ETHAN
Não notei quando os médicos saíram. Só me dei conta de que o tempo havia passado quando minha mãe se aproximou de mim e perguntou se desejava alguma coisa.
— Sim, mãe! Quero sentir meu corpo novamente. Será que isso será possível?
Minha mãe me olhou com tristeza, e sabia que, se fosse possível, ela trocaria de lugar comigo sem pensar duas vezes.
Estava com muita raiva contida, e a única parte do meu corpo que eu desejava que não estivesse funcionando nesse momento era a única que não me deixava em paz… minha cabeça.
— Vou chamar a enfermeira para mudar você de posição, isso vai ser bom para sua circulação. Se tudo dê certo, em breve estaremos em casa.
— Obrigado, mãe! Talvez seja bom mudar de posição, já gravei cada detalhe desse teto. — Respondi com ironia.
Minha mãe saiu sem falar mais nada. Após alguns instantes, ela voltou com duas enfermeiras. Nesse momento, senti meus lábios secos e tive vontade de beber água.
— Mãe, a senhora pode pegar um pouco de água para mim?
— Claro, meu amor!
Quando ela voltou com um copo e um canudo, foi que me dei conta de que até algo simples, como beber água, não poderia mais fazer sozinho. Minha vontade era jogar esse copo longe, mas também não tinha esse poder. Olhei para minha mãe e ela pareceu ler meus pensamentos.
— Não adianta você ficar assim, meu filho. Isso não ajudará você a nada. Estou aqui para o que você precisar e não vou sair de seu lado. Tudo isso pode ser temporário, como a própria médica falou. Você somente terá que ter paciência e muita força de vontade.
— Eu sei, mãe, me desculpe. É revoltante, não se quer, poder beber água sozinho. Sei que a senhora não tem culpa do que me aconteceu e agradeço por estar aqui comigo. Falando nisso, você tem notícias do Caleb e da Victória? Eles não vieram me visitar?
Minha mãe olhou para mim, como se não soubesse o que falar. Seus olhos encheram-se de lágrimas e as vi escorrer. Nesse momento, comecei a me preocupar.
Lembrava da Victória passando mal no banco traseiro, mas o que houve para minha mãe estar nesse estado? Será que o que ela teve foi grave? Encarei minha mãe, e ela por diversas vezes abriu e fechou a boca como se não soubesse o que dizer.
— Mãe, só diga se eles estão bem, por favor!
— Eles não resistiram ao acidente, meu filho. Você foi o único que sobreviveu dentro daquele carro.
— Não, mãe, isso não pode ser verdade. Por favor, diga que é brincadeira. Eu não posso ter matado eles, por favor, mãe.
Nesse momento, senti um peso enorme no meu coração e não me dei conta de que estava gritando até escutar um enfermeiro solicitando a presença do médico. Escutei ao longe minha mãe chamando meu nome, enquanto a enfermeira tentava tranquilizá-la.
Os bips dos aparelhos que antes estavam me incomodando começaram a ficar distantes, e eu me deixei levar por aquela escuridão. Dessa forma, pelo menos, eu não sentia nada.
Quando despertei, estava um pouco desorientado. Não sabia exatamente onde estava, até virar a cabeça e observar minha mãe dormindo naquele sofá totalmente desconfortável.
E lembrei de tudo que aconteceu. Do pesadelo que, nesse momento, encontrava-se minha vida, perguntei-me porque Deus também não me levou. Por que tive que ser o único a ficar preso aqui nessa cama, sem poder mover meu corpo? O que foi que fiz para que Deus me tirasse tudo que eu mais amava? Que Deus cruel é esse?
Nesse momento, a única coisa que eu desejava era que Ele fosse benevolente e me levasse também. Minhas lágrimas escorreram pelo meu rosto e provavelmente fiz algum tipo de barulho.
Minha mãe havia despertado e dirigiu-se até a cama, com seus olhos avermelhados, enxugou meu rosto e saiu em disparada pela porta. Quando retornou, uma enfermeira e uma médica a acompanhavam.
— Olá, Sr. Ethan, sou a Dra. Suzane, como o senhor se sente?
— Um verdadeiro lixo, se assim eu posso classificar meu estado. Eu só queria ter morrido naquele acidente, seria pedir muito? — Perguntei, revoltado com a situação.
— Eu entendo seus sentimentos, Sr. Ethan. Isso pode ser revoltante, mas isso só dificulta sua recuperação. Sem mencionar que o senhor está sendo cruel com sua mãe. Nenhuma mãe deseja perder o filho.
— Do que adianta eu ficar aqui e só dar trabalho a ela? Tenho certeza de que ela estaria melhor sem mim.
— De forma nenhuma, meu amor! Você é minha vida, Ethan! — Minha mãe respondeu, chorosa.
— Vamos fazer o seguinte… vou autorizar um calmante para o senhor poder descansar mais um pouco. Observo que o senhor ainda continua bem agitado, e vou solicitar um psicólogo para poder lhe acompanhar.
— Por favor, doutora, não quero dormir novamente. Prometo que vou tentar me acalmar. — Disse desesperado. Precisava obter mais informação do que aconteceu.
— O senhor tem certeza, Sr. Ethan? — Ela me analisou, enquanto eu apenas afirmei. — Tudo bem, se não perceber melhoras no seu quadro, vou autorizar a enfermeira a aplicar-lhe um calmante.
Minha mãe me observou com uma tristeza no olhar. Nunca a havia visto assim, mesmo nas épocas difíceis, ela mantinha um olhar alegre. Hoje não conseguia enxergar isso nela, não sei se pelo que falei ou se pelo meu estado. Ou quem sabe pelos dois juntos, o que acredito ser o provável.
— O que houve, mãe? Eu preciso saber desde o início, por favor! — Ela me olhou em dúvida, mas após alguns segundos começou a relatar.
— Naquele dia da sua vitória, meu sexto sentido falava que algo ruim iria acontecer, eu só não sabia o que era. Quando recebi sua mensagem dizendo ter chegado em segurança, tentei tranquilizar meu coração, mas o sexto sentido de mãe não falha. Era ainda início da madrugada quando recebi a ligação da polícia informando sobre seu acidente.
— Eles relataram como o acidente ocorreu? Só lembro de ter me distraído por um momento porque a Victória não estava muito bem no banco traseiro. Depois não lembro de mais nada.
— Segundo o relatório da polícia, seu carro foi atingido por outro veículo em alta velocidade. Apesar de encontrarem vestígios de algo no seu organismo, o nível era bem baixo, o que isentou você da responsabilidade pelo acidente.
— Isso não muda nada. Não era para eu ter aceitado sair naquele dia. — Disse ainda sentindo a culpa queimar dentro de mim.
— O outro motorista foi o culpado pelo acidente, meu amor. Ele estava com níveis muito elevados de álcool no organismo, e segundo relatos de testemunhas oculares, que presenciaram o acidente, ele avançou o sinal.
Quem seria mais culpado? Ele por avançar o sinal ou por nem ter visto?
— Inclusive algumas dessas testemunhas afirmaram que, pela velocidade, ele nem se deu conta de que ali era um cruzamento. Após seu veículo ser atingido, ele capotou várias vezes. Sua sorte, meu filho, foi o cinto de segurança. Victória e Caleb não usavam, sendo arremessados a vários metros do veículo no momento do impacto.
— E o outro motorista?
— Também morreu no local. Todos ficaram se perguntando como você conseguiu sobreviver, mesmo quando seu veículo ficou totalmente destruído pelo impacto.
Aquela informação me chocou completamente. Qual o propósito para isso, se estava preso em uma cama?
— Você ficou duas semanas em coma, meu amor. Quando me ligaram informando que você havia acordado, eu não acreditei. Deus te deu uma segunda chance, Ethan.
— Que segunda chance é essa, mãe? Me deixando sem movimentos do pescoço para baixo, necessitando de todo mundo para qualquer coisa. — Perguntei, revoltado.
SARAHConseguia enxergar no olhar de Nayara todo seu receio. Para ser mais exata… todo seu medo. Como ela mesmo havia falado, William não era o tipo de cara que escutava um “não” e o aceitava. Ele sempre reagia mal quando isso acontecia.— E aí, princesa, conseguiu descansar depois que saímos? — Ele perguntou.— Consegui descansar por duas horas, depois que organizei a bagunça que seu grupo deixou em minha casa. — Respondi sem titubear.— E ainda assim, você veio para a faculdade? Posso deduzir então que ela é muito importante para você.— Não duvide disso. Meus pais batalharam muito para que eu pudesse entrar aqui e vou concluir meu curso em honra à memória deles.Nayara estava em completo silêncio. Não conseguia entender por que ela tinha tanto medo de William. Ela não fez nada de errado.— Vim te buscar para almoçar hoje comigo. — Ele simplesmente disse, não perguntou.— Preciso ir para casa, William. Tenho uma cliente agendada e não posso me dar ao luxo de não a atender.— Calma,
Me levantei, sentindo meu corpo inteiro querendo se rebelar contra aquele pedido. Não sabia o que ele poderia querer comigo e dei graças a Deus que ele me pediu para acompanhá-lo até um escritório e não para um quarto.— Sarah, precisamos conversar sobre a gente. — William disse direto e claro quando entramos em seu escritório, mas aquela frase parecia confusa para mim.— Sobre a gente? O que tem a gente, William? — Perguntei, me fazendo de desentendida.— Estou interessado em você e quero que você venha morar aqui comigo. Falei com seu irmão e ele disse que, por ele, tudo bem ficarmos juntos.— Você ficou louco? Morar com você? Quem você pensa que sou? Não é meu irmão que decide por mim e muito menos você, seu idiota. — Disse, perdendo o controle.— Do que você me chamou? Te trago aqui com todo respeito do mundo, dizendo que quero que você seja minha fiel e é assim que você se comporta? Quem você pensa que é?William retirou a arma das costas dele e, por um instante, imaginei que ap
Como permaneci imóvel, ele se afastou um pouco e colocou as duas mãos espalmadas ao meu lado. Nesse momento, fiz a única coisa que me restava, virei-me e fiquei de frente para ele, nos olhando.Se meu olhar pudesse matá-lo, ele estaria em um caixão, mas ele não entendeu isso. Ele simplesmente levou sua boca à minha e me beijou de forma avassaladora. Sabia que precisava fazer meus planos darem certo, mas nunca me imaginei ficando presa em uma situação daquela.As mãos dele seguraram minha cintura com certa firmeza e lentamente ele foi subindo-as até meus seios, apertando-os ainda por cima do vestido. Não sabia como fazer meu corpo não reagir de maneira involuntária àqueles estímulos.Por mais medo que eu estivesse naquele momento, meu corpo e minha mente estavam em sintonias erradas. E a forma como William estava me tocando começou a causar certas reações em meu corpo, principalmente na região entre minhas pernas.Sem eu perceber, um suspiro saiu de minha boca, causando um risinho daqu
A semana na faculdade havia acabado, agora eu era uma fisioterapeuta profissional. William estava tão ocupado resolvendo os problemas daquela invasão que muito raramente o encontrava.Boa parte das minhas roupas já estava na casa da Bruna, uma amiga. Nossas passagens também já estavam compradas. Precisava esperar só mais uma semana e estaria livre do William.Numa certa noite, durante aquela espera, após chegar do trabalho, fui surpreendida com pancadas na porta. Me assustei por conta do horário. Mas, escutei a voz do William, dizendo que se eu não abrisse, ele arrombaria.Aquilo me assustou, porque me perguntei o que estava acontecendo, apesar de nem sempre saber como explicar a volatilidade daquele homem. Assim que abri a porta, fui surpreendida por um William muito transtornado.— Você deve mesmo achar que sou um idiota, né, sua puta? — Ele perguntou, encarando-me com muita raiva.— Como é? Você está louco? O que aconteceu? — Perguntei revoltada pelo termo que usou comigo, mas tent
Minutos depois, William chegou de moto. Nayara pediu para eu ter calma e levar William a banho-maria só mais um pouco. Estávamos, enfim, deixando a comunidade e precisávamos que ele autorizasse nossa saída. Encarei ele descendo da moto e ele me analisou dos pés à cabeça.— Para onde você está indo, marrenta?— Estamos indo para uma festa na casa de nossa amiga da faculdade, William. Provavelmente voltaremos durante a madrugada.— Quem estará nessa festa? — Ele perguntou desconfiado, olhando para Nayara, que permaneceu no interior do veículo.— Quem provavelmente ela convidou, ué! — Precisava continuar a agir como sempre agira com ele.— Se eu souber que você andou se pegando com alguém, sabe o que acontece, né? — Ele ameaçou.— William, aceitei ser sua fiel, e não sou o tipo de mulher que sai de mão em mão. Imaginei que eu provara isso a você também! — Olhei para ele, deixando claro que não havia esquecido o que ele fez.— Você está certa, minha marrentinha. Não precisa ficar me lembr
ETHANJá fazia um mês que estava em minha casa. Um mês também que vinha fazendo exercícios e mais exercícios, e o máximo que consegui foi um pequeno movimento dos dedos de uma das mãos.Cada dia eu estava me sentindo mais revoltado com tudo e com todos. A forma como os funcionários olhavam quando precisavam entrar no quarto e até a forma positiva como minha mãe encarava os acontecimentos, me tirava a paciência.Muitas vezes eles até evitavam entrar aqui para não ter que escutar meus gritos. Chegou em uma situação em que muitas vezes passava horas sozinho. E, sinceramente, eu preferia assim, não gostava de perceber o olhar de pena deles. Tinha certeza do que pensavam de mim… o coitado do aleijado.Era muito humilhante para mim ter que depender de alguém até para limpar minha bunda. Se eu tivesse uma oportunidade, eu mesmo tirava minha vida para não ter que viver dessa forma.Lembrei que uma vez até comentei com Victória sobre isso depois que assistimos ao filme — Como eu era antes de v
SARAHO tempo tem passado rápido demais. Comentavam que o povo americano era frio em relação às interações humanas, mas morávamos em um edifício que em sua totalidade eram estrangeiros, e tínhamos alguns vizinhos muito calorosos.Guadalupe era uma delas. Uma senhora mexicana que trabalhava como cozinheira numa mansão em um bairro rico aqui na Califórnia. Um amor de pessoa.Por esses dias, ela me disse que sua patroa estava muito triste com a situação do filho que sofreu um acidente e que havia perdido os movimentos do pescoço para baixo. Ela perguntou se eu poderia ajudá-lo, mas não podia afirmar nada sem antes verificar seus exames.Deduzi que o rapaz deveria ter sofrido alguma lesão na medula, e expliquei exatamente isso para ela… que precisava verificar as extensões das lesões que ele sofreu e analisar os exames feitos, para só assim poder dizer se poderia ou não ajudar.Na semana seguinte, a patroa dela mandou o motorista nos buscar no edifício em que morávamos para que eu pudesse
ETHANApós desligar aquela ligação, minha mãe comemorou. Fiz isso por ela, mas também estava muito curioso em saber o que aquela coisinha irritante poderia fazer para mudar meu quadro.O hospital sempre mandou os melhores especialistas para fazer meu tratamento. O que ela poderia fazer de diferente deles que poderia resultar em algo positivo? Estava com minha língua coçando para dizer a minha mãe que não tivesse tantas esperanças.Estava certo de que aquela coisinha irritante nada poderia fazer para reverter minha situação. Quando minha mãe saiu do meu quarto, deixando-me sozinho mais uma vez, me vi pensando naquela médica.Analisando bem, o que mais me irritou foi que comecei a notar o quanto ela era linda, não queria ter esses pensamentos a respeito dela. Quando a tratei com grosseria, imaginei que ela fosse se retrair, igual à maioria dos profissionais que estiveram aqui, mas me enganei completamente.Ela simplesmente olhou para mim, disse o que eu merecia escutar e simplesmente me