Celina - Capítulo 5

          Assim que Joana deixou a casa, me vi nervosa. Não passava um dia sem que eu pensasse naquela noite que tudo mudou. Eu sei como Joana se sentia, eu me sentia igual. Eu sei que laços de amor nos prendiam e era por isso que eu ia cuidar da pequena Sofia.

       Mas eu não sei como iria conseguir. Se Joana com toda sua gentileza e carinho não conseguiu, eu não tinha chance. Eu não era doce e nem sabia iluminar a vida das pessoas ao meu redor. Eu só tinha… inteligência. Inteligência que eu passei a vida toda tentando esconder.

       No meu programa de mestrado, eu era sempre vista como arrogante e mandona, só por questionar as coisas. E agora estava em um lugar onde eu não poderia questionar. Precisava ser exatamente o que Gabriel queria.

    Fiquei sentada relembrando o passado com a minha mala na mão. Divagando, não perguntei a governanta onde era meu quarto e quando me lembrei, já era tarde demais.

       Pequenos passos interromperam meus pensamentos. Olhei para o lado e vi Sofia com seu pijaminha lilás e o cabelo bagunçado, perguntando:

       — Jojo já foi?

      — Sim, querida. Mas ela vai te visitar sempre que puder.

     — Vou sentir saudade dela. E o papai? Está aqui?

      — Não. Eu não o vi.

     — Ele sempre diz que vai tomar café comigo, mas sempre vai trabalhar antes.

     Ela me lançou um olhar triste, e eu disse:

      — Mas você tem a mim. Vamos nos divertir.

      — Oh, não. Tenho aula de piano em dez minutos.

    Droga, eu ainda não tinha lido a agenda. Olhei para o papel e, por sorte, o tutor ia até a casa. Escondi minha mala em um canto da cozinha.

      — Sofia, vamos lá em cima para você se trocar.

     — Eu gosto muito de fazer aulas de piano, babá Celina. Mas são muitas aulas. Queria fazer menos.

      — Eu entendo, querida. Devagar vamos conversando com o seu pai.

      — Era o que a Jojo tentava, mas ele nunca a escutou.

     Tomei um susto quando fui informada pela governanta de que o professor já havia chegado e estava esperando Sofia na sala.

       — Ele já está aí.

       — Deixa eu ir de pijama — pediu ela.

     A aula era na mansão mesmo, então pensei que não teria problema. Apenas penteei seu cabelo para trás, coloquei um biscoito em sua mão e a mandei para a sala. Antes de ir, ela olhou para trás e perguntou:

      — Você entregou?

     Me assustei, sem entender do que ela estava falando.

     — Entreguei o quê?

     — A carta! Para a fada do dente!

      Ah, a carta.

      — Entreguei sim.

      — E o que ela disse?

      — Disse para você não se preocupar.

       Ela me encarou com um ar incisivo, e eu completei:

    — Ela já tem até um plano. Mas como eu não sei o que você pediu, pode me dizer do que se trata?

     — Não. Quando se realizar, eu te conto.

    Quando Sofia se sentou ao piano de pijama, o professor e a governanta me lançaram olhares chocados. Fiquei sem entender qual era o problema até que a governanta disse:

      — Celina, se o senhor Gabriel vê-la vestida desse jeito, ficará muito chateado.

      Perdi completamente a linha de raciocínio ao perceber que ele poderia descer as escadas a qualquer momento. O

Senhor Gabriel… Não, me recuso a chamá-lo assim — pelo menos, nos meus pensamentos. O homem nem é tão mais velho do que eu e Joana. "Senhor" é para pessoas idosas ou para quem respeitamos. Ele não se enquadrava em nenhuma dessas categorias, pelo menos para mim.

        Corri até Sofia, pedi licença por um segundo aos presentes e subi as escadas apressada.

      — Sofia, temos que colocar a roupa de piano.

      — Eu não tenho roupa de piano — informou ela enquanto eu tentava tirar o pijama de seu corpinho da forma mais desajeitada possível.

      — Querida, o que você veste para tocar piano?

      — Uma daquelas roupas ali.

    Ela apontou para a área do guarda-roupa repleta de tons cinzas, típicas das garotas ricas. Revirei os olhos. Pelo menos todas as roupas já estavam passadas. Ajeitei a menina às pressas e, para disfarçar o cabelo, prendi-o em um rabo de cavalo. Perfeita. Abaixei na altura dos olhos dela e disse:

    — Haverá vezes que eu serei firme para o seu papai ficar contente, está bem? Mas só na frente dele.

     — Por que, se você não fizer isso, ele vai te tirar daqui igual tirou a Jojo?

     — É provável que sim.

    — Eu entendo. Vamos descer?

    — Sim.

     Quando cheguei lá embaixo, encontrei o professor de piano tremendo enquanto encarava Gabriel. Só então percebi o motivo de o homem ter chegado adiantado: medo. O olhar de Gabriel estava fixo no relógio, que já marcava dois minutos de atraso para o início da aula.

      — Celina.

      — Pois não, senhor — fingi inocência.

     — Está dois minutos atrasada para a aula de piano.

    — O senhor está certo, senhor Gabriel. A pontualidade é fundamental, e vou garantir que isso não se repita. O tempo é valioso e que todos os compromissos devem ser respeitados.

     Ele não disse nada, mas fez uma cara de decepção. Acompanhei Sofia até o banco do piano e murmurei em seu ouvido:

     — Não se preocupe, querida. Agora, vamos lá, você vai arrasar na aula de piano!

    Fiz minha melhor expressão séria e gesticulei para que Sofia se sentasse ao piano. Ela obedeceu sem discutir. Deixei-os e fui para a cozinha, mas logo percebi que o homem de terno impecável vinha atrás de mim.

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