SARAH
Conseguia enxergar no olhar de Nayara todo seu receio. Para ser mais exata… todo seu medo. Como ela mesmo havia falado, William não era o tipo de cara que escutava um “não” e o aceitava. Ele sempre reagia mal quando isso acontecia.
— E aí, princesa, conseguiu descansar depois que saímos? — Ele perguntou.
— Consegui descansar por duas horas, depois que organizei a bagunça que seu grupo deixou em minha casa. — Respondi sem titubear.
— E ainda assim, você veio para a faculdade? Posso deduzir então que ela é muito importante para você.
— Não duvide disso. Meus pais batalharam muito para que eu pudesse entrar aqui e vou concluir meu curso em honra à memória deles.
Nayara estava em completo silêncio. Não conseguia entender por que ela tinha tanto medo de William. Ela não fez nada de errado.
— Vim te buscar para almoçar hoje comigo. — Ele simplesmente disse, não perguntou.
— Preciso ir para casa, William. Tenho uma cliente agendada e não posso me dar ao luxo de não a atender.
— Calma, princesa, prometo que você não vai se arrepender. Qualquer coisa, pago o valor que você ganharia e você reagenda sua cliente.
— Não preciso de seu dinheiro. Além disso, quero ganhar meu dinheiro de forma honesta.
— O que você quer dizer com isso? Meu dinheiro não é honesto para você? — Ele perguntou, visivelmente alterado.
— Não é isso que minha amiga quis dizer, William. A Sarah só não gosta de dever favor a ninguém. Isso acontece até comigo, que sou como irmã para ela.
Nayara se pronunciou para minimizar a situação acalorada que ele protagonizou. Ele a analisou e depois voltou seu olhar para mim. Mas não me sentia intimada por ele, afinal, não estava errada. Sabia como ele conseguia seu dinheiro e não iria compactuar com isso. Então, somente o encarei também.
— Você me encanta cada vez mais com seu jeito, marrentinha!
— Meu nome é Sarah e adoro o nome que meus pais me deram.
— Bem, não vou dar viagem perdida… vocês duas entrem aí no carro e depois deixo vocês em suas casas.
Nayara segurou minha mão e fez um sinal para que eu não resistisse e aceitasse aquela ordem. Ela entrou primeiro e me puxou para o interior do veículo.
Após um tempo, o veículo parou diante de um terreno que mais parecia abandonado, fiquei receosa pela nossa segurança. No entanto, após o portão ser aberto, observamos uma mansão belíssima que nunca imaginei existir ali, em nossa comunidade.
Cresci e me criei na comunidade de Dourados e nunca havia visto ou ouvido falar sobre essa edificação. Imaginei que conhecia tudo ao meu redor e estava completamente enganada. Por fora, esse terreno parecia somente mais um abandonado pelo morador, fugindo da violência.
— Nayara, não fique com medo, vamos ficar bem. Eu prometo! — Tentei tranquilizar minha amiga e, ao mesmo tempo, acreditar em minhas palavras.
— Sarah, eu te falei que ele não aceitava não como resposta. Só não aconteceu nada até agora porque ele está realmente interessado em você. Isso é nítido, estou com medo não por mim, mas para onde isso vai te levar.
— Vou tirar nós duas dessa, fica tranquila.
— As princesas vão descer ou vão continuar de conversinha aí? — Aquele idiota perguntou, impaciente.
Abri a porta, descendo e revirando os olhos para ele. Não iria demonstrar estar com medo. Ele me olhou, tentando esconder um risinho querendo surgir em seus lábios. Comecei a perceber que ele gostava de me provocar e, quanto mais eu retrucava, mais ele me provocava.
No terraço, estavam duas de suas boqueteiras, que nada mais eram do que garotas que satisfaziam os caras sexualmente. Elas nos analisaram da cabeça aos pés, e percebi o olhar de desprezo de ambas para mim e Nayara. No entanto, eu e minha amiga somente as ignoramos.
— Oi, meu rei, sentimos sua falta! — A loira platinada disse.
— Que tal aquela seção de massagem agora? — Disse a morena peituda, toda manhosa.
— Não tenho tempo para isso, Lorena! Vaza que agora estou com visita importante.
Nayara me olhou com aquele olhar que diz — eu te avisei. Nesse momento, senti um frio na espinha e me perguntei como sairia dessa enrascada.
As garotas nos olharam com um olhar assassino e se pudessem, nos matava ali mesmo. Isso também me deixou apreensiva, porque sabia o que esse tipo de mulheres fazia para eliminar a concorrência e isso poderia me causar problemas.
— Estamos aqui te esperando faz tempo, aposto que essas daí nem sabe o que você gosta. — A loira, argumentou, não se dando por vencida.
— Já mandei vazar, e outra, respeite as damas que elas não são do nível de vocês. Da próxima vez que desrespeitar as minas, mando raspar a cabeça das duas. Agora sumam daqui, ou vão querer um incentivo? — Ele não precisou falar uma segunda vez. — Desculpem as vadias aí, elas acham que tem o que preciso.
Ele disse, olhando especificamente para mim, e eu o encarei sem dizer nada. William nos conduziu para o interior da mansão e pude observar o quanto ela era linda e muito bem decorada.
Não acreditava que ele entendesse de decoração, mas com toda certeza aquela sala foi muito bem projetada. Ele pediu para mim e Nayara sentarmos e ficar à vontade. Ele saiu dizendo que avisaria a cozinha para colocar mais um prato na mesa para Nayara. Minha amiga sentou ao meu lado no sofá e aguardou ele sair.
— Eu te disse que ele estar interessado em você!
— O que devo fazer agora, Nayara? Não vou me envolver com ele, essa não foi a vida que escolhi para mim. Não estudei tanto para acabar como mulher de bandido. — Disse, nervosa.
— Vamos ter que sair completamente da comunidade. Ele não vai aceitar ser rejeitado, Sarah, e você sabe o que isso significa para nós. Aqui, a voz dele é lei e ninguém é louco de questionar. Precisamos ganhar tempo e planejar.
— O que você está querendo dizer com isso? Você quer que eu aceite ser mulher de bandido? — Perguntei sem acreditar que ela pudesse estar insinuando aquilo.
— Não, Sarah! Quero dizer que você vai precisar levá-lo a banho-maria até termos um plano para escapar da comunidade. Se você não quer ficar com ele, você vai ter que ir comigo para os EUA.
— Meu Deus, Nayara, vou ter que deixar minha vida inteira para trás?
— É isso ou virar a primeira dama do tráfico. Ou quem sabe até coisa pior… você sabe o que quero dizer.
No momento em que responderia à minha amiga, William entrou na sala e, ao perceber minha cara assustada, perguntou se estava tudo bem. Somente confirmei com um aceno, tentando esconder todo meu pavor.
Ele pediu para acompanhá-lo até a sala seguinte. Nos deparamos com uma sala ainda maior e com uma mesa enorme muito bem arrumada. E antes de nos sentarmos, meu irmão adentrou na sala, surpreendendo-se com nossa presença ali.
— E aí, pavão, vejo que trouxe convidadas ilustres para o almoço. — Caio disse com um sorrisinho no rosto. — Bom te ver, irmã! Como vai, Nayara?
— Estou bem, Caio! Obrigada!
— Vamos se sentar e comer… estou morrendo de fome! — William disse, puxando minha cadeira para que eu pudesse me sentar.
Aquele ato me surpreendeu, não imaginei que ele pudesse ser tão cavalheiro nesse sentido, ou apenas estava tentando me impressionar, mas não cairia nessa. Meu irmão sorriu, negando com a cabeça, como se aquilo fosse uma piada para ele.
Comemos em silêncio e realmente a comida estava ótima. Mas não me iludiria com aquelas atitudes. Normalmente, caras como William simplesmente pegavam o que queriam e a outra parte, mulheres como eu, deveria se sentir orgulhosa por ter a atenção dele.
Eu e Nayara estávamos tensas, loucas para deixar aquela mansão. E quando pensei que tudo tinha acabado e que finalmente iria para minha casa, William disse que precisava falar em particular comigo.
Deu ordem ao meu irmão para levar Nayara para casa e me pediu para acompanhá-lo até o escritório. Somente não sabia se eu conseguiria caminhar até lá, devido à tremedeira que tomou meu corpo e que eu tentava disfarçar.
Me levantei, sentindo meu corpo inteiro querendo se rebelar contra aquele pedido. Não sabia o que ele poderia querer comigo e dei graças a Deus que ele me pediu para acompanhá-lo até um escritório e não para um quarto.— Sarah, precisamos conversar sobre a gente. — William disse direto e claro quando entramos em seu escritório, mas aquela frase parecia confusa para mim.— Sobre a gente? O que tem a gente, William? — Perguntei, me fazendo de desentendida.— Estou interessado em você e quero que você venha morar aqui comigo. Falei com seu irmão e ele disse que, por ele, tudo bem ficarmos juntos.— Você ficou louco? Morar com você? Quem você pensa que sou? Não é meu irmão que decide por mim e muito menos você, seu idiota. — Disse, perdendo o controle.— Do que você me chamou? Te trago aqui com todo respeito do mundo, dizendo que quero que você seja minha fiel e é assim que você se comporta? Quem você pensa que é?William retirou a arma das costas dele e, por um instante, imaginei que ap
Como permaneci imóvel, ele se afastou um pouco e colocou as duas mãos espalmadas ao meu lado. Nesse momento, fiz a única coisa que me restava, virei-me e fiquei de frente para ele, nos olhando.Se meu olhar pudesse matá-lo, ele estaria em um caixão, mas ele não entendeu isso. Ele simplesmente levou sua boca à minha e me beijou de forma avassaladora. Sabia que precisava fazer meus planos darem certo, mas nunca me imaginei ficando presa em uma situação daquela.As mãos dele seguraram minha cintura com certa firmeza e lentamente ele foi subindo-as até meus seios, apertando-os ainda por cima do vestido. Não sabia como fazer meu corpo não reagir de maneira involuntária àqueles estímulos.Por mais medo que eu estivesse naquele momento, meu corpo e minha mente estavam em sintonias erradas. E a forma como William estava me tocando começou a causar certas reações em meu corpo, principalmente na região entre minhas pernas.Sem eu perceber, um suspiro saiu de minha boca, causando um risinho daqu
A semana na faculdade havia acabado, agora eu era uma fisioterapeuta profissional. William estava tão ocupado resolvendo os problemas daquela invasão que muito raramente o encontrava.Boa parte das minhas roupas já estava na casa da Bruna, uma amiga. Nossas passagens também já estavam compradas. Precisava esperar só mais uma semana e estaria livre do William.Numa certa noite, durante aquela espera, após chegar do trabalho, fui surpreendida com pancadas na porta. Me assustei por conta do horário. Mas, escutei a voz do William, dizendo que se eu não abrisse, ele arrombaria.Aquilo me assustou, porque me perguntei o que estava acontecendo, apesar de nem sempre saber como explicar a volatilidade daquele homem. Assim que abri a porta, fui surpreendida por um William muito transtornado.— Você deve mesmo achar que sou um idiota, né, sua puta? — Ele perguntou, encarando-me com muita raiva.— Como é? Você está louco? O que aconteceu? — Perguntei revoltada pelo termo que usou comigo, mas tent
Minutos depois, William chegou de moto. Nayara pediu para eu ter calma e levar William a banho-maria só mais um pouco. Estávamos, enfim, deixando a comunidade e precisávamos que ele autorizasse nossa saída. Encarei ele descendo da moto e ele me analisou dos pés à cabeça.— Para onde você está indo, marrenta?— Estamos indo para uma festa na casa de nossa amiga da faculdade, William. Provavelmente voltaremos durante a madrugada.— Quem estará nessa festa? — Ele perguntou desconfiado, olhando para Nayara, que permaneceu no interior do veículo.— Quem provavelmente ela convidou, ué! — Precisava continuar a agir como sempre agira com ele.— Se eu souber que você andou se pegando com alguém, sabe o que acontece, né? — Ele ameaçou.— William, aceitei ser sua fiel, e não sou o tipo de mulher que sai de mão em mão. Imaginei que eu provara isso a você também! — Olhei para ele, deixando claro que não havia esquecido o que ele fez.— Você está certa, minha marrentinha. Não precisa ficar me lembr
ETHANJá fazia um mês que estava em minha casa. Um mês também que vinha fazendo exercícios e mais exercícios, e o máximo que consegui foi um pequeno movimento dos dedos de uma das mãos.Cada dia eu estava me sentindo mais revoltado com tudo e com todos. A forma como os funcionários olhavam quando precisavam entrar no quarto e até a forma positiva como minha mãe encarava os acontecimentos, me tirava a paciência.Muitas vezes eles até evitavam entrar aqui para não ter que escutar meus gritos. Chegou em uma situação em que muitas vezes passava horas sozinho. E, sinceramente, eu preferia assim, não gostava de perceber o olhar de pena deles. Tinha certeza do que pensavam de mim… o coitado do aleijado.Era muito humilhante para mim ter que depender de alguém até para limpar minha bunda. Se eu tivesse uma oportunidade, eu mesmo tirava minha vida para não ter que viver dessa forma.Lembrei que uma vez até comentei com Victória sobre isso depois que assistimos ao filme — Como eu era antes de v
SARAHO tempo tem passado rápido demais. Comentavam que o povo americano era frio em relação às interações humanas, mas morávamos em um edifício que em sua totalidade eram estrangeiros, e tínhamos alguns vizinhos muito calorosos.Guadalupe era uma delas. Uma senhora mexicana que trabalhava como cozinheira numa mansão em um bairro rico aqui na Califórnia. Um amor de pessoa.Por esses dias, ela me disse que sua patroa estava muito triste com a situação do filho que sofreu um acidente e que havia perdido os movimentos do pescoço para baixo. Ela perguntou se eu poderia ajudá-lo, mas não podia afirmar nada sem antes verificar seus exames.Deduzi que o rapaz deveria ter sofrido alguma lesão na medula, e expliquei exatamente isso para ela… que precisava verificar as extensões das lesões que ele sofreu e analisar os exames feitos, para só assim poder dizer se poderia ou não ajudar.Na semana seguinte, a patroa dela mandou o motorista nos buscar no edifício em que morávamos para que eu pudesse
ETHANApós desligar aquela ligação, minha mãe comemorou. Fiz isso por ela, mas também estava muito curioso em saber o que aquela coisinha irritante poderia fazer para mudar meu quadro.O hospital sempre mandou os melhores especialistas para fazer meu tratamento. O que ela poderia fazer de diferente deles que poderia resultar em algo positivo? Estava com minha língua coçando para dizer a minha mãe que não tivesse tantas esperanças.Estava certo de que aquela coisinha irritante nada poderia fazer para reverter minha situação. Quando minha mãe saiu do meu quarto, deixando-me sozinho mais uma vez, me vi pensando naquela médica.Analisando bem, o que mais me irritou foi que comecei a notar o quanto ela era linda, não queria ter esses pensamentos a respeito dela. Quando a tratei com grosseria, imaginei que ela fosse se retrair, igual à maioria dos profissionais que estiveram aqui, mas me enganei completamente.Ela simplesmente olhou para mim, disse o que eu merecia escutar e simplesmente me
Após fazer uma avaliação por todo o corpo do Ethan e verificar algum ponto de sensibilidade, resolvi começar com os exercícios para seus braços. Aquela era a parte mais fácil do tratamento.Depois de quase uma hora, Ethan começa a reclamar. Pude ter uma ideia do motivo pelo qual ele ainda não havia recuperado os movimentos. Provavelmente o profissional parava quando ele começava a reclamar. Deixei ele na cama, fui até minha bolsa, peguei meus fones de ouvido e retornei até ele.— Como você não para de reclamar, mesmo não sentindo nada, estou colocando meus fones de ouvidos. Dessa forma, evito escutar sua voz irritante.— Você não se atreveria! — Ele disse, irritado.— Assista, então. — Disse, colocando uma música no meu celular e colocando meus fones de ouvidos.Depois disso, notei que ele parou de resmungar. Ele sabia que faria papel de bobo, falando sozinho. Continuei massageando, alongando e conectando os eletrodos do aparelho que trouxe em seu braço e ombro.A eletroestimulação aj