SARAH
Meus pais sempre foram pessoas admiráveis. Apesar de sermos pobres, eles sempre fizeram questão de nos incentivar a estudar, porque para eles, isso era algo que jamais ninguém poderia nos tirar.
Meu pai costumava dizer que — A lâmina de uma gilete é afiada, mas não corta uma árvore com tanta eficiência. E minha mãe completava a frase dele dizendo — O machado é forte, mas não corta os cabelos com tanta delicadeza. Eles sempre repetiam isso para mim e para meu irmão Caio.
Eles nos diziam que todo mundo é importante de acordo com seus próprios propósitos. E que jamais deveríamos olhar para alguém com desprezo ou de cabeça baixa, exceto se fosse para admirar seus sapatos.
Eu tinha o maior orgulho dos meus pais, eles poderiam não ter completado seus estudos, mas tinham uma grande sabedoria. Meu pai, mal conseguia assinar seu nome, mas levantava uma casa da planta em poucos dias e sem erros.
Minha mãe, era um pouco mais estudada, porém, não conseguiu concluir seus estudos porque engravidou de mim ainda muito nova, e só lhe restou trabalhar, porque foi colocada para fora de casa pelos meus avós, assim se tornou uma excelente cabeleireira e tinha seu próprio pequeno salão.
Eles sempre fizeram questão de pagar pelos nossos estudos, e não nos permitiam faltar um único dia de aula se não fosse pelo fato de doença. Lembro-me que uma vez cheguei em casa comentando um texto que a professora leu em sala de aula de Mario Quintana que dizia — “Os livros não mudam o Mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”. Depois desse dia meu pai passou a ser um grande admirador desse poeta.
Quando concluir meu ensino médio, meus pais fizeram questão que eu cursasse uma faculdade, eu seria a primeira da família a ter curso superior e isso os enchia de orgulho.
Eles até permitiram que eu trabalhasse com minha mãe, desde que o valor fosse para ajudar a pagar minha faculdade de fisioterapia, que sempre deixei claro que tinha interesse em fazer.
Desde o dia em que vi um médico fisioterapeuta ajudar o filho de um conhecido nosso a voltar a andar, achei um verdadeiro milagre e disse na época disse que um dia também seria uma médica que faria milagres.
Certo dia, enquanto estava na faculdade, recebi uma ligação do meu irmão pedindo para eu voltar para casa, pois a comunidade em que morávamos estava sendo invadida pela polícia em uma ação à criminalidade.
Até tentei ir para casa, mas fui impedida na entrada da comunidade por conta da enorme troca de tiros que estava acontecendo. Resultado desse confronto… meus pais mortos por balas perdidas e meu irmão revoltado com a polícia.
Aquele dia havia sido o pior da minha vida. Não é fácil você perder um pai ou uma mãe de forma trágica, imagina perder ambos ao mesmo tempo. Perdemos a base de nossa família e consequentemente meu irmão perdeu o rumo de sua vida.
Houve um grande protesto em nossa comunidade, cobrando justiça por aquelas mortes. Não foram só meus pais que foram assassinados naquele dia, existiram mais outras quatro pessoas mortas ou por engano, ou por bala perdida.
Nenhum traficante e nenhum policial teve o mesmo fim. A pressão na mídia foi tão grande pelos erros cometidos naquela operação, que começaram a procurar culpados.
Com isso começou a chegar ameaças as famílias das vítimas mortas naquele dia, o que revoltou ainda mais meu irmão, que apesar de todo meu conselho, se juntou as pessoas erradas para proteger a comunidade, segundo eles.
Eu pensei que após a morte dos meus pais, minha vida já estava muito ruim, mas após as escolhas erradas do meu irmão, tudo ficou ainda pior.
Quando chegava da faculdade encontrava dentro de nossa casa vários homens que nem conhecia e que muitas vezes me causavam medos. Continue com o salão da minha mãe nos momentos em que não estava estudando, e dessa forma evitava passar muito tempo em casa.
Me mantive a margem de tudo, como meus pais nos ensinaram. Cada um é responsável pelos seus atos, nunca deixei de aconselhar ou tentar orientar meu irmão, mas ele já tinha uma opinião formada de tudo aquilo e eu não tinha mais o poder de mudá-lo. Ele ficou fascinado pelas facilidades e entrou de cabeça em tudo.
Certo dia, quando cheguei em casa, encontrei uma festa rolando. Em todo local para onde olhava existiam pessoas que eu não conhecia. Encontrei meu irmão sentado no sofá conversando com um cara todo cheio de tatuagem e que ele se esforçava para impressionar.
No colo desse cara existia uma mulher com uma roupa que mais parecia pedaços de pano, porque não cobria quase nada de seu corpo. Eu estava exausta do meu dia trabalhado, e sonhava com minha cama na volta para minha casa.
No entanto, fui surpreendida pelo funk alto que estava tocando, por pessoas amontoadas em tudo que era lugar. Mal dava para enxergar com a quantidade de fumaça naquele local, a raiva me consumiu e dirigir todo aquele sentimento a uma única pessoa responsável por ele… meu irmão.
Fui até o Caio cega de tanta raiva. Nunca havíamos brigado por nada, mas sabia que aquela seria nossa primeira vez e não seria bonito. Antes de chegar até ele, fui até o som que estava no caminho e simplesmente puxei o fio da tomada. Aquilo chamou a atenção de todos para mim, a única estranha no ambiente.
— Caio, precisamos conversar! — Gritei para meu irmão.
— Você está louca, Sarah! — Ele gritou de volta. — Liga a porra do som agora!
— A casa não é somente sua, Caio. Estou cansada e querendo descansar. Se você passar o dia todo fazendo sabe-se lá o quer, eu passei o dia todo estudando e trabalhando. Tenho o total direito ao descanso, você não acha?
— Você pode ir para casa de qualquer amiguinha metida que você pode ter. Hoje prometi aos manos uma noite de festa. — E todos bateram palma com o discurso do meu irmão, menos o cara tatuado em sua frente.
— Acredito que já aguentei muito de suas palhadas, Caio. Se você quer dar uma festa, isso é um problema seu, mas faça em um local diferente de nossa casa.
— A casa também é minha e faço o que bem-quiser. — Ele disse, levantando-se.
— Nossos pais sempre foram pessoas honrosas, Caio. Sempre respeitaram todos os vizinhos e tinham o respeito de todos. Você realmente acredita que eles não estão se sentindo incomodados com esse som?
— Fodam-se todos eles. Quem você pensa que é para me dar lição de moral, sua vadia? — Ele disse, completamente irritado como nunca o vira antes.
— Calma, garoto, não precisa ofender a dama. Acredito que ela esteja somente cansada, como ela mesma falou. E, por um lado, ela está com a razão. Você precisa aprender que não pode se indispor com a comunidade, você precisa dela para se proteger. Como se chama, marrentinha? — Aquele homem tatuado perguntou.
Apenas olhei para ele, que saiu em minha defesa, mas permaneci em silêncio. Marrentinha? Isso realmente era sério?
— O nome dela é Sarah, Pavão. Infelizmente, essa estraga prazeres é minha irmã.
— Prazer, Sarah, William, ao seu dispor!
Aquele homem caminhou até mim e estendeu a mão para que eu pudesse apertá-la, e ao fazer isso, ele levou minha mão até seus lábios e depositou um beijo ali.
— Muito bem, Sarah. Em consideração a você e aos vizinhos, vamos fazer um upgrade dessa festa e transferi-la para minha casa. — Ele anunciou, o que causa mais euforia na galera ali presente.
— Obrigada, William, pela sua gentileza! — Agradeci, mesmo que aquilo não tenha saído de meu coração. Afinal, meus pais me ensinaram a ter educação com todos.
Todos começam a sair lentamente, ainda comemorando o upgrade que ganharam. Percebi estar sendo observada enquanto seguia para a cozinha em busca de um copo de água. Precisava respirar fundo e buscar o restinho de paciência que existia no fundo do poço.— Você devia agradecer ao Pavão por permitir que a festa rolasse na casa dele. — Meu irmão disse, seguindo para a geladeira que terminei de fechar.— Se você não percebeu, já fiz isso. Mas se não fosse assim, eu seria a primeira a ligar para a polícia. Diria estar incomodada com a baderna, para que eles viessem até aqui acabar com sua festinha. — Nesse momento, meu irmão soltou uma gargalhada.— Depois de toda merda que eles fizeram, você ainda acredita que eles viriam? Você é muito ingênua, Sarah. Nessa comunidade, quem manda somos nós agora!— E eu não sei quem é pior, vocês ou eles. — Disse, automaticamente.Nesse momento, meu irmão levantou a mão para me bater, o que me fez encolher assustada. Apesar de ele ser mais novo, era homem,
ETHANNão notei quando os médicos saíram. Só me dei conta de que o tempo havia passado quando minha mãe se aproximou de mim e perguntou se desejava alguma coisa.— Sim, mãe! Quero sentir meu corpo novamente. Será que isso será possível?Minha mãe me olhou com tristeza, e sabia que, se fosse possível, ela trocaria de lugar comigo sem pensar duas vezes.Estava com muita raiva contida, e a única parte do meu corpo que eu desejava que não estivesse funcionando nesse momento era a única que não me deixava em paz… minha cabeça.— Vou chamar a enfermeira para mudar você de posição, isso vai ser bom para sua circulação. Se tudo dê certo, em breve estaremos em casa.— Obrigado, mãe! Talvez seja bom mudar de posição, já gravei cada detalhe desse teto. — Respondi com ironia.Minha mãe saiu sem falar mais nada. Após alguns instantes, ela voltou com duas enfermeiras. Nesse momento, senti meus lábios secos e tive vontade de beber água.— Mãe, a senhora pode pegar um pouco de água para mim?— Claro,
SARAHConseguia enxergar no olhar de Nayara todo seu receio. Para ser mais exata… todo seu medo. Como ela mesmo havia falado, William não era o tipo de cara que escutava um “não” e o aceitava. Ele sempre reagia mal quando isso acontecia.— E aí, princesa, conseguiu descansar depois que saímos? — Ele perguntou.— Consegui descansar por duas horas, depois que organizei a bagunça que seu grupo deixou em minha casa. — Respondi sem titubear.— E ainda assim, você veio para a faculdade? Posso deduzir então que ela é muito importante para você.— Não duvide disso. Meus pais batalharam muito para que eu pudesse entrar aqui e vou concluir meu curso em honra à memória deles.Nayara estava em completo silêncio. Não conseguia entender por que ela tinha tanto medo de William. Ela não fez nada de errado.— Vim te buscar para almoçar hoje comigo. — Ele simplesmente disse, não perguntou.— Preciso ir para casa, William. Tenho uma cliente agendada e não posso me dar ao luxo de não a atender.— Calma,
Me levantei, sentindo meu corpo inteiro querendo se rebelar contra aquele pedido. Não sabia o que ele poderia querer comigo e dei graças a Deus que ele me pediu para acompanhá-lo até um escritório e não para um quarto.— Sarah, precisamos conversar sobre a gente. — William disse direto e claro quando entramos em seu escritório, mas aquela frase parecia confusa para mim.— Sobre a gente? O que tem a gente, William? — Perguntei, me fazendo de desentendida.— Estou interessado em você e quero que você venha morar aqui comigo. Falei com seu irmão e ele disse que, por ele, tudo bem ficarmos juntos.— Você ficou louco? Morar com você? Quem você pensa que sou? Não é meu irmão que decide por mim e muito menos você, seu idiota. — Disse, perdendo o controle.— Do que você me chamou? Te trago aqui com todo respeito do mundo, dizendo que quero que você seja minha fiel e é assim que você se comporta? Quem você pensa que é?William retirou a arma das costas dele e, por um instante, imaginei que ap
Como permaneci imóvel, ele se afastou um pouco e colocou as duas mãos espalmadas ao meu lado. Nesse momento, fiz a única coisa que me restava, virei-me e fiquei de frente para ele, nos olhando.Se meu olhar pudesse matá-lo, ele estaria em um caixão, mas ele não entendeu isso. Ele simplesmente levou sua boca à minha e me beijou de forma avassaladora. Sabia que precisava fazer meus planos darem certo, mas nunca me imaginei ficando presa em uma situação daquela.As mãos dele seguraram minha cintura com certa firmeza e lentamente ele foi subindo-as até meus seios, apertando-os ainda por cima do vestido. Não sabia como fazer meu corpo não reagir de maneira involuntária àqueles estímulos.Por mais medo que eu estivesse naquele momento, meu corpo e minha mente estavam em sintonias erradas. E a forma como William estava me tocando começou a causar certas reações em meu corpo, principalmente na região entre minhas pernas.Sem eu perceber, um suspiro saiu de minha boca, causando um risinho daqu
A semana na faculdade havia acabado, agora eu era uma fisioterapeuta profissional. William estava tão ocupado resolvendo os problemas daquela invasão que muito raramente o encontrava.Boa parte das minhas roupas já estava na casa da Bruna, uma amiga. Nossas passagens também já estavam compradas. Precisava esperar só mais uma semana e estaria livre do William.Numa certa noite, durante aquela espera, após chegar do trabalho, fui surpreendida com pancadas na porta. Me assustei por conta do horário. Mas, escutei a voz do William, dizendo que se eu não abrisse, ele arrombaria.Aquilo me assustou, porque me perguntei o que estava acontecendo, apesar de nem sempre saber como explicar a volatilidade daquele homem. Assim que abri a porta, fui surpreendida por um William muito transtornado.— Você deve mesmo achar que sou um idiota, né, sua puta? — Ele perguntou, encarando-me com muita raiva.— Como é? Você está louco? O que aconteceu? — Perguntei revoltada pelo termo que usou comigo, mas tent
Minutos depois, William chegou de moto. Nayara pediu para eu ter calma e levar William a banho-maria só mais um pouco. Estávamos, enfim, deixando a comunidade e precisávamos que ele autorizasse nossa saída. Encarei ele descendo da moto e ele me analisou dos pés à cabeça.— Para onde você está indo, marrenta?— Estamos indo para uma festa na casa de nossa amiga da faculdade, William. Provavelmente voltaremos durante a madrugada.— Quem estará nessa festa? — Ele perguntou desconfiado, olhando para Nayara, que permaneceu no interior do veículo.— Quem provavelmente ela convidou, ué! — Precisava continuar a agir como sempre agira com ele.— Se eu souber que você andou se pegando com alguém, sabe o que acontece, né? — Ele ameaçou.— William, aceitei ser sua fiel, e não sou o tipo de mulher que sai de mão em mão. Imaginei que eu provara isso a você também! — Olhei para ele, deixando claro que não havia esquecido o que ele fez.— Você está certa, minha marrentinha. Não precisa ficar me lembr
ETHANJá fazia um mês que estava em minha casa. Um mês também que vinha fazendo exercícios e mais exercícios, e o máximo que consegui foi um pequeno movimento dos dedos de uma das mãos.Cada dia eu estava me sentindo mais revoltado com tudo e com todos. A forma como os funcionários olhavam quando precisavam entrar no quarto e até a forma positiva como minha mãe encarava os acontecimentos, me tirava a paciência.Muitas vezes eles até evitavam entrar aqui para não ter que escutar meus gritos. Chegou em uma situação em que muitas vezes passava horas sozinho. E, sinceramente, eu preferia assim, não gostava de perceber o olhar de pena deles. Tinha certeza do que pensavam de mim… o coitado do aleijado.Era muito humilhante para mim ter que depender de alguém até para limpar minha bunda. Se eu tivesse uma oportunidade, eu mesmo tirava minha vida para não ter que viver dessa forma.Lembrei que uma vez até comentei com Victória sobre isso depois que assistimos ao filme — Como eu era antes de v