CAPÍTULO 03

SARAH

Meus pais sempre foram pessoas admiráveis. Apesar de sermos pobres, eles sempre fizeram questão de nos incentivar a estudar, porque para eles, isso era algo que jamais ninguém poderia nos tirar.

Meu pai costumava dizer que — A lâmina de uma gilete é afiada, mas não corta uma árvore com tanta eficiência. E minha mãe completava a frase dele dizendo — O machado é forte, mas não corta os cabelos com tanta delicadeza. Eles sempre repetiam isso para mim e para meu irmão Caio.

Eles nos diziam que todo mundo é importante de acordo com seus próprios propósitos. E que jamais deveríamos olhar para alguém com desprezo ou de cabeça baixa, exceto se fosse para admirar seus sapatos.

Eu tinha o maior orgulho dos meus pais, eles poderiam não ter completado seus estudos, mas tinham uma grande sabedoria. Meu pai, mal conseguia assinar seu nome, mas levantava uma casa da planta em poucos dias e sem erros.

Minha mãe, era um pouco mais estudada, porém, não conseguiu concluir seus estudos porque engravidou de mim ainda muito nova, e só lhe restou trabalhar, porque foi colocada para fora de casa pelos meus avós, assim se tornou uma excelente cabeleireira e tinha seu próprio pequeno salão.

Eles sempre fizeram questão de pagar pelos nossos estudos, e não nos permitiam faltar um único dia de aula se não fosse pelo fato de doença. Lembro-me que uma vez cheguei em casa comentando um texto que a professora leu em sala de aula de Mario Quintana que dizia — “Os livros não mudam o Mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”. Depois desse dia meu pai passou a ser um grande admirador desse poeta.

Quando concluir meu ensino médio, meus pais fizeram questão que eu cursasse uma faculdade, eu seria a primeira da família a ter curso superior e isso os enchia de orgulho.

Eles até permitiram que eu trabalhasse com minha mãe, desde que o valor fosse para ajudar a pagar minha faculdade de fisioterapia, que sempre deixei claro que tinha interesse em fazer.

Desde o dia em que vi um médico fisioterapeuta ajudar o filho de um conhecido nosso a voltar a andar, achei um verdadeiro milagre e disse na época disse que um dia também seria uma médica que faria milagres.

Certo dia, enquanto estava na faculdade, recebi uma ligação do meu irmão pedindo para eu voltar para casa, pois a comunidade em que morávamos estava sendo invadida pela polícia em uma ação à criminalidade.

Até tentei ir para casa, mas fui impedida na entrada da comunidade por conta da enorme troca de tiros que estava acontecendo. Resultado desse confronto… meus pais mortos por balas perdidas e meu irmão revoltado com a polícia.

Aquele dia havia sido o pior da minha vida. Não é fácil você perder um pai ou uma mãe de forma trágica, imagina perder ambos ao mesmo tempo. Perdemos a base de nossa família e consequentemente meu irmão perdeu o rumo de sua vida.

Houve um grande protesto em nossa comunidade, cobrando justiça por aquelas mortes. Não foram só meus pais que foram assassinados naquele dia, existiram mais outras quatro pessoas mortas ou por engano, ou por bala perdida.

Nenhum traficante e nenhum policial teve o mesmo fim. A pressão na mídia foi tão grande pelos erros cometidos naquela operação, que começaram a procurar culpados.

Com isso começou a chegar ameaças as famílias das vítimas mortas naquele dia, o que revoltou ainda mais meu irmão, que apesar de todo meu conselho, se juntou as pessoas erradas para proteger a comunidade, segundo eles.

Eu pensei que após a morte dos meus pais, minha vida já estava muito ruim, mas após as escolhas erradas do meu irmão, tudo ficou ainda pior.

Quando chegava da faculdade encontrava dentro de nossa casa vários homens que nem conhecia e que muitas vezes me causavam medos. Continue com o salão da minha mãe nos momentos em que não estava estudando, e dessa forma evitava passar muito tempo em casa.

Me mantive a margem de tudo, como meus pais nos ensinaram. Cada um é responsável pelos seus atos, nunca deixei de aconselhar ou tentar orientar meu irmão, mas ele já tinha uma opinião formada de tudo aquilo e eu não tinha mais o poder de mudá-lo. Ele ficou fascinado pelas facilidades e entrou de cabeça em tudo.

Certo dia, quando cheguei em casa, encontrei uma festa rolando. Em todo local para onde olhava existiam pessoas que eu não conhecia. Encontrei meu irmão sentado no sofá conversando com um cara todo cheio de tatuagem e que ele se esforçava para impressionar.

No colo desse cara existia uma mulher com uma roupa que mais parecia pedaços de pano, porque não cobria quase nada de seu corpo. Eu estava exausta do meu dia trabalhado, e sonhava com minha cama na volta para minha casa.

No entanto, fui surpreendida pelo funk alto que estava tocando, por pessoas amontoadas em tudo que era lugar. Mal dava para enxergar com a quantidade de fumaça naquele local, a raiva me consumiu e dirigir todo aquele sentimento a uma única pessoa responsável por ele… meu irmão.

Fui até o Caio cega de tanta raiva. Nunca havíamos brigado por nada, mas sabia que aquela seria nossa primeira vez e não seria bonito. Antes de chegar até ele, fui até o som que estava no caminho e simplesmente puxei o fio da tomada. Aquilo chamou a atenção de todos para mim, a única estranha no ambiente.

— Caio, precisamos conversar! — Gritei para meu irmão.

— Você está louca, Sarah! — Ele gritou de volta. — Liga a porra do som agora!

— A casa não é somente sua, Caio. Estou cansada e querendo descansar. Se você passar o dia todo fazendo sabe-se lá o quer, eu passei o dia todo estudando e trabalhando. Tenho o total direito ao descanso, você não acha?

— Você pode ir para casa de qualquer amiguinha metida que você pode ter. Hoje prometi aos manos uma noite de festa. — E todos bateram palma com o discurso do meu irmão, menos o cara tatuado em sua frente.

— Acredito que já aguentei muito de suas palhadas, Caio. Se você quer dar uma festa, isso é um problema seu, mas faça em um local diferente de nossa casa.

— A casa também é minha e faço o que bem-quiser. — Ele disse, levantando-se.

— Nossos pais sempre foram pessoas honrosas, Caio. Sempre respeitaram todos os vizinhos e tinham o respeito de todos. Você realmente acredita que eles não estão se sentindo incomodados com esse som?

— Fodam-se todos eles. Quem você pensa que é para me dar lição de moral, sua vadia? — Ele disse, completamente irritado como nunca o vira antes.

— Calma, garoto, não precisa ofender a dama. Acredito que ela esteja somente cansada, como ela mesma falou. E, por um lado, ela está com a razão. Você precisa aprender que não pode se indispor com a comunidade, você precisa dela para se proteger. Como se chama, marrentinha? — Aquele homem tatuado perguntou.

Apenas olhei para ele, que saiu em minha defesa, mas permaneci em silêncio. Marrentinha? Isso realmente era sério?

— O nome dela é Sarah, Pavão. Infelizmente, essa estraga prazeres é minha irmã.

— Prazer, Sarah, William, ao seu dispor!

Aquele homem caminhou até mim e estendeu a mão para que eu pudesse apertá-la, e ao fazer isso, ele levou minha mão até seus lábios e depositou um beijo ali.

— Muito bem, Sarah. Em consideração a você e aos vizinhos, vamos fazer um upgrade dessa festa e transferi-la para minha casa. — Ele anunciou, o que causa mais euforia na galera ali presente.

— Obrigada, William, pela sua gentileza! — Agradeci, mesmo que aquilo não tenha saído de meu coração. Afinal, meus pais me ensinaram a ter educação com todos.

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