Almoço

Melody despejou o balde de água suja na varanda dos fundos, assistindo ao líquido escorrer entre as frestas das tábuas desgastadas até desaparecer no chão arenoso. Por um instante, permitiu-se respirar fundo, fechando os olhos para sentir a brisa quente que soprava do horizonte. Logo seria hora do almoço, e a Casa do Sol Nascente se transformaria em um forno sufocante, impregnado dos aromas da cozinha, suor e perfumes baratos.

Ela empurrou a porta traseira com o quadril, entrando no ambiente abafado e quase insuportável da cozinha. O calor parecia grudar em sua pele, fazendo as roupas já úmidas colarem ainda mais ao corpo. A cozinheira, uma senhora robusta de rosto avermelhado pelo calor do fogão à lenha, ergueu os olhos e acenou rapidamente com a cabeça.

— Chegou bem na hora, menina. Ajuda aqui com as batatas antes que cozinhem demais.

Melody assentiu em silêncio, pegando um pano para não queimar as mãos enquanto removia a panela pesada do fogo. O cheiro fez sua boca aguar.

Estava de pé desde muito antes do sol nascer, com apenas uma fatia de pão boiando no estômago, já havia limpado os três andares do bordel. Seus rins voltaram a fisgar dolorosamente. Ela respirou fundo; suas regras sempre foram dolorosas, e aquela dor nos rins era um prenúncio claro de que estavam chegando. Ainda assim, não se atrevia a reclamar, não com Madame tão próxima em seu escritório.

Só precisava se sentar um pouco, comer e descansar alguns minutos antes de voltar à labuta, agora limpando alguns quartos.

Ao seu redor, outras garotas começavam a chegar aos poucos, todas exaustas pela rotina da manhã, mas ainda capazes de trocar risadas e conversas leves.

— Juro por Deus, se aquele velho nojento tentar apertar minha bunda de novo, eu acabo com ele! — desabafou Sarah, uma moça ruiva de olhos brilhantes, com um sorriso divertido apesar da ameaça.

As meninas riram, solidarizando-se com o protesto exagerado, mas necessário.

— Acalme-se, Sarah. Madame já avisou que ele estará proibido de entrar no salão se continuar com as graçinhas — respondeu Claire, a mais velha do grupo, cuja serenidade sempre parecia acalmar os ânimos mais exaltados.

Melody observava em silêncio, aproveitando a oportunidade para servir os pratos com rapidez e precisão. Ela gostava dessas mulheres, apreciava a leveza e o humor que ainda conseguiam manter, mesmo vivendo naquela situação tão complexa. Nenhuma delas conhecia seu segredo, e talvez fosse melhor assim. Sua segurança dependia do anonimato, mas não podia negar o quanto desejava poder confiar, abrir-se para alguém, ao menos uma vez.

— Ei, Mel, você tá tão quieta hoje. — Sarah cutucou-a gentilmente com o cotovelo, interrompendo seus pensamentos. — Sonhando acordada?

Melody sorriu discretamente, balançando a cabeça enquanto entregava à amiga um prato cheio de batatas quentes e carne cozida.

— Só cansada. Tem dias que esse calor parece pior do que o inferno.

— Ah, nisso você tem razão! — confirmou Claire, enxugando a testa com as costas da mão. — Mas é só mais um verão. Já sobrevivemos a tantos.

Melody se lembrou que sim, já haviam sobrevivido a verões naquela casa em que sentira que o calor lhe chamuscaria a pele. Poderia sobreviver a mais um, que, se tivesse muita sorte, seria o último.

A conversa ao redor da mesa logo se dissolveu em pequenos comentários, risos abafados e murmúrios sobre os clientes, o calor e o futuro incerto. Melody permitiu-se sorrir brevemente. Ela gostava dessas mulheres, gostava das conversas simples, das piadas bobas e do apoio silencioso que ofereciam umas às outras.

Talvez um dia, quando estivesse longe dali, pudesse se lembrar delas com carinho. Enquanto estivesse ali, o medo de ser descoberta esmagaria seu peito.

Imaginou a si mesma sendo apenas mais uma garota comum, compartilhando uma refeição simples com pessoas que, sem perceber, tornavam sua vida um pouco menos amarga.

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