Todos começam a sair lentamente, ainda comemorando o upgrade que ganharam. Percebi estar sendo observada enquanto seguia para a cozinha em busca de um copo de água. Precisava respirar fundo e buscar o restinho de paciência que existia no fundo do poço.
— Você devia agradecer ao Pavão por permitir que a festa rolasse na casa dele. — Meu irmão disse, seguindo para a geladeira que terminei de fechar.
— Se você não percebeu, já fiz isso. Mas se não fosse assim, eu seria a primeira a ligar para a polícia. Diria estar incomodada com a baderna, para que eles viessem até aqui acabar com sua festinha. — Nesse momento, meu irmão soltou uma gargalhada.
— Depois de toda merda que eles fizeram, você ainda acredita que eles viriam? Você é muito ingênua, Sarah. Nessa comunidade, quem manda somos nós agora!
— E eu não sei quem é pior, vocês ou eles. — Disse, automaticamente.
Nesse momento, meu irmão levantou a mão para me bater, o que me fez encolher assustada. Apesar de ele ser mais novo, era homem, e sua força nem se comparava à minha.
— Se você encostar um dedo nela, você não verá o dia amanhecer. — William se dirigiu ao meu irmão de forma muito tranquila, como se ele não tivesse ameaçando tirar a vida de uma pessoa.
— Ela está nos desrespeitando, Pavão. Essa vadia está cuspindo no prato que ela come.
— Eu não como nada de vocês, querido irmão. Tudo que eu tenho ou que eu preciso é graças ao dinheiro suado que ganho. — Tive coragem de dizer.
— Cale a boca, Sarah, antes que eu perca a minha paciência com você! — Meu irmão gritou.
— Caio, a partir de agora você vai morar em minha casa. — Aquele homem disse, mas seus olhos ainda estavam em mim. — Tem espaço suficiente para você lá e tenho certeza de que você terá mais conforto que aqui. Pegue o que você precisa e o demais, peço para alguém buscar aqui depois. — O tal William completou, olhando para meu irmão agora.
— Obrigado, Pavão! Não sei se conseguiria ficar ao lado dessa ingrata. — Meu irmão disse, preparando-se para sair.
— Deixe-me só te dar mais um aviso, Caio. — O William disse, mas se virou para mim e me analisou, depois voltou a olhar para meu irmão. — Se você encostar um único dedo na Sarah, eu quebro todos os ossos dos seus braços.
Isso pegou meu irmão desprevenido e me assustou também. Mas resolvi não dizer nada. Aquele homem voltou a me olhar enquanto estava bebendo água. Fiz de conta que não percebi seu olhar e tentei disfarçar meu nervosismo.
— A partir de hoje, você terá a casa somente para você. O que houve hoje não voltará a se repetir. Qualquer coisa que você precisar, você pode falar para os guris que o recado chegará até mim. Você é uma garota linda e merece viver como uma rainha. — Willian declarou.
— Não estou pedindo sua proteção, William. Nunca precisei disso e tenho certeza de que não vou precisar. Hoje, mais do que nunca, ficou claro que não posso mais contar com meu irmão, mas meus pais me ensinaram bem a ser uma mulher mais que suficiente para mim mesma.
— Você é marrenta garota, mas gosto disso em você. Não abaixa a cabeça para ninguém.
— Meus pais sempre me ensinaram que, se eu tivesse que fazer isso, fosse para admirar os sapatos da outra pessoa, e me desculpe, o seu não é muito admirável. — William soltou uma gargalhada estrondosa.
— Tenho que confessar, garota, você é atrevida, porém, admirável. Saberei se você precisar de algo, não será preciso você falar e nem pedir. Você conseguiu minha atenção e são poucos os que conseguem isso. Te ofereceria uma carona para a faculdade amanhã, mas tenho certeza de que você não aceitará.
— Você é um cara inteligente, William! — Falei de forma debochada.
— Sem problema, mas saiba que estarei à disposição quando você precisar. Quanto ao Caio, ele é um garoto esperto, ele só é imaturo às vezes. Precisa trabalhar mais sua paciência e descobrir que não pode jogar sozinho.
— Espero que ele saiba onde está se metendo. O que ele precisa aprender é que erros e acertos são consequências de escolhas. E dependendo dos erros, as consequências são irreversíveis.
— Bem profundo isso! Mas seu irmão sabe o que é melhor para ele. Agora ele está comigo e protegemos os nossos.
E assim ele saiu de minha casa. Me deixando ali sozinha com meus pensamentos. Sei que todas as escolhas do Caio foram devido à perda de nossos pais, mas eu também perdi meus pais naquele dia e nem por isso comecei a andar com marginais e traficantes.
Olhei para a casa completamente revirada e sabia que teria uma longa noite pela frente. Comecei a fazer a limpeza. Quando, enfim, terminei, olhei para o relógio e eu tinha somente duas horas para descansar. Nesse momento, deu vontade de matar o Caio afogado na privada.
Assim que saí para a faculdade, me senti observada, e aquilo começou a me deixar em pânico. Olhei para todos os lados, mas não via nada, mas aquela incomoda sensação continuava.
Isso só teve um fim, quando cheguei à faculdade. Fiquei me perguntando se aquilo era pegadinha da minha cabeça depois do que William me falou.
A Nayara, minha irmã do coração, estava me aguardando na entrada do meu prédio e, ao notar minha cara, sabia que algo não estava bem.
— O que foi, florzinha? O que tanto você procura com o olhar?
— Não sei, amiga, estou com a sensação de estar sendo observada desde o momento que saí de casa. Isso está me causando pânico. Não sei se é coisa da minha cabeça, mas a sensação é horrível.
— Calma, Sarah. Observei você chegando, mas não vi ninguém te seguindo. Vamos entrar, isso pode ser somente nervosismo, sua vida anda bastante agitada, você tem corrido muito nesse último período.
— Depois do que me aconteceu, não tem como ser diferente, eu não conseguiria concluir a faculdade e ainda mais agora que o Caio está envolvido com os negócios do William.
— Mentira… seu irmão entrou nessa roubada? — Ela me olhou assustada.
— Não só entrou, como ontem ele quase me agrediu, após nossa primeira discussão. Ele só não fez isso, porque o William o ameaçou.
— É o quer? — Nayara perguntou, sem acreditar.
— Pois é… O tal do William disse que, se ele encostasse um dedo em mim, quebraria todos os ossos dos braços dele. Nunca fiquei tão decepcionada com o Caio quanto estou agora. Ele matou o pouco do respeito que eu ainda tinha por ele.
— Por que o William te defendeu?
— Eu não sei, mas não foi só isso… ele disse que a casa agora era minha e que qualquer coisa que eu precisasse falasse com seus “guris” que ele receberia o recado. Disse ainda que eu merecia viver como rainha. Porém, deixei claro para ele que não precisava da proteção dele para nada.
— Sarah, quero estar errada, mas pelo que já ouvi falar do William naquela comunidade, só posso deduzir que ele está interessado em você. Toma cuidado, amiga, esses tipos de caras não aceitam não como resposta.
Olhei para minha amiga, sem saber o que falar. Lembrei-me da sensação que tive do momento que sair de casa até chegar aqui. Será que tudo isso estava ligado? Ele disse que saberia se eu precisasse de algo, mesmo eu não falando. Eu estava sendo monitorada a distância? Isso era loucura demais.
As aulas transcorreram normalmente e assim que saímos da faculdade, nos deparamos com o carro do William do lado de fora. William tinha um sorrisinho no rosto.
Ele chamava a atenção por sua aparência. Alto, forte, com todos os músculos no lugar certo, olhos castanhos claros, quase mel, barba muito bem aparada… lindo. Poderia dizer que, se não fosse quem ele era, eu poderia até me apaixonar se somente beleza importasse para mim.
ETHANNão notei quando os médicos saíram. Só me dei conta de que o tempo havia passado quando minha mãe se aproximou de mim e perguntou se desejava alguma coisa.— Sim, mãe! Quero sentir meu corpo novamente. Será que isso será possível?Minha mãe me olhou com tristeza, e sabia que, se fosse possível, ela trocaria de lugar comigo sem pensar duas vezes.Estava com muita raiva contida, e a única parte do meu corpo que eu desejava que não estivesse funcionando nesse momento era a única que não me deixava em paz… minha cabeça.— Vou chamar a enfermeira para mudar você de posição, isso vai ser bom para sua circulação. Se tudo dê certo, em breve estaremos em casa.— Obrigado, mãe! Talvez seja bom mudar de posição, já gravei cada detalhe desse teto. — Respondi com ironia.Minha mãe saiu sem falar mais nada. Após alguns instantes, ela voltou com duas enfermeiras. Nesse momento, senti meus lábios secos e tive vontade de beber água.— Mãe, a senhora pode pegar um pouco de água para mim?— Claro,
SARAHConseguia enxergar no olhar de Nayara todo seu receio. Para ser mais exata… todo seu medo. Como ela mesmo havia falado, William não era o tipo de cara que escutava um “não” e o aceitava. Ele sempre reagia mal quando isso acontecia.— E aí, princesa, conseguiu descansar depois que saímos? — Ele perguntou.— Consegui descansar por duas horas, depois que organizei a bagunça que seu grupo deixou em minha casa. — Respondi sem titubear.— E ainda assim, você veio para a faculdade? Posso deduzir então que ela é muito importante para você.— Não duvide disso. Meus pais batalharam muito para que eu pudesse entrar aqui e vou concluir meu curso em honra à memória deles.Nayara estava em completo silêncio. Não conseguia entender por que ela tinha tanto medo de William. Ela não fez nada de errado.— Vim te buscar para almoçar hoje comigo. — Ele simplesmente disse, não perguntou.— Preciso ir para casa, William. Tenho uma cliente agendada e não posso me dar ao luxo de não a atender.— Calma,
Me levantei, sentindo meu corpo inteiro querendo se rebelar contra aquele pedido. Não sabia o que ele poderia querer comigo e dei graças a Deus que ele me pediu para acompanhá-lo até um escritório e não para um quarto.— Sarah, precisamos conversar sobre a gente. — William disse direto e claro quando entramos em seu escritório, mas aquela frase parecia confusa para mim.— Sobre a gente? O que tem a gente, William? — Perguntei, me fazendo de desentendida.— Estou interessado em você e quero que você venha morar aqui comigo. Falei com seu irmão e ele disse que, por ele, tudo bem ficarmos juntos.— Você ficou louco? Morar com você? Quem você pensa que sou? Não é meu irmão que decide por mim e muito menos você, seu idiota. — Disse, perdendo o controle.— Do que você me chamou? Te trago aqui com todo respeito do mundo, dizendo que quero que você seja minha fiel e é assim que você se comporta? Quem você pensa que é?William retirou a arma das costas dele e, por um instante, imaginei que ap
Como permaneci imóvel, ele se afastou um pouco e colocou as duas mãos espalmadas ao meu lado. Nesse momento, fiz a única coisa que me restava, virei-me e fiquei de frente para ele, nos olhando.Se meu olhar pudesse matá-lo, ele estaria em um caixão, mas ele não entendeu isso. Ele simplesmente levou sua boca à minha e me beijou de forma avassaladora. Sabia que precisava fazer meus planos darem certo, mas nunca me imaginei ficando presa em uma situação daquela.As mãos dele seguraram minha cintura com certa firmeza e lentamente ele foi subindo-as até meus seios, apertando-os ainda por cima do vestido. Não sabia como fazer meu corpo não reagir de maneira involuntária àqueles estímulos.Por mais medo que eu estivesse naquele momento, meu corpo e minha mente estavam em sintonias erradas. E a forma como William estava me tocando começou a causar certas reações em meu corpo, principalmente na região entre minhas pernas.Sem eu perceber, um suspiro saiu de minha boca, causando um risinho daqu
A semana na faculdade havia acabado, agora eu era uma fisioterapeuta profissional. William estava tão ocupado resolvendo os problemas daquela invasão que muito raramente o encontrava.Boa parte das minhas roupas já estava na casa da Bruna, uma amiga. Nossas passagens também já estavam compradas. Precisava esperar só mais uma semana e estaria livre do William.Numa certa noite, durante aquela espera, após chegar do trabalho, fui surpreendida com pancadas na porta. Me assustei por conta do horário. Mas, escutei a voz do William, dizendo que se eu não abrisse, ele arrombaria.Aquilo me assustou, porque me perguntei o que estava acontecendo, apesar de nem sempre saber como explicar a volatilidade daquele homem. Assim que abri a porta, fui surpreendida por um William muito transtornado.— Você deve mesmo achar que sou um idiota, né, sua puta? — Ele perguntou, encarando-me com muita raiva.— Como é? Você está louco? O que aconteceu? — Perguntei revoltada pelo termo que usou comigo, mas tent
Minutos depois, William chegou de moto. Nayara pediu para eu ter calma e levar William a banho-maria só mais um pouco. Estávamos, enfim, deixando a comunidade e precisávamos que ele autorizasse nossa saída. Encarei ele descendo da moto e ele me analisou dos pés à cabeça.— Para onde você está indo, marrenta?— Estamos indo para uma festa na casa de nossa amiga da faculdade, William. Provavelmente voltaremos durante a madrugada.— Quem estará nessa festa? — Ele perguntou desconfiado, olhando para Nayara, que permaneceu no interior do veículo.— Quem provavelmente ela convidou, ué! — Precisava continuar a agir como sempre agira com ele.— Se eu souber que você andou se pegando com alguém, sabe o que acontece, né? — Ele ameaçou.— William, aceitei ser sua fiel, e não sou o tipo de mulher que sai de mão em mão. Imaginei que eu provara isso a você também! — Olhei para ele, deixando claro que não havia esquecido o que ele fez.— Você está certa, minha marrentinha. Não precisa ficar me lembr
ETHANJá fazia um mês que estava em minha casa. Um mês também que vinha fazendo exercícios e mais exercícios, e o máximo que consegui foi um pequeno movimento dos dedos de uma das mãos.Cada dia eu estava me sentindo mais revoltado com tudo e com todos. A forma como os funcionários olhavam quando precisavam entrar no quarto e até a forma positiva como minha mãe encarava os acontecimentos, me tirava a paciência.Muitas vezes eles até evitavam entrar aqui para não ter que escutar meus gritos. Chegou em uma situação em que muitas vezes passava horas sozinho. E, sinceramente, eu preferia assim, não gostava de perceber o olhar de pena deles. Tinha certeza do que pensavam de mim… o coitado do aleijado.Era muito humilhante para mim ter que depender de alguém até para limpar minha bunda. Se eu tivesse uma oportunidade, eu mesmo tirava minha vida para não ter que viver dessa forma.Lembrei que uma vez até comentei com Victória sobre isso depois que assistimos ao filme — Como eu era antes de v
SARAHO tempo tem passado rápido demais. Comentavam que o povo americano era frio em relação às interações humanas, mas morávamos em um edifício que em sua totalidade eram estrangeiros, e tínhamos alguns vizinhos muito calorosos.Guadalupe era uma delas. Uma senhora mexicana que trabalhava como cozinheira numa mansão em um bairro rico aqui na Califórnia. Um amor de pessoa.Por esses dias, ela me disse que sua patroa estava muito triste com a situação do filho que sofreu um acidente e que havia perdido os movimentos do pescoço para baixo. Ela perguntou se eu poderia ajudá-lo, mas não podia afirmar nada sem antes verificar seus exames.Deduzi que o rapaz deveria ter sofrido alguma lesão na medula, e expliquei exatamente isso para ela… que precisava verificar as extensões das lesões que ele sofreu e analisar os exames feitos, para só assim poder dizer se poderia ou não ajudar.Na semana seguinte, a patroa dela mandou o motorista nos buscar no edifício em que morávamos para que eu pudesse