Eu ainda tentava entender aquele homem. Será que ele realmente acreditava que essa abordagem era o melhor para a Sofia? Ou seria apenas uma forma de se proteger do mundo, de não ter que lidar com algo que ele não pudesse controlar?
As perguntas dele eram tão diretas e objetivas que, por um momento, me senti como se estivesse em uma entrevista para um cargo corporativo, e não para cuidar de uma criança. Ele queria respostas práticas, sem espaço para sonhos ou fantasias — nem mesmo para uma fada do dente.
Respondi como Joana me treinou. Será que era mesmo certo fazer isso? Eu acreditava na disciplina e no esforço mas não acreditava na ideia de que o papel do pai não era estar ao lado de filho nas pequenas tarefas diárias mas sim se preocupar em apenas garantir a segurança e futuro deles. E esse era todo o conflito aqui. Aquele homem não sabia que Sofia podia ter as duas coisas.
Eu não negava que sua aparência era intimidadora. Ele era alto, imponente, cabelos e barbas escuros e impecáveis com uma postura que transmitia confiança sem esforço. Quantos anos tinha? Trinta e cinco? Trinta e oito? Os ombros largos e o porte reto faziam parecer que ele tinha sido esculpido para dominar qualquer sala em que entrasse. Sua voz grave e calma dava peso a qualquer palavra mesmo que o que ele dissesse fosse um monte de idiotice! Eu não acreditava que eu tinha dito tudo aquilo, e que ele ainda tinha gostado.
Olhei para a pobre garotinha à minha frente. Estava com os olhos marejados e prestes a chorar. Meu coração apertou. Assim que ele se afastou caminhando com Joana em direção ao escritório, aproveitei a oportunidade. Abaixei-me na altura da criança, pronta para lhe dizer algo que a fizesse sentir melhor.
— Não fique triste, querida.
Ao perceber o sorriso no meu rosto, sua expressão suavizou também.
Assim que vi que os dois haviam entrado no escritório, corri até o lixo e peguei a carta. Fiquei surpresa ao perceber que, até o lixo de pessoas ricas, era impecavelmente limpo. Parecia difícil de acreditar, mas o único item na lixeira era a cartinha e o saquinho com o dentinho de Sofia.
— Pronto, querida. Peguei.
A garotinha ainda estava com os olhos abaixados e lacrimejantes quando olhou para mim. Mas eu os sequei e perguntei:
— É uma carta para a fada do dente? Por que não dá para mim? Eu entrego, conheço ela.
— Mas papai disse que ela não existe…
— É porque ele nunca a viu, mas eu e Joana sabemos a verdade. Aposto que você vai encontrar uma linda moeda pela manhã.
— Eu não quero uma moeda.
— Não? O que você quer?
— Você conhece mesmo a fada? Me promete que vai entregar a carta para ela?
Meu coração parou por um segundo. O que será que há na carta, se não é apenas um pedido de uma moeda? Por que é tão importante que a fada do dente a leia? Apesar dessas dúvidas, decidi pegar a carta e acabei fazendo uma promessa à garotinha ansiosa a minha frente.
— Eu prometo. Meu nome é Celina. — Me apresentei novamente.
— Eu sou a Sofia. Muito prazer.
— O prazer é meu, Sofia. Mas… eu não quero te pedir para mentir, porque isso é errado, ouviu? Isso é muito errado.
— Sim, babá Celina. Mentir é errado.
— Que bom que nos entendemos. Mas seu pai é um homem ocupado, que tal não contarmos a ele que eu vou entregar a cartinha?
— Eu não posso mentir — respondeu ela travando uma batalha interna. — Mas se ele souber que você vai entregar, pode te demitir também, como fez com a Jojo. E agora?
— Vamos fazer assim: se ele perguntar, fale a verdade. Mas se ele sair por aquela porta e não perguntar nada, ficamos quietas. Que tal?
— Pode ser uma boa ideia. Se ele perguntar contamos.
— Contamos — eu disse com firmeza.
— Mas se ele não perguntar… não diremos nada…
Coloquei a cartinha na minha bolsa. Juro que eu e ela quase fizemos uma oração para que ele tivesse esquecido da cartinha. Naquele momento, o senhor Gabriel e Joana deixaram o escritório e começaram a se aproximar de nós. Eu não queria ensinar a garotinha a mentir, mas aquele bilhete parecia ser muito importante para ela. O que quer que estivesse escrito ali significava demais para Sofia.
É claro que fadas do dente não existiam, mas ela era uma garotinha rica! O que teria pedido naquele papel que não pudesse pedir ao próprio pai e precisaria recorrer a um ser imaginário para conseguir? Sentia no coração que poderia ajudá-la.
Eles se aproximaram, e eu quis sair da recepção luxuosa imediatamente para evitar ouvi-lo fazer qualquer pergunta. Mas, quando fiz menção de ir embora, a voz rouca, firme e grave ressoou.
— Nos vemos amanhã, Celina?
— Sim, senhor, está tudo perfeito.
— Tenho uma reunião em cinco minutos. Você vai embora pela manhã? — perguntou ele à Joana.
— Sim, senhor. Assim que a Celina chegar amanhã cedo, eu irei.
— Perfeito. Obrigada pelos seus serviços.
Ele se virou para ir embora e Sofia o abraçou. Percebendo que o pai não se movia, ela se afastou e murmurou:
— Desculpe, papai.
Quase consegui perceber uma tristeza silenciosa nos olhos dele quando não respondeu ao abraço da garotinha. Parecia que ele queria retribuir aquele gesto de carinho, mas, apesar disso, se manteve distante. Seu semblante continuava frio, mas, ao contrário do que eu esperava, ele não a repreendeu com dureza. Em vez disso, apenas disse:
— Nos vemos em casa, Sofia.
— Você vai tomar café da manhã comigo, amanhã?
Ele respirou e eu percebi que ele não queria fazer isso, mas disse:
— Sim.
— Papai, podemos tomar café às oito horas? Tenho aula de piano às nove. Você vai estar lá?
— Sim, estarei lá às oito horas.
Ele se virou e entrou no escritório. Joana continuou com o plano de fingir que não era minha amiga e foi embora com Sofia. Me vi sozinha na recepção com o bilhete escondido na bolsa.
Retirei-o, abri e li:
"Querida fada do dente
Você pode me ajudar? Eu dou meu dente para você, se fizer o papai sorrir de novo."
Meu coração se apertou. Que desejo era aquele? Eu sabia que não podia deixar isso assim, mas o que eu poderia fazer por ela? Não conseguia entender o que estava acontecendo, mas algo me dizia que a promessa que eu fizera podia ser mais difícil de cumprir do que eu imaginava.
Estava quase na hora de Celina chegar, e Sofia ainda dormia. Eu já tinha me despedido no dia anterior. Agora sairia assim que Celina chegasse; não queria que Sofia me visse partir e ficasse triste outra vez. O novo emprego era maravilhoso, e eu já conhecia a família. Mas ficar lá e deixar Sofia com alguém que eu não conhecia significaria quebrar minha promessa. Mas com Celina ali, daria tudo certo. Ela é a única pessoa além de mim, que seria capaz de amar tanto Sofia quanto eu. Olhei para a casa onde tinha morado nos últimos doze meses. A avó de Sofia, Regina, havia imposto ao senhor Gabriel que me contratasse e garantiu que eu continuasse ali. Mas fazia dois meses que ela tinha morrido, e isso era tudo o que o senhor CEO precisava para me colocar para fora. Ele nunca concordou com os meus métodos. Achava que eu mimava Sofia demais. E eu? Não soube lidar com ele. Não soube me impor, me defender e, principalmente, defender Sofia. Mas Celina conseguiria. Para c
Assim que Joana deixou a casa, me vi nervosa. Não passava um dia sem que eu pensasse naquela noite que tudo mudou. Eu sei como Joana se sentia, eu me sentia igual. Eu sei que laços de amor nos prendiam e era por isso que eu ia cuidar da pequena Sofia. Mas eu não sei como iria conseguir. Se Joana com toda sua gentileza e carinho não conseguiu, eu não tinha chance. Eu não era doce e nem sabia iluminar a vida das pessoas ao meu redor. Eu só tinha… inteligência. Inteligência que eu passei a vida toda tentando esconder. No meu programa de mestrado, eu era sempre vista como arrogante e mandona, só por questionar as coisas. E agora estava em um lugar onde eu não poderia questionar. Precisava ser exatamente o que Gabriel queria. Fiquei sentada relembrando o passado com a minha mala na mão. Divagando, não perguntei a governanta onde era meu quarto e quando me lembrei, já era tarde demais. Pequenos passos interromperam meus pensamentos. Olhei para o lado e vi
— Celina. — Pois não, senhor. Precisa de alguma coisa? — continuei fingindo inocência. — A Joana não deixou a agenda de Sofia com você? — Deixou sim, senhor. — A culpa é de quem por esse atraso, então? Sofia não quis vir e eu devo castigá-la por ser desobediente ou foi a … que errou e atrasou as duas? Fiquei paralisada. Uma de nós duas estaria encrencada de qualquer forma. Respirei fundo e respondi: — Eu entendo sua frustração, senhor Gabriel. A culpa é minha, sim. Eu deveria ter supervisionado melhor e garantido que Sofia não se atrasasse. Vou me certificar de que isso não se repita. Porém, também é importante que Sofia entenda que a responsabilidade é compartilhada. Ela precisa aprender que, em alguns momentos, precisa tomar a iniciativa para evitar esse tipo de erro. Vamos usar isso como uma lição para todos nós — respondi sem acreditar em nada do que eu dizia, mas torcendo para fosse o que ele queria ouvir. Meu corpo relaxou quando ele disse
Nunca devia ter acreditado que Sofia escolheria uma punição condizente com o meu erro. Ela era uma criança, com a pureza ingênua de quem ainda não compreende o peso das responsabilidades adultas. Não fazia ideia do que um dia de minha ausência na empresa poderia causar. Para ela, tudo parecia simples, direto, sem consequências de longo prazo. Um dia sem trabalhar? Seu pedido tinha um preço. Um preço alto demais. Eu não podia simplesmente me afastar. A MD Tecnologias e Informação não era apenas um negócio, era o legado da minha família, algo que construí tijolo por tijolo, com sacrifício e disciplina. Cada decisão que tomei, cada noite sem dormir, cada oportunidade que agarrei ou deixei escapar estava impregnada na estrutura daquela empresa. Tudo dependia de mim. Meus funcionários, meus clientes, os investidores — todos esperavam minha liderança inabalável. Mas ali estava Sofia, me olhando com aqueles olhos grandes, repletos de uma expectativa que me desarma
Fechei os olhos por um instante e expirei lentamente. — Está bem, Sofia — concordei. Olhei para ela, e seu sorriso ocupava metade do rosto. Era contagiante vê-la tão feliz, e isso aqueceu meu coração. Mas, junto com essa alegria, surgia a responsabilidade: para que ela continuasse assim, eu precisava garantir que estava preparando-a para o futuro. Tudo bem, eu poderia fazer os dois mundos funcionarem. Ficaria com Sofia e trabalharia de casa. Simples, aqui tinha tudo o que eu precisava, poderia fazer meu trabalho daqui por um dia. Só precisava avisar meu assistente. Estava prestes a pegar o telefone quando, como se pudesse ler meus pensamentos, a Celina me surpreendeu ao dizer: — Não pode passar o dia no telefone ou no computador, senhor. Sua punição é ficar um dia sem trabalhar. Eu estava com o celular na orelha, depois de discar o número do meu assistente, Matheus, quando a frase dela me atingiu como um soco. Sem conseguir processar dir
— Droga! Eu não sou uma pessoa desastrada! Como isso aconteceu? A exclamação ecoou pela cozinha vazia enquanto eu olhava, incrédula, para a blusa encharcada. Água escorria pelo tecido e grudava na minha pele, gelada e incômoda. Ótimo. Como se eu já não tivesse preocupações suficientes, agora estava ali, parecendo uma pessoa que não sabia segurar um copo. Se Gabriel me visse assim, teria um treco. A culpa era de Joana, falei para não ficar me ligando no serviço. Eu estou fazendo o meu melhor, me pressionar não vai fazer o plano andar mais rápido. Mas Joana era teimosa, e eu me frustrei, não prestei atenção e derrubei água em mim. Por sorte, Joana tinha me avisado sobre como o senhor pontualidade gostava de tudo impecável—rigoroso até nos mínimos detalhes. Não era à toa que, evitando imprevistos como esse, eu tinha sido esperta o suficiente para providenciar um esquema infalível: roupas idênticas para emergências. Nada de perder tempo escolhendo outra coisa ou su
O motorista aguardava do lado de fora do carro de luxo, impecável em seu uniforme de paletó perfeitamente alinhado, luvas brancas imaculadas e um quepe sem uma única dobra fora do lugar. Sua postura era rígida, profissional, como se estivesse em um posto de honra. Assim que nos aproximamos, ele deu um discreto passo à frente e, com um gesto preciso e calculado, abriu a porta, pronto para receber Gabriel com a mesma formalidade de sempre. Seu olhar discreto e postura impecável deixavam claro que ele estava acostumado a atender homens de alto escalão — e que nada, nem mesmo um passeio fora da rotina, quebraria sua disciplina. No entanto, Sofia, com o brilho da travessura nos olhos, resolveu testar os limites do pai. Antes que ele entrasse, lançou a sugestão inesperada: — Papai, não acha que seria mais divertido se você dirigisse? Gabriel franziu a testa, claramente desconfortável com a ideia. — Sofia, temos um motorista para isso. — Mas, pap
Gabriel permaneceu imóvel por um momento, o rosto fechado, mas seus olhos não mentiam. Ele inclinou ligeiramente a cabeça para o lado, um brilho de desafio piscando por um instante. — Só o excepcional pode ser o vencedor — disse, sua voz firme, com um tom de convicção que ressoava no ambiente, carregada de orgulho. — E eu sou competente em tudo. Sou o CEO da maior empresa desta cidade, e isso não tem nada a ver com expectativas, Sofia. Tem a ver com estar sempre à frente dos nossos adversários, sabendo mais do que eles pensam que sabemos. É assim que os vencemos, quando eles nos subestimam. Havia algo de imbatível na forma como ele falou. Era como se estivesse se colocando em uma posição superior, não apenas pela sua experiência, mas por uma crença inabalável de que era capaz de dominar qualquer situação. Seu olhar agora era de puro desafio, como se estivesse esperando que eu me retratasse. Mas eu fiquei quieta. A mudança de postura foi instantânea e um c