhar para a pequena Melody como se ela fosse algo merecedor de ser visto.
E isso era um problema.
Melody despejou o balde de água suja na varanda dos fundos, assistindo ao líquido escorrer entre as frestas das tábuas desgastadas até desaparecer no chão arenoso. Por um instante, permitiu-se respirar fundo, fechando os olhos para sentir a brisa quente que soprava do horizonte. Logo seria hora do almoço, e a Casa do Sol Nascente se transformaria em um forno sufocante, impregnado dos aromas da cozinha, suor e perfumes baratos.Ela empurrou a porta traseira com o quadril, entrando no ambiente abafado e quase insuportável da cozinha. O calor parecia grudar em sua pele, fazendo as roupas já úmidas colarem ainda mais ao corpo. A cozinheira, uma senhora robusta de rosto avermelhado pelo calor do fogão à lenha, ergueu os olhos e acenou rapidamente com a cabeça.— Chegou bem na hora, menina. Ajuda aqui com as batatas antes que cozinhem demais.Melody assentiu em silêncio, pegando um pano para não queimar as mãos enquanto removia a panela pesada do fogo. O cheiro fez sua boca aguar.Estava de
Depois do almoço, Melody e as outras garotas que não haviam sido solicitadas na noite anterior começaram a tarefa exaustiva de arrumar os quartos do bordel. Elas arrancavam as roupas de cama, enrolando-as em grandes trouxas para serem levadas à lavanderia improvisada nos fundos da casa.— Juro que esses homens são piores do que crianças bagunceiras — reclamou Sarah, puxando um lençol manchado com expressão de nojo. — E ainda falam que nós somos sujas.Melody não conseguiu evitar um sorriso diante da indignação da amiga.— Eles falam demais, isso sim. Às vezes acho que sabem mais fofocas do que as próprias esposas — comentou Melody, retirando uma fronha e jogando-a sobre a pilha crescente.Sarah riu, balançando a cabeça enquanto dobrava um edredom.— Ah, sim. Dois copos de uísque e pronto, lá vem a caixa de Pandora aberta. Sabia que o xerife foi flagrado pela esposa ontem à noite, saindo escondido em direção ao bordel?— Jura? — Melody arregalou os olhos, surpresa e divertida. — Como v
Carregando os lençóis empilhados nos braços, Melody desceu as escadas com cuidado, sentindo o peso deles puxando seus ombros para baixo a cada passo. O ranger dos degraus se misturava ao burburinho distante vindo do salão, risadas arrastadas pelo álcool, o estalo dos copos, o tilintar das moedas trocando de mãos. O cheiro adocicado do perfume barato ainda impregnava o ar, misturado à poeira da madeira envelhecida e ao aroma forte de gordura vindo da cozinha.Ao alcançar os fundos do bordel, seu olhar foi imediatamente atraído pelo poço onde teria que buscar água para lavar os lençóis. Seu estômago se contraiu, e um arrepio frio subiu pela nuca, como se a sombra da falecida ainda pairasse ali.Jogou parte da roupa de cama dentro de uma tina enorme e pegou o balde. O peso da alça em sua mão parecia mais denso do que deveria, como se o passado estivesse puxando-a em direção ao poço.Um arrepio involuntário percorreu sua espinha.Pensar em Esperanza encontrada sem vida e cheia de hematoma
O peso do balde cheio de água fria puxava seus braços, e Melody sentia cada músculo protestar conforme o arrastava pelo quintal até a tina de lavar. Os dedos ardiam pelo esforço, e um suspiro escapou de seus lábios ao despejar o conteúdo na bacia já parcialmente cheia. Pequenos redemoinhos se formaram na superfície da água antes de se assentarem, refletindo a luz intensa do início da tarde que banhava o quintal em um dourado abafado.Ela pegou uma barra de sabão e a jogou na água, observando-a afundar lentamente antes de pegá-la de volta para esfregar nas roupas. Com as mãos, esfregou a barra contra as roupas, formando espuma entre os tecidos. Depois, prendeu a saia entre as pernas para evitar que se molhasse demais e descalçou as sapatilhas surradas, empilhando-as num canto seco antes de entrar na tina cheia de roupas. Os pés descalços encontraram o tecido encharcado, e Melody começou a pisotear as roupas, sentindo a água fria subir pelos tornozelos. O tecido pesado se retorcia sob s
Ajeitou a postura e seguiu pelo caminho mais discreto, esgueirando-se pelo corredor lateral até a cozinha. O calor do ambiente veio como uma onda abafada, trazendo o cheiro de carne sendo cortada e temperos queimando no fogão. A cozinheira estava ocupada cortando carne, mas ainda assim ergueu os olhos para fitar Melody por um instante.— Vai ficar parada aí feito uma estátua? — resmungou a mulher, voltando ao trabalho.— Só vim buscar um pano — respondeu Melody rapidamente, pegando um pedaço qualquer de tecido sobre a mesa antes de seguir adiante.Esperou um instante, certificando-se de que ninguém prestava atenção, antes de subir as escadas estreitas e empoeiradas até o sótão. Segurava o pano contra o peito, um disfarce simples caso fosse surpreendida no caminho. Era um dos poucos lugares onde poderia ter privacidade. Lá em cima, o calor era sufocante, mas não havia olhos curiosos. O colchão fino onde dormia estava estendido no chão, encostado contra a parede, e ao lado dele repousav
— Melody.O som de seu nome atravessou a porta, enchendo o pequeno espaço do sótão como uma ameaça palpável. Um frio intenso subiu por sua espinha, espalhando-se pela nuca e eriçando os cabelos em sua pele úmida de suor frio. Seu estômago revirou violentamente, e ela precisou engolir com força para conter a náusea imediata. Melody fechou os olhos, apertando os lábios em uma linha fina e trêmula enquanto tentava controlar a respiração acelerada.Medo. Um medo visceral, antigo e profundamente arraigado, espalhou-se rapidamente por suas veias como veneno, fazendo seus membros tremerem. Mas, abaixo dessa camada inicial de terror, ela reconheceu outra emoção igualmente intensa: raiva. Uma raiva impotente, sufocada por anos de silêncio, de humilhação e submissão forçada. As unhas curtas se cravaram nas palmas das mãos em punhos cerrados, e Melody sentiu um calor de revolta incendiar seu peito.Lutando contra o impulso de se esconder em um canto escuro e simplesmente desaparecer, endireitou
A luz do fim de tarde filtrava-se pelas frestas do sótão, tingindo de dourado os montes de poeira acumulada e os objetos esquecidos. Melody estava sentada sobre o baú, com o vestido ensopado colado à pele, os joelhos juntos ao peito, os braços envolvendo as pernas como se o gesto pudesse impedir que desabasse.O silêncio ali dentro era tenso, denso, como se a casa inteira esperasse o momento exato para esmagá-la. Seu estômago roncava, vazio desde cedo, e o cheiro distante de comida vindo do salão fazia a boca salivar. Madame sabia. Era esse o plano. Domar pela fome. Pelo cansaço. Pelo isolamento. Mas Melody não podia deixar isso acontecer. Não depois de tantos anos escondida, não depois de chegar tão perto.Levantou-se com energia renovada e quase com raiva, tirou o vestido molhado que largou sobre o chão. Escolheu outro, o menos rasgado dos dois que ainda restavam, e o vestiu com movimentos lentos. O calor insuportável do dia havia se convertido no frescor do início da noite. Seus de
O susto foi nublado pela dor.Melody piscou devagar, o corpo inteiro pulsando como um machucado exposto. Tentou se mover, mas o braço gritou alto, e ela parou. Os olhos demoraram a focar, mas logo voltaram para o homem parado na entrada da carroça.Jesus. Ele era enorme.A silhueta dele tomava conta do espaço. Largo de ombros, alto, com a mão segurando a aba da lona erguida. A luz do entardecer dourava as laterais do rosto rígido, os olhos verdes e atentos. Não parecia assustado. Parecia calculando.Melody sabia reconhecer o olhar de um homem medindo risco.Ela também sabia que era o risco.Estava desesperada demais para recusar ajuda, mas o medo dentro dela dava outro salto — um medo mais profundo, que não vinha do instinto, mas da memória. E se ele a devolvesse? Se ele pertencesse à Casa? Se fosse um dos deles?O braço latejava como fogo. Ela queria implorar, mas o corpo tremia de frio e esforço. Os lábios ardiam, rachados e úmidos de sangue. Ainda assim, ela os mordeu, tentando reu