Selene
Enfim, estava de volta.
Uma música tocava no som do carro e a estrada só não estava mais escura devido a lua cheia alta no céu. Eu gostava de noites assim, iluminadas, sempre achei fascinante, às vezes passo horas a olhando, é como se me prendesse, me hipnotizava.
Hoje, com vinte e sete anos nas costas, voltava pra casa com certo orgulho pelas minhas conquistas, mesmo assim, ainda sentia que algo me faltava. Sempre acreditei que o futuro guardava algo grandioso para mim, mas com o tempo, fui apegando-me cada vez mais a realidade maçante que a sociedade impõe:
Estudar igual uma louca para fazer uma faculdade, depois, aceitar a rotina árdua do dia a dia por um salário, e claro, não menos importante, casar e ter filhos.
O que mais poderia querer? O que mais...
Era uma pergunta recorrente que eu ainda não tinha respostas.
A faculdade foi algo que lutei muito para ter, apesar da minha família sempre apoiar-me, queria conquistar as coisas por mérito próprio. Um orgulho besta talvez, mas que na minha concepção era importante.
Para começar, sempre morei no campo, ir para a escola foi um desafio diário, precisava acordar cedo e enfrentar algumas horas para chegar à cidade mais próxima. Minha família não era rica, porém tinha boas condições e sempre fui grata por isso.
Não fui privada de alimento e nem de conforto, cresci em contato com a natureza e por muitas vezes, embrenhava-me dentro da mata ficando lá por horas até alguém dar por minha falta e ir buscar-me. Era engraçado, dentro da floresta parecia que estava em casa, ou talvez seja pelo fato de ter me criado cercado pela natureza. Eu não sei.
Quando terminei o colegial saí de casa para fazer faculdade, queria ajudar as pessoas através da natureza e já tinha um bom conhecimento em medicina natural, mas não era suficiente. Com um diploma em mãos conseguiria atingir mais pessoas, então me mudei para a capital sozinha para estudar e hoje, estava voltando para casa como médica fitoterápica. Podia ter ficado lá, afinal, tinha mais oportunidades do que no interior, mas precisava voltar, algo me chamava.
Era uma estranha sensação, como se fosse acontecer alguma coisa, algo que mudaria minha vida. Até mesmo adiantei meu retorno por estar ansiosa, eu não consegui controlar a angústia, eu precisava vir agora. Sempre tive esses pressentimentos, desde criança, na verdade.
Com o tempo, aceitei que isso fazia parte de mim, eu tinha sonhos estranhos, como se lembrasse de outras vidas, ou algum lugar que ainda fosse conhecer, talvez. Meus sonhos eram misteriosos, assim como meu passado.
Fui deixada ainda bebê na porta daquela família, apenas enrolada em uma manta e com um colar relicário com uma pedra de jade, o verde é bem similar a cor dos meus olhos. O nome Selene estava gravado atrás como se esse fosse o desejo da minha família biológica. É meu amuleto da sorte e sempre o levava comigo, aquela também era a única herança das minhas raízes.
Não os julgava mais, às vezes tinha vontade de entender o porquê fui abandonada. Eu quero acreditar que não havia outro jeito, que eles sofreram ao fazer isso, assim era melhor para acalentar meu coração. Assim eu me convenci ao longo do tempo.
Meus pais de criação procuraram por um tempo, mas não tiveram sucesso. Meus pais biológicos são como fantasmas e talvez nunca os encontre, eu espero que eles lembrem de mim às vezes. Não tenho ódio no coração, eu só queria saber sobre eles.
Infelizmente, meus pais de criação morreram quando eu tinha sete anos em um acidente na estrada e dias antes, eu sonhei com o incidente. Me lembro como se tivesse sonhado ontem, ficou gravado na memória. Eu os vi dentro do carro capotado, vi quando minha mãe fechou os olhos e deu seu último suspiro. Naquele dia, acordei aterrorizada, chorando, porém, por mais que eu dissesse e implorasse para eles não irem naquela viagem, foi inútil. Então esperei impotente pelo pior.
Meu irmão mais velho, Erik, só tinha doze anos, ele me olhou estranho e me evitou por muito tempo, mas por fim, nossa avó nos uniu novamente. Ela nos deu todo o amor que poderia, mesmo em luto de perder a filha e o genro. Eles são o meu maior tesouro.
Olhei aquele aparelho quando o som parou, eu tinha que comprar um mais moderno para trocar aquela velharia, era tão antigo quanto o meu carro, pois só pegava CD e algumas faixas de rádio.
Apertei os botões tentando fazê-lo pegar novamente, mas precisei olhar com mais atenção, no entanto, assim que voltei a olhar para frente, vi um homem de pé no meio da pista.
Levei o pé ao freio de forma automática e girei o volante para conseguir desviar. O carro rodou e derrapou na estrada, depois, parou no pequeno acostamento.
SeleneO que foi aquilo?Levei a mão na cabeça, atordoada, demorei alguns segundos para recuperar os sentidos e felizmente, eu estava de cinto.— Por Deus… é um homem! — Senti o desespero. — Eu... eu o matei?O farol iluminava o homem mais na frente que ainda estava de pé, felizmente, eu não o atropelei, mas suas pernas cederam no momento seguinte e ele caiu.Apertei o volante, ele estava ferido e… O que um homem nú faz no meio da estrada em lugar desses? Há chácaras e fazendas nas proximidades, mas são distantes da rodovia. Apesar disso, eu sentia que deveria ajudá-lo, estava aflita e minha intuição era forte o suficiente para que eu saísse do carro, mesmo que racionalmente, entendesse que talvez fosse perigoso. Nervosa, desci do carro. Firmei meus pés no chão buscando o equilíbrio, minhas pernas estavam moles.Forcei-me a andar mesmo com os joelhos trêmulos, ele não estava muito longe do carro e ao redor não tinha nada além da floresta. E quando cheguei perto, fiquei horrorizada co
SeleneO homem estava em pé de braços cruzados em frente a janela, ele não se deu nem o trabalho de cobrir seu corpo, suas costas largas e músculos bem definidos estavam parcialmente cobertas por seus longos cabelos lisos. As pernas torneadas e aquela bunda... Mas ele olhou-me com seriedade e senti vontade de recuar.Respirei fundo e me recompus.— Você não deveria estar fora da cama — disse um pouco constrangida.Certamente, lindo. Uma beleza única e selvagem. Os cabelos negros combinavam com a pele bronzeada. Seus traços eram fortes e seus olhos negros... olhos profundos, misteriosos… Senti um arrepio quando me perdi naquele olhar, mesmo que breve.Que estranho.— Como está se sentindo? — perguntei finalmente entrando mais no quarto, mas ainda permaneci distante dele.Ele continuou me olhando, como se não entendesse. Seus lábios continuavam cerrados, mas os olhos percorriam meu corpo, sentia-me avaliada e desnuda. Ele parecia um guerreiro de histórias fictícias.— Você entende o qu
Selene— Não. Eu estou nervosa desde que aconteceu o acidente. Ele acordou e pareceu bem, mas não falou nada ainda. — Desviei o olhar ao responder. Eu sempre fui uma péssima mentirosa e em muitas vezes, preferia deixar tudo as claras, mas não tinha essa vontade agora.— Hum, ele deve estar atordoado ainda. — Eu também acho, é normal sentir-se assim depois de algum trauma. — Tentei falar naturalmente e abri um armário em busca de uma bandeja. — Eu vou levar alguma coisa pra ele comer, também preciso de algumas roupas.— Eu já separei algumas roupas, mas não sei se vai dar. Erik é menor que ele e até agora não acredito que conseguiu socorrer ele sozinha. Já viu a diferença de alturas entre ele e você? — Ele é um pouco alto mesmo.— Ele é bem grande em vários sentidos. — Loren sorriu ao levantar, ela colocou o prato cheio de legumes descascados na pia e parou ao meu lado de braços cruzados. — Não acha essa história muito estranha, Selene? O que esse homem fazia ali naquele lugar? Aind
DarykQuando aquela fêmea chegou mais perto, senti uma palpitação estranha em meu peito. Era uma bela fêmea, apesar de estar com meus sentidos fracos consegui sentir seu cheiro, era bom. Um aroma único que nunca senti antes. Era estranhamente sedutor.Achei gracioso o rubor na sua face por eu estar nu, eu não me importava, mas os humanos tinham outros costumes. Não resisti em chegar mais perto para sentir mais. Os cabelos escuros com leve ondas me faziam querer tocá-lo, mas o que mais me atraiu foram seus olhos cor de jade. Foi o verde mais bonito que já vi, limpos, vivos. Seus lábios cheios em um tom rosa pálido eram terrivelmente sedutores.Por um momento, esqueci de tudo e desejei prendê-la entre meus braços, abraçar suas curvas suaves tão bem expostas naquelas roupas levemente justas. Ela é pequena, delicada. Será que aguentaria a minha dominância?Duvidava.Mas isso não estava certo. Quando ela me tocou, eu reagi inesperadamente. Eu nunca reagi tão rápido assim por um simples to
Selene Alguns dias depois… Terminei de pentear os cabelos e fiz uma trança lateral, era um dia comum de trabalho. Depois que retornei, algumas encomendas surgiram, mas ainda estava recuperando algumas ervas que ficaram abandonadas na minha estufa. Vó Laura tentou cuidar, mas era trabalho demais para uma senhora de quase setenta anos, mesmo que ela insistisse em dizer que aguentava. Bem, ela se orgulhava em trabalhar ativamente todos os dias, nunca se queixava de nada, dizia que trabalharia até seu último dia de vida. Eu tinha orgulho dela. O cultivo de rosas raras e exóticas era o negócio da família, nós tínhamos grandes estufas espalhadas pela propriedade. E, era gratificante ver o resultado do nosso trabalho, mexer com plantas e flores me deixava realmente feliz, esse sentimento certamente era compartilhado com todos os trabalhadores daqui. Daryk parecia totalmente recuperado. Eu finalmente descobri seu nome depois de alguns dias de silêncio, mas era só, ele diz não lembrar d
DarykQuando aquela fêmea saiu por aquela porta, esqueci o que estava fazendo ali. Ela estava linda. As bochechas rosadas e o sorriso me prenderam de tal forma que perdi as poucas palavras que iria lhe dizer. Ela parou na minha frente e admirei seus lábios pintados com um rosa mais forte que a cor natural, o brilho sutil que me fez querer lamber e tirar.— Bom dia. Podemos ir? Sua voz gentil me trouxe calma e acenei antes de responder:— Bom dia.Ela sorriu mais e me prendi em seus olhos que estavam mais bonitos na claridade da manhã. A segui para o carro e forcei-me a desviar o olhar das suas curvas. Eu queria elogiá-la, mas talvez fosse grosseiro e não queria ofendê-la. Essa fêmea parecia sensível e eu não poderia compará-la às do meu mundo onde falávamos mais abertamente e sem pudores. Eu passei a hesitar na presença de Selene.Ela entrou no carro e acompanhei, não gostava desse tipo de transporte, mas tinha confiança nela. — A cidade é pequena, mas é bem abastecida — ela disse
Daryk— Vamos tomar uma bebida? — Selene perguntou ao segurar o chapéu para impedir que o vento levasse. Os fios soltos daquela trança voaram e senti um forte impulso de ter eles entre meus dedos. — Tem uma lanchonete aqui perto e as coisas lá são ótimas.Acenei confirmando e a segui. Apertei as alças das sacolas um pouco inquieto. Aquela situação estava me distraindo, eu não deveria estar ali pensando e agindo como se não tivesse responsabilidades. Há pouco tempo perdi minha família e guerreiros queridos, meu mundo estava morrendo e eu estava aqui satisfazendo uma fêmea que nem era minha. Eu não devia me acomodar e nem gostar da companhia dela, não havia tempo para distrações. Selene abriu a porta do lugar e nos levou para uma mesa mais afastada. Não tem lugares assim no meu mundo, nós vivemos de forma mais primitiva e próximos à natureza. Coloquei as sacolas no chão e me sentei no assento acolchoado na sua frente. — Eu gosto muito da torta de chocolate daqui e as bebidas são muito
DarykNós retornamos para sua casa e me despedi dela na porta. Quando entrei nesse lugar cedido a mim, deixei as compras em cima da mesa e sentei-me. Estava impressionado com suas percepções a meu respeito, não eram invenções de sua cabeça, ela não tinha razões para dizer aquilo se não tivesse um fundo de verdade.Fechei os olhos e me concentrei em meu interior como em tantas vezes, se eu ao menos conseguisse quebrar aquele feitiço. Mas eu não tinha o dom do meu irmão, então, não adiantava repetir suas palavras corretamente, eu não seria capaz de realizar um feitiço. Além do mais, mesmo que Selene fosse uma bruxa, não queria dizer que soubesse sobre isso, mas talvez me ajudasse a encontrar um portal. Ainda assim, as chances de acreditar em mim eram mínimas. Talvez ela só tivesse uma sensibilidade maior que os humanos comuns. — Por que me jogou nesse lugar, Arin? — murmurei com tristeza.Ainda estava na metade da tarde e os trabalhadores estavam encerrando o expediente, mas não queri