Assim que Joana deixou a casa, me vi nervosa. Não passava um dia sem que eu pensasse naquela noite que tudo mudou. Eu sei como Joana se sentia, eu me sentia igual. Eu sei que laços de amor nos prendiam e era por isso que eu ia cuidar da pequena Sofia.
Mas eu não sei como iria conseguir. Se Joana com toda sua gentileza e carinho não conseguiu, eu não tinha chance. Eu não era doce e nem sabia iluminar a vida das pessoas ao meu redor. Eu só tinha… inteligência. Inteligência que eu passei a vida toda tentando esconder.
No meu programa de mestrado, eu era sempre vista como arrogante e mandona, só por questionar as coisas. E agora estava em um lugar onde eu não poderia questionar. Precisava ser exatamente o que Gabriel queria.
Fiquei sentada relembrando o passado com a minha mala na mão. Divagando, não perguntei a governanta onde era meu quarto e quando me lembrei, já era tarde demais.
Pequenos passos interromperam meus pensamentos. Olhei para o lado e vi Sofia com seu pijaminha lilás e o cabelo bagunçado, perguntando:
— Jojo já foi?
— Sim, querida. Mas ela vai te visitar sempre que puder.
— Vou sentir saudade dela. E o papai? Está aqui?
— Não. Eu não o vi.
— Ele sempre diz que vai tomar café comigo, mas sempre vai trabalhar antes.
Ela me lançou um olhar triste, e eu disse:
— Mas você tem a mim. Vamos nos divertir.
— Oh, não. Tenho aula de piano em dez minutos.
Droga, eu ainda não tinha lido a agenda. Olhei para o papel e, por sorte, o tutor ia até a casa. Escondi minha mala em um canto da cozinha.
— Sofia, vamos lá em cima para você se trocar.
— Eu gosto muito de fazer aulas de piano, babá Celina. Mas são muitas aulas. Queria fazer menos.
— Eu entendo, querida. Devagar vamos conversando com o seu pai.
— Era o que a Jojo tentava, mas ele nunca a escutou.
Tomei um susto quando fui informada pela governanta de que o professor já havia chegado e estava esperando Sofia na sala.
— Ele já está aí.
— Deixa eu ir de pijama — pediu ela.
A aula era na mansão mesmo, então pensei que não teria problema. Apenas penteei seu cabelo para trás, coloquei um biscoito em sua mão e a mandei para a sala. Antes de ir, ela olhou para trás e perguntou:
— Você entregou?
Me assustei, sem entender do que ela estava falando.
— Entreguei o quê?
— A carta! Para a fada do dente!
Ah, a carta.
— Entreguei sim.
— E o que ela disse?
— Disse para você não se preocupar.
Ela me encarou com um ar incisivo, e eu completei:
— Ela já tem até um plano. Mas como eu não sei o que você pediu, pode me dizer do que se trata?
— Não. Quando se realizar, eu te conto.
Quando Sofia se sentou ao piano de pijama, o professor e a governanta me lançaram olhares chocados. Fiquei sem entender qual era o problema até que a governanta disse:
— Celina, se o senhor Gabriel vê-la vestida desse jeito, ficará muito chateado.
Perdi completamente a linha de raciocínio ao perceber que ele poderia descer as escadas a qualquer momento. O
Senhor Gabriel… Não, me recuso a chamá-lo assim — pelo menos, nos meus pensamentos. O homem nem é tão mais velho do que eu e Joana. "Senhor" é para pessoas idosas ou para quem respeitamos. Ele não se enquadrava em nenhuma dessas categorias, pelo menos para mim.Corri até Sofia, pedi licença por um segundo aos presentes e subi as escadas apressada.
— Sofia, temos que colocar a roupa de piano.
— Eu não tenho roupa de piano — informou ela enquanto eu tentava tirar o pijama de seu corpinho da forma mais desajeitada possível.
— Querida, o que você veste para tocar piano?
— Uma daquelas roupas ali.
Ela apontou para a área do guarda-roupa repleta de tons cinzas, típicas das garotas ricas. Revirei os olhos. Pelo menos todas as roupas já estavam passadas. Ajeitei a menina às pressas e, para disfarçar o cabelo, prendi-o em um rabo de cavalo. Perfeita. Abaixei na altura dos olhos dela e disse:
— Haverá vezes que eu serei firme para o seu papai ficar contente, está bem? Mas só na frente dele.
— Por que, se você não fizer isso, ele vai te tirar daqui igual tirou a Jojo?
— É provável que sim.
— Eu entendo. Vamos descer?
— Sim.
Quando cheguei lá embaixo, encontrei o professor de piano tremendo enquanto encarava Gabriel. Só então percebi o motivo de o homem ter chegado adiantado: medo. O olhar de Gabriel estava fixo no relógio, que já marcava dois minutos de atraso para o início da aula.
— Celina.
— Pois não, senhor — fingi inocência.
— Está dois minutos atrasada para a aula de piano.
— O senhor está certo, senhor Gabriel. A pontualidade é fundamental, e vou garantir que isso não se repita. O tempo é valioso e que todos os compromissos devem ser respeitados.
Ele não disse nada, mas fez uma cara de decepção. Acompanhei Sofia até o banco do piano e murmurei em seu ouvido:
— Não se preocupe, querida. Agora, vamos lá, você vai arrasar na aula de piano!
Fiz minha melhor expressão séria e gesticulei para que Sofia se sentasse ao piano. Ela obedeceu sem discutir. Deixei-os e fui para a cozinha, mas logo percebi que o homem de terno impecável vinha atrás de mim.
— Celina. — Pois não, senhor. Precisa de alguma coisa? — continuei fingindo inocência. — A Joana não deixou a agenda de Sofia com você? — Deixou sim, senhor. — A culpa é de quem por esse atraso, então? Sofia não quis vir e eu devo castigá-la por ser desobediente ou foi a … que errou e atrasou as duas? Fiquei paralisada. Uma de nós duas estaria encrencada de qualquer forma. Respirei fundo e respondi: — Eu entendo sua frustração, senhor Gabriel. A culpa é minha, sim. Eu deveria ter supervisionado melhor e garantido que Sofia não se atrasasse. Vou me certificar de que isso não se repita. Porém, também é importante que Sofia entenda que a responsabilidade é compartilhada. Ela precisa aprender que, em alguns momentos, precisa tomar a iniciativa para evitar esse tipo de erro. Vamos usar isso como uma lição para todos nós — respondi sem acreditar em nada do que eu dizia, mas torcendo para fosse o que ele queria ouvir. Meu corpo relaxou quando ele disse
Nunca devia ter acreditado que Sofia escolheria uma punição condizente com o meu erro. Ela era uma criança, com a pureza ingênua de quem ainda não compreende o peso das responsabilidades adultas. Não fazia ideia do que um dia de minha ausência na empresa poderia causar. Para ela, tudo parecia simples, direto, sem consequências de longo prazo. Um dia sem trabalhar? Seu pedido tinha um preço. Um preço alto demais. Eu não podia simplesmente me afastar. A MD Tecnologias e Informação não era apenas um negócio, era o legado da minha família, algo que construí tijolo por tijolo, com sacrifício e disciplina. Cada decisão que tomei, cada noite sem dormir, cada oportunidade que agarrei ou deixei escapar estava impregnada na estrutura daquela empresa. Tudo dependia de mim. Meus funcionários, meus clientes, os investidores — todos esperavam minha liderança inabalável. Mas ali estava Sofia, me olhando com aqueles olhos grandes, repletos de uma expectativa que me desarma
Fechei os olhos por um instante e expirei lentamente. — Está bem, Sofia — concordei. Olhei para ela, e seu sorriso ocupava metade do rosto. Era contagiante vê-la tão feliz, e isso aqueceu meu coração. Mas, junto com essa alegria, surgia a responsabilidade: para que ela continuasse assim, eu precisava garantir que estava preparando-a para o futuro. Tudo bem, eu poderia fazer os dois mundos funcionarem. Ficaria com Sofia e trabalharia de casa. Simples, aqui tinha tudo o que eu precisava, poderia fazer meu trabalho daqui por um dia. Só precisava avisar meu assistente. Estava prestes a pegar o telefone quando, como se pudesse ler meus pensamentos, a Celina me surpreendeu ao dizer: — Não pode passar o dia no telefone ou no computador, senhor. Sua punição é ficar um dia sem trabalhar. Eu estava com o celular na orelha, depois de discar o número do meu assistente, Matheus, quando a frase dela me atingiu como um soco. Sem conseguir processar dir
— Droga! Eu não sou uma pessoa desastrada! Como isso aconteceu? A exclamação ecoou pela cozinha vazia enquanto eu olhava, incrédula, para a blusa encharcada. Água escorria pelo tecido e grudava na minha pele, gelada e incômoda. Ótimo. Como se eu já não tivesse preocupações suficientes, agora estava ali, parecendo uma pessoa que não sabia segurar um copo. Se Gabriel me visse assim, teria um treco. A culpa era de Joana, falei para não ficar me ligando no serviço. Eu estou fazendo o meu melhor, me pressionar não vai fazer o plano andar mais rápido. Mas Joana era teimosa, e eu me frustrei, não prestei atenção e derrubei água em mim. Por sorte, Joana tinha me avisado sobre como o senhor pontualidade gostava de tudo impecável—rigoroso até nos mínimos detalhes. Não era à toa que, evitando imprevistos como esse, eu tinha sido esperta o suficiente para providenciar um esquema infalível: roupas idênticas para emergências. Nada de perder tempo escolhendo outra coisa ou su
O motorista aguardava do lado de fora do carro de luxo, impecável em seu uniforme de paletó perfeitamente alinhado, luvas brancas imaculadas e um quepe sem uma única dobra fora do lugar. Sua postura era rígida, profissional, como se estivesse em um posto de honra. Assim que nos aproximamos, ele deu um discreto passo à frente e, com um gesto preciso e calculado, abriu a porta, pronto para receber Gabriel com a mesma formalidade de sempre. Seu olhar discreto e postura impecável deixavam claro que ele estava acostumado a atender homens de alto escalão — e que nada, nem mesmo um passeio fora da rotina, quebraria sua disciplina. No entanto, Sofia, com o brilho da travessura nos olhos, resolveu testar os limites do pai. Antes que ele entrasse, lançou a sugestão inesperada: — Papai, não acha que seria mais divertido se você dirigisse? Gabriel franziu a testa, claramente desconfortável com a ideia. — Sofia, temos um motorista para isso. — Mas, pap
Gabriel permaneceu imóvel por um momento, o rosto fechado, mas seus olhos não mentiam. Ele inclinou ligeiramente a cabeça para o lado, um brilho de desafio piscando por um instante. — Só o excepcional pode ser o vencedor — disse, sua voz firme, com um tom de convicção que ressoava no ambiente, carregada de orgulho. — E eu sou competente em tudo. Sou o CEO da maior empresa desta cidade, e isso não tem nada a ver com expectativas, Sofia. Tem a ver com estar sempre à frente dos nossos adversários, sabendo mais do que eles pensam que sabemos. É assim que os vencemos, quando eles nos subestimam. Havia algo de imbatível na forma como ele falou. Era como se estivesse se colocando em uma posição superior, não apenas pela sua experiência, mas por uma crença inabalável de que era capaz de dominar qualquer situação. Seu olhar agora era de puro desafio, como se estivesse esperando que eu me retratasse. Mas eu fiquei quieta. A mudança de postura foi instantânea e um c
Por que parece tão difícil simplesmente sorrir para minha filha? Eu costumava fazer isso o tempo todo. Mas agora, há uma barreira invisível entre mim e esse sorriso. É como se ele estivesse preso, como se uma parte de mim tivesse se perdido em algum lugar do passado, em alguma época onde as coisas eram mais simples, onde minha conexão com Sofia era genuína e natural. Agora, há uma hesitação, uma distância que eu não sei explicar, mas que sinto com toda a intensidade. Fazia anos que não dirigia um carro. Claro que teria dificuldades no começo, mas logo fui me lembrando dos movimentos, dos gestos automaticamente. Eu estava, na verdade, ensinando Sofia uma lição — a de que sempre se deve saber mais do que se aparenta. Isso era algo que eu sabia fazer muito bem: surpreender os outros. Não fiquei surpreso da Celina me subestimar. Com certeza, para ela, eu era apenas mais um homem rico, acostumado a ter tudo feito por outras pessoas, sem nunca precisar levantar
Gabriel estava estranhamente quieto quando chegamos ao parque. Ele parecia absorver cada detalhe ao redor, talvez em um esforço para manter sua postura de líder, ainda que tudo ao seu redor fosse uma lembrança de sua vulnerabilidade. Quando ele desceu do carro, saindo diretamente do ambiente climatizado, o calor abafado do verão o atingiu com força, como uma onda pesada. Ele levou um momento para ajustar os ombros, mas logo foi possível vê-lo começar a suar sob aquele terno preto, o tecido pesado, que de alguma forma parecia intensificar o desconforto. Ah, sim, querido, o mundo não é feito com ar condicionado, pensei, com uma pontada de satisfação silenciosa. Bem-vindo ao mundo dos mortais, pensei. Ele ergueu os olhos para o céu, como se tentasse desafiar o sol que o observava lá de cima, uma esfera inclemente e implacável. O calor parecia zombar dele, um lembrete irônico de que até os mais poderosos não podem escapar de algumas forças. Gabriel, no entanto, não se de