A carroça avançava pela estrada de terra batida, o som dos cascos e das rodas marcando um ritmo constante na noite que chegava. O céu, já tingido de azul escuro, deixava os últimos fios de luz escaparem pelas copas das árvores. Era um silêncio de fim de mundo, só quebrado pelos estalos do couro e o ranger da madeira.A fazenda surgiu no horizonte.A casa grande de madeira mantinha sua dignidade cansada. A varanda ampla era sustentada por colunas grossas, e os degraus largos da entrada já conheciam muitos anos de pés e silêncios. À direita, o estábulo recortava-se contra o céu, e uma cerca baixa contornava o terreno com humildade.No jardim à frente da casa, resistia o cuidado antigo de Esperanza. As roseiras estavam secas. A lavanda, quase morta. Mas as margaridas — teimosas — ainda floresciam, como se recusassem a aceitar a ausência da mão que as podava.Duncan puxou as rédeas e fez Caleb parar diante da varanda. O cavalo bufou com gratidão.A poeira, erguida no último trecho da estr
O balde de água suja derramou mais uma vez sobre o piso que ela havia acabado de limpar. O líquido imundo escorreu pelas ranhuras das tábuas de madeira, formando pequenas poças que refletiam a pouca luz do fim de tarde. Melody apertou os olhos, cerrando os dentes com força para não praguejar. Não adiantava. Não importava quantas vezes ela esfregasse aquele chão, ele sempre pareceria sujo. Como tudo ali. Como ela mesma.Num suspiro profundo, ela ergueu o balde mais uma vez. O vestido molhado na barra estava pesado, grudento. Seus cabelos platinados, presos em um coque apertado, grudavam na nuca suada. A faixa enrolada ao redor do peito lhe estrangulava a respiração, castigando os seios em um aperto torturante. Mas era necessário. Tudo isso era necessário.A dor nos rins pulsava, irradiando pela coluna, e Melody soube que suas regras estavam para chegar. Talvez fosse melhor assim. Qualquer coisa era melhor do que ter que encarar o que poderia acontecer se deixasse de ser invisível. Melh
Melody despejou o balde de água suja na varanda dos fundos, assistindo ao líquido escorrer entre as frestas das tábuas desgastadas até desaparecer no chão arenoso. Por um instante, permitiu-se respirar fundo, fechando os olhos para sentir a brisa quente que soprava do horizonte. Logo seria hora do almoço, e a Casa do Sol Nascente se transformaria em um forno sufocante, impregnado dos aromas da cozinha, suor e perfumes baratos.Ela empurrou a porta traseira com o quadril, entrando no ambiente abafado e quase insuportável da cozinha. O calor parecia grudar em sua pele, fazendo as roupas já úmidas colarem ainda mais ao corpo. A cozinheira, uma senhora robusta de rosto avermelhado pelo calor do fogão à lenha, ergueu os olhos e acenou rapidamente com a cabeça.— Chegou bem na hora, menina. Ajuda aqui com as batatas antes que cozinhem demais.Melody assentiu em silêncio, pegando um pano para não queimar as mãos enquanto removia a panela pesada do fogo. O cheiro fez sua boca aguar.Estava de
Depois do almoço, Melody e as outras garotas que não haviam sido solicitadas na noite anterior começaram a tarefa exaustiva de arrumar os quartos do bordel. Elas arrancavam as roupas de cama, enrolando-as em grandes trouxas para serem levadas à lavanderia improvisada nos fundos da casa.— Juro que esses homens são piores do que crianças bagunceiras — reclamou Sarah, puxando um lençol manchado com expressão de nojo. — E ainda falam que nós somos sujas.Melody não conseguiu evitar um sorriso diante da indignação da amiga.— Eles falam demais, isso sim. Às vezes acho que sabem mais fofocas do que as próprias esposas — comentou Melody, retirando uma fronha e jogando-a sobre a pilha crescente.Sarah riu, balançando a cabeça enquanto dobrava um edredom.— Ah, sim. Dois copos de uísque e pronto, lá vem a caixa de Pandora aberta. Sabia que o xerife foi flagrado pela esposa ontem à noite, saindo escondido em direção ao bordel?— Jura? — Melody arregalou os olhos, surpresa e divertida. — Como v
Carregando os lençóis empilhados nos braços, Melody desceu as escadas com cuidado, sentindo o peso deles puxando seus ombros para baixo a cada passo. O ranger dos degraus se misturava ao burburinho distante vindo do salão, risadas arrastadas pelo álcool, o estalo dos copos, o tilintar das moedas trocando de mãos. O cheiro adocicado do perfume barato ainda impregnava o ar, misturado à poeira da madeira envelhecida e ao aroma forte de gordura vindo da cozinha.Ao alcançar os fundos do bordel, seu olhar foi imediatamente atraído pelo poço onde teria que buscar água para lavar os lençóis. Seu estômago se contraiu, e um arrepio frio subiu pela nuca, como se a sombra da falecida ainda pairasse ali.Jogou parte da roupa de cama dentro de uma tina enorme e pegou o balde. O peso da alça em sua mão parecia mais denso do que deveria, como se o passado estivesse puxando-a em direção ao poço.Um arrepio involuntário percorreu sua espinha.Pensar em Esperanza encontrada sem vida e cheia de hematoma
O peso do balde cheio de água fria puxava seus braços, e Melody sentia cada músculo protestar conforme o arrastava pelo quintal até a tina de lavar. Os dedos ardiam pelo esforço, e um suspiro escapou de seus lábios ao despejar o conteúdo na bacia já parcialmente cheia. Pequenos redemoinhos se formaram na superfície da água antes de se assentarem, refletindo a luz intensa do início da tarde que banhava o quintal em um dourado abafado.Ela pegou uma barra de sabão e a jogou na água, observando-a afundar lentamente antes de pegá-la de volta para esfregar nas roupas. Com as mãos, esfregou a barra contra as roupas, formando espuma entre os tecidos. Depois, prendeu a saia entre as pernas para evitar que se molhasse demais e descalçou as sapatilhas surradas, empilhando-as num canto seco antes de entrar na tina cheia de roupas. Os pés descalços encontraram o tecido encharcado, e Melody começou a pisotear as roupas, sentindo a água fria subir pelos tornozelos. O tecido pesado se retorcia sob s
Ajeitou a postura e seguiu pelo caminho mais discreto, esgueirando-se pelo corredor lateral até a cozinha. O calor do ambiente veio como uma onda abafada, trazendo o cheiro de carne sendo cortada e temperos queimando no fogão. A cozinheira estava ocupada cortando carne, mas ainda assim ergueu os olhos para fitar Melody por um instante.— Vai ficar parada aí feito uma estátua? — resmungou a mulher, voltando ao trabalho.— Só vim buscar um pano — respondeu Melody rapidamente, pegando um pedaço qualquer de tecido sobre a mesa antes de seguir adiante.Esperou um instante, certificando-se de que ninguém prestava atenção, antes de subir as escadas estreitas e empoeiradas até o sótão. Segurava o pano contra o peito, um disfarce simples caso fosse surpreendida no caminho. Era um dos poucos lugares onde poderia ter privacidade. Lá em cima, o calor era sufocante, mas não havia olhos curiosos. O colchão fino onde dormia estava estendido no chão, encostado contra a parede, e ao lado dele repousav
— Melody.O som de seu nome atravessou a porta, enchendo o pequeno espaço do sótão como uma ameaça palpável. Um frio intenso subiu por sua espinha, espalhando-se pela nuca e eriçando os cabelos em sua pele úmida de suor frio. Seu estômago revirou violentamente, e ela precisou engolir com força para conter a náusea imediata. Melody fechou os olhos, apertando os lábios em uma linha fina e trêmula enquanto tentava controlar a respiração acelerada.Medo. Um medo visceral, antigo e profundamente arraigado, espalhou-se rapidamente por suas veias como veneno, fazendo seus membros tremerem. Mas, abaixo dessa camada inicial de terror, ela reconheceu outra emoção igualmente intensa: raiva. Uma raiva impotente, sufocada por anos de silêncio, de humilhação e submissão forçada. As unhas curtas se cravaram nas palmas das mãos em punhos cerrados, e Melody sentiu um calor de revolta incendiar seu peito.Lutando contra o impulso de se esconder em um canto escuro e simplesmente desaparecer, endireitou